Foto, vídeo e áudio no jornalismo: como captar e solicitar material com qualidade

Capítulo 13

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

Princípios de captação jornalística: o que torna uma imagem “publicável”

No jornalismo, foto, vídeo e áudio não servem apenas para “ilustrar”: eles precisam informar. Material com qualidade jornalística é aquele que ajuda o público a entender o que aconteceu, onde, quando, quem está envolvido e qual é o contexto, sem induzir interpretações erradas.

Enquadramento informativo (o que a imagem precisa contar)

Um bom enquadramento jornalístico prioriza evidências e contexto. Pergunte: se eu tirasse o texto, essa imagem ainda ajudaria a explicar o fato?

  • Mostre o “o quê”: o evento/ação principal (ex.: a fila, a obra interditada, a reunião, o protesto, o atendimento).
  • Mostre o “onde”: elementos reconhecíveis do local (placa de rua, fachada, marco urbano, interior do prédio com identificação).
  • Mostre o “como”: consequências e detalhes relevantes (ex.: rachadura, equipamento quebrado, documento em uso — sem expor dados sensíveis).
  • Evite enquadramentos que distorcem: ângulos extremos, cortes que escondem informação importante, uso de zoom que “parece” aproximar pessoas/objetos que estavam distantes.

Contexto visual: planos que não podem faltar

Para uma cobertura completa, pense em uma sequência mínima de planos (vale para foto e vídeo):

  • Plano geral: situa o ambiente (rua, prédio, cenário do evento).
  • Plano médio: mostra pessoas em ação e relações (quem faz o quê).
  • Close/detalhe: evidencia um elemento-chave (cartaz, equipamento, dano, objeto, gesto).
  • Plano de referência: algo que comprove local e momento (relógio público, placa, letreiro, número do ônibus, identificação do auditório).

Identificação correta de pessoas e locais

Erros de identificação geram retratações e riscos legais. A captação deve facilitar a confirmação.

  • Pessoas: registre o rosto com nitidez quando a identificação for necessária e autorizada; anote nome completo, cargo/função e grafia correta; confirme com a própria pessoa ou assessoria.
  • Locais: registre placa/entrada/fachada e anote endereço (rua, número, bairro, cidade). Em áreas internas, registre a identificação do setor (placa na porta, crachá institucional quando permitido).
  • Evite suposições: não “complete” informação por aparência (idade, parentesco, função). Se não houver confirmação, descreva de forma neutra (ex.: “um homem”, “uma funcionária”, “um participante”).

Metadados essenciais (o que precisa acompanhar o arquivo)

Metadados são informações que tornam o material utilizável e verificável. Sem eles, a redação perde tempo e aumenta o risco de erro.

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ItemO que registrarExemplo
Data e horaMomento exato da captação (com fuso, se relevante)“2026-01-28, 14h35 (BRT)”
LocalEndereço completo + referência“Av. X, 1200, Centro, Recife-PE (em frente ao prédio Y)”
AutorQuem captou + contato“Foto: Maria Silva (11 9xxxx-xxxx)”
ContextoO que está acontecendo e por quê“Vistoria após denúncia de infiltração”
IdentificaçõesNomes/cargos confirmados“João Souza, secretário de…”
RestriçõesEmbargos, off, limitações de uso“Uso permitido apenas sem mostrar crianças”

Quando possível, preserve metadados do arquivo (EXIF em fotos, informações de gravação em vídeo/áudio). Evite reenviar por aplicativos que removem metadados; prefira link de download ou envio como arquivo.

Alinhamento entre repórter e fotógrafo/videomaker: transformar pauta em plano visual

O material visual fica melhor quando a equipe sabe qual é a história e qual evidência precisa aparecer. O alinhamento deve acontecer antes da captação e ser objetivo.

Briefing rápido (5 perguntas que guiam a captação)

  • Qual é o foco? (ex.: “impacto no serviço”, “responsabilidade”, “mudança anunciada”).
  • Qual é a cena que prova o fato? (ex.: “portão fechado com aviso”, “equipamento parado”, “documento sendo apresentado”).
  • Quem precisa aparecer? (personagens-chave, fontes, autoridades, afetados — com autorização quando necessário).
  • Que contexto não pode faltar? (local, público, tamanho do evento, condições do ambiente).
  • Quais riscos e cuidados? (menores, vítimas, áreas sensíveis, segurança, restrições de imagem).

Checklist de qualidade para foto e vídeo

  • Nitidez e estabilidade: foco correto; vídeo sem tremor excessivo (apoio, tripé, estabilização).
  • Exposição: evite contraluz que “apaga” rostos; ajuste posição ou use luz disponível.
  • Áudio no vídeo: se houver fala importante, priorize microfone externo ou aproxime o captador; teste 10 segundos antes.
  • Planos de cobertura: além da entrevista, grave imagens de apoio (ambiente, detalhes, fluxo de pessoas, objetos).
  • Continuidade: registre começo, meio e fim de uma ação (ex.: chegada, fala, saída; abertura, atendimento, fechamento).

Exemplo prático: alinhamento em 3 minutos

Repórter: “A matéria é sobre a demora no atendimento. Precisamos mostrar a fila e o painel de senhas.”
Fotógrafo/vídeo: “Quem é o personagem?”
Repórter: “Uma paciente que aceitou falar e o coordenador da unidade.”
Fotógrafo/vídeo: “Quais cenas-chave?”
Repórter: “Chegada, fila, painel, sala de espera, entrevista com paciente (sem mostrar outros rostos), e a entrada da coordenação com placa.”
Repórter: “Cuidado: há menores; evitar rostos e prontuários.”

Como solicitar imagens, vídeos e áudios com clareza (quando você não vai captar)

Nem sempre o repórter está com a equipe de imagem. Nesses casos, pedir material de forma vaga (“manda umas fotos”) costuma resultar em arquivos inutilizáveis. O pedido deve ser específico e verificável.

Modelo de pedido: lista de cenas, personagens e momentos-chave

Use um formato de lista, com prioridade e observações. Exemplo de estrutura:

  • Objetivo editorial: o que a imagem precisa demonstrar.
  • Lista de cenas (prioridade alta/média/baixa): o que filmar/fotografar.
  • Personagens: quem precisa aparecer e como identificar.
  • Momentos-chave: horários, atos, falas, etapas.
  • Planos obrigatórios: geral, médio, detalhe, referência.
  • Áudio: quais falas precisam estar limpas (declaração, ambiente, coletiva).
  • Metadados: exigir data/hora/local/autor e contexto.
  • Restrições: privacidade, menores, áreas proibidas, dados sensíveis.

Passo a passo prático para escrever o pedido (em 10 minutos)

  1. Defina a “prova visual” em uma frase. Ex.: “Mostrar que a obra está parada e a área está interditada.”
  2. Liste 6 a 10 cenas em ordem de importância. Misture contexto e detalhe.
  3. Inclua 2 a 3 planos de referência (placa, fachada, endereço, relógio, identificação do local).
  4. Especifique pessoas (nome/cargo) e como registrar (de frente, com crachá, em ação).
  5. Inclua instruções de áudio (teste de som, evitar vento, gravar 20–30s de som ambiente).
  6. Peça metadados e legendas junto com os arquivos.
  7. Indique restrições legais/éticas (autorização, anonimização, não mostrar menores).

Exemplo de pedido pronto (foto + vídeo)

Objetivo: evidenciar interdição do viaduto e impacto no trânsito.

Cenas (alta):
1) Plano geral do viaduto com bloqueio e cones.
2) Placa/aviso oficial de interdição (close legível).
3) Fluxo de carros desviando (plano médio).
4) Agentes orientando motoristas (plano médio + identificação do órgão se possível).

Cenas (média):
5) Detalhe de rachadura/estrutura (sem risco, com distância segura).
6) Entorno: comércio/ônibus afetados (plano geral).

Referências obrigatórias:
- Fachada/placa com nome da via + ponto de referência.
- Registrar endereço aproximado e horário.

Áudio:
- 30s de som ambiente do trânsito.
- Se houver entrevista, gravar com microfone próximo e pedir nome/cargo no início.

Metadados a enviar:
- Data/hora/local (bairro/cidade), autor, contexto do momento.

Restrições:
- Evitar rostos de crianças; não filmar placas de carros em close sem necessidade.

Captação de áudio jornalístico: inteligibilidade acima de tudo

Áudio ruim pode inviabilizar uma entrevista. O objetivo é obter fala compreensível e ambiente que ajude a situar, sem ruídos dominantes.

Checklist rápido de captação

  • Teste antes: grave 10 segundos, ouça e ajuste.
  • Distância: quanto mais perto da boca, melhor (sem distorcer).
  • Ambiente: fuja de vento, caixas de som, trânsito colado, ar-condicionado barulhento.
  • Identificação no áudio: peça para a fonte dizer nome e cargo no início (reduz erro de legenda).
  • Som ambiente: grave 20–30 segundos “limpos” do local para contextualização.

Passo a passo prático (entrevista com áudio)

  1. Escolha um ponto com menos ruído e sem música ao fundo.
  2. Posicione o microfone/celular a uma distância curta e constante.
  3. Grave um teste e ajuste volume/posição.
  4. Peça identificação (nome e cargo) no começo.
  5. Ao final, grave som ambiente separado.
  6. Salve o arquivo com nome padronizado (ex.: 2026-01-28_Entrevista_JoaoSouza_secretario.mp3).

Legendas precisas: como escrever sem errar (e sem “inventar”)

Legenda jornalística não é opinião nem enfeite. Ela precisa ser verificável e específica, sem extrapolar o que a imagem mostra.

Estrutura prática de legenda

  • Quem (identificado corretamente)
  • O que está fazendo (ação observável)
  • Onde (local completo)
  • Quando (data, e hora se relevante)
  • Contexto (por que aquilo importa para a notícia)
  • Crédito (autor/agência)

Exemplos (melhor vs. pior)

Pior (vaga/arriscada)Melhor (precisa/verificável)
“Moradores revoltados protestam.”“Moradores fazem protesto em frente à Subprefeitura do Bairro X, em São Paulo, nesta terça (28), pedindo retomada das obras de drenagem. Foto: Nome Sobrenome.”
“Hospital lotado.”“Pacientes aguardam atendimento na recepção da UPA Y, no Centro de Z, na tarde desta terça (28). Foto: Nome Sobrenome.”

Evite afirmar emoções e intenções (“revoltado”, “desesperado”, “tentou fugir”) a menos que haja confirmação por fala/registro claro e contextualizado.

Autorização de uso, direitos e cuidados com privacidade

Antes de publicar, a redação precisa ter segurança de que pode usar o material e de que ele não expõe pessoas indevidamente.

Quando a autorização é crítica

  • Entrevistas gravadas em áudio/vídeo: deixe claro que está gravando e para qual finalidade jornalística.
  • Ambientes privados (casas, empresas, áreas internas): confirme permissão de entrada e captação.
  • Crianças e adolescentes: redobre cuidado; em geral, evite identificação e exposição. Quando houver necessidade jornalística, siga orientação editorial e legal com autorização responsável.
  • Vítimas, pacientes, pessoas em situação vulnerável: priorize dignidade, evite imagens humilhantes, avalie anonimização (desfoque, enquadramento sem rosto, voz alterada quando aplicável).

Passo a passo prático para registrar autorização (sem burocracia excessiva)

  1. Explique quem você é e que o material pode ser publicado.
  2. Peça confirmação explícita (em áudio ou mensagem): “Você autoriza o uso da sua imagem/voz nesta reportagem?”
  3. Registre nome completo e contato.
  4. Anote restrições (ex.: “pode usar, mas sem mostrar o rosto”).
  5. Guarde o registro junto ao material (pasta da pauta).

Em eventos públicos, muitas imagens são captáveis sem autorização individual, mas isso não elimina o dever de evitar exposição desnecessária, especialmente em situações sensíveis.

Verificação de autenticidade: como reduzir risco de material manipulado ou fora de contexto

Fotos, vídeos e áudios podem ser antigos, editados ou atribuídos ao lugar errado. O repórter precisa tratar material recebido como “apuração” e não como “prova automática”.

Sinais de alerta

  • Arquivo sem metadados ou com informações incoerentes (data futura, local incompatível).
  • Recortes que escondem elementos importantes (placas, uniformes, contexto).
  • Qualidade irregular (áudio com cortes, vídeo com saltos, sombras/contornos estranhos).
  • Reenvios múltiplos: material “de grupo” sem autor identificável.

Passo a passo prático de verificação (material recebido)

  1. Identifique a origem: quem gravou? quando? onde exatamente? peça contato do autor.
  2. Peça o arquivo original: sem compressão, preferencialmente direto do dispositivo.
  3. Confira metadados: data/hora, modelo do aparelho, sequência de arquivos (quando disponível).
  4. Compare com referências: clima do dia, iluminação, placas, marcos do local, roupas compatíveis com a data.
  5. Busque confirmação independente: outras imagens do mesmo evento, testemunhas, registros oficiais, câmeras públicas quando acessíveis.
  6. Documente a checagem: registre em nota interna o que foi verificado e o que permanece incerto.

Cuidados específicos com áudio

  • Peça contexto: onde a fala foi gravada, em que circunstância, quem estava presente.
  • Verifique cortes: solicite gravação contínua quando possível; desconfie de trechos isolados sem antes/depois.
  • Confirme com a fonte (quando aplicável): se a fala é atribuída a alguém, tente validar a autoria.

Padrões de organização e entrega do material (para não perder tempo na edição)

Mesmo material excelente pode virar problema se chegar desorganizado. Padronize nomes e pastas para facilitar edição e legenda.

Convenção simples de nomes de arquivo

AAAAMMDD_Tema_Local_Autor_Tipo_Sequencia.ext
20260128_InterdicaoViaduto_CentroRecife_MSilva_FOTO_01.jpg
20260128_InterdicaoViaduto_CentroRecife_MSilva_VIDEO_01.mp4
20260128_InterdicaoViaduto_CentroRecife_MSilva_AUDIO_EntrevistaCoordenador.wav

Pacote mínimo que deve acompanhar o envio

  • Arquivos originais (sem filtros e sem recompressão quando possível).
  • Lista de legendas (1 linha por arquivo) com quem/o quê/onde/quando.
  • Metadados (tabela ou texto) com data/hora/local/autor e restrições.
  • Autorizações registradas quando necessárias.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao solicitar material (foto/vídeo/áudio) para uma pauta quando você não vai captar, qual pedido tende a gerar arquivos utilizáveis e verificáveis pela redação?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Pedidos detalhados orientam a captação para provar o fato e fornecer contexto. Ao incluir cenas, planos obrigatórios, identificação, metadados e restrições, o material chega verificável, útil e com menor risco de erro.

Próximo capitúlo

Ética e responsabilidade no jornalismo: erros, correções e transparência

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