Gramática essencial para redação: como as regras impactam clareza e nota

Capítulo 1

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

Por que a gramática “aparece” na nota e na leitura

Em redação, gramática não é um enfeite: ela determina se o leitor entende de primeira, se as ideias se conectam sem ruído e se o texto mantém credibilidade. Na prática, os tópicos gramaticais mais decisivos são os que mexem com quem faz o quê (relações entre termos), como as partes se ligam (coesão) e como a frase é organizada (pontuação e estrutura). Quando esses pontos falham, surgem ambiguidades, quebras de sentido e “travamentos” de leitura — e isso impacta diretamente a avaliação.

Os tópicos gramaticais que mais afetam a qualidade do texto

1) Concordância: alinhamento entre núcleo e forma

Concordância é o mecanismo que mantém a frase “coerente por dentro”: verbo com sujeito, nome com determinantes e predicativos. Erros aqui costumam ser percebidos rapidamente e podem gerar dúvida sobre o referente.

Como aparece no texto final: discordâncias em sujeito distante, sujeito composto, expressões partitivas, porcentagens, coletivos e estruturas com “que”.

Antes/depois (ganho de clareza e norma):

Antes: A maioria dos estudantes defendem a mudança.  (oscilação de núcleo: maioria x estudantes)
Depois: A maioria dos estudantes defende a mudança.

Antes: Fazem dois anos que o projeto começou.
Depois: Faz dois anos que o projeto começou.

2) Regência: a “ponte” correta entre palavras

Regência define quais preposições e complementos uma palavra exige. Quando a regência falha, a frase pode ficar truncada, informal ou imprecisa, além de abrir espaço para construções que parecem “estranhas” ao leitor.

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Como aparece no texto final: verbos e nomes com preposição inadequada, troca de “assistir” (ver) por “assistir a”, “preferir” sem “a”, “implicar” com/sem preposição, “visar” com sentidos diferentes, “obedecer a”, “simpatizar com”.

Antes/depois (precisão e norma):

Antes: O texto visa melhorar a educação. (sentido: ter por objetivo → pode aceitar sem preposição em uso corrente, mas em norma formal é comum exigir)
Depois: O texto visa a melhorar a educação.

Antes: Eles preferem mais investimentos em saúde do que educação.
Depois: Eles preferem mais investimentos em saúde a investimentos em educação.

3) Pontuação: controle de ritmo e de sentido

Pontuação é um recurso de organização lógica. Mais do que “pausa”, ela marca relações: explicação, contraste, consequência, enumeração, encaixes. Pontuação mal usada cria ambiguidade e pode mudar o sentido.

Como aparece no texto final: vírgula separando sujeito e verbo, falta de vírgulas em adjuntos deslocados, uso confuso de dois-pontos, períodos longos sem estrutura, excesso de vírgulas “respiratórias”.

Antes/depois (clareza imediata):

Antes: A escola, precisa de investimentos.
Depois: A escola precisa de investimentos.

Antes: Sem políticas públicas eficazes a desigualdade aumenta.
Depois: Sem políticas públicas eficazes, a desigualdade aumenta.

Antes: O problema é grave, porque afeta a saúde, e a economia.
Depois: O problema é grave porque afeta a saúde e a economia.

4) Crase: sinal de estrutura (e não “enfeite”)

Crase indica a fusão de preposição a com artigo a(s) (ou com pronomes demonstrativos iniciados por a). Em redação, ela é um marcador de domínio da norma-padrão e de regência: muitos erros de crase são, na verdade, erros de regência ou de análise do termo seguinte.

Como aparece no texto final: “a” antes de palavras femininas com artigo, locuções prepositivas/adverbiais, horas, e casos em que não há artigo (palavra masculina, verbo, pronome sem artigo, nomes próprios sem artigo).

Antes/depois (norma e precisão):

Antes: O governo deve responder a sociedade.
Depois: O governo deve responder à sociedade.

Antes: Chegou a uma conclusão semelhante a da pesquisa.
Depois: Chegou a uma conclusão semelhante à da pesquisa.

5) Referência e coesão: pronomes, conectivos e retomadas

Coesão é a “costura” do texto. Ela depende de escolhas gramaticais: pronomes bem referenciados, conectivos adequados e repetição controlada. Falhas aqui não são apenas “estilo”: elas quebram a compreensão.

Como aparece no texto final: pronomes sem antecedente claro, “isso/isso” vago, conectivos usados fora da relação lógica (por exemplo, “portanto” sem conclusão), repetição excessiva do mesmo termo sem estratégia de retomada.

Antes/depois (coesão e clareza):

Antes: A violência cresce nas cidades. Isso precisa ser combatido. (isso = o quê exatamente?)
Depois: A violência cresce nas cidades. Esse avanço exige políticas de prevenção e investigação.

Antes: O projeto é caro. Portanto, ele precisa de planejamento. (portanto não conclui; explica)
Depois: O projeto é caro; por isso, precisa de planejamento.

Critérios práticos de correção: o que revisar e como decidir

Para revisar com eficiência, use quatro critérios operacionais. Eles funcionam como uma lista de checagem: cada frase e cada período devem “passar” por eles.

CritérioPergunta de revisãoSinais de problemaAjustes típicos
ClarezaEntende-se na primeira leitura?Ambiguidade, pronomes vagos, períodos longos sem estruturaReescrever, explicitar referente, dividir período, reorganizar ordem
PrecisãoAs palavras dizem exatamente o que você quer?Verbo genérico (“fazer”, “ter”), conectivo inadequado, termo imprecisoTrocar por verbo específico, ajustar conectivo, escolher termo técnico adequado
CoesãoAs partes se conectam logicamente?Saltos de ideia, repetição sem estratégia, retomadas confusasInserir conectivos corretos, retomar com sinônimos/hiperônimos, paralelismo
Norma-padrãoHá desvios que comprometem credibilidade?Concordância, regência, crase, pontuação estruturalCorrigir relações sintáticas e marcações (vírgulas, preposições, acentos)

A lógica do ebook: da frase ao período, do período ao parágrafo

O caminho de melhoria é progressivo. Em vez de “caçar erros” aleatoriamente, revise em camadas: primeiro a frase (unidade mínima de sentido), depois o período (organização das orações) e, por fim, o parágrafo (encadeamento de ideias).

Camada 1 — Nível de frase: quem faz o quê (estrutura básica)

Objetivo: garantir que sujeito, verbo e complementos estejam claros e bem relacionados.

  • Cheque concordância: identifique o núcleo do sujeito e ajuste o verbo.
  • Cheque regência: confirme se o verbo/nome pede preposição.
  • Cheque referência: pronomes apontam para um antecedente inequívoco.

Exemplo (antes/depois):

Antes: A discussão sobre redes sociais e seus efeitos geram polêmica.
Depois: A discussão sobre redes sociais e seus efeitos gera polêmica.

Antes: O autor obedeceu as regras do edital.
Depois: O autor obedeceu às regras do edital.

Camada 2 — Nível de período: organizar as relações entre ideias

Objetivo: deixar explícito se a segunda parte explica, contrasta, causa ou conclui a primeira. É aqui que pontuação e conectivos trabalham juntos.

  • Mapeie a relação lógica: causa, consequência, contraste, condição, exemplificação.
  • Escolha o conectivo compatível: “porque/pois” (causa), “por isso/assim” (consequência), “embora/apesar de” (concessão).
  • Estruture a pontuação: use vírgula para adjuntos deslocados e encaixes; use ponto e vírgula para separar blocos densos; evite vírgula entre sujeito e verbo.

Exemplo (antes/depois):

Antes: O acesso à internet aumentou, a desinformação também cresceu, o Estado precisa agir.
Depois: O acesso à internet aumentou; por isso, a desinformação também cresceu. Diante desse cenário, o Estado precisa agir.

Camada 3 — Nível de parágrafo: unidade de ideia e progressão

Objetivo: cada parágrafo deve cumprir uma função (apresentar, explicar, exemplificar, contrapor, concluir parcialmente) e avançar a tese.

  • Frase-tópico: declare a ideia central do parágrafo.
  • Desenvolvimento: explique com causa/efeito, dados, exemplo ou comparação.
  • Amarração: feche apontando a consequência ou preparando o próximo ponto.

Exemplo (antes/depois):

Antes (solto e repetitivo): A educação é importante. A educação muda vidas. A educação precisa de investimento. A educação é um direito.

Depois (unidade e progressão): A educação é um direito e um fator decisivo de mobilidade social. Quando há investimento em infraestrutura e formação docente, o aprendizado se torna mais consistente e reduz desigualdades. Por isso, políticas educacionais devem priorizar continuidade e avaliação de resultados, evitando ações pontuais.

Passo a passo de revisão gramatical (aplicável a qualquer redação)

  1. Faça uma leitura contínua (sem corrigir): marque trechos onde você “tropeça” ao ler; eles costumam concentrar problemas de pontuação, coesão ou referência.
  2. Revise por camadas: (a) frase: concordância/regência/crase; (b) período: conectivos/pontuação; (c) parágrafo: unidade e progressão.
  3. Procure ambiguidades: destaque pronomes como “isso”, “esse”, “tal”, “o que” e confirme se o antecedente está explícito.
  4. Padronize estruturas paralelas: em enumerações e comparações, mantenha a mesma forma sintática.
  5. Enxugue verbos genéricos e repetições: substitua por verbos mais informativos e use retomadas (sinônimo, hiperônimo, expressão resumidora).
  6. Faça uma última varredura de norma-padrão: concordância em sujeitos longos, regência de verbos frequentes, crase em “a + feminino”, e vírgulas estruturais (adjuntos deslocados, orações explicativas).

Reescritas guiadas: como pequenas correções elevam o texto

Exemplo 1 — Clareza + pontuação + coesão

Antes: Muitos jovens usam redes sociais, isso influencia na opinião, e pode causar problemas, como ansiedade.
Depois: Muitos jovens usam redes sociais, e esse uso influencia a formação de opinião. Além disso, pode intensificar problemas como ansiedade.

Exemplo 2 — Regência + crase + precisão

Antes: A campanha visa melhorar a saúde e atender a população carente.
Depois: A campanha visa a melhorar a saúde e atender à população carente.

Exemplo 3 — Concordância + organização do período

Antes: A falta de políticas e a baixa fiscalização contribui para o aumento do desmatamento.
Depois: A falta de políticas e a baixa fiscalização contribuem para o aumento do desmatamento.

Exemplo 4 — Parágrafo: de frases soltas a argumento encadeado

Antes: O transporte público é ruim. As pessoas se atrasam. O trânsito piora. O governo precisa fazer algo.
Depois: A precariedade do transporte público aumenta atrasos e reduz a produtividade urbana. Como consequência, mais pessoas recorrem ao carro, o que intensifica o trânsito e a poluição. Para reverter esse quadro, o poder público deve ampliar a oferta e a confiabilidade do sistema, com metas e fiscalização.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao revisar uma redação de forma eficiente, qual sequência de etapas segue a lógica de revisão em camadas para reduzir ambiguidades e melhorar clareza?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A revisão em camadas é progressiva: primeiro garante-se a estrutura da frase (quem faz o quê), depois organizam-se as relações no período (conectivos e pontuação) e, por fim, assegura-se a unidade e a progressão do parágrafo.

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Concordância verbal na redação: sujeito, verbo e sentido

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