Fundamentos do cálculo de medicamentos: segurança, leitura da prescrição e checagens essenciais

Capítulo 1

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

Por que “fundamentos” é sinônimo de segurança

Antes de qualquer conta, a etapa mais importante do cálculo de medicamentos é confirmar se a prescrição está completa, legível e coerente com o paciente e com o produto disponível. Um cálculo perfeito em cima de uma prescrição incompleta pode gerar preparo inseguro. A prática segura segue esta lógica: interpretar → checar → identificar lacunas → esclarecer → só então calcular e preparar.

Como interpretar uma prescrição: o que precisa estar explícito

Use uma leitura sistemática, sempre na mesma ordem, para reduzir omissões.

1) Dose

  • O que procurar: quantidade do fármaco (ex.: 1 g, 500 mg, 10 mcg/kg/min) e, quando aplicável, dose por peso/superfície corporal.
  • Alertas: unidades parecidas (mg vs mcg), zeros perigosos (ver seção de arredondamento), dose máxima diária.

2) Via

  • O que procurar: VO, IV, IM, SC, SL, inalatório, tópico, enteral (SNE/SNG), intratecal etc.
  • Alertas: via incompatível com a apresentação (ex.: comprimido prescrito para IV) ou com o acesso disponível (sem acesso venoso, sem sonda).

3) Frequência e horário

  • O que procurar: intervalos (8/8h, 12/12h), horários fixos, dose única, “agora”, “se necessário” (PRN) com critério.
  • Lacunas comuns: PRN sem indicação/limite (ex.: “dipirona 1 g se dor” sem escala de dor e intervalo mínimo).

4) Apresentação e concentração do produto

  • O que procurar: forma farmacêutica (ampola, frasco-ampola, comprimido, suspensão), concentração (mg/mL, mg/ampola, %), volume total do frasco.
  • Checagem prática: confirmar no rótulo o que está disponível na unidade (pode diferir da prescrição).

5) Diluente e volume final (quando IV)

  • O que procurar: diluente (SF 0,9%, SG 5%, água para injeção, Ringer etc.) e volume final (ex.: “diluir em 100 mL”).
  • Lacunas críticas: diluente não especificado em medicamento que exige diluente específico; volume final ausente quando a concentração final precisa ser controlada.

6) Tempo de infusão e taxa

  • O que procurar: tempo (ex.: “infundir em 30 min”) ou taxa (mL/h, mcg/kg/min).
  • Ponto crítico: “EV” sem tempo pode levar a administração em bolus indevido.

7) Indicação, parâmetros e metas (quando aplicável)

  • O que procurar: motivo do uso e parâmetros de ajuste (ex.: insulina conforme glicemia; heparina conforme TTPa; vasopressor conforme PAM).
  • Lacunas comuns: escala/algoritmo não anexado; meta não definida.

Identificando lacunas que impedem o preparo seguro

Considere a prescrição não executável (até esclarecimento) quando faltar qualquer item que altere o cálculo, a diluição, a estabilidade ou a via.

Lacunas frequentes e por que são perigosas

  • Unidade ambígua: “morfina 2” (2 mg? 2 mL? 2 ampolas?).
  • Concentração não informada em solução manipulada: “noradrenalina em BIC” sem concentração final ou sem quantidade de ampolas/volume final.
  • Tempo de infusão ausente: antibiótico prescrito “EV” sem tempo (risco de reação e flebite).
  • PRN sem critério: sem escala de dor, intervalo mínimo, dose máxima/dia.
  • Diluente incompatível: prescrição com diluente inadequado (ou não especificado quando necessário).
  • Paciente sem dados essenciais: sem peso atual (doses por kg), sem função renal/hepática quando impacta dose, sem alergias registradas.

Rotinas de checagem essenciais (antes de calcular e administrar)

Os “certos” operacionais (ampliados)

  • Paciente certo: dois identificadores (nome completo + data de nascimento/prontuário) e pulseira.
  • Medicamento certo: nome (atenção a LASA: nomes/embalagens semelhantes), princípio ativo e forma.
  • Dose certa: coerência com prescrição, peso, limites e concentração disponível.
  • Via certa: compatível com a apresentação e com o acesso.
  • Horário certo: aprazamento, intervalo, relação com refeições/diálise/procedimentos.
  • Registro certo: checar prescrição vigente, registrar preparo, administração, intercorrências e resposta.
  • Validade e lote: validade do produto e do preparo/reconstituição; lote para rastreabilidade.
  • Alergias: alergia documentada e reação prévia; atenção a classes (ex.: beta-lactâmicos).
  • Compatibilidades: compatibilidade com diluente, com outros fármacos na mesma via/linha, e com soluções em Y.

Contraindicações básicas e alertas clínicos (triagem rápida)

Sem entrar em protocolos extensos, algumas verificações simples evitam erros graves:

  • Função renal/hepática: medicamentos com ajuste (ex.: muitos antimicrobianos, anticoagulantes) exigem checar creatinina/clearance quando disponível.
  • Pressão arterial e frequência cardíaca: antes de anti-hipertensivos, betabloqueadores, vasodilatadores.
  • Glicemia: antes de insulina e hipoglicemiantes; confirmar escala e alvo.
  • Potássio/magnésio: antes de reposições e antiarrítmicos específicos; evitar infusão rápida indevida.
  • Gestação/lactação (quando aplicável): checar alertas institucionais.
  • Acesso venoso: periférico vs central para soluções irritantes/hiperosmolares conforme política local.

Pontos críticos de erro no cálculo e no preparo

1) Confusão de unidades e abreviações

  • mg vs mcg: erro de 1000x.
  • U (unidades): evitar “U” por risco de leitura como “0”. Preferir “unidades”.
  • IU: confirmar se é unidade internacional e se há equivalência específica do produto.

2) Zeros e casas decimais

  • Zero à esquerda: usar 0,5 mg (não ,5 mg).
  • Zero à direita: evitar 5,0 mg (pode virar 50 mg). Preferir 5 mg.

3) Concentração final não checada

Mesmo quando a dose está correta, uma concentração final muito alta pode inviabilizar a via (irritação, risco de extravasamento) ou dificultar a titulação.

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4) Reconstituição e estabilidade

  • Confirmar volume de reconstituição e concentração resultante.
  • Checar tempo de estabilidade após reconstituição/diluição e condições (temperatura, proteção da luz).

5) Linha de infusão e compatibilidade

  • Evitar misturar na mesma seringa/bolsa sem confirmação.
  • Se for em Y, confirmar compatibilidade e necessidade de flush entre medicamentos.

Checklist operacional: antes, durante e após o cálculo

Checklist “ANTES” (interpretação e segurança)

  • Prescrição vigente, legível e completa: dose, via, frequência, apresentação/concentração, diluente, volume final, tempo/taxa, indicação/critério (se PRN/titulação).
  • Identificação do paciente (2 identificadores) e peso atual (se dose por kg).
  • Alergias e reações prévias.
  • Contraindicações básicas: sinais vitais e exames relevantes quando impactam dose/segurança.
  • Produto disponível: concentração, forma, validade, lote.
  • Compatibilidade com diluente e com a linha de infusão.

Checklist “DURANTE” (cálculo e preparo)

  • Reescrever a ordem em formato padronizado (sem abreviações perigosas).
  • Converter unidades com atenção (mg↔mcg; mL↔L; %↔mg/mL quando aplicável).
  • Calcular dose/volume e conferir por estimativa (ordem de grandeza).
  • Checar se o volume calculado é mensurável com o dispositivo disponível (seringa adequada).
  • Definir concentração final e taxa/tempo de infusão coerentes.
  • Dupla checagem independente para medicamentos de alta vigilância conforme rotina institucional.
  • Rotular o preparo: medicamento, dose total, concentração, diluente/volume, data/hora, validade, responsável.

Checklist “APÓS” (administração e registro)

  • Reconfirmar paciente, via, bomba/programação, taxa e tempo.
  • Monitorar resposta e eventos adversos iniciais (especialmente IV).
  • Registrar administração, lote/validade quando exigido, e intercorrências.
  • Descartar sobras conforme política e registrar perdas quando aplicável.

Exemplos curtos: prescrição bem escrita vs mal escrita (e como corrigir)

Exemplo 1 — Antibiótico EV

Mal escrita: “Ceftriaxona 1g EV 12/12h.”

Problemas: não informa diluente, volume final, tempo de infusão; pode levar a bolus indevido ou diluição inadequada.

Como solicitar esclarecimento/corrigir (modelo): “Confirmar: ceftriaxona 1 g EV a cada 12 h, reconstituir conforme fabricante e diluir em ___ mL de ___, infundir em ___ minutos. Há restrição de volume?”

Bem escrita (exemplo): “Ceftriaxona 1 g EV 12/12h. Reconstituir e diluir em 100 mL de SF 0,9%. Infundir em 30 min.”

Exemplo 2 — Analgésico PRN

Mal escrita: “Dipirona 1 g se dor.”

Problemas: sem via, intervalo mínimo, dose máxima/dia, critério de dor.

Como solicitar esclarecimento/corrigir (modelo): “Confirmar via (VO/EV), critério (EVA ≥ ___), intervalo mínimo (ex.: 6/6h) e dose máxima diária.”

Bem escrita (exemplo): “Dipirona 1 g VO se dor (EVA ≥ 4), a cada 6 h se necessário, máximo 4 g/dia.”

Exemplo 3 — Infusão contínua (alta criticidade)

Mal escrita: “Noradrenalina BIC 0,1–1.”

Problemas: unidade ausente (mcg/kg/min? mg/h?), concentração da solução não definida, sem meta clínica.

Como solicitar esclarecimento/corrigir (modelo): “Confirmar unidade de dose (mcg/kg/min), peso de referência, concentração final (mg em mL), diluente e meta (PAM alvo).”

Bem escrita (exemplo): “Noradrenalina EV contínua: preparar 4 mg em 50 mL de SG 5% (80 mcg/mL). Iniciar 0,05 mcg/kg/min e titular até PAM ≥ 65 mmHg. Bomba de infusão.”

Arredondamento seguro: quando pode e quando não pode

Princípios práticos

  • Arredonde para uma medida administrável sem alterar clinicamente a dose, respeitando política local (ex.: para 0,98 mL, pode arredondar para 1,0 mL se a variação for aceitável).
  • Priorize a precisão quando a margem terapêutica é estreita, quando a dose é muito pequena ou quando o paciente é pediátrico/neonatal.
  • Evite arredondar se isso mudar a casa decimal de forma relevante (ex.: 0,08 mg virar 0,1 mg é aumento de 25%).

Quando NÃO arredondar (ou exigir dupla checagem)

Em geral, não arredondar (ou arredondar apenas conforme protocolo e com dupla checagem) em medicamentos de alta vigilância e situações de alto risco, como:

  • Insulinas.
  • Heparinas e anticoagulantes parenterais.
  • Vasopressores e inotrópicos (noradrenalina, adrenalina, dobutamina etc.).
  • Opioides IV e sedativos potentes.
  • Eletrólitos concentrados (ex.: KCl, MgSO4) e drogas com risco de arritmia.
  • Pediatria/neonatologia (doses por kg com volumes muito pequenos).

Regras simples de escrita numérica (para reduzir erro)

  • Usar zero à esquerda: 0,25 mg.
  • Evitar zero à direita: escrever 2 mg (não 2,0 mg).
  • Preferir unidades por extenso quando houver risco: “unidades” em vez de “U”.

Modelo rápido de “reformatação” da prescrição para cálculo

Uma técnica útil é transcrever a prescrição em um bloco padronizado antes de calcular:

Medicamento: ________  Apresentação disponível: ________ (____ mg/mL ou ____ mg/ampola) Dose prescrita: ________ Via: ________ Frequência/horário: ________ Diluição: diluente ________  volume final ________ Tempo/taxa: ________ Alergias: ________ Peso (se aplicável): ________ Observações (compatibilidade/linha): ________

Se qualquer campo essencial ficar em branco, interrompa o processo e solicite esclarecimento antes do preparo.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao receber uma prescrição para preparar um medicamento IV, em que situação a prescrição deve ser considerada não executável até esclarecimento, mesmo antes de qualquer cálculo?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A prescrição deve ser interrompida para esclarecimento quando houver lacunas que impactem cálculo, diluição, estabilidade ou via (ex.: unidade ambígua, diluente/volume final ou tempo de infusão ausentes, falta de peso para dose por kg).

Próximo capitúlo

Unidades em cálculo de medicamentos: mg, g, mcg, mL, L, UI e conversões sem erro

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