O que é “dano” na funilaria e por que identificar corretamente
Na funilaria automotiva, “dano” não é apenas uma marca visível: é uma alteração na forma, na espessura, na tensão do metal e/ou na integridade da pintura e das camadas de proteção. Identificar o tipo de dano com precisão evita erros comuns, como tentar “puxar” um amassado que está estirado (o metal não volta) ou lixar uma área com corrosão ativa sem remover a causa (a ferrugem retorna).
Um bom diagnóstico separa três camadas de análise: pintura (verniz/tinta/fundo), metal (deformação, estiramento, trincas) e geometria da peça (linhas, vincos, bordas e alinhamentos).
Tipos de danos: como reconhecer e o que eles “pedem” no reparo
1) Amassado com estiramento (metal “esticado”)
Como reconhecer: o amassado parece “mole” e amplo, com uma área central que não retorna mesmo com pressão leve; as bordas do amassado ficam pouco definidas e a superfície tende a ficar com aspecto de “bacia”. Em iluminação rasante, você vê uma deformação grande com transição suave, sem um ponto claro de impacto.
Consequências: o metal perdeu tensão e “sobrou material” na área; isso costuma exigir técnicas de encolhimento/controle de estiramento e nivelamento mais criterioso. Se apenas puxar, a peça pode ficar ondulada.
2) Vinco (dobra marcada)
Como reconhecer: há uma linha nítida (como uma dobra) com sombra forte em luz rasante. No reflexo, a linha “quebra” a imagem de forma abrupta. Ao tato, sente-se uma aresta.
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Consequências: vincos concentram tensão e podem trincar a pintura. Normalmente exigem trabalhar a linha do vinco primeiro (alívio de tensão) antes de nivelar o restante.
3) Batida em borda (quina, dobra ou canto)
Como reconhecer: dano localizado em bordas de porta, capô, paralama ou dobras estruturais. A borda pode estar “aberta” (perdeu a linha) ou “amassada para dentro”. Muitas vezes há lasca de tinta no ponto de impacto.
Consequências: bordas são rígidas e transmitem impacto para áreas próximas, criando deformações secundárias. Reparos nessa região exigem atenção à linha de borda e ao alinhamento com peças vizinhas.
4) Ondulações (efeito “casca de laranja” do metal / painel irregular)
Como reconhecer: não há um amassado único; o painel apresenta várias pequenas altas e baixas. No reflexo, as linhas ficam “tremidas”. Ao passar a mão, percebe-se irregularidade contínua.
Consequências: pode ser resultado de impacto antigo, reparo mal feito, excesso de calor, ou tentativa de desamassar sem controle. Exige mapeamento fino e correção gradual para não criar mais altos/baixos.
5) Risco superficial até o metal
Como reconhecer: o risco atravessa o verniz e a tinta; quando chega ao metal, costuma aparecer um traço mais claro/cinzento (ou brilho metálico). Se houver fundo aparente (primer), a cor pode ser diferente do metal e do acabamento.
Consequências: risco até o metal expõe a chapa e acelera corrosão, principalmente em ambientes úmidos ou com sal. Mesmo sem amassado, pode exigir tratamento anticorrosivo e repintura localizada.
6) Corrosão superficial (ferrugem de superfície)
Como reconhecer: pontos ou manchas alaranjadas/marrons, geralmente com a pintura ainda presente ao redor. Pode haver aspereza ao toque. Em alguns casos, começa sob um pequeno lascado de tinta.
Consequências: ainda não perfurou a chapa, mas está ativa. Se apenas cobrir, tende a voltar. O processo muda porque é necessário remover a corrosão e estabilizar a área antes de qualquer acabamento.
7) Ferrugem perfurante (corrosão avançada com furo)
Como reconhecer: presença de buracos, bordas finas e esfareladas, metal “folheado” e frágil. Ao pressionar, a chapa pode ceder. Muitas vezes há bolhas grandes na pintura ao redor.
Consequências: não é um “defeito de superfície”: há perda real de material. Em geral, exige recorte e substituição/patch, porque lixar e aplicar massa por cima não devolve resistência nem impede retorno.
8) Corrosão por trás (interna)
Como reconhecer: a face externa pode parecer relativamente íntegra, mas surgem bolhas na pintura, manchas que “nascem” sem risco aparente, ou ferrugem escorrida vinda de emendas, dobras e pontos de solda. Em portas, caixas de roda e bordas dobradas, é comum. Ao toque, a área pode estar levemente elevada (bolha) e o som ao bater com a ponta do dedo pode ficar mais “oco” em comparação ao entorno.
Consequências: tratar só por fora costuma falhar, porque a fonte está no verso (umidade presa, drenagem ruim, vedação danificada). O processo muda: é preciso acessar, limpar e proteger o lado interno sempre que possível.
Como mapear deformações: iluminação rasante, reflexo e tato
Iluminação rasante (a “luz de varredura”)
Conceito: quando a luz incide em ângulo baixo, qualquer alto/baixo cria sombras e realça irregularidades que, sob luz direta, passam despercebidas.
Passo a passo prático:
- Posicione uma fonte de luz lateralmente ao painel (ângulo baixo em relação à superfície).
- Observe a peça de diferentes alturas: agache e levante, mudando o ângulo de visão.
- Procure por sombras contínuas (amassado amplo), linhas duras (vinco) e microvariações (ondulações).
- Marque mentalmente (ou com fita crepe ao redor, sem colar sobre pintura frágil) a área onde a sombra “nasce” e onde ela “morre”. Isso ajuda a delimitar o dano real, que costuma ser maior do que a parte mais visível.
Leitura de reflexo (linhas “dançando”)
Conceito: superfícies automotivas são boas para refletir. Qualquer deformação distorce o reflexo e denuncia altos/baixos.
Passo a passo prático:
- Use um reflexo longo (uma linha reta do ambiente, como o contorno de uma porta/parede, ou uma luminária linear).
- Mova-se lateralmente e observe como a linha refletida se comporta: quebra brusca indica vinco; onda suave indica amassado amplo; tremor repetido sugere ondulações.
- Compare com o lado oposto do carro (quando existir peça simétrica). Diferenças sutis aparecem melhor na comparação.
Mapeamento pelo tato (mão “lendo” o painel)
Conceito: a mão detecta transições que o olho ignora, principalmente em cores claras ou em locais com reflexo confuso.
Passo a passo prático:
- Com a palma e a ponta dos dedos, deslize lentamente em várias direções (horizontal, vertical e diagonal).
- Procure por degraus (diferença de nível), arestas (vinco), aspereza (corrosão) e bolhas (corrosão sob pintura/reparo antigo).
- Faça uma “grade” mental: divida a área em quadrantes e confirme cada um com luz rasante e reflexo. Isso reduz a chance de deixar um baixo escondido.
Sinais de reparos antigos e como isso muda o diagnóstico
Excesso de massa (enchimento alto)
Como reconhecer: bordas de reparo aparecem como “ilhas” no reflexo; ao tato, a transição pode ser mais abrupta do que o normal. Em alguns casos, há diferença sutil de textura/planicidade. Um indicativo comum é a deformação parecer “boa” visualmente, mas o reflexo denuncia uma área plana demais (sem a curvatura original).
Como altera o processo: a área pode esconder deformação real do metal por baixo. Ao lixar ou retrabalhar, pode surgir um “mapa” de camadas (tinta, massa, primer). O diagnóstico deve considerar que o dano original pode ser maior do que o visível.
Trincas (fissuras na pintura/massa)
Como reconhecer: linhas finas que se abrem, muitas vezes em formato de teia ou acompanhando um vinco. Podem aparecer após flexão do painel ou vibração.
Como altera o processo: trinca indica que a camada está rígida demais ou mal aderida, ou que o painel ainda trabalha (deformação não resolvida). Se houver trinca, é sinal de que apenas repintar por cima tende a reproduzir o problema.
Bolhas
Como reconhecer: pequenas elevações arredondadas sob a pintura. Ao pressionar, podem parecer “ocas” ou firmes. Podem vir acompanhadas de pontos de ferrugem.
Como altera o processo: bolha costuma indicar umidade/contaminação, corrosão por baixo ou falha de aderência entre camadas. O diagnóstico deve buscar a origem (risco até o metal, corrosão interna, vedação/drenagem) antes de qualquer acabamento.
Descascamento (falha de aderência)
Como reconhecer: a tinta/verniz solta em placas, com bordas levantadas. Às vezes aparece após lavagem, sol ou pequenas batidas.
Como altera o processo: indica problema de preparação anterior (superfície lisa/contaminada, incompatibilidade de produtos, camada antiga degradada). O reparo exige ampliar a inspeção para além do ponto visível, porque a falha pode se estender.
Roteiro de diagnóstico: o que observar na pintura, no metal e na geometria
1) Checklist da pintura (camadas e integridade)
- Brilho e reflexo: há distorção localizada? A linha refletida quebra ou ondula?
- Riscos: o risco parou no verniz/tinta, chegou no primer ou expôs metal?
- Trincas: existem fissuras em teia ou acompanhando linhas do painel?
- Bolhas: há elevações indicando corrosão interna/umidade?
- Descascamento: há bordas levantadas ou placas soltando?
- Diferença de textura: áreas com aspecto diferente podem indicar repintura ou reparo antigo.
2) Checklist do metal (deformação e corrosão)
- Tipo de deformação: amassado amplo (possível estiramento), vinco (linha marcada), batida em borda (dobra/canto).
- Extensão real do dano: delimite com luz rasante: o dano “espalha” além do ponto de impacto?
- Ondulações: existem múltiplos altos/baixos sugerindo trabalho anterior ou tensão residual?
- Corrosão: é superficial (sem perda de material), perfurante (com furo/metal frágil) ou por trás (bolhas/manchas sem origem externa clara)?
- Som e rigidez: ao toque, há áreas ocas/mais flexíveis que o normal (suspeita de corrosão interna ou reparo espesso)?
3) Checklist da geometria da peça (linhas, folgas e alinhamento)
- Linhas de estilo: a linha do painel está contínua ou “quebrada” (vinco/torção)?
- Bordas e dobras: a borda está reta e com raio uniforme ou há achatamento/abertura?
- Folgas entre peças: as frestas estão uniformes? Uma folga fechando/abrindo pode indicar deslocamento do painel.
- Nível entre painéis: a peça está “alta” ou “baixa” em relação à adjacente (porta vs paralama, capô vs para-lama)?
- Simetria: compare com o lado oposto do veículo para identificar diferenças sutis de curvatura e alinhamento.
Sequência prática de inspeção (ordem recomendada)
- Visão geral a distância: identifique distorções grandes e desalinhamentos.
- Reflexo em ângulo: procure quebra de linhas e ondulações.
- Luz rasante: delimite a área real do dano e identifique vincos/altos/baixos.
- Tato em grade: confirme transições e pontos críticos (arestas, degraus, bolhas).
- Procure sinais de reparo antigo: trincas, bolhas, descascamento, áreas “planas demais”.
- Classifique o dano: deformação (qual tipo) + pintura (até onde foi) + corrosão (qual estágio e origem).