Memória, identidade e cidadania em História: narrativas da família, da escola e da comunidade

Capítulo 4

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

+ Exercício

Memória, identidade e cidadania: como esses conceitos se conectam

Memória é o conjunto de lembranças e significados que pessoas e grupos constroem sobre suas experiências. Ela é seletiva (algumas coisas ficam mais fortes do que outras), afetiva (carrega emoções) e social (é compartilhada em conversas, rituais, comemorações, silêncios e objetos do cotidiano).

História, no trabalho escolar, é a construção de narrativas com base em perguntas, comparação de versões e contextualização. Ao articular memória e história, o professor ajuda a turma a perceber que: (1) diferentes pessoas lembram de modos diferentes; (2) uma mesma situação pode ter várias versões; (3) é possível registrar e comunicar essas versões com cuidado, respeito e critérios.

Identidade é o modo como cada estudante se reconhece e é reconhecido: “quem sou”, “de onde venho”, “a que grupos pertenço”, “o que valorizo”. Ela se forma em relações (família, escola, comunidade) e inclui pertencimentos diversos: origem, território, religião, língua, gostos, modos de viver.

Cidadania aparece quando a turma transforma essas narrativas em práticas de convivência: reconhecer direitos (ser respeitado, ter voz, não sofrer discriminação), assumir deveres (escutar, cuidar do espaço comum, cumprir combinados) e participar (dialogar, propor melhorias, colaborar).

Diversidade de arranjos familiares e vivências: como garantir acolhimento

Ao trabalhar memórias de família e comunidade, é essencial evitar modelos únicos. Use linguagem inclusiva e aberta: “pessoas que cuidam de você”, “quem mora com você”, “quem faz parte da sua rede de apoio”. Considere e respeite: famílias monoparentais, famílias reconstituídas, guarda compartilhada, avós responsáveis, tios, irmãos mais velhos, famílias adotivas, famílias com dois pais ou duas mães, acolhimento institucional, estudantes que vivem com responsáveis não aparentados, e estudantes com vínculos fragilizados.

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  • Princípio didático: ninguém é obrigado a expor aspectos íntimos. Sempre ofereça alternativas (falar da escola, de um lugar importante, de uma pessoa de referência, de uma lembrança feliz, de uma rotina).
  • Princípio de proteção: se surgirem relatos de violência, negligência ou situações de risco, não investigue em público. Registre com discrição e siga os protocolos da escola e da rede de proteção.

Combinados éticos para atividades com memórias e entrevistas

Antes de qualquer produção, construa com a turma um “acordo de convivência e pesquisa” e deixe visível na sala. Ele orienta escuta, consentimento e respeito.

Combinados essenciais (para escrever no cartaz)

  • Escuta respeitosa: não interromper, não rir, não debochar, não “corrigir” a lembrança do outro.
  • Consentimento: só registrar (anotar, gravar, fotografar) com autorização da pessoa entrevistada e do responsável, quando necessário.
  • Direito de não responder: qualquer pessoa pode dizer “prefiro não falar sobre isso”.
  • Privacidade: evitar nomes completos, endereços e detalhes que exponham alguém. Usar iniciais ou “um morador”, “uma funcionária”.
  • Fidelidade ao relato: não inventar falas; ao reescrever, manter o sentido do que foi dito.
  • Devolutiva: mostrar o texto/painel para o entrevistado quando possível, para confirmar se está adequado.
  • Respeito à diversidade: não aceitar falas discriminatórias; se aparecerem, tratar como tema de reflexão sobre direitos e convivência.

Modelo simples de termo de consentimento (para adaptar)

TERMO DE CONSENTIMENTO (modelo escolar)  Eu, ______________________, autorizo que meu relato seja registrado por (nome do estudante/turma) para atividade pedagógica.  ( ) Autorizo apenas anotação.  ( ) Autorizo gravação de áudio.  ( ) Autorizo foto (sem texto na imagem).  Entendo que posso pedir para retirar meu relato a qualquer momento.  Data: ___/___/____  Assinatura: ______________________

Proposta 1: Mural de histórias (família, escola e comunidade)

O mural de histórias é uma atividade de autoria coletiva: cada estudante contribui com uma narrativa curta (sua ou de alguém) e a turma organiza um painel que valoriza pertencimento e diversidade.

Objetivos de aprendizagem

  • Reconhecer que memórias são diferentes e igualmente importantes para quem as viveu.
  • Produzir narrativas curtas com começo, meio e fim, respeitando o relato.
  • Exercitar cidadania: escuta, respeito, cooperação e cuidado com a exposição pública.

Passo a passo prático

  • 1) Disparador (10–15 min): apresente perguntas amplas no quadro: “Qual lugar da escola tem uma lembrança importante?”, “Quem me ensinou algo que uso até hoje?”, “Uma tradição da minha casa/comunidade”. Permita que escolham uma.
  • 2) Escolha do tipo de história (10 min): cada estudante decide entre: (a) história pessoal; (b) história de alguém que cuida dele; (c) história de um funcionário da escola; (d) história de um morador do entorno.
  • 3) Planejamento com roteiro (20 min): entregue um roteiro simples para organizar a narrativa (ver abaixo). Reforce: pode usar nomes fictícios.
  • 4) Coleta do relato (tarefa de casa ou aula): orientar entrevista curta (5–10 min) com consentimento. Alternativa para quem não puder entrevistar: escrever sobre uma lembrança da escola.
  • 5) Transformação em texto (1 aula): reescrita em primeira pessoa (“Eu me lembro…”) ou terceira pessoa (“Ela contou que…”). Revisão em duplas com foco em clareza e respeito.
  • 6) Curadoria do mural (1 aula): a turma define categorias (ex.: “aprendizados”, “lugares”, “tradições”, “pessoas importantes”). Organizar por cores, sem hierarquizar.
  • 7) Exposição responsável: combinar o que pode ir ao mural público e o que fica apenas no caderno/portfólio. Evitar fotos com rostos sem autorização.

Roteiro de escrita da narrativa (para estudantes)

  • Título: (curto e respeitoso)
  • Quem: (pode ser “uma pessoa da minha família”, “um funcionário da escola”)
  • Onde: (sem endereço; apenas “no bairro”, “na escola”)
  • Quando: (pode ser “quando eu era menor”, “no ano passado”)
  • O que aconteceu: (3 a 5 frases)
  • Por que isso é importante para mim/nós: (1 a 2 frases)
  • O que aprendi / que valor aparece: (respeito, cuidado, solidariedade, responsabilidade)

Rubrica rápida (critérios de avaliação formativa)

CritérioEm desenvolvimentoConsolidado
Respeito e éticaExpõe detalhes pessoais ou usa linguagem inadequadaPreserva privacidade e mantém linguagem respeitosa
Clareza da narrativaFalta sequência ou informações básicasApresenta sequência compreensível e objetiva
Relação com cidadaniaNão identifica valores/convivênciaRelaciona a história a direitos, deveres ou convivência

Proposta 2: Mapa afetivo da escola (pertencimento e cuidado do espaço comum)

O mapa afetivo é uma representação da escola a partir das experiências dos estudantes. Ele não precisa ser “cartograficamente perfeito”; o foco é identificar lugares significativos, sentimentos, usos e regras de convivência.

Objetivos de aprendizagem

  • Perceber a escola como espaço vivido e coletivo.
  • Identificar como regras e cuidados garantem direitos (segurança, bem-estar) e deveres (preservar, respeitar).
  • Produzir legenda e explicações curtas, articulando memória e convivência.

Passo a passo prático

  • 1) Caminhada de observação (20–30 min): em pequenos grupos, percorrer espaços combinados (pátio, biblioteca, refeitório, quadra, corredor). Cada grupo anota: “o que acontece aqui?”, “como as pessoas se sentem aqui?”, “o que precisa melhorar?”.
  • 2) Lista de lugares e sentimentos (15 min): no retorno, construir um quadro com duas colunas: “Lugares” e “Palavras de sentimento” (ex.: acolhimento, ansiedade, alegria, silêncio, concentração).
  • 3) Desenho do mapa-base (1 aula): em papel grande, desenhar a planta simplificada (salas e áreas principais). Definir uma legenda de símbolos (coração = lugar querido; ponto de atenção = lugar de conflito; lâmpada = lugar de aprendizagem).
  • 4) Camada de memórias (1 aula): cada estudante adiciona um post-it ou etiqueta com uma lembrança curta ligada a um lugar (sem citar nomes de colegas em situações constrangedoras).
  • 5) Camada de cidadania (30–40 min): para cada lugar com “ponto de atenção”, escrever: (a) qual direito está em jogo? (ex.: direito ao respeito, ao descanso, à segurança); (b) qual dever ajuda? (ex.: não empurrar, cuidar do lixo, respeitar fila); (c) proposta de melhoria.
  • 6) Socialização: cada grupo apresenta 2 lugares: um “lugar de pertencimento” e um “lugar de cuidado”.

Perguntas-guia para o mapa afetivo

  • Em qual lugar você se sente mais seguro? Por quê?
  • Onde você aprende melhor? O que ajuda?
  • Onde acontecem conflitos? O que costuma causar?
  • Que regra faz sentido aqui? Qual regra precisa ser combinada melhor?
  • Que mudança pequena melhoraria a convivência?

Proposta 3: Entrevistas com funcionários e moradores (memória da escola e do entorno)

Entrevistar funcionários e moradores aproxima a turma de histórias de trabalho, cuidado, transformações do bairro e da própria escola. É uma prática potente para cidadania porque valoriza pessoas muitas vezes invisibilizadas e exercita respeito no diálogo.

Preparação: quem entrevistar e como organizar

  • Possíveis entrevistados na escola: merendeiras(os), inspetores, porteiros, auxiliares de limpeza, bibliotecária(o), secretaria, coordenação, professores antigos.
  • Possíveis entrevistados na comunidade: comerciantes, agentes de saúde, líderes comunitários, moradores antigos, responsáveis por projetos culturais/esportivos.
  • Formato: entrevista em dupla ou trio; duração 10–15 min; registro por anotação (preferencial) ou áudio com autorização.
  • Treino em sala: simular entrevista (um aluno entrevistador, outro entrevistado) para praticar tom de voz, espera e agradecimento.

Combinados de postura cidadã durante a entrevista

  • Apresentar-se e explicar o objetivo da atividade em linguagem simples.
  • Pedir autorização antes de começar e antes de gravar.
  • Não insistir em perguntas que causem desconforto.
  • Agradecer e oferecer devolutiva: “Vamos mostrar o texto para você ver se está correto?”

Roteiro de perguntas (funcionários da escola)

  • Qual é seu nome (ou como prefere ser chamado) e sua função na escola?
  • Há quanto tempo você trabalha aqui? O que mudou nesse tempo?
  • Como é um dia de trabalho para você?
  • Qual momento da escola você mais gosta? Por quê?
  • Que desafios você enfrenta e como as pessoas poderiam ajudar?
  • Você lembra de alguma situação que mostre cooperação ou respeito na escola?
  • Que conselho você daria para melhorar a convivência?
  • Você autoriza que a turma use seu relato em um painel/apresentação? Como prefere que seu nome apareça?

Roteiro de perguntas (moradores do entorno)

  • Há quanto tempo você mora/trabalha aqui no bairro?
  • Quais lugares do bairro são importantes para você? Por quê?
  • O que mudou no bairro nos últimos anos? O que melhorou e o que piorou?
  • Quais são as principais necessidades do bairro hoje?
  • Existe alguma história marcante que você gostaria de compartilhar?
  • Como a escola se relaciona com a comunidade? O que poderia melhorar?
  • Que atitudes de cidadania você vê no dia a dia (solidariedade, cuidado, participação)?
  • Você autoriza o uso do seu relato? Prefere anonimato?

Ficha de registro (para imprimir)

FICHA DE ENTREVISTA  Data: ____/____/____  Local: __________________________  Entrevistador(es): __________________________  Entrevistado(a): __________________________ ( ) nome ( ) iniciais ( ) anônimo  Autorização: ( ) anotação ( ) áudio ( ) foto  1) Ideias principais do relato (tópicos):  -  -  -  2) Frase marcante (se autorizada): “______________________________”  3) O que isso nos ensina sobre convivência/cidadania?  ____________________________________________

Como transformar relatos em textos, painéis e apresentações (sem expor pessoas)

1) Do relato oral para o texto: três formatos possíveis

  • Texto narrativo curto: 8 a 12 linhas, com sequência e significado (“o que aconteceu” e “por que importa”).
  • Perfil (mini-biografia respeitosa): quem é a pessoa, o que faz, o que valoriza, o que aprendeu/ensina na comunidade.
  • Relato temático: organizar por tema (trabalho, cuidado, brincadeiras, mudanças no bairro), juntando falas de várias entrevistas sem identificar indivíduos.

2) Reescrita com fidelidade e cuidado

  • Separar fala do entrevistado (entre aspas) de interpretação do aluno (“entendemos que…”).
  • Evitar “melhorar” a fala para ridicularizar sotaque ou modo de falar; pode ajustar apenas para clareza, mantendo o sentido.
  • Checar informações sensíveis: não publicar detalhes de conflitos pessoais, doenças, situações de violência, endereços.

3) Painéis e mural: organização visual e cidadã

Para transformar em painel, proponha que cada grupo produza um cartaz com:

  • Título temático: “Trabalhos que cuidam da escola”, “Lugares que nos acolhem”, “Mudanças no bairro”.
  • Trecho do relato: curto, autorizado e sem dados pessoais.
  • Aprendizado de cidadania: uma frase ligando a direitos/deveres (ex.: “Direito ao respeito no recreio; dever de não empurrar e cuidar da fila”).
  • Proposta de ação: uma melhoria possível (ex.: campanha de cuidado com lixo, combinados de uso da biblioteca, roda de conversa sobre respeito).

4) Apresentações orais: roteiro para a turma

  • Apresentar o tema: “Entrevistamos pessoas para entender memórias da escola/comunidade”.
  • Explicar o método com ética: “Pedimos autorização e preservamos privacidade”.
  • Compartilhar 2 achados: uma memória positiva e um desafio de convivência.
  • Conectar à cidadania: “Que direito aparece? Que dever ajuda? Que ação propomos?”

Integração com cidadania: direitos, deveres e convivência a partir das memórias

Depois das produções, conduza uma sistematização em linguagem acessível, conectando as narrativas a situações concretas da vida escolar e comunitária.

Quadro de análise (para preencher coletivamente)

Memória/relato (sem nomes)Direito envolvidoDever/combinaçãoAção possível
Conflitos na fila do refeitórioSer tratado com respeito; alimentação com organizaçãoRespeitar a fila; não furar; falar sem gritarCartaz de combinados + monitoria solidária
Biblioteca como lugar de calmaAmbiente de estudoFalar baixo; cuidar dos livrosEscala de cuidado e “guardiões da biblioteca”
Morador relata mutirão no bairroParticipação comunitáriaColaborar; não sujar espaços comunsPlanejar ação de cuidado do entorno da escola

Atividade rápida: “Carta de convivência” (a partir do que foi ouvido)

Em grupos, os estudantes escrevem uma carta com 6 a 10 combinados para a turma/escola, usando como base as entrevistas e o mapa afetivo. Estrutura sugerida:

  • O que queremos garantir (direitos): respeito, segurança, escuta, cuidado.
  • O que vamos fazer (deveres): atitudes concretas no recreio, na sala, nos corredores.
  • Como vamos resolver conflitos: pedir ajuda, conversar, mediação, reparar danos.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao produzir um mural de histórias e entrevistas na escola, qual postura melhor articula memória, história e cidadania de forma ética?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A articulação ética envolve reconhecer versões diferentes, construir narrativas com critérios e contextualização, e praticar cidadania: escuta, consentimento, privacidade e direito de não responder.

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