Fontes históricas no Fundamental: objetos, imagens, relatos e documentos próximos do aluno

Capítulo 3

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

+ Exercício

O que são fontes históricas (de um jeito simples)

Fontes históricas são pistas do passado que ajudam a entender como as pessoas viviam, pensavam, trabalhavam, brincavam e se organizavam. Elas podem estar dentro de casa, na escola, no bairro e na cidade. Uma fonte não “conta tudo sozinha”: ela oferece informações que precisam ser observadas, comparadas e registradas.

No Fundamental, trabalhar com fontes históricas significa ensinar o aluno a investigar: olhar com atenção, fazer perguntas, levantar hipóteses e justificar ideias com base no que a fonte mostra.

Tipos de fontes históricas próximas do aluno

1) Fontes materiais (objetos)

São coisas que podemos tocar. Elas mostram hábitos, tecnologias, gostos e necessidades de uma época.

  • Brinquedos antigos (pião, boneca de pano, carrinho de lata): materiais usados, forma de brincar, segurança, custo.
  • Embalagens (caixa de leite, lata de biscoito, rótulos): mudanças de design, informações ao consumidor, hábitos alimentares.
  • Objetos escolares (cadernos antigos, cartilhas, estojos): modos de estudar, regras, materiais disponíveis.
  • Ferramentas e utensílios (ferro de passar antigo, máquina de escrever): como as tarefas eram feitas antes.

Exemplo prático: comparar um telefone fixo antigo com um smartphone: o que cada um permite fazer? O que isso sugere sobre comunicação em diferentes momentos?

2) Fontes iconográficas (imagens)

São representações visuais. Podem ser fotografias, desenhos, pinturas, mapas, cartazes, placas e até imagens de jornais.

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  • Fotografias de família: roupas, festas, lugares, quem aparece e quem não aparece.
  • Fotos do bairro (antigas e atuais): mudanças em ruas, praças, comércios, transporte.
  • Cartazes e anúncios: produtos, linguagem usada, valores e hábitos de consumo.

Cuidado importante: imagens não são “a realidade inteira”. Elas mostram um recorte: alguém escolheu o ângulo, o momento e o que aparece.

3) Fontes orais (relatos)

São informações contadas por pessoas: memórias, entrevistas, histórias de vida, depoimentos. A fonte oral é muito útil para conhecer experiências do cotidiano.

  • Entrevistas com moradores antigos do bairro: brincadeiras, trabalho, transporte, festas.
  • Relatos de familiares: como era a escola, como se comunicavam, como faziam compras.
  • Histórias de trabalhadores (porteiro, feirante, costureira, motorista): rotinas e mudanças no trabalho.

Observação didática: memórias podem ter esquecimentos e opiniões. Por isso, é importante comparar relatos e cruzar com outras fontes (foto, objeto, documento).

4) Fontes escritas (documentos e textos)

São registros em palavras. Podem ser formais (documentos) ou do dia a dia.

  • Bilhetes e recados: linguagem, relações, rotina.
  • Cartas e cartões: formas de comunicação e afetos.
  • Receitas e listas de compras: hábitos alimentares e preços (quando aparecem).
  • Boletins, comunicados da escola, regras antigas: normas e expectativas.
  • Jornais locais (impresso ou recorte): acontecimentos e pontos de vista.

Exemplo prático: comparar um bilhete de caderno com uma mensagem de aplicativo: o que muda na forma de escrever e no tempo de resposta?

Sequência didática de investigação com fontes (passo a passo)

A seguir, uma sequência simples, repetível e adequada ao Fundamental. Pode ser feita com uma única fonte ou com um conjunto (objeto + foto + relato + bilhete).

Passo 1 — Observar com atenção

  • Olhar em silêncio por alguns segundos antes de falar.
  • Identificar detalhes: cor, tamanho, material, estado de conservação, marcas, símbolos, palavras.
  • Se for imagem: observar pessoas, roupas, cenário, objetos ao fundo, expressões.
  • Se for relato oral: ouvir sem interromper, anotar palavras-chave.

Perguntas-guia: O que eu vejo/escuto? O que chama mais atenção? O que parece “diferente” do que existe hoje?

Passo 2 — Descrever (sem interpretar ainda)

Ensinar o aluno a separar descrição de opinião. Uma boa estratégia é usar duas colunas no caderno.

Descrição (o que aparece)Ideias (o que isso pode significar)
“A foto mostra três pessoas em frente a uma casa.”“Pode ser uma comemoração em família.”
“O brinquedo é de madeira e tem marcas de uso.”“Talvez tenha sido usado por muito tempo.”

Passo 3 — Levantar hipóteses

Hipóteses são explicações possíveis, não certezas. O aluno pode formular hipóteses a partir de pistas.

  • Quem usou/produziu isso?
  • Para que servia?
  • Onde foi usado?
  • Por que foi guardado?
  • O que essa fonte não mostra?

Exemplo: ao ver uma embalagem antiga com poucas informações nutricionais, o aluno pode levantar a hipótese de que as regras de rotulagem eram diferentes.

Passo 4 — Comparar versões e cruzar fontes

Comparar ajuda a perceber mudanças e também diferentes pontos de vista.

  • Comparar tempos: foto antiga do bairro x foto atual do mesmo lugar.
  • Comparar relatos: duas pessoas contando como era a escola (o que coincide? o que diverge?).
  • Comparar tipos de fonte: um relato sobre uma festa x uma fotografia da festa x um convite escrito.

Atividade rápida: montar um “triângulo de evidências” com três fontes sobre o mesmo tema e listar o que cada uma confirma, amplia ou contradiz.

Passo 5 — Registrar conclusões (com base em evidências)

O registro final deve mostrar o que foi aprendido e quais pistas sustentam a ideia. Pode ser feito em texto curto, áudio, cartaz ou ficha.

  • O que descobrimos?
  • Quais evidências da fonte apoiam isso?
  • Quais dúvidas ficaram?
  • Que outra fonte ajudaria a responder?

Modelo de frase para o aluno: “A partir de (fonte), percebemos que… porque observamos…”

Orientações essenciais: cuidado, autoria, data e propósito (sem tecnicismo)

Como cuidar e preservar as fontes

  • Objetos: manusear com mãos limpas; evitar quedas; guardar em caixa; não desmontar.
  • Papéis: não dobrar demais; evitar fita adesiva; guardar em envelope; manter longe de água e sol.
  • Fotos: segurar pelas bordas; evitar escrever em cima; se possível, digitalizar.
  • Relatos orais: pedir permissão para gravar; respeitar o entrevistado; não expor informações pessoais sem autorização.

Autoria: quem fez ou contou?

Trabalhar autoria é ajudar o aluno a perceber que toda fonte tem alguém por trás.

  • Quem tirou a foto? Quem escreveu o bilhete? Quem fabricou o objeto?
  • Quem está falando no relato? Qual a relação dessa pessoa com o assunto?
  • Essa pessoa pode ter um ponto de vista específico?

Exemplo: um anúncio publicitário tem um autor (empresa) e um objetivo (vender), então pode destacar qualidades e esconder problemas.

Datação: quando isso foi feito?

Nem sempre a fonte vem com data. O aluno pode buscar pistas simples.

  • Há data escrita? (no verso da foto, no bilhete, no jornal)
  • Há pistas no conteúdo? (modelo do carro, tipo de uniforme, preço, estilo da embalagem)
  • Alguém da família lembra aproximadamente?

Estratégia didática: usar “data aproximada” quando não houver certeza, registrando como “por volta de…”.

Propósito: para que foi feita?

O propósito ajuda a entender por que a fonte existe e o que ela destaca.

  • Foi feita para lembrar? (foto de aniversário)
  • Foi feita para informar? (comunicado da escola)
  • Foi feita para convencer? (propaganda)
  • Foi feita para organizar? (lista de compras)

Pergunta-chave: o que essa fonte quer que a gente perceba? E o que ela deixa de fora?

Propostas de atividades investigativas (com materiais do cotidiano)

Atividade 1 — “Museu da sala” (fontes materiais)

  • Materiais: 1 objeto antigo por aluno (ou por grupo), etiqueta de papel, celular para foto (opcional).
  • Passos: observar; descrever; levantar hipóteses; escrever etiqueta com: nome do objeto, para que servia, quem usou, quando (aprox.), como sabemos.
  • Registro: ficha do objeto com duas colunas (descrição x ideias).

Atividade 2 — “Foto do mesmo lugar” (fontes iconográficas)

  • Materiais: foto antiga do bairro/escola (ou impressa) e foto atual tirada pelos alunos.
  • Passos: comparar elementos (rua, árvores, prédios, placas, pessoas); listar mudanças e permanências; levantar hipóteses sobre por que mudou.
  • Registro: tabela “antes/agora” com evidências visuais.

Atividade 3 — “Entrevista com morador” (fontes orais + cruzamento)

  • Preparação: construir 6 a 8 perguntas curtas em sala.
  • Durante: pedir permissão para gravar; anotar frases importantes; perguntar por exemplos concretos (“como era o caminho para a escola?”).
  • Depois: comparar entrevistas entre grupos; buscar uma fonte material ou imagem que confirme/complete um ponto do relato.

Roteiro simples de perguntas:

1) Como era a escola quando você estudava? 2) Do que você brincava? 3) Como as pessoas se comunicavam? 4) Como eram as compras? 5) O que mudou no bairro? 6) O que continua parecido?

Atividade 4 — “Caixa de documentos do cotidiano” (fontes escritas)

  • Materiais: bilhetes, convites, receitas, comunicados (sem dados sensíveis), embalagens com texto.
  • Passos: identificar autor, data (se houver), propósito; destacar palavras que mostram a época (gírias, formas de tratamento, preços); comparar com um documento atual semelhante.
  • Registro: ficha com campos: “quem fez”, “quando”, “para quê”, “o que aprendemos”.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao trabalhar com uma fotografia antiga do bairro em sala, qual procedimento ajuda o aluno a investigar de forma crítica, reconhecendo que a imagem é um recorte e não “a realidade inteira”?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Imagens mostram um recorte escolhido por alguém. Por isso, a investigação deve começar com observação e descrição cuidadosa, evitando interpretações rápidas, e avançar para comparação e cruzamento com outras fontes, buscando evidências para sustentar conclusões.

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