Concordância verbal: a regra central
Concordância verbal é a adequação do verbo ao sujeito em número (singular/plural) e, quando houver, em pessoa (eu, tu, ele...). Em redação, a concordância não é apenas “bater plural”: ela depende de identificar com segurança quem pratica a ação (sujeito) e como esse sujeito está construído na frase (simples, composto, oculto, indeterminado) e do sentido pretendido.
Passo a passo prático para não errar
1) Localize o verbo principal
Em períodos longos, destaque o verbo que carrega a ideia central (não confunda com verbos de orações subordinadas).
Exemplo: “Defender políticas públicas consistentes exige planejamento.” (verbo principal:
exige)
2) Pergunte “quem + verbo?” para achar o sujeito
Faça a pergunta ao verbo principal.
“Defender políticas públicas consistentes exige planejamento.” Quem exige? Defender políticas públicas consistentes (oração reduzida com valor de sujeito; verbo no singular).
Continue em nosso aplicativo e ...- Ouça o áudio com a tela desligada
- Ganhe Certificado após a conclusão
- + de 5000 cursos para você explorar!
Baixar o aplicativo
3) Classifique o sujeito (isso orienta a concordância)
Sujeito simples: um núcleo. Verbo concorda com ele.
Sujeito composto: dois ou mais núcleos. Em regra, verbo no plural.
Sujeito oculto (desinencial): não aparece, mas é recuperável pela desinência verbal ou contexto.
Sujeito indeterminado: não se quer/ não se pode identificar quem pratica a ação. Há construções típicas (ver seção sobre
see 3ª pessoa do plural).
4) Verifique casos que “enganam” em redação
Algumas estruturas deslocam o sujeito, criam núcleos aparentes ou permitem mais de uma concordância. Nelas, prefira a alternativa mais formal e menos ambígua.
Sujeito simples, composto, oculto e indeterminado
Sujeito simples
O verbo concorda com o núcleo do sujeito.
Correto: “A desigualdade impacta a mobilidade social.”
Correto: “O conjunto de medidas foi insuficiente.” (núcleo:
conjunto)
Sujeito composto
Regra geral: verbo no plural.
Correto: “A escola e a família devem atuar em parceria.”
Quando os núcleos formam uma ideia de unidade (situação mais rara em redação), pode ocorrer singular, mas a opção mais segura costuma ser o plural.
Preferível (formal e segura): “A ética e a responsabilidade devem orientar a gestão pública.”
Sujeito oculto
O sujeito não aparece, mas é identificado pela forma verbal.
“Ao analisar os dados, percebemos a necessidade de intervenção.” (sujeito oculto:
nós)
Sujeito indeterminado
Ocorre quando não se identifica o agente. Duas formas frequentes:
Verbo na 3ª pessoa do plural sem sujeito expresso: “Afirmam que a medida é eficaz.” (não se diz quem afirma)
Verbo na 3ª pessoa do singular +
se(índice de indeterminação do sujeito): “Precisa-se de políticas públicas.”
Sujeito posposto (sujeito depois do verbo)
Quando o sujeito vem depois do verbo, é comum “ouvir” o singular e errar o plural. A regra não muda: o verbo concorda com o sujeito, esteja ele antes ou depois.
Inadequado: “Existe muitas soluções para o problema.”
Formal e correto: “Existem muitas soluções para o problema.”
Inadequado: “Chegou ao debate argumentos consistentes.”
Correto: “Chegaram ao debate argumentos consistentes.”
Em redação, uma estratégia de clareza é antecipar o sujeito:
“Muitas soluções existem para o problema.”
Expressões partitivas: “a maioria de”, “parte de”, “grande parte de”
Expressões como a maioria de, parte de, uma parcela de podem levar a duas concordâncias: com o núcleo partitivo (singular) ou com o termo plural que o segue. Em redação formal, costuma-se preferir a concordância com o núcleo partitivo (singular), por ser mais estável e menos sujeita a oscilações.
Mais formal (recomendável): “A maioria dos estudantes defende a ampliação do acesso.”
Aceitável (ênfase no plural): “A maioria dos estudantes defendem a ampliação do acesso.”
Quando o foco é o grupo como unidade (muito comum em textos dissertativos), o singular tende a combinar melhor com o sentido:
“Grande parte dos recursos foi destinada à manutenção.”
Coletivos: “grupo”, “equipe”, “população”, “multidão”
Coletivos no singular pedem verbo no singular, mesmo que indiquem muitos indivíduos.
Correto: “A população cobra respostas do poder público.”
Correto: “O grupo de pesquisadores apresentou os resultados.”
Se o coletivo vier seguido de de + plural, pode haver variação, mas o singular costuma ser a escolha mais formal.
Mais formal: “A equipe de profissionais foi treinada.”
Aceitável (ênfase nos indivíduos): “A equipe de profissionais foram treinados.”
Para evitar ambiguidade, reescreva:
“Os profissionais da equipe foram treinados.”
Porcentagens
Com porcentagens, a concordância varia conforme o elemento que acompanha a porcentagem e o efeito de sentido.
1) Porcentagem + de + plural
Em geral, o verbo pode concordar com a porcentagem (singular) ou com o termo plural. Em redação, é comum concordar com o termo plural, pois ele explicita o conjunto.
Preferível (claro): “30% dos entrevistados apoiam a medida.”
Também possível: “30% dos entrevistados apoia a medida.”
2) Porcentagem + substantivo no singular
Se o termo for singular, o verbo tende ao singular.
“30% da população vive em situação de vulnerabilidade.”
3) Porcentagem sem termo expresso
Quando a porcentagem aparece “solta”, o verbo costuma ficar no singular.
“Apenas 10% foi destinado à prevenção.”
Se a frase ficar ambígua, explicite o referente:
“Apenas 10% do orçamento foi destinado à prevenção.”
Pronomes relativos: “que” e “quem”
Relativo “que”
O verbo da oração relativa concorda com o antecedente de que.
Correto: “Há propostas que reduzem a desigualdade.” (antecedente:
propostas)Correto: “É uma medida que reduz a desigualdade.” (antecedente:
medida)
Relativo “quem”
Com quem, o verbo tende a ficar na 3ª pessoa do singular, porque o pronome é invariável. Em alguns contextos, pode haver concordância com o antecedente, mas, para redação formal, o singular é a opção mais segura.
Preferível (formal): “Fomos nós quem defendeu a proposta.”
Também ocorre: “Fomos nós quem defendemos a proposta.”
Se quiser evitar a oscilação, reescreva:
“Nós defendemos a proposta.”
Orações com “se”: indeterminação do sujeito x voz passiva
O se pode ter funções diferentes, e isso muda a concordância. Em redação, esse é um dos pontos mais cobrados.
1) Índice de indeterminação do sujeito (IIS)
Ocorre com verbos intransitivos, transitivos indiretos ou de ligação. O verbo fica na 3ª pessoa do singular, porque o sujeito é indeterminado.
Correto: “Precisa-se de investimentos em educação.” (verbo: transitivo indireto; regência:
precisar de)Correto: “Trabalha-se com metas de longo prazo.” (transitivo indireto:
trabalhar com)Correto: “Vive-se um período de instabilidade.” (intransitivo em muitos usos; foco na indeterminação)
Teste rápido: se houver preposição exigida pelo verbo (ex.: de, com, em) antes do termo seguinte, é forte indício de IIS e, portanto, verbo no singular.
2) Partícula apassivadora (PA) — voz passiva sintética
Ocorre com verbos transitivos diretos (ou transitivos diretos e indiretos, quando o objeto direto vira sujeito paciente). O termo após o verbo funciona como sujeito paciente; por isso, o verbo concorda com ele.
Correto: “Divulgam-se dados atualizados.” (equivale a “Dados atualizados são divulgados.”)
Correto: “Discute-se o tema.” / “Discutem-se os temas.”
Teste rápido: tente transformar em passiva analítica com “ser”. Se funcionar, é partícula apassivadora e o verbo concorda com o sujeito paciente.
“Divulgam-se dados” → “Dados são divulgados” (funciona)
“Precisa-se de investimentos” → “Investimentos são precisados” (não funciona) ⇒ não é passiva; é indeterminação.
Erros típicos e correções
Inadequado: “Precisam-se de políticas públicas.”
Correto: “Precisa-se de políticas públicas.”
Inadequado: “Divulga-se dados confiáveis.”
Correto: “Divulgam-se dados confiáveis.”
Verbos impessoais: quando não há sujeito
Verbos impessoais não têm sujeito; por isso, ficam sempre na 3ª pessoa do singular. Em redação, os mais frequentes são haver (com sentido de existir), fazer (tempo decorrido) e ser (horas, datas e distância em certas construções).
“Haver” com sentido de existir/ocorrer
Fica no singular, mesmo com termo plural.
Inadequado: “Haviam muitas falhas no projeto.”
Correto: “Havia muitas falhas no projeto.”
Correto: “Houve debates intensos.”
Se quiser usar verbo no plural, troque por existir:
“Existiam muitas falhas no projeto.”
“Fazer” indicando tempo decorrido
Também é impessoal: singular.
Inadequado: “Fazem dois anos que o problema persiste.”
Correto: “Faz dois anos que o problema persiste.”
“Ser” indicando horas e datas
Com horas, ser concorda com o número de horas.
Correto: “São duas horas.”
Correto: “É uma hora.”
Com datas, há variação conforme a estrutura. Em redação, uma forma segura é fazer o verbo concordar com o núcleo expresso (dia/mês/ano).
Correto: “Hoje é dia 31 de janeiro.”
Correto: “Hoje são 31 de janeiro.” (concordância com o número; uso corrente)
Escolhas ambíguas: como tornar a frase mais formal
1) Quando há duas concordâncias possíveis, escolha a mais estável
Em partitivas e coletivos, o singular com o núcleo costuma soar mais formal e evita “vai e volta” de concordância no texto.
Mais formal: “A maioria dos candidatos apresenta propostas genéricas.”
2) Evite distância excessiva entre sujeito e verbo
Quanto mais elementos entre sujeito e verbo, maior o risco de concordar com um termo “intruso”. Reorganize a frase.
Ambíguo/propenso a erro: “A análise dos dados, dos relatórios e das entrevistas indicam falhas.”
Correção 1 (concordância com núcleo): “A análise dos dados, dos relatórios e das entrevistas indica falhas.”
Correção 2 (reescrita mais clara): “Os dados, os relatórios e as entrevistas indicam falhas.”
3) Em construções com “se”, aplique os testes
Se + preposição exigida pelo verbo → indeterminação → singular: “Precisa-se de…”
Dá para passar para “ser + particípio” → passiva → concorda: “Divulgam-se dados” → “Dados são divulgados”
Quadro de consulta rápida
| Estrutura | Como concordar | Exemplo formal |
|---|---|---|
| Sujeito simples | Com o núcleo | “O debate cresce nas redes.” |
| Sujeito composto | Em geral, plural | “A escola e a família devem agir.” |
| Sujeito posposto | Com o sujeito (mesmo depois) | “Existem alternativas viáveis.” |
| Partitivas (“a maioria de”) | Preferência pelo singular (núcleo) | “A maioria dos alunos concorda.” |
| Coletivo | Singular (núcleo coletivo) | “A população exige mudanças.” |
| Porcentagem | Geralmente com o termo expresso | “30% dos jovens relatam…” |
| Relativo “que” | Com o antecedente | “Medidas que reduzem custos…” |
| Relativo “quem” | Preferência: 3ª sing. | “Fomos nós quem propôs…” |
| “Se” (IIS) | Singular | “Precisa-se de ação.” |
| “Se” (PA) | Concorda com sujeito paciente | “Divulgam-se dados.” |
| Impessoais (haver/fazer tempo) | Sempre singular | “Havia falhas.” / “Faz anos…” |