Por que a gramática “aparece” na nota e na leitura
Em redação, gramática não é um enfeite: ela determina se o leitor entende de primeira, se as ideias se conectam sem ruído e se o texto mantém credibilidade. Na prática, os tópicos gramaticais mais decisivos são os que mexem com quem faz o quê (relações entre termos), como as partes se ligam (coesão) e como a frase é organizada (pontuação e estrutura). Quando esses pontos falham, surgem ambiguidades, quebras de sentido e “travamentos” de leitura — e isso impacta diretamente a avaliação.
Os tópicos gramaticais que mais afetam a qualidade do texto
1) Concordância: alinhamento entre núcleo e forma
Concordância é o mecanismo que mantém a frase “coerente por dentro”: verbo com sujeito, nome com determinantes e predicativos. Erros aqui costumam ser percebidos rapidamente e podem gerar dúvida sobre o referente.
Como aparece no texto final: discordâncias em sujeito distante, sujeito composto, expressões partitivas, porcentagens, coletivos e estruturas com “que”.
Antes/depois (ganho de clareza e norma):
Antes: A maioria dos estudantes defendem a mudança. (oscilação de núcleo: maioria x estudantes)
Depois: A maioria dos estudantes defende a mudança.
Antes: Fazem dois anos que o projeto começou.
Depois: Faz dois anos que o projeto começou.2) Regência: a “ponte” correta entre palavras
Regência define quais preposições e complementos uma palavra exige. Quando a regência falha, a frase pode ficar truncada, informal ou imprecisa, além de abrir espaço para construções que parecem “estranhas” ao leitor.
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Como aparece no texto final: verbos e nomes com preposição inadequada, troca de “assistir” (ver) por “assistir a”, “preferir” sem “a”, “implicar” com/sem preposição, “visar” com sentidos diferentes, “obedecer a”, “simpatizar com”.
Antes/depois (precisão e norma):
Antes: O texto visa melhorar a educação. (sentido: ter por objetivo → pode aceitar sem preposição em uso corrente, mas em norma formal é comum exigir)
Depois: O texto visa a melhorar a educação.
Antes: Eles preferem mais investimentos em saúde do que educação.
Depois: Eles preferem mais investimentos em saúde a investimentos em educação.3) Pontuação: controle de ritmo e de sentido
Pontuação é um recurso de organização lógica. Mais do que “pausa”, ela marca relações: explicação, contraste, consequência, enumeração, encaixes. Pontuação mal usada cria ambiguidade e pode mudar o sentido.
Como aparece no texto final: vírgula separando sujeito e verbo, falta de vírgulas em adjuntos deslocados, uso confuso de dois-pontos, períodos longos sem estrutura, excesso de vírgulas “respiratórias”.
Antes/depois (clareza imediata):
Antes: A escola, precisa de investimentos.
Depois: A escola precisa de investimentos.
Antes: Sem políticas públicas eficazes a desigualdade aumenta.
Depois: Sem políticas públicas eficazes, a desigualdade aumenta.
Antes: O problema é grave, porque afeta a saúde, e a economia.
Depois: O problema é grave porque afeta a saúde e a economia.4) Crase: sinal de estrutura (e não “enfeite”)
Crase indica a fusão de preposição a com artigo a(s) (ou com pronomes demonstrativos iniciados por a). Em redação, ela é um marcador de domínio da norma-padrão e de regência: muitos erros de crase são, na verdade, erros de regência ou de análise do termo seguinte.
Como aparece no texto final: “a” antes de palavras femininas com artigo, locuções prepositivas/adverbiais, horas, e casos em que não há artigo (palavra masculina, verbo, pronome sem artigo, nomes próprios sem artigo).
Antes/depois (norma e precisão):
Antes: O governo deve responder a sociedade.
Depois: O governo deve responder à sociedade.
Antes: Chegou a uma conclusão semelhante a da pesquisa.
Depois: Chegou a uma conclusão semelhante à da pesquisa.5) Referência e coesão: pronomes, conectivos e retomadas
Coesão é a “costura” do texto. Ela depende de escolhas gramaticais: pronomes bem referenciados, conectivos adequados e repetição controlada. Falhas aqui não são apenas “estilo”: elas quebram a compreensão.
Como aparece no texto final: pronomes sem antecedente claro, “isso/isso” vago, conectivos usados fora da relação lógica (por exemplo, “portanto” sem conclusão), repetição excessiva do mesmo termo sem estratégia de retomada.
Antes/depois (coesão e clareza):
Antes: A violência cresce nas cidades. Isso precisa ser combatido. (isso = o quê exatamente?)
Depois: A violência cresce nas cidades. Esse avanço exige políticas de prevenção e investigação.
Antes: O projeto é caro. Portanto, ele precisa de planejamento. (portanto não conclui; explica)
Depois: O projeto é caro; por isso, precisa de planejamento.Critérios práticos de correção: o que revisar e como decidir
Para revisar com eficiência, use quatro critérios operacionais. Eles funcionam como uma lista de checagem: cada frase e cada período devem “passar” por eles.
| Critério | Pergunta de revisão | Sinais de problema | Ajustes típicos |
|---|---|---|---|
| Clareza | Entende-se na primeira leitura? | Ambiguidade, pronomes vagos, períodos longos sem estrutura | Reescrever, explicitar referente, dividir período, reorganizar ordem |
| Precisão | As palavras dizem exatamente o que você quer? | Verbo genérico (“fazer”, “ter”), conectivo inadequado, termo impreciso | Trocar por verbo específico, ajustar conectivo, escolher termo técnico adequado |
| Coesão | As partes se conectam logicamente? | Saltos de ideia, repetição sem estratégia, retomadas confusas | Inserir conectivos corretos, retomar com sinônimos/hiperônimos, paralelismo |
| Norma-padrão | Há desvios que comprometem credibilidade? | Concordância, regência, crase, pontuação estrutural | Corrigir relações sintáticas e marcações (vírgulas, preposições, acentos) |
A lógica do ebook: da frase ao período, do período ao parágrafo
O caminho de melhoria é progressivo. Em vez de “caçar erros” aleatoriamente, revise em camadas: primeiro a frase (unidade mínima de sentido), depois o período (organização das orações) e, por fim, o parágrafo (encadeamento de ideias).
Camada 1 — Nível de frase: quem faz o quê (estrutura básica)
Objetivo: garantir que sujeito, verbo e complementos estejam claros e bem relacionados.
- Cheque concordância: identifique o núcleo do sujeito e ajuste o verbo.
- Cheque regência: confirme se o verbo/nome pede preposição.
- Cheque referência: pronomes apontam para um antecedente inequívoco.
Exemplo (antes/depois):
Antes: A discussão sobre redes sociais e seus efeitos geram polêmica.
Depois: A discussão sobre redes sociais e seus efeitos gera polêmica.
Antes: O autor obedeceu as regras do edital.
Depois: O autor obedeceu às regras do edital.Camada 2 — Nível de período: organizar as relações entre ideias
Objetivo: deixar explícito se a segunda parte explica, contrasta, causa ou conclui a primeira. É aqui que pontuação e conectivos trabalham juntos.
- Mapeie a relação lógica: causa, consequência, contraste, condição, exemplificação.
- Escolha o conectivo compatível: “porque/pois” (causa), “por isso/assim” (consequência), “embora/apesar de” (concessão).
- Estruture a pontuação: use vírgula para adjuntos deslocados e encaixes; use ponto e vírgula para separar blocos densos; evite vírgula entre sujeito e verbo.
Exemplo (antes/depois):
Antes: O acesso à internet aumentou, a desinformação também cresceu, o Estado precisa agir.
Depois: O acesso à internet aumentou; por isso, a desinformação também cresceu. Diante desse cenário, o Estado precisa agir.Camada 3 — Nível de parágrafo: unidade de ideia e progressão
Objetivo: cada parágrafo deve cumprir uma função (apresentar, explicar, exemplificar, contrapor, concluir parcialmente) e avançar a tese.
- Frase-tópico: declare a ideia central do parágrafo.
- Desenvolvimento: explique com causa/efeito, dados, exemplo ou comparação.
- Amarração: feche apontando a consequência ou preparando o próximo ponto.
Exemplo (antes/depois):
Antes (solto e repetitivo): A educação é importante. A educação muda vidas. A educação precisa de investimento. A educação é um direito.
Depois (unidade e progressão): A educação é um direito e um fator decisivo de mobilidade social. Quando há investimento em infraestrutura e formação docente, o aprendizado se torna mais consistente e reduz desigualdades. Por isso, políticas educacionais devem priorizar continuidade e avaliação de resultados, evitando ações pontuais.Passo a passo de revisão gramatical (aplicável a qualquer redação)
- Faça uma leitura contínua (sem corrigir): marque trechos onde você “tropeça” ao ler; eles costumam concentrar problemas de pontuação, coesão ou referência.
- Revise por camadas: (a) frase: concordância/regência/crase; (b) período: conectivos/pontuação; (c) parágrafo: unidade e progressão.
- Procure ambiguidades: destaque pronomes como “isso”, “esse”, “tal”, “o que” e confirme se o antecedente está explícito.
- Padronize estruturas paralelas: em enumerações e comparações, mantenha a mesma forma sintática.
- Enxugue verbos genéricos e repetições: substitua por verbos mais informativos e use retomadas (sinônimo, hiperônimo, expressão resumidora).
- Faça uma última varredura de norma-padrão: concordância em sujeitos longos, regência de verbos frequentes, crase em “a + feminino”, e vírgulas estruturais (adjuntos deslocados, orações explicativas).
Reescritas guiadas: como pequenas correções elevam o texto
Exemplo 1 — Clareza + pontuação + coesão
Antes: Muitos jovens usam redes sociais, isso influencia na opinião, e pode causar problemas, como ansiedade.
Depois: Muitos jovens usam redes sociais, e esse uso influencia a formação de opinião. Além disso, pode intensificar problemas como ansiedade.Exemplo 2 — Regência + crase + precisão
Antes: A campanha visa melhorar a saúde e atender a população carente.
Depois: A campanha visa a melhorar a saúde e atender à população carente.Exemplo 3 — Concordância + organização do período
Antes: A falta de políticas e a baixa fiscalização contribui para o aumento do desmatamento.
Depois: A falta de políticas e a baixa fiscalização contribuem para o aumento do desmatamento.Exemplo 4 — Parágrafo: de frases soltas a argumento encadeado
Antes: O transporte público é ruim. As pessoas se atrasam. O trânsito piora. O governo precisa fazer algo.
Depois: A precariedade do transporte público aumenta atrasos e reduz a produtividade urbana. Como consequência, mais pessoas recorrem ao carro, o que intensifica o trânsito e a poluição. Para reverter esse quadro, o poder público deve ampliar a oferta e a confiabilidade do sistema, com metas e fiscalização.