O que é gestão de insumos e por que ela afeta diretamente o custo por hectare
Gestão de insumos é o conjunto de processos para comprar, receber, armazenar, controlar, rastrear e comprovar o uso de fertilizantes, sementes, defensivos, adjuvantes e itens correlatos, garantindo disponibilidade no momento certo, qualidade conforme especificação e conformidade legal e contratual. Na agricultura comercial, o impacto é direto em três frentes: (1) custo (preço, frete, impostos, perdas e capital imobilizado), (2) risco (falta de produto, produto fora de especificação, vencimento, contaminação cruzada) e (3) conformidade (exigências de clientes, auditorias e certificações).
Compras estratégicas: do planejamento à contratação
1) Preparação: transformar necessidade agronômica em especificação de compra
Antes de cotar, converta a demanda em uma especificação técnica e logística. Isso evita comparar propostas incomparáveis e reduz risco de receber produto inadequado.
- O que definir: produto (nome técnico/descrição), concentração/formulação (quando aplicável), embalagem, tolerâncias, lote mínimo, condições de transporte, prazo de entrega, local de entrega, necessidade de FISPQ, exigências de rotulagem e documentação fiscal.
- Quantidades: por safra, por janela de uso e por unidade operacional (fazenda/filial/armazém).
- Critérios de aceitação: parâmetros de qualidade, validade mínima, integridade de embalagem, lacres, e requisitos de armazenamento.
2) Cotação estruturada (RFQ): comparar preço total e risco
Faça a cotação com um formulário padrão para todos os fornecedores, pedindo que respondam nos mesmos campos. Avalie pelo custo total, não apenas pelo preço unitário.
- Itens mínimos na RFQ: especificação, quantidade, Incoterm/condição de entrega, prazo, forma de pagamento, impostos, frete, política de devolução, validade mínima, documentação obrigatória (FISPQ, laudos quando aplicável).
- Comparação: use uma planilha com colunas para preço, frete, prazo, condições, risco (histórico, assistência, conformidade) e custo financeiro (prazo de pagamento vs. necessidade de caixa).
3) Negociação: alavancas práticas
Negociar em agricultura comercial é combinar preço, prazo, serviço e risco. Algumas alavancas comuns:
- Volume e recorrência: consolidar compras por grupo de fazendas ou por safra.
- Calendário de entrega: entregas programadas (parciais) reduzem estoque e risco de vencimento.
- Pacotes: combinar itens (ex.: fertilizantes + corretivos; sementes + tratamento industrial; defensivos + adjuvantes) com metas de preço e serviço. Exija discriminação de valores para manter transparência.
- Serviços agregados: treinamento de manuseio, suporte técnico, logística reversa de embalagens, acompanhamento de qualidade no recebimento.
- Cláusulas de qualidade e devolução: condições claras para não conformidade (NC) e prazos para substituição.
4) Barter (quando aplicável): como avaliar sem “ilusão de preço”
Barter é a troca/contrato em que insumos são pagos com produto agrícola futuro (ou indexado a ele). A gestão correta exige comparar com compra à vista/financiada usando métricas equivalentes.
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- Passo a passo de avaliação:
- Converta o barter em custo por tonelada/saca comprometida e em custo por hectare.
- Compare com alternativa em dinheiro considerando custo de capital (juros/financiamento), risco de preço e prêmios/deságios.
- Verifique condições de entrega do grão (praça, qualidade, umidade, descontos), garantias e penalidades.
- Defina limite de comprometimento (% da produção esperada) para não travar excesso de volume em cenário de quebra.
- Controle interno: registre o barter como contrato com obrigações futuras, vinculando lotes/entregas e mantendo trilha de auditoria.
5) Contratação e governança: regras simples que evitam perdas
- Pedido/contrato com anexos: especificação técnica, critérios de aceitação, validade mínima, documentação, prazos e penalidades.
- Separação de funções: quem solicita ≠ quem aprova ≠ quem recebe ≠ quem dá baixa no estoque (reduz fraudes e erros).
- Limites de aprovação: por valor e por categoria de risco (defensivos e produtos controlados com regras mais rígidas).
Avaliação de fornecedores e controle de qualidade
Scorecard de fornecedores (modelo prático)
Use uma pontuação simples (0–5) por critério e reavalie a cada safra.
| Critério | O que observar | Evidência |
|---|---|---|
| Conformidade documental | NF correta, FISPQ, rótulos, licenças quando aplicável | Checklist de recebimento |
| Qualidade do produto | Integridade, validade, laudos quando exigidos, ausência de avarias | Registros de NC e devoluções |
| Entrega e logística | Prazo, completude, condições de transporte | OTIF (On Time In Full) |
| Suporte e pós-venda | Agilidade em trocas, assistência técnica, treinamento | SLA e histórico de atendimento |
| Competitividade | Preço total, condições de pagamento, flexibilidade | Mapa de cotações |
Controle de qualidade no recebimento: checklist por categoria
Padronize o recebimento com um checklist e registre fotos quando houver avaria. Se possível, faça conferência em área coberta e com boa iluminação.
- Fertilizantes: conferir tipo/formulação, lote, peso, integridade de sacos/big bags, umidade aparente, empedramento, contaminação, validade quando aplicável, e condições do transporte.
- Sementes: conferir lote, validade, tratamento, integridade das embalagens, documentação de qualidade exigida, e condições de armazenamento recomendadas.
- Defensivos: conferir registro do produto (conforme rótulo), lote, validade, lacres, integridade de frascos/caixas, presença de FISPQ, e compatibilidade com o local de armazenamento (classe/segregação).
Quando houver não conformidade, isole o material, identifique como “QUARENTENA”, comunique compras e fornecedor e registre a ocorrência (data, lote, fotos, decisão: devolução/substituição/aceite com ressalva).
Armazenagem segura: segregação, validade, FISPQ, inventário e auditorias
Princípios de um armazém de insumos eficiente
- Segurança: reduzir risco de incêndio, intoxicação, contaminação e acidentes.
- Integridade: manter qualidade (temperatura, umidade, luz, empilhamento correto).
- Rastreabilidade: localizar rapidamente por lote e data.
- Controle: entradas/saídas registradas, inventário confiável e perdas monitoradas.
Layout e segregação (regras práticas)
- Zonas separadas: (1) recebimento e inspeção, (2) quarentena, (3) estoque liberado, (4) devoluções/avarias, (5) área de preparo/expedição.
- Segregação por risco: defensivos separados de sementes e fertilizantes; produtos incompatíveis separados entre si conforme orientação de segurança e FISPQ.
- Controle de acesso: armazém trancado, acesso apenas a pessoas autorizadas e treinadas.
- Ventilação e contenção: boa ventilação e medidas para conter vazamentos/derramamentos (bacias/áreas de contenção quando aplicável).
- Sinalização: identificação de áreas, rotas de emergência e equipamentos de segurança (sem depender de marcas).
Validade e rotação: FEFO na prática
Para insumos com vencimento, use FEFO (First Expire, First Out): primeiro a vencer, primeiro a sair.
- Passo a passo:
- Na entrada, registre lote e validade.
- Armazene fisicamente por ordem de vencimento (endereçamento por rua/posição).
- Na separação, o sistema/planilha sugere o lote com menor validade.
- Crie alertas de vencimento (ex.: 120/90/60 dias) para remanejamento ou devolução negociada.
FISPQ e procedimentos de segurança
A FISPQ (Ficha de Informações de Segurança de Produtos Químicos) deve estar disponível e acessível para produtos químicos armazenados. Ela orienta EPI, primeiros socorros, combate a incêndio, manuseio e armazenamento.
- Boas práticas: manter versão atual, arquivo físico em local conhecido e cópia digital; treinar equipe para localizar rapidamente; vincular FISPQ ao cadastro do item.
- Kit de emergência: materiais para contenção e limpeza de derramamentos conforme necessidade do armazém e orientação de segurança.
Inventário, controle de perdas e auditorias
O estoque precisa ser confiável para evitar compras desnecessárias e falta de produto no pico operacional.
- Inventário rotativo (cíclico): conte itens críticos semanalmente e o restante mensalmente (ou por curva ABC).
- Quebras e perdas: registre motivo (avaria, vazamento, vencimento, erro de baixa, furto) e trate como indicador.
- Auditorias internas: verifique aderência ao POP, validade, segregação, limpeza, endereçamento, documentação e registros de movimentação.
Indicadores úteis: acurácia de estoque (%), perdas por categoria (R$/ha), OTIF de fornecedores, % de itens vencidos, tempo médio de atendimento de NC.
Rastreabilidade por lote e registros operacionais
O que rastrear (mínimo viável) para atender clientes e auditorias
Rastreabilidade é a capacidade de reconstruir a história do insumo: de qual lote veio, onde foi armazenado, quando foi aplicado e em quais talhões/áreas. Um mínimo viável bem feito costuma atender exigências de clientes e certificações.
- Dados mínimos por insumo: item, fornecedor, NF, lote, validade, quantidade recebida, local/endereço no armazém.
- Dados mínimos por movimentação: data, responsável, quantidade, destino (talhão/equipe/máquina), e saldo.
- Dados mínimos por uso/aplicação: data, área/talhão, produto e lote, dose, volume de calda (quando aplicável), operador, equipamento, condições relevantes e observações.
Como implementar rastreabilidade sem sistema complexo
- Identificação por lote: etiqueta interna com código (ex.:
ITEM-LOTE-VALIDADE) aplicada na unidade (caixa/saco/pallet) e no endereço do estoque. - Livro/planilha de estoque: uma linha por entrada e por saída, sempre com lote.
- Requisição de insumos: formulário simples que “puxa” o lote correto (FEFO) e registra o destino.
- Registro de operação: ficha de campo vinculando talhão ↔ insumo ↔ lote.
Teste de rastreabilidade (simulado): escolha um talhão e uma data e verifique se você consegue, em até 30 minutos, listar todos os insumos e lotes usados; depois faça o inverso (um lote específico e onde foi usado). Registre falhas e ajuste o processo.
Conformidade: requisitos de clientes, auditorias e certificações (sem focar em marcas)
Tipos de requisitos mais comuns
- Legais e de segurança: armazenamento adequado, controle de acesso, documentação (FISPQ), destinação correta de embalagens e resíduos, e registros de movimentação.
- Contratuais (clientes): rastreabilidade por lote, evidências de compra e uso, controle de validade, e comprovação de que produtos foram usados conforme orientação e restrições aplicáveis.
- Certificações: exigem processos documentados, treinamento, registros consistentes, gestão de NC e melhoria contínua.
Trilha de evidências (o que guardar e por quanto tempo)
Defina uma política interna de retenção de documentos (ex.: por safra + período adicional). O importante é consistência e fácil recuperação.
- Compras: cotações, mapa comparativo, aprovação, pedido/contrato, NF, comprovantes de entrega.
- Qualidade: checklists de recebimento, registros de NC, fotos, devoluções/substituições.
- Armazém: inventários, auditorias internas, controle de validade, registros de treinamento e acesso.
- Operação: requisições, fichas de aplicação/uso com lotes, sobras e devoluções ao estoque.
Modelo de POPs (Procedimentos Operacionais Padrão) para gestão de insumos
A seguir, um modelo enxuto de POPs que pode ser adaptado. Cada POP deve ter: objetivo, escopo, responsáveis, materiais/documentos, passo a passo, registros gerados e critérios de aceitação.
POP 01 — Compras e contratação de insumos
- Objetivo: garantir aquisição com melhor custo total, qualidade e conformidade.
- Responsáveis: solicitante (campo), compras, aprovador, financeiro.
- Passo a passo:
- Solicitante abre requisição com especificação e prazo.
- Compras emite RFQ para no mínimo 3 fornecedores (quando possível).
- Compras monta mapa comparativo (preço total, prazo, risco, condições).
- Aprovador valida escolha e limites de alçada.
- Compras emite pedido/contrato com critérios de aceitação e validade mínima.
- Arquivar documentos (RFQ, propostas, aprovação, pedido).
- Registros: requisição, RFQ, mapa de cotação, pedido/contrato.
POP 02 — Recebimento e inspeção de insumos
- Objetivo: impedir entrada de produto errado, avariado ou fora de especificação.
- Responsáveis: almoxarife/armazém, conferente, compras (suporte em NC).
- Passo a passo:
- Conferir NF vs. pedido (item, quantidade, lote, validade).
- Inspecionar integridade de embalagens e condições do transporte.
- Checar documentação obrigatória (FISPQ quando aplicável).
- Registrar entrada no estoque com lote/validade e endereçar.
- Se houver NC: isolar em QUARENTENA, registrar ocorrência, comunicar compras e fornecedor, decidir destino.
- Registros: checklist de recebimento, registro de entrada, relatório de NC.
POP 03 — Armazenagem, segregação e controle de validade
- Objetivo: manter qualidade e segurança, evitando contaminação e vencimento.
- Responsáveis: responsável do armazém, técnico de segurança (quando houver).
- Passo a passo:
- Endereçar por zona e compatibilidade (segregação).
- Aplicar FEFO para itens com validade.
- Manter FISPQ acessível e sinalização de áreas.
- Realizar inspeção semanal (vazamentos, avarias, limpeza, pragas, umidade).
- Rodar relatório/lista de vencimentos e agir (remanejamento/devolução/uso prioritário conforme regras internas).
- Registros: mapa de endereçamento, checklist de inspeção, controle de validade.
POP 04 — Movimentação, requisição e devolução ao estoque
- Objetivo: garantir acurácia e rastreabilidade por lote.
- Responsáveis: armazém, encarregado de equipe, operador responsável.
- Passo a passo:
- Equipe solicita via requisição informando talhão/atividade e data.
- Armazém separa por FEFO e registra lote e quantidade.
- Na devolução de sobras: conferir integridade, registrar retorno por lote e reendereçar.
- Materiais avariados: segregar e registrar como perda/NC.
- Registros: requisição, comprovante de entrega, registro de devolução, registro de perdas.
POP 05 — Rastreabilidade e registros de uso (campo)
- Objetivo: comprovar o que foi usado, onde e quando, com vínculo ao lote.
- Responsáveis: encarregado, operador, responsável técnico (quando aplicável).
- Passo a passo:
- Antes da operação, registrar insumos e lotes recebidos para o talhão.
- Durante/após a operação, registrar data, talhão, dose, quantidade consumida e lote.
- Conferir consumo vs. devolução para fechar saldo.
- Arquivar ficha/registro e disponibilizar para auditoria.
- Registros: ficha de operação/uso por talhão com lotes, reconciliação de consumo.
POP 06 — Inventário, auditoria interna e tratamento de não conformidades
- Objetivo: manter estoque confiável e melhorar o processo.
- Responsáveis: armazém, controladoria/gestão, compras.
- Passo a passo:
- Executar inventário cíclico conforme curva ABC.
- Investigar divergências (erro de registro, perda, avaria, furto).
- Registrar NC com causa, ação corretiva e responsável.
- Reavaliar fornecedores quando NC recorrente.
- Registros: planilha de inventário, relatório de divergências, log de NC e ações.
Formulários e templates (exemplos práticos)
Checklist de recebimento (exemplo)
Data: ____ Fornecedor: ____ NF: ____ Pedido: ____ Item: ____ Qtd: ____(un) Lote: ____ Validade: __/__/____ Armazém/Endereço: ____
1) Embalagem íntegra e lacrada? ( )Sim ( )Não Observação: ____
2) Produto confere com pedido (descrição/concentração/embalagem)? ( )Sim ( )Não
3) Transporte adequado (sem vazamento/umidade/avaria)? ( )Sim ( )Não
4) Documentos recebidos (FISPQ quando aplicável)? ( )Sim ( )Não
5) Aprovado para estoque? ( )Sim ( )Quarentena
Responsável: ____ Assinatura: ____Requisição de insumos com rastreabilidade por lote (exemplo)
Data: ____ Talhão/Área: ____ Atividade: ____ Responsável: ____
Item | Lote | Validade | Qtd solicitada | Qtd entregue | Qtd devolvida | Saldo
____ | ____ | ____ | ____ | ____ | ____ | ____
Conferência armazém: ____ Conferência equipe: ____