O que é governança em um Design System (e por que ela evita ruído)
Governança é o conjunto de papéis, responsabilidades, regras e rituais que define como o Design System evolui com segurança, previsibilidade e qualidade. Na prática, é o “sistema do sistema”: quem pode propor mudanças, como essas mudanças são avaliadas, como se decide prioridade, como se publica uma nova versão e como se garante que produto e engenharia consigam adotar sem surpresas.
Sem governança, o Design System tende a cair em alguns padrões comuns: componentes duplicados com nomes diferentes, decisões inconsistentes entre squads, mudanças que quebram telas existentes, discussões intermináveis sem critério objetivo e um backlog de “ajustes” que nunca vira entrega. Com governança, o Design System vira um produto interno com fluxo claro: entrada (solicitação), triagem, design, revisão, implementação, validação, publicação e adoção.

Governança não significa burocracia pesada. Significa reduzir ambiguidade. O objetivo é criar um caminho simples para contribuir e, ao mesmo tempo, proteger a integridade do sistema. Um bom modelo de governança é leve o suficiente para não travar o time e rigoroso o suficiente para manter consistência.
Modelos de governança: centralizado, federado e híbrido
Centralizado
Um time de Design System (DS) é responsável pela maior parte das decisões e entregas. Squads de produto consomem e solicitam mudanças.
- Quando funciona bem: organizações menores, produtos com forte necessidade de consistência, times com maturidade desigual.
- Riscos: gargalo; time de DS vira “fila” e perde contexto de produto.
Federado
Squads contribuem diretamente; existe um comitê/maintainers que revisa e aprova. A execução pode acontecer fora do time central.
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- Quando funciona bem: organizações com muitas squads, alta velocidade, cultura de colaboração e padrões bem definidos.
- Riscos: divergência de decisões se critérios não forem claros; qualidade varia entre contribuições.
Híbrido (mais comum)
Um núcleo de DS mantém padrões e componentes críticos; squads contribuem em áreas específicas com revisão obrigatória. É um equilíbrio entre escala e controle.
- Quando funciona bem: empresas em crescimento, com múltiplos produtos e necessidade de acelerar sem perder consistência.
Papéis essenciais e responsabilidades (RACI simplificado)
Definir papéis evita “terra de ninguém” e reduz retrabalho. Abaixo, um conjunto de papéis comuns e como eles se conectam. Você pode adaptar nomes e escopo conforme a estrutura da empresa.
Design System Lead (ou Product Owner do DS)
- Responsável por: visão, roadmap, priorização, alinhamento com liderança, definição de critérios de sucesso.
- Decide: o que entra no backlog e quando; trade-offs entre velocidade e qualidade.
Maintainers de Design (Design Ops/Designers do DS)
- Responsável por: qualidade visual e consistência, revisão de contribuições, definição de padrões de uso, curadoria do sistema.
- Decide: se uma proposta atende critérios de consistência, escalabilidade e alinhamento com padrões existentes.
Maintainers de Engenharia (Front-end/Design System Engineers)
- Responsável por: viabilidade técnica, API de componentes, compatibilidade, versionamento, publicação e migração.
- Decide: se a mudança é breaking, se exige depreciação, como será o plano de adoção.
Contribuidores (Designers e Devs de squads)
- Responsável por: propor melhorias, trazer casos reais, implementar mudanças quando combinado, validar em contexto de produto.
- Decide: detalhes do caso de uso e evidências (telas, métricas, problemas) que justificam a solicitação.
Stakeholders de Produto (PMs, Research, QA, Suporte)
- Responsável por: sinalizar impacto em roadmap, riscos, necessidades de usuários, qualidade e regressões.
- Decide: prioridade relativa quando há conflito entre demandas de produto e manutenção do sistema (em conjunto com o DS Lead).
RACI rápido (exemplo)
- Adicionar novo componente: Responsible: Contribuidor + Maintainer DS; Accountable: DS Lead; Consulted: Eng; Informed: squads afetadas.
- Alterar componente existente: Responsible: Maintainers (Design+Eng); Accountable: DS Lead; Consulted: squads usuárias; Informed: org.
- Breaking change: Responsible: Maintainers Eng; Accountable: DS Lead; Consulted: PMs e squads; Informed: todos consumidores.
Rituais de governança: cadência que mantém o sistema vivo
Rituais são encontros e checkpoints recorrentes que tornam a evolução do Design System previsível. Abaixo está um conjunto prático de rituais com objetivo, participantes e saída esperada. Ajuste a frequência conforme o volume de mudanças.
1) Intake/Triagem de solicitações (semanal)
Objetivo: avaliar novas solicitações, eliminar duplicidade, classificar urgência e definir próximos passos.
- Participantes: DS Lead, Maintainer Design, Maintainer Eng (mínimo).
- Entradas: pedidos de squads, bugs, gaps de documentação, demandas de acessibilidade, inconsistências detectadas.
- Saídas: cada item vira: “rejeitado com justificativa”, “precisa de mais info”, “aceito e priorizado”, ou “direcionado para padrão existente”.
2) Office hours do Design System (semanal ou quinzenal)
Objetivo: reduzir atrito de adoção e evitar que squads criem soluções paralelas por falta de suporte.
- Participantes: Maintainers (Design/Eng) e qualquer pessoa da org.
- Saídas: decisões rápidas de uso, identificação de lacunas recorrentes que viram backlog.
3) Design review de contribuições (2x por semana ou assíncrono com SLA)
Objetivo: revisar propostas de mudança com critérios consistentes.
- Participantes: Maintainers Design + contribuidor.
- Saídas: aprovado, aprovado com ajustes, ou reprovado com orientação clara.
4) Engineering review / API review (semanal)
Objetivo: garantir viabilidade, compatibilidade e estratégia de versionamento.
- Participantes: Maintainers Eng + contribuidor dev + Maintainer Design quando necessário.
- Saídas: decisão sobre breaking change, plano de migração, checklist de testes/regressão.
5) Release planning e changelog (quinzenal ou mensal)
Objetivo: consolidar o que será publicado, comunicar impacto e preparar adoção.
- Participantes: DS Lead, Maintainers, representantes de squads-chave.
- Saídas: versão, changelog, itens depreciados, datas e responsáveis por migração.
6) Conselho de Design System (mensal)
Objetivo: decisões de alto impacto: novos padrões, mudanças de direção, conflitos entre squads, investimentos.
- Participantes: DS Lead, liderança de design/engenharia, PMs relevantes, maintainers.
- Saídas: decisões registradas (decision log) e alinhamento de prioridades.
Critérios de contribuição: o que pode entrar no sistema
Critérios explícitos evitam que o Design System vire um repositório de “qualquer coisa reutilizável”. Um componente ou padrão entra no sistema quando resolve um problema recorrente, é generalizável e tem custo de manutenção justificável.
Checklist de elegibilidade (use como gate de entrada)
- Recorrência: aparece em pelo menos 2–3 fluxos/squads ou tem alta probabilidade de reaparecer.
- Generalização: não depende de regras específicas de um único produto/feature.
- Consistência: não conflita com padrões existentes; se conflita, existe justificativa e plano de migração.
- Escopo claro: o que o componente faz e o que não faz (anti-escopo).
- Estados e variações: contempla estados essenciais (ex.: loading, disabled, erro) conforme necessidade real.
- Acessibilidade: atende requisitos mínimos definidos pela org (ex.: foco visível, contraste, navegação por teclado quando aplicável).
- Viabilidade técnica: API e implementação são sustentáveis; não exige hacks frágeis.
- Custo de manutenção: time consegue manter e evoluir sem virar dívida.
- Documentabilidade: é possível explicar uso correto com exemplos e regras objetivas.
Critérios para recusar (com alternativa)
- É específico de campanha/marketing pontual: sugerir padrão local do produto, sem entrar no DS.
- É apenas uma combinação de componentes existentes: sugerir composição no produto ou criar “padrão” (guideline) em vez de novo componente.
- Existe componente equivalente: orientar adoção do existente e, se necessário, abrir item de melhoria do atual.
- Não há caso de uso validado: pedir evidências (telas, protótipos, métricas, feedback de usuários) antes de aceitar.
Fluxo prático de contribuição (passo a passo)
A seguir, um fluxo enxuto que funciona bem em governança híbrida ou federada. Ele descreve o caminho desde a necessidade até a publicação, com pontos de controle para reduzir ruído no handoff.
Passo 1: Abrir uma solicitação com contexto mínimo
Padronize um formulário (em ferramenta de tickets) para evitar pedidos vagos. Campos recomendados:
- Problema: o que está difícil/inconsistente hoje?
- Onde acontece: links para telas/frames e fluxos.
- Impacto: quantas squads/áreas são afetadas; risco de inconsistência.
- Proposta inicial: componente novo, ajuste em componente existente, guideline, ou dúvida.
- Prazos: existe dependência de release?
- Critérios de aceite: como saberemos que resolveu?
Passo 2: Triagem e classificação
Na triagem, classifique o item para orientar o nível de rigor:
- Bug: algo que já existe e está incorreto.
- Enhancement: melhoria incremental sem quebrar compatibilidade.
- New: novo componente/padrão.
- Breaking: mudança que exige migração.
- Docs-only: ajuste de documentação/uso.
Defina também prioridade (P0–P3) com base em impacto e urgência, e atribua um maintainer responsável por conduzir.
Passo 3: Descoberta rápida (quando necessário)
Para itens “New” ou “Breaking”, faça uma descoberta curta para evitar desenhar no escuro:
- Mapear variações reais nas telas existentes (o que muda e por quê).
- Identificar decisões que precisam de alinhamento (ex.: comportamento em erro, regras de truncamento, densidade).
- Checar dependências com engenharia (limitações, padrões de implementação, compatibilidade).
Passo 4: Proposta de solução e registro de decisão
Transforme a proposta em algo revisável: uma especificação curta com alternativas consideradas. Registre a decisão em um decision log (um histórico de decisões) para evitar reabrir a mesma discussão no futuro.
Estrutura simples de decisão:
- Contexto: por que isso existe.
- Opções: A, B, C (mesmo que sejam poucas).
- Decisão: o que foi escolhido.
- Consequências: impactos e migração.
Passo 5: Revisão de design (critérios objetivos)
Use uma checklist para reduzir subjetividade. Exemplos de perguntas:
- Isso reutiliza padrões existentes sempre que possível?
- As variações são mínimas e justificadas por casos reais?
- O comportamento está claro (o que acontece em erro, loading, vazio)?
- Há risco de ambiguidade na escolha entre dois componentes parecidos?
Passo 6: Revisão técnica e classificação de mudança (breaking ou não)
Antes de publicar, classifique a mudança:
- Patch: correção sem alterar API/uso.
- Minor: adiciona capacidade sem quebrar.
- Major: quebra compatibilidade; exige migração e comunicação ampla.
Mesmo no Figma, essa mentalidade ajuda: mudanças visuais ou estruturais podem “quebrar” instâncias em arquivos consumidores (ex.: remoção de variant usada, renomeações, alterações que mudam layout de forma inesperada). Trate isso como major e planeje.
Passo 7: Plano de migração e depreciação
Quando houver substituição, defina:
- O que está depreciado: componente/variant antigo.
- Substituto: qual usar e como mapear.
- Prazo: até quando o antigo será suportado.
- Responsáveis: quem migra (DS team, squads, ou parceria).
Passo 8: Publicação e comunicação
Publique com changelog padronizado. Um bom changelog responde:
- O que mudou (objetivo e resumo).
- Quem é impactado (quais squads/produtos).
- O que fazer (passos de adoção/migração).
- Exemplos (antes/depois, quando aplicável).
Critérios de revisão: qualidade, consistência e sustentabilidade
Revisão não é “aprovar visualmente”. É avaliar se a mudança é sustentável e se reduz entropia. Abaixo, critérios práticos para revisão de contribuições.
1) Consistência com padrões existentes
- O componente segue o mesmo padrão de estrutura e comportamento de componentes similares?
- Há alinhamento com decisões anteriores registradas?
- Evita criar um “novo dialeto” de UI para um caso específico?
2) Clareza de uso (evitar ambiguidade)
- É fácil decidir quando usar este componente versus outro?
- As propriedades/variações têm nomes e propósito claros?
- Há regras de uso que previnem combinações inválidas?
3) Escalabilidade e manutenção
- O número de variações é o mínimo necessário?
- Existe risco de explosão de combinações?
- O componente permite evolução sem refazer tudo?
4) Compatibilidade e impacto em consumidores
- Isso altera instâncias existentes? Como detectar e corrigir?
- Há plano de migração e comunicação?
- Existe um período de convivência (old/new) quando necessário?
5) Evidência e justificativa
- Há exemplos reais de tela e problema?
- O ganho é mensurável (menos inconsistência, menos tempo de design/dev, menos bugs)?
- O custo de introduzir e manter compensa?
Políticas que reduzem ruído: regras simples e aplicáveis
Política 1: “Um componente entra quando há dono”
Cada componente/padrão precisa de um maintainer responsável por revisões futuras. Sem dono, vira dívida. O dono não precisa ser sempre a mesma pessoa, mas precisa existir uma fila clara de responsabilidade.
Política 2: “Sem renomear ou reorganizar sem motivo e sem aviso”
Mudanças estruturais que afetam consumo devem ser tratadas como mudanças de alto impacto. Exija ticket, justificativa, plano e comunicação. Isso evita que squads abram o arquivo e encontrem tudo “sumido”.
Política 3: “Preferir melhorar o existente a criar o novo”
Antes de criar um novo componente, a revisão deve responder: por que o existente não pode ser estendido? Se a resposta for “porque é mais rápido”, isso geralmente vira duplicação.
Política 4: “Documentação e exemplo são parte da entrega”
Uma contribuição só é considerada pronta quando inclui regras de uso e exemplos suficientes para evitar interpretações divergentes. Isso reduz perguntas repetidas e uso incorreto.
Política 5: “Mudança grande exige piloto”
Para mudanças maiores, escolha 1–2 fluxos reais para pilotar antes de publicar amplamente. O piloto revela lacunas e reduz retrabalho.
Como lidar com conflitos e exceções sem quebrar o sistema
Conflitos acontecem: uma squad precisa de algo “agora”, mas o Design System precisa manter consistência. Governança define como exceções são tratadas.
Exceção controlada (padrão recomendado)
- Regra: exceções são permitidas, mas registradas e com prazo para revisão.
- Como: criar um ticket de exceção com justificativa, impacto, e plano de convergência.
- Benefício: o produto não para, e o DS não perde rastreabilidade.
Critérios para aprovar exceção
- Existe urgência real (dependência de release) e não há alternativa no DS.
- A exceção não cria um padrão que será copiado indiscriminadamente.
- Há compromisso de revisão em data definida (ex.: próximo ciclo).
Métricas e sinais de saúde da governança (para ajustar o processo)
Governança boa é aquela que melhora com dados. Alguns indicadores simples ajudam a calibrar rigor e cadência:
- Tempo de ciclo de uma contribuição: da solicitação à publicação. Se cresce demais, há gargalo.
- Taxa de retrabalho em revisão: muitas idas e voltas indicam critérios pouco claros.
- Volume de exceções: alto volume pode indicar lacunas no sistema ou processo lento.
- Duplicidade detectada: quantos componentes/padrões similares surgem fora do DS.
- Adoção pós-release: quantas squads migraram e em quanto tempo (especialmente em changes major).
Templates práticos (copie e adapte)
Template de ticket de contribuição
Tipo: Bug | Enhancement | New | Breaking | Docs-only Prioridade: P0 | P1 | P2 | P3 Problema: (descreva o problema e por que importa) Contexto: (links para frames/telas/fluxos) Usuários afetados: (quem sente o problema) Solução proposta: (o que você sugere) Alternativas consideradas: (se houver) Impacto esperado: (consistência, velocidade, redução de bugs) Dependências/prazo: (se houver) Critérios de aceite: (como validar que está ok)Template de checklist de revisão (design + eng)
Consistência: - Reutiliza padrões existentes? - Evita duplicação? Clareza: - Regras de uso estão explícitas? - Há exemplos suficientes? Escalabilidade: - Variações mínimas e justificadas? - Evita explosão de combinações? Compatibilidade: - Impacta instâncias existentes? - É breaking? Precisa migração? Acessibilidade: - Estados essenciais cobertos? - Foco/teclado/contraste quando aplicável? Comunicação: - Changelog pronto? - Plano de adoção/migração definido?Template de changelog (para cada release)
Versão: X.Y.Z Adicionado: - (novo componente/padrão + quando usar) Alterado: - (mudanças compatíveis + impacto) Corrigido: - (bugs) Depreciado: - (o que será removido + prazo + substituto) Breaking changes: - (o que quebrou + como migrar) Adoção recomendada: - (passos práticos e links para exemplos)