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Papiloscopista da Polícia Federal: Identificação Humana e Ciências Forenses na Prática

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15 páginas

Impressões Digitais Latentes na Criminalística: Localização, Revelação e Levantamento

Capítulo 4

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

Conceito e objetivos operacionais

Impressões digitais latentes são depósitos geralmente invisíveis a olho nu, formados por secreções (suor, lipídios) e contaminantes transferidos pelas cristas papilares ao tocar uma superfície. Na criminalística, o objetivo é localizar, revelar (tornar visível com contraste), registrar (fotografar/documentar) e levantar (transferir ou coletar) o vestígio com o máximo de fidelidade, minimizando contaminação e garantindo rastreabilidade compatível com cadeia de custódia.

O atendimento ao local com foco papiloscópico deve equilibrar: (1) preservação do vestígio, (2) escolha de técnicas adequadas ao tipo/estado da superfície, (3) documentação robusta e (4) acondicionamento seguro para transporte e exames complementares.

Roteiro técnico de atendimento ao local (foco em vestígios papiloscópicos)

1) Preservação e controle de acesso

  • Estabeleça perímetro e controle de entrada/saída com registro de pessoas, horários e funções.
  • Defina rotas de circulação para evitar contato com áreas prováveis de toque (maçanetas, bordas de portas/janelas, superfícies de apoio, objetos manipulados).
  • Evite limpar, mover ou empilhar objetos antes da varredura papiloscópica.
  • Use EPI adequado: luvas (troca frequente), máscara quando houver risco de aerossóis/poeira, touca e propés conforme necessidade do local.
  • Implemente “zona limpa” para preparo de materiais e “zona de exame” para manipulação de evidências.

2) Varredura sistemática (busca orientada por probabilidade de toque)

Priorize superfícies com maior chance de contato e melhor preservação: pontos de entrada/saída, objetos de valor, superfícies lisas, áreas protegidas de intempéries e objetos recentemente manipulados.

  • Defina método de varredura: por setores (cômodo a cômodo), por quadrantes, ou por trajetória provável do autor.
  • Comece por áreas menos contaminadas e avance para áreas mais críticas (evita transferência de resíduos).
  • Evite tocar diretamente em superfícies-alvo; use pinças/apoios limpos quando necessário.
  • Faça inspeção inicial com luz branca em ângulos rasantes (luz oblíqua) para localizar marcas por brilho/relief.
  • Quando disponível, utilize fontes de luz alternativas (ALS) para triagem sem contato, antes de aplicar pós/reagentes.

3) Critérios de decisão: técnica x superfície x condição

A escolha da técnica depende de: porosidade, textura, cor, presença de umidade, sujeira/contaminação, temperatura, tempo decorrido e risco de danificar o substrato.

  • Superfície não porosa (vidro, metal, plástico, esmalte, fita adesiva): tende a responder bem a pós e/ou cianoacrilato; ALS pode auxiliar na visualização.
  • Superfície porosa (papel, papelão, madeira crua, tecido): preferir reagentes que reagem com componentes do suor (ex.: aminoácidos), evitando pó que pode “empastar” e manchar.
  • Semiporosa (papel encerado, papel couché, madeira envernizada): pode exigir teste em área discreta; frequentemente combinações (ALS + reagente específico) funcionam melhor.
  • Úmida/molhada: priorizar técnicas compatíveis com umidade (ex.: alguns pós específicos, certos corantes/fluorescência após fixação) e secagem controlada quando aplicável; evitar fricção.
  • Contaminada (poeira, graxa, sangue, fuligem): avaliar se há impressão “plástica/visível” (por deposição) antes de qualquer aplicação; técnicas de contraste e fotografia podem ser preferíveis a intervenções agressivas.

Métodos de localização e revelação (pós, reagentes e fontes de luz)

Triagem com iluminação: luz branca e ALS

  • Luz branca oblíqua: útil para ver impressões por brilho, relevo ou resíduos.
  • ALS (fontes de luz alternativas): pode induzir fluorescência de resíduos ou de corantes aplicados; use filtros apropriados (óculos/filtros de lente) para aumentar contraste.
  • Registre a configuração usada (tipo de luz, comprimento de onda/filtro, distância aproximada) na documentação.

Revelação por pós (principalmente não porosas)

Pós aderem aos componentes da impressão, criando contraste. A técnica é rápida, mas pode contaminar e dificultar exames posteriores se aplicada em excesso.

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Passo a passo prático (pó)

  • Selecione o pó por contraste com a superfície (clara/escura) e por necessidade de fluorescência (quando disponível).
  • Escolha o aplicador (pincel adequado) e garanta que esteja limpo e seco.
  • Carregue o pincel com pequena quantidade; retire excesso para evitar “chuva” de pó.
  • Aplique com toques leves e movimentos controlados, minimizando fricção.
  • Interrompa assim que houver contraste suficiente; excesso reduz nitidez.
  • Fotografe antes de qualquer tentativa de levantamento.

Riscos comuns: sobreaplicação, arraste mecânico, contaminação cruzada (pincel tocando múltiplos itens), deposição de pó em áreas não examinadas.

Revelação por cianoacrilato (fumigação) em não porosas

A fumigação polimeriza sobre resíduos da impressão, formando uma camada que pode ser posteriormente corada/fluorescida para aumentar contraste. É útil para itens transportáveis (ex.: garrafas, armas, plásticos) e para impressões antigas.

  • Preferir em ambiente controlado (câmara/recipiente adequado) para reduzir risco de exposição e padronizar resultado.
  • Após desenvolvimento, pode-se aplicar corantes/fluorescência e observar com ALS, conforme protocolo do laboratório.
  • Evitar manuseio excessivo do item antes da fumigação; embalar de modo a não friccionar a área de interesse.

Reagentes para porosas e semiporosas (ex.: papéis)

Em superfícies porosas, a impressão pode penetrar no material. Reagentes químicos que reagem com componentes do suor tendem a produzir melhor definição do que pós.

  • Selecione o reagente conforme tipo de papel, cor, presença de tinta e sensibilidade do documento.
  • Realize teste em área marginal quando possível (especialmente em semiporosas).
  • Controle tempo de reação e condições ambientais (umidade/temperatura) conforme procedimento interno.
  • Fotografe em etapas quando a reação evolui (pode haver ponto ótimo de contraste).

Observação operacional: em documentos relevantes, priorize métodos menos destrutivos e registre integralmente antes de qualquer aplicação.

Superfícies úmidas e contaminadas

  • Úmidas: evite secagem por calor direto; prefira secagem controlada à temperatura ambiente quando necessário e permitido pelo protocolo. Técnicas fluorescentes e alguns pós específicos podem ser mais eficazes do que pós convencionais.
  • Com sangue/fluídos: trate como risco biológico; priorize fotografia e coleta conforme cadeia de custódia. Em alguns casos, a impressão já é visível (impressão patente) e o melhor “revelador” é a documentação fotográfica com controle de reflexo.
  • Com graxa/fuligem: impressões podem ser negativas/positivas por deslocamento de material; evite escovação agressiva. Fotografia com luz oblíqua e filtros pode ser decisiva.

Fotografia forense de impressões: escala, foco e controle de reflexo

Princípios de registro

  • Fotografe antes do levantamento e, quando aplicável, antes e depois da revelação.
  • Faça sequência: visão geral (contexto), média distância (localização no objeto) e close (impressão).
  • Inclua escala métrica adequada no mesmo plano da impressão, sem cobrir cristas.
  • Garanta perpendicularidade do sensor ao plano da impressão para evitar distorção.

Controle de reflexo (não porosas brilhantes)

  • Use iluminação oblíqua e reposicione a fonte de luz para “varrer” reflexos.
  • Considere difusão de luz (softbox/difusor) quando disponível.
  • Quando aplicável, utilize polarização cruzada (filtro polarizador na lente e na fonte) para reduzir brilho especular.
  • Evite flash direto frontal em vidro/metal polido; prefira luz lateral.

Checklist rápido de fotografia de impressão

  • Escala no mesmo plano e orientada corretamente.
  • Identificação do item e posição registrada (foto de contexto).
  • Foco crítico nas cristas; use tripé/apoio quando possível.
  • Exposição sem “estourar” áreas claras; faça bracketing se necessário.
  • Registro de parâmetros relevantes (luz/filtro/ALS) na anotação pericial.

Levantamento e acondicionamento

Levantamento por fita/filme (impressões reveladas com pó em não porosas)

Passo a passo prático

  • Confirme que a impressão está bem revelada e fotografada.
  • Selecione fita/filme apropriado e cartão de fundo (cor contrastante ao pó).
  • Aplique a fita começando por uma borda, evitando bolhas; pressione suavemente com rolete/espátula limpa.
  • Remova a fita de forma contínua e controlada, evitando tração brusca.
  • Fixe a fita no cartão de levantamento, identifique e proteja com capa/acetato quando previsto.

Erros frequentes: bolhas, dobras, deslocamento lateral (arraste), cartão de fundo com contraste inadequado, toque com dedo na área adesiva.

Levantamento por gel/levantadores especiais

  • Indicado para superfícies texturizadas/irregulares onde fita comum não conforma bem.
  • Aplicar com pressão uniforme e tempo de contato conforme especificação do material.
  • Embalar para evitar deformação do gel e contato com poeira.

Coleta do próprio objeto (quando o levantamento não é ideal)

  • Quando a superfície é pequena/transportável e o risco de perda por levantamento é alto, priorize apreender o item inteiro (ex.: copo, garrafa, ferramenta).
  • Imobilize o item na embalagem para evitar atrito nas áreas de toque.
  • Use embalagem compatível: caixas rígidas para itens frágeis; separadores para evitar contato.
  • Evite plástico fechado para itens úmidos (risco de condensação e degradação); use acondicionamento que permita ventilação controlada conforme protocolo.

Acondicionamento e rotulagem (cadeia de custódia)

  • Identifique cada levantamento/item com código único, data/hora, local, coletor e descrição do substrato.
  • Lacre inviolável e registro de abertura/fechamento quando houver reembalagem.
  • Documente transferências de custódia (quem recebeu, quando, finalidade).
  • Separe itens para evitar contaminação cruzada (um item por embalagem, salvo exceções justificadas e registradas).

Checklists operacionais

Checklist de preparação (antes de iniciar a busca)

  • EPI colocado e plano de troca de luvas definido.
  • Materiais prontos: pós e pincéis limpos, fitas/levantadores, cartões de fundo, escalas, iluminação/ALS, câmera e baterias, etiquetas/lacres.
  • Definição do método de varredura e áreas prioritárias.
  • Controle de acesso implementado e rotas de circulação definidas.

Checklist de execução (durante a busca e revelação)

  • Inspeção inicial com luz oblíqua/ALS antes de aplicar qualquer produto.
  • Escolha de técnica registrada com justificativa (tipo de superfície/condição).
  • Aplicação mínima necessária (pó/reagente) para obter contraste.
  • Fotografia completa (contexto + close com escala) antes do levantamento.
  • Troca de luvas ao alternar entre itens/áreas e ao tocar embalagens.

Checklist de finalização (levantamento, embalagem e documentação)

  • Levantamento realizado com método adequado e sem danos visíveis.
  • Cartões/levantadores protegidos contra atrito e umidade.
  • Itens apreendidos imobilizados na embalagem.
  • Rotulagem completa e lacre aplicado.
  • Registro de cadeia de custódia atualizado e anexos fotográficos organizados.

Riscos de contaminação e como mitigar

  • Contaminação por contato: toque acidental em áreas de interesse; mitigar com rotas de circulação, pinças e disciplina de manuseio.
  • Contaminação cruzada por ferramentas: pincéis/roletes usados em múltiplos itens; mitigar com limpeza/troca e segregação de ferramentas por área.
  • Transferência por luvas: luvas tocando superfícies diversas; mitigar com trocas frequentes e “mãos limpas” para embalagem/documentação.
  • Aerossóis/poeira: pó em suspensão depositando em outras áreas; mitigar com aplicação controlada e isolamento do setor.
  • Umidade/condensação: degradação e borramento; mitigar com acondicionamento adequado e controle ambiental.

Documentação técnica compatível com cadeia de custódia

O que registrar no caderno/relatório de local

  • Descrição do ambiente e condições (temperatura aproximada, umidade percebida, chuva/vento, iluminação).
  • Mapa/descrição de setores varridos e ordem de busca.
  • Itens examinados e técnicas aplicadas (incluindo ALS: tipo de luz/filtro quando relevante).
  • Resultados: localização exata da impressão (objeto, face, posição), qualidade observada e ações tomadas (fotografou, levantou, apreendeu item).
  • Identificação de cada levantamento e correspondência com fotos (número da foto/arquivo).
  • Ocorrências: necessidade de reembalagem, falhas, limitações e justificativas.

Critérios práticos para decidir: levantar no local ou apreender o item

  • Levantar no local quando: a superfície é grande/fixa (porta, janela), a impressão está bem revelada e o levantamento não compromete outras análises.
  • Apreender o item quando: é transportável, há múltiplas áreas de toque, risco de perda no levantamento, necessidade de técnicas laboratoriais complementares (fumigação/corantes/ALS) ou substrato complexo.
  • Priorizar fotografia quando: a impressão é visível por contraste natural (patente/plástica), o substrato é sensível e a intervenção pode destruir o vestígio, ou há contaminação que torna o levantamento instável.
Modelo de registro mínimo por vestígio (exemplo):
ID do vestígio: LV-03
Item/substrato: Garrafa de vidro, face lateral
Localização: Cozinha, bancada norte, próximo à pia
Condição: Não porosa, seca, superfície brilhante
Técnica: Pó de contraste + fotografia + levantamento por fita
Fotografia: IMG_2451 (contexto), IMG_2452 (média), IMG_2453 (close com escala)
Acondicionamento: Cartão de levantamento em envelope rígido, lacre nº 01823
Custódia: Coletado por ____, entregue a ____ às __:__

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao atender um local com foco em impressões digitais latentes, qual conduta melhor atende ao objetivo de obter o vestígio com fidelidade e manter a cadeia de custódia?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A conduta correta integra preservação, escolha de técnica conforme substrato/condição, documentação fotográfica com escala antes do levantamento e acondicionamento/rotulagem individual com rastreabilidade. Isso reduz contaminação e mantém a cadeia de custódia.

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