Concordância verbal na redação: sujeito, verbo e sentido

Capítulo 2

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

Concordância verbal: a regra central

Concordância verbal é a adequação do verbo ao sujeito em número (singular/plural) e, quando houver, em pessoa (eu, tu, ele...). Em redação, a concordância não é apenas “bater plural”: ela depende de identificar com segurança quem pratica a ação (sujeito) e como esse sujeito está construído na frase (simples, composto, oculto, indeterminado) e do sentido pretendido.

Passo a passo prático para não errar

1) Localize o verbo principal

Em períodos longos, destaque o verbo que carrega a ideia central (não confunda com verbos de orações subordinadas).

  • Exemplo: “Defender políticas públicas consistentes exige planejamento.” (verbo principal: exige)

2) Pergunte “quem + verbo?” para achar o sujeito

Faça a pergunta ao verbo principal.

  • “Defender políticas públicas consistentes exige planejamento.” Quem exige? Defender políticas públicas consistentes (oração reduzida com valor de sujeito; verbo no singular).

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3) Classifique o sujeito (isso orienta a concordância)

  • Sujeito simples: um núcleo. Verbo concorda com ele.

  • Sujeito composto: dois ou mais núcleos. Em regra, verbo no plural.

  • Sujeito oculto (desinencial): não aparece, mas é recuperável pela desinência verbal ou contexto.

  • Sujeito indeterminado: não se quer/ não se pode identificar quem pratica a ação. Há construções típicas (ver seção sobre se e 3ª pessoa do plural).

4) Verifique casos que “enganam” em redação

Algumas estruturas deslocam o sujeito, criam núcleos aparentes ou permitem mais de uma concordância. Nelas, prefira a alternativa mais formal e menos ambígua.

Sujeito simples, composto, oculto e indeterminado

Sujeito simples

O verbo concorda com o núcleo do sujeito.

  • Correto: “A desigualdade impacta a mobilidade social.”

  • Correto: “O conjunto de medidas foi insuficiente.” (núcleo: conjunto)

Sujeito composto

Regra geral: verbo no plural.

  • Correto: “A escola e a família devem atuar em parceria.”

Quando os núcleos formam uma ideia de unidade (situação mais rara em redação), pode ocorrer singular, mas a opção mais segura costuma ser o plural.

  • Preferível (formal e segura): “A ética e a responsabilidade devem orientar a gestão pública.”

Sujeito oculto

O sujeito não aparece, mas é identificado pela forma verbal.

  • “Ao analisar os dados, percebemos a necessidade de intervenção.” (sujeito oculto: nós)

Sujeito indeterminado

Ocorre quando não se identifica o agente. Duas formas frequentes:

  • Verbo na 3ª pessoa do plural sem sujeito expresso:Afirmam que a medida é eficaz.” (não se diz quem afirma)

  • Verbo na 3ª pessoa do singular + se (índice de indeterminação do sujeito):Precisa-se de políticas públicas.”

Sujeito posposto (sujeito depois do verbo)

Quando o sujeito vem depois do verbo, é comum “ouvir” o singular e errar o plural. A regra não muda: o verbo concorda com o sujeito, esteja ele antes ou depois.

  • Inadequado:Existe muitas soluções para o problema.”

  • Formal e correto:Existem muitas soluções para o problema.”

  • Inadequado:Chegou ao debate argumentos consistentes.”

  • Correto:Chegaram ao debate argumentos consistentes.”

Em redação, uma estratégia de clareza é antecipar o sujeito:

  • “Muitas soluções existem para o problema.”

Expressões partitivas: “a maioria de”, “parte de”, “grande parte de”

Expressões como a maioria de, parte de, uma parcela de podem levar a duas concordâncias: com o núcleo partitivo (singular) ou com o termo plural que o segue. Em redação formal, costuma-se preferir a concordância com o núcleo partitivo (singular), por ser mais estável e menos sujeita a oscilações.

  • Mais formal (recomendável): “A maioria dos estudantes defende a ampliação do acesso.”

  • Aceitável (ênfase no plural): “A maioria dos estudantes defendem a ampliação do acesso.”

Quando o foco é o grupo como unidade (muito comum em textos dissertativos), o singular tende a combinar melhor com o sentido:

  • “Grande parte dos recursos foi destinada à manutenção.”

Coletivos: “grupo”, “equipe”, “população”, “multidão”

Coletivos no singular pedem verbo no singular, mesmo que indiquem muitos indivíduos.

  • Correto: “A população cobra respostas do poder público.”

  • Correto: “O grupo de pesquisadores apresentou os resultados.”

Se o coletivo vier seguido de de + plural, pode haver variação, mas o singular costuma ser a escolha mais formal.

  • Mais formal: “A equipe de profissionais foi treinada.”

  • Aceitável (ênfase nos indivíduos): “A equipe de profissionais foram treinados.”

Para evitar ambiguidade, reescreva:

  • “Os profissionais da equipe foram treinados.”

Porcentagens

Com porcentagens, a concordância varia conforme o elemento que acompanha a porcentagem e o efeito de sentido.

1) Porcentagem + de + plural

Em geral, o verbo pode concordar com a porcentagem (singular) ou com o termo plural. Em redação, é comum concordar com o termo plural, pois ele explicita o conjunto.

  • Preferível (claro): “30% dos entrevistados apoiam a medida.”

  • Também possível: “30% dos entrevistados apoia a medida.”

2) Porcentagem + substantivo no singular

Se o termo for singular, o verbo tende ao singular.

  • “30% da população vive em situação de vulnerabilidade.”

3) Porcentagem sem termo expresso

Quando a porcentagem aparece “solta”, o verbo costuma ficar no singular.

  • “Apenas 10% foi destinado à prevenção.”

Se a frase ficar ambígua, explicite o referente:

  • “Apenas 10% do orçamento foi destinado à prevenção.”

Pronomes relativos: “que” e “quem”

Relativo “que”

O verbo da oração relativa concorda com o antecedente de que.

  • Correto: “Há propostas que reduzem a desigualdade.” (antecedente: propostas)

  • Correto: “É uma medida que reduz a desigualdade.” (antecedente: medida)

Relativo “quem”

Com quem, o verbo tende a ficar na 3ª pessoa do singular, porque o pronome é invariável. Em alguns contextos, pode haver concordância com o antecedente, mas, para redação formal, o singular é a opção mais segura.

  • Preferível (formal): “Fomos nós quem defendeu a proposta.”

  • Também ocorre: “Fomos nós quem defendemos a proposta.”

Se quiser evitar a oscilação, reescreva:

  • “Nós defendemos a proposta.”

Orações com “se”: indeterminação do sujeito x voz passiva

O se pode ter funções diferentes, e isso muda a concordância. Em redação, esse é um dos pontos mais cobrados.

1) Índice de indeterminação do sujeito (IIS)

Ocorre com verbos intransitivos, transitivos indiretos ou de ligação. O verbo fica na 3ª pessoa do singular, porque o sujeito é indeterminado.

  • Correto:Precisa-se de investimentos em educação.” (verbo: transitivo indireto; regência: precisar de)

  • Correto:Trabalha-se com metas de longo prazo.” (transitivo indireto: trabalhar com)

  • Correto:Vive-se um período de instabilidade.” (intransitivo em muitos usos; foco na indeterminação)

Teste rápido: se houver preposição exigida pelo verbo (ex.: de, com, em) antes do termo seguinte, é forte indício de IIS e, portanto, verbo no singular.

2) Partícula apassivadora (PA) — voz passiva sintética

Ocorre com verbos transitivos diretos (ou transitivos diretos e indiretos, quando o objeto direto vira sujeito paciente). O termo após o verbo funciona como sujeito paciente; por isso, o verbo concorda com ele.

  • Correto:Divulgam-se dados atualizados.” (equivale a “Dados atualizados são divulgados.”)

  • Correto:Discute-se o tema.” / “Discutem-se os temas.”

Teste rápido: tente transformar em passiva analítica com “ser”. Se funcionar, é partícula apassivadora e o verbo concorda com o sujeito paciente.

  • “Divulgam-se dados” → “Dados são divulgados” (funciona)

  • “Precisa-se de investimentos” → “Investimentos são precisados” (não funciona) ⇒ não é passiva; é indeterminação.

Erros típicos e correções

  • Inadequado:Precisam-se de políticas públicas.”

  • Correto:Precisa-se de políticas públicas.”

  • Inadequado:Divulga-se dados confiáveis.”

  • Correto:Divulgam-se dados confiáveis.”

Verbos impessoais: quando não há sujeito

Verbos impessoais não têm sujeito; por isso, ficam sempre na 3ª pessoa do singular. Em redação, os mais frequentes são haver (com sentido de existir), fazer (tempo decorrido) e ser (horas, datas e distância em certas construções).

“Haver” com sentido de existir/ocorrer

Fica no singular, mesmo com termo plural.

  • Inadequado:Haviam muitas falhas no projeto.”

  • Correto:Havia muitas falhas no projeto.”

  • Correto:Houve debates intensos.”

Se quiser usar verbo no plural, troque por existir:

  • Existiam muitas falhas no projeto.”

“Fazer” indicando tempo decorrido

Também é impessoal: singular.

  • Inadequado:Fazem dois anos que o problema persiste.”

  • Correto:Faz dois anos que o problema persiste.”

“Ser” indicando horas e datas

Com horas, ser concorda com o número de horas.

  • Correto:São duas horas.”

  • Correto:É uma hora.”

Com datas, há variação conforme a estrutura. Em redação, uma forma segura é fazer o verbo concordar com o núcleo expresso (dia/mês/ano).

  • Correto: “Hoje é dia 31 de janeiro.”

  • Correto: “Hoje são 31 de janeiro.” (concordância com o número; uso corrente)

Escolhas ambíguas: como tornar a frase mais formal

1) Quando há duas concordâncias possíveis, escolha a mais estável

Em partitivas e coletivos, o singular com o núcleo costuma soar mais formal e evita “vai e volta” de concordância no texto.

  • Mais formal: “A maioria dos candidatos apresenta propostas genéricas.”

2) Evite distância excessiva entre sujeito e verbo

Quanto mais elementos entre sujeito e verbo, maior o risco de concordar com um termo “intruso”. Reorganize a frase.

  • Ambíguo/propenso a erro: “A análise dos dados, dos relatórios e das entrevistas indicam falhas.”

  • Correção 1 (concordância com núcleo): “A análise dos dados, dos relatórios e das entrevistas indica falhas.”

  • Correção 2 (reescrita mais clara): “Os dados, os relatórios e as entrevistas indicam falhas.”

3) Em construções com “se”, aplique os testes

  • Se + preposição exigida pelo verbo → indeterminação → singular: “Precisa-se de…”

  • Dá para passar para “ser + particípio” → passiva → concorda: “Divulgam-se dados” → “Dados são divulgados”

Quadro de consulta rápida

EstruturaComo concordarExemplo formal
Sujeito simplesCom o núcleo“O debate cresce nas redes.”
Sujeito compostoEm geral, plural“A escola e a família devem agir.”
Sujeito pospostoCom o sujeito (mesmo depois)Existem alternativas viáveis.”
Partitivas (“a maioria de”)Preferência pelo singular (núcleo)“A maioria dos alunos concorda.”
ColetivoSingular (núcleo coletivo)“A população exige mudanças.”
PorcentagemGeralmente com o termo expresso“30% dos jovens relatam…”
Relativo “que”Com o antecedente“Medidas que reduzem custos…”
Relativo “quem”Preferência: 3ª sing.“Fomos nós quem propôs…”
“Se” (IIS)SingularPrecisa-se de ação.”
“Se” (PA)Concorda com sujeito pacienteDivulgam-se dados.”
Impessoais (haver/fazer tempo)Sempre singularHavia falhas.” / “Faz anos…”

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em uma frase com “se”, qual alternativa aplica corretamente o critério para distinguir indeterminação do sujeito e voz passiva, garantindo a concordância verbal adequada em redação formal?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O “se” pode indicar indeterminação (com preposição exigida pelo verbo, mantendo 3ª do singular) ou passiva sintética (quando aceita “ser + particípio”, fazendo o verbo concordar com o sujeito paciente).

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