Objetivo da imobilização em membros inferiores
Em lesões de tornozelo, pé, perna, joelho e quadril, a imobilização busca reduzir movimento no local lesionado e nas articulações próximas, diminuindo dor e risco de agravamento durante a espera por atendimento ou transporte. Em membros inferiores, isso é especialmente importante porque o impulso natural é tentar ficar em pé, o que pode piorar uma fratura, aumentar sangramento interno e agravar lesões de ligamentos.
Regra prática: quando NÃO apoiar o peso
- Se houver deformidade, encurtamento aparente, rotação anormal do pé/perna ou “osso fora do lugar”.
- Se a dor for intensa ao tentar apoiar ou a pessoa não conseguir dar 4 passos com ajuda, sem mancar de forma importante.
- Se houver suspeita de fratura (mesmo sem deformidade) ou dor localizada em osso (tíbia/fíbula, tornozelo, calcâneo).
- Se houver suspeita de lesão em joelho com instabilidade (sensação de “falseio”) ou travamento.
- Se houver suspeita de lesão em quadril (dor na virilha/lateral do quadril, incapacidade de levantar a perna, perna encurtada/rodada para fora).
Imobilização de tornozelo e pé com tala + bandagem leve
Quando usar
Indicada quando há dor e limitação no tornozelo/pé após torção ou queda, especialmente se há inchaço rápido, dificuldade para apoiar ou dor óssea. A ideia é estabilizar o tornozelo e reduzir movimentos do pé, mantendo-o em posição confortável.
Materiais possíveis
- Tala: papelão rígido dobrado, revista grossa enrolada, tábua fina, régua larga, pedaço de EVA rígido.
- Acolchoamento: toalha, camiseta, gaze, meia grossa.
- Fixação: ataduras, faixas de tecido, lenços, tiras de pano, fita adesiva larga (com cuidado para não apertar).
Posição do tornozelo: ângulo confortável sem forçar
O tornozelo idealmente fica próximo de um ângulo de 90° (pé “reto”), mas não force para chegar nessa posição. Se a pessoa só tolera o pé mais “apontado” ou levemente virado, imobilize como está, desde que não haja tentativa de “corrigir” deformidade.
Passo a passo (tala em “U” ou lateral)
- Prepare acolchoamento: envolva tornozelo e laterais do pé com uma camada macia, principalmente em proeminências ósseas (maléolos).
- Modele a tala: faça uma tala em formato de U (do lado de fora da perna, passando por baixo do pé e subindo pelo lado de dentro) ou use duas talas laterais (uma de cada lado), indo do meio da perna até além da ponta do pé.
- Posicione sem mover demais: deslize a tala por baixo do pé com ajuda de outra pessoa, evitando levantar o membro de forma brusca.
- Fixe em pontos-chave com bandagem leve: amarre/faixe acima do tornozelo, no tornozelo e no meio do pé. Se usar fita, prefira voltas largas e poucas, sempre checando se não está apertado.
- Deixe os dedos visíveis para observar cor e temperatura e para a pessoa relatar sensibilidade.
Bandagem leve: o que significa “leve” na prática
Bandagem leve é firme o suficiente para a tala não escorregar, mas não a ponto de “marcar” a pele ou aumentar dor/latejamento. Um teste simples: deve ser possível passar a ponta de um dedo sob a faixa em pelo menos um ponto. Se a dor aumentar muito após enfaixar, afrouxe e refaça.
Erros comuns a evitar
- Enfaixar cobrindo totalmente os dedos (dificulta monitorar).
- Forçar o pé para “endireitar”.
- Usar nós ou fita exatamente sobre o osso do tornozelo (gera ponto de pressão).
- Fixar só no tornozelo e esquecer o pé (o pé “escapa” e o tornozelo torce dentro da tala).
Suspeita de fratura de perna (tíbia/fíbula): tala longa acolchoada
Por que a tala precisa ser longa
Na perna, movimentos do tornozelo e do joelho podem deslocar fragmentos ósseos. Por isso, uma imobilização mais segura é a tala longa, que estabiliza o segmento e reduz a transmissão de forças.
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Materiais possíveis
- Duas talas longas: tábuas finas, ripas, cabos retos, guarda-chuva rígido fechado, bastões, papelão reforçado dobrado em várias camadas.
- Acolchoamento abundante: toalhas, cobertor dobrado, roupas.
- Fixação: faixas de pano, cintos, ataduras, lençóis rasgados em tiras.
Passo a passo (tala longa com duas talas)
- Peça ajuda: idealmente duas pessoas. Uma estabiliza a perna (segura acima e abaixo da área dolorosa) e a outra prepara as talas.
- Acolchoe: coloque acolchoamento ao longo da perna, principalmente em torno do tornozelo, canela (crista tibial) e atrás do joelho.
- Posicione as talas: uma tala na parte lateral e outra na parte medial da perna, indo do meio da coxa até além do pé. Se só houver uma tala, use-a no lado mais firme e complemente com uma revista grossa no outro lado.
- Fixe em múltiplos pontos (sem apertar):
- Acima do joelho (coxa)
- Abaixo do joelho
- Meio da perna
- Acima do tornozelo
- No pé (para evitar que ele “gire”)
- Evite nós sobre a fratura: amarre ao lado, sobre a tala, e não diretamente sobre a área mais dolorosa.
- Não tente alinhar se houver deformidade evidente: imobilize na posição encontrada, acolchoando os “vãos” para reduzir movimento.
Se não houver talas: imobilização com a perna “companheira”
Quando não há material rígido, pode-se fixar a perna lesionada à perna saudável (como “tala natural”), desde que isso não cause dor intensa ao aproximar. Coloque acolchoamento entre os joelhos e tornozelos e amarre em 3–4 pontos (coxa, joelho, perna, tornozelo). Não use se houver suspeita importante de lesão em joelho/quadril do lado lesionado.
Joelho: por que exige cuidado extra
Riscos específicos
O joelho pode sofrer lesões de ligamentos, meniscos e também fraturas ao redor da articulação. Além disso, estruturas vasculares importantes passam atrás do joelho; movimentos bruscos podem piorar instabilidade e aumentar dano interno. Por isso, em suspeita de lesão significativa, a regra é imobilizar e evitar movimentar até suporte adequado.
Como imobilizar o joelho na posição encontrada
Não tente “esticar” um joelho que está travado dobrado, nem dobrar um joelho que está rígido estendido. Imobilize no ângulo em que está, desde que seja tolerável.
Passo a passo (tala longa para joelho)
- Estabilize manualmente acima e abaixo do joelho.
- Acolchoe atrás do joelho e nas laterais.
- Use talas longas (idealmente duas) que peguem coxa e perna, indo do meio da coxa até além do tornozelo.
- Fixe em vários pontos: coxa, acima do joelho, abaixo do joelho, perna e tornozelo. Evite compressão direta na parte de trás do joelho.
Quando evitar muletas e evitar qualquer tentativa de caminhar
- Joelho com sensação de “sair do lugar”, falseio importante ou incapacidade de sustentar o corpo.
- Dor intensa ao mínimo movimento.
- Suspeita de fratura ao redor do joelho.
Quadril: por que geralmente não deve ser movimentado sem suporte
O que torna o quadril diferente
Lesões no quadril (como fratura do colo do fêmur, fraturas da bacia ou luxações) podem estar associadas a dor intensa, sangramento interno e grande instabilidade. Movimentar a pessoa sem técnica e sem suporte pode aumentar deslocamento, dor e risco de complicações. Na prática, suspeita de lesão em quadril costuma exigir mínima movimentação e transporte com suporte adequado (maca/serviço de emergência).
Sinais que aumentam a suspeita de lesão em quadril
- Dor na virilha, lateral do quadril ou nádega após queda.
- Incapacidade de ficar em pé ou levantar a perna.
- Perna aparentemente encurtada e/ou com o pé virado para fora.
- Dor importante ao tentar girar a perna.
Conduta prática: estabilização e conforto sem “arrumar posição”
- Mantenha a pessoa na posição mais confortável, evitando rotação da perna.
- Se a perna tende a girar para fora e isso aumenta dor, use acolchoamento (toalhas/roupas) ao lado da perna para limitar rotação, sem forçar alinhamento.
- Evite sentar/levantar a pessoa “no braço”. Se for indispensável mover por risco ambiental, faça em bloco com ajuda, minimizando torções.
Elevação segura do membro inferior imobilizado
Quando elevar
A elevação pode ajudar no conforto e no controle do inchaço, desde que não cause dor adicional e não exija dobrar/torcer articulações suspeitas (principalmente joelho e quadril).
Como elevar sem piorar a lesão
- Eleve sustentando por baixo: apoie o membro com travesseiros, cobertores dobrados ou mochila macia, distribuindo o peso ao longo da perna.
- Evite “pendurar” pelo pé: não levante segurando apenas o tornozelo/pé.
- Não force extensão do joelho para colocar travesseiro por baixo; deslize o apoio com cuidado.
- Se houver suspeita de quadril, priorize conforto e estabilidade; elevação pode ser limitada e deve ser mínima.
Muletas improvisadas: quando são apropriadas (e quando não são)
Quando considerar
Muletas improvisadas podem ser usadas apenas se a pessoa estiver alerta, conseguir manter equilíbrio, não houver suspeita de fratura importante/joelho instável/quadril, e a dor permitir deslocamento curto e controlado. Exemplos: entorse leve a moderada de tornozelo/pé com imobilização simples e sem sinais de gravidade.
Como improvisar
- Opções: cabo de vassoura resistente, galhos firmes, bengala, guarda-chuva forte, par de bastões.
- Ajuste de altura: apoio deve permitir que o cotovelo fique levemente flexionado ao segurar. Se ficar muito alto, força o ombro; muito baixo, força punho e coluna.
- Acolchoe as axilas e as mãos: enrole pano onde encosta no corpo e onde segura.
Uso seguro (passo a passo básico)
- Coloque as muletas ao lado do corpo, uma de cada lado, com as pontas firmes no chão.
- Avance as muletas um passo curto.
- Transfira o peso para as mãos (não “pendure” nas axilas) e avance a perna saudável.
- Mantenha a perna lesionada sem apoiar ou com apoio mínimo apenas se tolerado e se não houver critérios de gravidade.
Quando NÃO usar muletas improvisadas
- Suspeita de fratura de perna, joelho instável ou lesão de quadril.
- Tontura, fraqueza, uso de álcool/drogas, confusão, risco de queda.
- Ambiente inseguro (escadas, chão molhado, terreno irregular).
Checklist rápido de imobilização de membro inferior
| Região | Imobilização preferida | Ponto-chave |
|---|---|---|
| Tornozelo/Pé | Tala em U ou duas laterais + bandagem leve | Não forçar ângulo; fixar pé e tornozelo |
| Perna (tíbia/fíbula) | Tala longa (coxa até além do pé) com acolchoamento | Fixar em múltiplos pontos; evitar nós na área dolorosa |
| Joelho | Tala longa mantendo o ângulo encontrado | Não tentar esticar/dobrar; cuidado com instabilidade |
| Quadril | Minimizar movimento; estabilizar com acolchoamento | Geralmente não mover sem suporte adequado |