O que significa “projetar interfaces” em apps mobile (e por que isso é parte do seu trabalho)
Projetar interfaces no contexto de apps mobile é decidir como o usuário executa tarefas (ver, escolher, preencher, confirmar, corrigir) por meio de telas, componentes e estados. Para quem programa, isso se conecta diretamente a:
- Modelagem de estados: carregando, vazio, erro, sucesso, offline, permissões negadas.
- Arquitetura de navegação: rotas, deep links, retorno, pilha de telas, tabs.
- Validação e regras de negócio: quando bloquear, quando avisar, quando permitir seguir.
- Performance percebida: skeleton, placeholders, paginação, feedback imediato.
- Acessibilidade e legibilidade: tamanhos, contraste, áreas de toque, foco.
Na prática, UI/UX não é “enfeite”: é o conjunto de decisões que reduz dúvidas, evita erros e torna o fluxo previsível. Um app bem programado pode falhar na adoção se o usuário não entender o que fazer, se errar com frequência ou se sentir inseguro.
Objetivos de uma boa interface
Clareza
O usuário deve entender rapidamente: onde está, o que pode fazer e o que acontece ao tocar. Clareza vem de rótulos objetivos, hierarquia visual e redução de ambiguidade.
- Prefira rótulos de ação: “Salvar alterações” em vez de “OK”.
- Mostre o estado atual: item selecionado, filtro ativo, etapa do formulário.
- Evite excesso de opções na mesma tela; agrupe e priorize.
Eficiência
Eficiência é permitir que a tarefa seja concluída com menos passos, menos digitação e menos espera, sem sacrificar clareza.
- Use valores padrão sensatos e preenchimento automático quando possível.
- Evite pedir a mesma informação duas vezes.
- Reduza telas intermediárias que não agregam decisão real.
Previsibilidade
O app deve se comportar como o usuário espera: padrões consistentes, ações reversíveis e respostas imediatas. Previsibilidade diminui ansiedade e erros.
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Baixar o aplicativo
- Botões primários sempre no mesmo lugar e com o mesmo estilo.
- Mesma ação, mesmo resultado (e mesmo texto) em todo o app.
- Feedback claro após ações: “Salvo”, “Falha ao salvar”, “Sem conexão”.
UI vs UX na prática do dia a dia do desenvolvimento
UI (User Interface): o que você implementa na tela
UI é a camada visível e interativa: componentes, espaçamentos, tipografia, cores, ícones, estados (normal, pressionado, desabilitado), mensagens e microinterações. No código, UI aparece como:
- Componentes reutilizáveis (botão, campo, card, lista).
- Estilos e tokens (tamanhos, cores, tipografia).
- Layouts responsivos e áreas de toque.
- Estados de componentes e telas.
UX (User Experience): o resultado para o usuário ao completar uma tarefa
UX é a experiência ao longo do tempo: facilidade de entender, esforço para concluir, confiança, sensação de controle e satisfação. No desenvolvimento, UX aparece como:
- Fluxos de navegação (quantas etapas, onde o usuário se perde).
- Tratamento de erros e recuperação.
- Tempo de resposta e performance percebida.
- Coerência entre telas e previsibilidade.
Uma regra útil: UI é o “como parece e como se toca”; UX é o “como funciona para atingir um objetivo”. Você pode ter uma UI bonita com UX ruim (bonito, mas confuso) ou UI simples com UX excelente (claro, rápido e confiável).
Conceitos essenciais para pensar como UI/UX no código
Tarefa do usuário
Tarefa é o objetivo real do usuário (não o que o sistema “quer”). Exemplos: “pagar uma conta”, “encontrar um produto”, “alterar endereço”, “recuperar senha”.
Pergunta prática para o dev: “Qual é a menor sequência de ações que leva do estado atual ao objetivo?”
Fluxo
Fluxo é a sequência de telas/estados para concluir a tarefa. Um fluxo bem desenhado minimiza decisões desnecessárias e deixa claro o próximo passo.
Checklist rápido de fluxo:
- Entrada: como o usuário chega aqui?
- Passos: o que ele precisa informar/decidir?
- Saída: qual é o estado final (sucesso) e o que ele pode fazer depois?
- Exceções: e se der erro, faltar internet, faltar permissão?
Fricção
Fricção é qualquer atrito que aumenta esforço: campos demais, termos confusos, validação tardia, telas redundantes, carregamentos sem explicação.
Fricção “invisível” comum em apps: pedir CPF sem máscara, exigir senha forte sem explicar regras, bloquear botão sem dizer por quê, esconder ação importante atrás de ícone ambíguo.
Feedback
Feedback é a resposta do sistema às ações do usuário. Sem feedback, o usuário repete toques, abandona ou acha que “travou”.
- Imediato: botão muda estado, loading aparece, campo mostra validação.
- Confirmatório: mensagem de sucesso, recibo, atualização visual.
- Orientador: erro com instrução de correção (“Use 8+ caracteres”).
Critérios de qualidade (o que revisar antes de considerar “pronto”)
Consistência
Consistência reduz aprendizado e aumenta previsibilidade. Para devs, isso significa padronizar componentes e comportamentos.
- Mesmo componente para a mesma função (não criar 3 tipos de “botão primário”).
- Mesma terminologia em todo o app (ex.: “Endereço de entrega” vs “Local de entrega”).
- Mesmas regras de validação e mensagens (formato de data, moeda, telefone).
Passo a passo prático (consistência):
- Liste as ações principais do app (salvar, excluir, confirmar, cancelar).
- Defina um padrão de UI para cada ação (texto, cor, posição, confirmação).
- Crie componentes reutilizáveis e substitua variações locais.
- Revise telas procurando “exceções” não justificadas.
Legibilidade
Legibilidade é o usuário conseguir ler e entender sem esforço: texto, contraste, espaçamento e hierarquia.
- Evite textos longos em botões; use verbos e complemento curto.
- Use hierarquia: título, subtítulo, corpo, ajuda.
- Garanta contraste suficiente e tamanho de fonte confortável.
Passo a passo prático (legibilidade):
- Verifique se cada tela tem um “título que explica” (o que é esta tela).
- Revise rótulos: troque termos internos por linguagem do usuário.
- Quebre instruções em frases curtas e, quando necessário, em lista.
- Teste em um aparelho menor: se precisar “caçar” informação, ajuste hierarquia.
Tolerância a erro
Tolerância a erro é permitir que o usuário erre menos e se recupere quando errar. No código, isso envolve validação, desfazer, confirmações e mensagens úteis.
- Validação em tempo adequado (não só no final do formulário).
- Mensagens que dizem o que aconteceu e como corrigir.
- Ações destrutivas com confirmação e, se possível, opção de desfazer.
Passo a passo prático (tolerância a erro):
- Mapeie campos e ações com maior chance de erro (senha, pagamento, exclusão).
- Implemente validação próxima do campo (máscaras, limites, exemplos).
- Padronize mensagens de erro com formato: “Problema + como resolver”.
- Inclua estados de falha: sem internet, timeout, permissão negada, servidor indisponível.
Exemplos “antes e depois”: pequenas decisões de UI que mudam a UX
Exemplo 1 — Botão desabilitado sem explicação (fricção + falta de feedback)
Antes (UI): Tela de cadastro com botão “Criar conta” desabilitado. O usuário preenche alguns campos, mas o botão continua cinza. Não há indicação do que falta.
Impacto na UX: sensação de bloqueio, tentativa e erro, abandono.
Depois (UI): O botão pode permanecer desabilitado, mas cada campo mostra validação contextual: “E-mail inválido”, “Senha precisa de 8+ caracteres”. Além disso, um texto curto acima do botão: “Complete os campos obrigatórios para continuar”.
Impacto na UX: o usuário entende o próximo passo e corrige rapidamente.
Exemplo 2 — Rótulos genéricos (clareza)
Antes (UI): Modal com dois botões: “OK” e “Cancelar”. Texto: “Deseja prosseguir?” sem contexto.
Impacto na UX: medo de confirmar algo errado; usuário lê e ainda não sabe o que acontecerá.
Depois (UI): Texto específico: “Excluir este endereço?” Botões: “Excluir” (ação) e “Manter” (alternativa). Se for destrutivo, adicione uma linha: “Você pode adicionar novamente depois”.
Impacto na UX: decisão segura e rápida; menos arrependimento e menos suporte.
Exemplo 3 — Campo sem máscara e erro tardio (eficiência + tolerância a erro)
Antes (UI): Campo “Telefone” aceita qualquer texto. O usuário digita “1199999-9999”. Ao enviar, aparece erro no topo: “Telefone inválido”.
Impacto na UX: retrabalho, frustração, usuário não sabe o formato esperado.
Depois (UI): Campo com máscara e exemplo (“(11) 99999-9999”), teclado numérico, validação imediata e mensagem ao lado do campo. O envio só falha se houver caso excepcional (ex.: número incompleto).
Impacto na UX: menos erros, preenchimento mais rápido, sensação de fluidez.
Exemplo 4 — Carregamento sem estado (feedback + previsibilidade)
Antes (UI): Ao tocar em “Finalizar compra”, a tela congela por 3 segundos sem indicador. Usuário toca várias vezes.
Impacto na UX: duplicidade de ações, insegurança, risco de pedidos repetidos.
Depois (UI): Botão entra em estado “Processando…”, fica desabilitado, mostra spinner e a tela exibe um indicador de progresso. Em falha, mensagem: “Não foi possível finalizar. Verifique sua conexão e tente novamente.” com botão “Tentar de novo”.
Impacto na UX: confiança, menos toques repetidos, recuperação clara em erro.
Exemplo 5 — Inconsistência de navegação (consistência + previsibilidade)
Antes (UI): Em uma tela, o ícone de voltar está no topo; em outra, há um botão “Cancelar” no rodapé; em outra, o gesto de voltar fecha o app em vez de voltar uma etapa.
Impacto na UX: usuário se perde, sente que “cada tela é um app diferente”.
Depois (UI): Padrão definido: voltar sempre retorna uma etapa; “Cancelar” só aparece quando há edição em andamento; ações de saída são consistentes e previsíveis.
Impacto na UX: navegação natural, menos erros e menos abandono.
Mini-roteiro de revisão UI/UX para dev antes de entregar uma tela
Use este roteiro como checklist rápido durante o desenvolvimento:
| Item | Pergunta | Exemplo de ajuste |
|---|---|---|
| Clareza | O usuário entende o objetivo da tela em 3 segundos? | Adicionar título específico e rótulos de ação |
| Eficiência | Há passos/campos que podem ser removidos ou automatizados? | Preencher automaticamente cidade/estado por CEP |
| Previsibilidade | Os componentes se comportam igual ao resto do app? | Padronizar posição do botão primário |
| Fricção | Onde o usuário pode travar ou ficar em dúvida? | Incluir ajuda curta e exemplos nos campos |
| Feedback | O app responde a cada ação importante? | Loading, estados de erro e confirmação de sucesso |
| Tolerância a erro | Como o usuário corrige erros? Dá para desfazer? | Validação por campo + “Desfazer” em exclusões |
Passo a passo prático: aplicando o roteiro em uma tela real
- Passo 1 — Defina a tarefa: escreva em uma frase o que o usuário quer fazer (ex.: “alterar endereço de entrega”).
- Passo 2 — Desenhe o fluxo mínimo: liste as etapas e elimine as que não mudam decisão.
- Passo 3 — Liste estados: carregando, vazio, erro, sucesso, offline e permissões (se aplicável).
- Passo 4 — Revise fricções: campos, termos, validações tardias, botões sem explicação.
- Passo 5 — Garanta feedback: cada ação principal deve ter resposta visual e mensagem em caso de falha.
- Passo 6 — Padronize: compare com outras telas e ajuste para consistência (componentes e textos).
// Exemplo de “mensagem de erro útil” (formato recomendado):
// Problema + como resolver
// Ruim: "Erro ao salvar"
// Melhor: "Não foi possível salvar. Verifique sua conexão e tente novamente."