Fundamentos do ECG para Enfermagem: eletrofisiologia e relação com o traçado

Capítulo 1

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

O que a enfermagem precisa “enxergar” por trás do traçado

No monitor, o ECG é uma representação indireta da atividade elétrica do coração captada por eletrodos na pele. Para a prática de enfermagem, a leitura básica fica mais segura quando você associa: (1) onde o impulso nasce, (2) por onde ele passa, (3) o que está despolarizando/repolarizando e (4) como isso aparece como ondas, segmentos e intervalos.

Eletrofisiologia aplicada: automatismo e condução

Automatismo (quem “dispara” o ritmo)

Automatismo é a capacidade de algumas células cardíacas gerarem impulso elétrico espontaneamente. Em condições habituais, o nó sinoatrial (SA) é o marcapasso dominante porque dispara mais rápido que os demais focos.

  • Nó SA: inicia o impulso; define o ritmo sinusal quando domina.
  • Nó AV: pode assumir se o SA falhar ou se houver bloqueio acima; tende a gerar ritmos mais lentos.
  • Sistema His-Purkinje: pode assumir em falhas mais distais; geralmente ainda mais lento e com QRS mais largo quando é o marcapasso.

Implicação prática de segurança: quando o marcapasso “desce” (SA → AV → ventricular), a frequência tende a cair e a perfusão pode piorar. No monitor, isso pode aparecer como bradicardia e/ou QRS alargado, exigindo avaliação clínica imediata (PA, nível de consciência, perfusão periférica) e acionamento do protocolo institucional.

Condução (como o impulso se propaga)

Condução é a transmissão do impulso entre as células. O caminho típico é: nó SA → átrios → nó AV → feixe de His → ramos → fibras de Purkinje → ventrículos.

  • Átrios: condução relativamente rápida, formando a onda P.
  • Nó AV: condução lenta (atraso fisiológico), permitindo enchimento ventricular antes da contração.
  • His-Purkinje: condução muito rápida, sincronizando a despolarização ventricular (QRS estreito quando íntegro).

Implicação prática de segurança: atrasos ou falhas de condução podem gerar bloqueios AV (bradicardia) ou bloqueios de ramo (QRS alargado). No monitor, isso muda intervalos e largura do QRS; clinicamente pode reduzir débito cardíaco.

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Despolarização e repolarização: o que cada fase significa no traçado

Despolarização

Despolarização é o evento elétrico que inicia a contração mecânica (com pequeno atraso eletromecânico). No ECG:

  • Despolarização atrialonda P.
  • Despolarização ventricularcomplexo QRS.

Repolarização

Repolarização é a recuperação elétrica para o próximo ciclo. No ECG:

  • Repolarização ventricularonda T.
  • Repolarização atrial existe, mas geralmente fica “escondida” dentro do QRS e não é vista como onda separada.

Implicação prática de segurança: alterações de repolarização podem aparecer como mudanças em ST e T e podem indicar sofrimento miocárdico, distúrbios eletrolíticos ou efeito de fármacos. Para a enfermagem, isso é um alerta para correlacionar com sintomas, sinais vitais, oxigenação, dor torácica e contexto clínico.

Períodos refratários: por que o coração não “responde” a qualquer estímulo

Após despolarizar, a célula entra em períodos em que não consegue responder normalmente a novos estímulos:

  • Refratário absoluto: não gera novo potencial de ação, mesmo com estímulo forte.
  • Refratário relativo: pode responder, mas exige estímulo maior e pode gerar condução anormal.

Como isso se reflete no ECG e na segurança:

  • O intervalo QT representa, de forma prática, o tempo total de despolarização + repolarização ventricular (período elétrico ventricular). QT prolongado aumenta risco de arritmias graves em determinados contextos.
  • Batimentos muito precoces podem cair em fase vulnerável (refratário relativo), favorecendo instabilidade elétrica.

Como a atividade elétrica vira ondas, segmentos e intervalos

Onda P

O que é: despolarização dos átrios (impulso saindo do SA e se espalhando).

O que observar no monitor:

  • Existe P antes de cada QRS?
  • As P são semelhantes entre si (morfologia constante)?
  • A frequência atrial parece organizada?

Intervalo PR

O que é: tempo do início da despolarização atrial até o início da despolarização ventricular. Inclui a condução pelo nó AV (atraso fisiológico).

Interpretação prática:

  • PR prolongado sugere atraso de condução AV (pode ser bloqueio AV de 1º grau).
  • PR variável pode sugerir bloqueios AV de graus mais avançados (avaliar relação P-QRS).

Segurança: atrasos importantes ou falhas de condução podem reduzir a frequência ventricular e causar sintomas (tontura, hipotensão, síncope). A enfermagem deve correlacionar com perfusão e nível de consciência.

Complexo QRS

O que é: despolarização ventricular. Quando o sistema His-Purkinje está íntegro, a ativação é rápida e o QRS tende a ser estreito.

O que observar:

  • Largura: QRS alargado sugere condução intraventricular lenta (ex.: bloqueio de ramo) ou origem ventricular do batimento.
  • Regularidade: intervalos R-R regulares ou irregulares.
  • Relação com P: cada QRS é precedido por P? Há dissociação?

Segurança: QRS muito largo com bradicardia pode indicar ritmo de escape ventricular; pode ser instável hemodinamicamente.

Segmento ST

O que é: fase em que os ventrículos estão despolarizados de forma relativamente uniforme (linha “isoelétrica” esperada em muitos casos).

O que observar:

  • ST em linha de base, supradesnivelado ou infradesnivelado.
  • Mudanças novas em relação ao traçado prévio do paciente.

Segurança: alterações do ST podem sinalizar isquemia/lesão miocárdica ou outras condições. No monitor, mudanças dinâmicas exigem reavaliação imediata do paciente e comunicação rápida com a equipe médica conforme protocolo.

Onda T

O que é: repolarização ventricular.

O que observar:

  • T muito alta, invertida ou assimétrica (sempre correlacionar com contexto).
  • Mudanças após medicações ou alterações eletrolíticas.

Intervalo QT

O que é: tempo total da atividade elétrica ventricular (despolarização + repolarização). É um “marcador” do período elétrico ventricular.

Segurança:

  • QT prolongado pode aumentar risco de arritmias graves em cenários específicos (ex.: certos fármacos, distúrbios eletrolíticos).
  • Na prática, se houver QT aparentemente longo no monitor, revisar contexto: medicações, potássio/magnésio/cálcio, frequência cardíaca, sintomas.

Quadros de associação (mapas mentais) para leitura rápida no monitor

Mapa 1 — “Evento elétrico → componente do ECG”

Evento elétricoEstrutura principalComo aparece no ECGO que a enfermagem observa
Despolarização atrialÁtrios (impulso do SA)Onda PP presente e semelhante? P antes do QRS?
Atraso fisiológico AVNó AVIntervalo PRPR muito longo? PR variando?
Despolarização ventricular rápidaHis-PurkinjeQRS estreitoQRS fino com ritmo organizado sugere condução preservada
Despolarização ventricular lentaCondução intraventricular alteradaQRS alargadoQRS largo: pensar em bloqueio de ramo/ritmo ventricular
Platô elétrico ventricularVentrículos despolarizadosSegmento STST desviado? Mudança nova?
Repolarização ventricularVentrículosOnda TT alterada? Contexto clínico e eletrólitos
Tempo elétrico ventricular totalVentrículosIntervalo QTQT longo? Risco aumentado em contextos específicos

Mapa 2 — “Alteração no traçado → hipótese funcional”

Achado no monitorO que pode significar (funcional)Risco/atenção prática
Bradicardia com P antes de cada QRS e PR constanteRitmo sinusal lento (automatismo do SA reduzido)Avaliar perfusão, PA, sintomas; revisar causas (dor, hipóxia, fármacos)
PR prolongadoAtraso de condução no nó AVPode evoluir; monitorar tendência e sintomas
P sem QRS (batimentos “bloqueados”)Falha intermitente de condução AVRisco de bradicardia significativa; avaliar estabilidade e acionar protocolo
QRS alargadoCondução intraventricular lenta ou origem ventricularPode reduzir sincronismo e débito; observar PA e sinais de choque
ST alterado (novo ou dinâmico)Alteração de repolarização/possível isquemiaCorrelacionar com dor, dispneia, SpO2; comunicar rapidamente
QT aparentemente prolongadoRepolarização ventricular prolongadaRevisar medicações e eletrólitos; maior vigilância para arritmias

Passo a passo prático: traduzindo o traçado em fisiologia (beira-leito)

Passo 1 — Identifique “quem está no comando” (automatismo)

  • Procure onda P consistente antes do QRS: sugere comando atrial (sinusal ou atrial).
  • Se não há P clara ou a relação P-QRS é inconsistente, considere comando mais baixo (AV/ventricular) ou atividade atrial desorganizada.

Passo 2 — Confira se a condução SA→AV→ventrículo está íntegra

  • Meça/estime o PR: está estável e dentro do esperado para o paciente?
  • Veja se toda P conduz (cada P seguida de QRS). Se há P “sobrando”, pense em bloqueio.

Passo 3 — Avalie a condução intraventricular pelo QRS

  • QRS estreito: ativação ventricular rápida (His-Purkinje provável).
  • QRS largo: ativação lenta (bloqueio de ramo, batimento ventricular, distúrbio de condução).

Passo 4 — Observe repolarização (ST e T) como “termômetro” elétrico

  • Compare ST/T com traçados anteriores, se disponíveis.
  • Se houver mudança nova, correlacione com clínica (dor, dispneia, palidez, sudorese), sinais vitais e oxigenação.

Passo 5 — Faça a checagem de segurança antes de “fechar” a interpretação

  • Paciente primeiro: nível de consciência, PA, perfusão, SpO2, dor.
  • Qualidade do sinal: eletrodos aderidos, artefatos, tremor, cabo solto.
  • Contexto: medicações (ex.: que reduzem condução AV), eletrólitos, hipóxia, temperatura, pós-procedimento.

Exemplos práticos de correlação (monitor → mecanismo)

Exemplo 1 — PR alongado com ritmo regular

No monitor: P antes de cada QRS, ritmo regular, PR visivelmente maior que o habitual.

Mecanismo provável: condução mais lenta no nó AV (atraso AV).

O que muda para a enfermagem: reforçar monitorização de tendência (PR aumentando?), observar bradicardia associada e sinais de baixo débito; revisar fármacos que deprimem condução AV conforme prescrição e protocolos.

Exemplo 2 — QRS alargado novo

No monitor: QRS mais largo que antes, frequência semelhante.

Mecanismo provável: condução intraventricular mais lenta (ex.: bloqueio de ramo) ou mudança do foco de ativação.

O que muda para a enfermagem: avaliar estabilidade hemodinâmica, checar dor torácica/dispneia, comparar com ECG anterior se disponível, comunicar mudança nova conforme rotina.

Exemplo 3 — Bradicardia com P “sem resposta”

No monitor: ondas P regulares, mas alguns QRS “faltam”.

Mecanismo provável: falha intermitente de condução AV (bloqueio AV).

O que muda para a enfermagem: risco de queda de débito; avaliar sintomas, PA, perfusão; preparar medidas conforme protocolo (monitorização contínua, acesso pérvio, disponibilidade de marcapasso transcutâneo se indicado pela instituição/equipe).

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao observar no monitor ondas P regulares, porém com alguns complexos QRS ausentes (P “sem resposta”), qual interpretação funcional e conduta inicial de segurança estão mais alinhadas com a leitura básica do ECG na enfermagem?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

P regulares com QRS “faltando” sugerem que nem toda despolarização atrial está conduzindo aos ventrículos, compatível com bloqueio AV. Isso pode causar bradicardia e queda do débito, exigindo correlação imediata com sinais vitais, perfusão e acionamento do protocolo.

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