Fluxo de Caixa Projetado na Prática: previsão por prazos e cenários

Capítulo 5

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

O que é Fluxo de Caixa Projetado (e por que ele é diferente do realizado)

Fluxo de caixa projetado é a previsão de entradas e saídas futuras de dinheiro, organizada por datas prováveis de recebimento e pagamento. Ele serve para antecipar faltas ou sobras de caixa e decidir com antecedência (negociar prazos, reforçar cobrança, ajustar compras, planejar promoções, segurar despesas). Diferente do realizado (o que de fato aconteceu), o projetado trabalha com compromissos e probabilidades: contas a receber, contas a pagar, recorrências e efeitos de sazonalidade.

Definindo o horizonte de projeção (semanal, 30, 60, 90 dias)

O horizonte é o “quanto para frente” você enxerga. A escolha depende do ciclo financeiro do negócio (prazo médio de recebimento, prazo de fornecedores, sazonalidade e estoque).

  • Semanal (próximos 7–14 dias): ideal para negócios com muita movimentação diária, pagamentos frequentes e risco de aperto de caixa no curto prazo.
  • 30 dias: bom para controlar folha, aluguel, impostos e giro mensal.
  • 60 dias: útil quando há vendas parceladas, recebíveis em D+30/D+60 ou compras com prazo.
  • 90 dias: recomendado quando o negócio tem sazonalidade relevante (datas comemorativas) ou decisões de compra/estoque com antecedência.

Na prática, muitas pequenas empresas usam uma combinação: detalhe diário/semanal para as próximas 2 semanas e visão semanal para 30–90 dias.

Regra prática para começar

  • Se você já teve “surpresas” de caixa no fim do mês: comece com 30 dias.
  • Se vende parcelado ou recebe por repasse (marketplace, cartão): use 60–90 dias.
  • Se o caixa oscila muito: adote semanal + 30 dias.

Fontes da projeção: de onde vêm as entradas e saídas futuras

1) Contas a receber (entradas previstas)

Liste os recebimentos futuros com base em documentos e regras claras:

  • Vendas a prazo (boleto, duplicata, crediário): data de vencimento e valor.
  • Cartão: datas de repasse por bandeira/adquirente (D+X) e taxas.
  • PIX/transferência: normalmente à vista (pode entrar como “provável” se depender de envio/entrega).
  • Contratos recorrentes (mensalidades, assinaturas): datas fixas e histórico de pontualidade.

Boa prática: projete entradas pelo dia esperado de cair no banco, não apenas pelo vencimento do cliente (ex.: boleto vence dia 10, mas costuma cair dia 12).

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2) Contas a pagar (saídas previstas)

Inclua compromissos já assumidos e previsíveis:

  • Fornecedores: vencimentos negociados, parcelas, adiantamentos.
  • Folha e pró-labore: datas fixas (salários, encargos).
  • Aluguel, energia, internet, sistemas: recorrências mensais.
  • Impostos: datas e estimativas (mesmo que o valor ainda seja aproximado).
  • Empréstimos: parcelas e juros.

Boa prática: se um pagamento depende de “quando der”, não deixe fora: registre como despesa provável com data-alvo (e revise depois).

3) Recorrências (entradas e saídas repetitivas)

Recorrências são itens que se repetem com padrão (mensal, semanal, quinzenal). Elas dão estabilidade ao projetado e reduzem trabalho manual.

  • Exemplos de entradas: mensalidades, contratos, manutenção.
  • Exemplos de saídas: aluguel, softwares, contabilidade, internet, salários.

Regra: recorrência deve ter data, valor e critério de reajuste (fixo, índice, “revisar a cada 3 meses”).

4) Sazonalidade (picos e vales previsíveis)

Sazonalidade é variação recorrente de vendas e/ou custos em certos períodos (mês, semana, datas específicas). Ela deve entrar como ajuste de premissa, não como “chute”.

  • Exemplos: aumento de vendas em datas comemorativas; queda em férias; aumento de custos com estoque antes de campanhas; impostos sazonais.

Como aplicar: use um fator de ajuste por período (ex.: “na semana do Dia das Mães, vendas +25% vs. base”).

Passo a passo prático para montar a projeção por prazos

Passo 1 — Defina a granularidade do calendário

Escolha como você vai enxergar o tempo:

  • Diário: ideal para 7–14 dias.
  • Semanal: ideal para 30–90 dias (semana 1, semana 2...).

Uma estrutura comum é: colunas diárias nas próximas 2 semanas e depois colunas semanais até 90 dias.

Passo 2 — Comece pelo saldo inicial

O projetado precisa partir do caixa disponível no início do horizonte (saldo em conta + caixa). Esse número é o ponto de partida para calcular o saldo final de cada período.

Passo 3 — Preencha as saídas “certas” primeiro

Liste tudo que tem vencimento e valor conhecidos (ou quase conhecidos). Isso reduz o risco de otimismo excessivo.

  • Fornecedores já faturados
  • Aluguel e contratos
  • Parcelas de empréstimos
  • Folha (se já definida)

Passo 4 — Preencha as entradas “mais prováveis”

Inclua recebíveis com base em:

  • títulos emitidos e vencimentos
  • agenda de repasses de cartão
  • contratos recorrentes

Se parte das vendas futuras ainda não existe (ex.: varejo), trate como premissa de vendas (ver seção de cenários).

Passo 5 — Inclua variáveis previsíveis (impostos, comissões, fretes)

Alguns itens variam com vendas. Em vez de adivinhar valor fixo, use regra percentual:

  • Impostos sobre vendas: % do faturamento
  • Taxas de cartão: % e prazo de repasse
  • Comissões: % sobre vendas pagas
  • Frete: média por pedido ou %

Isso melhora a coerência do projetado quando você muda o cenário de vendas.

Passo 6 — Calcule saldos por período e identifique “vales de caixa”

Para cada dia/semana:

  • Saldo inicial do período
  • (+) Entradas previstas
  • (-) Saídas previstas
  • (=) Saldo final (que vira o saldo inicial do próximo período)

Marque os períodos em que o saldo fica abaixo do mínimo de segurança (definido por você). Esses pontos são os que exigem ação antecipada.

Exemplo simples (semana a semana)

SemanaSaldo inicialEntradasSaídasSaldo final
Sem 1R$ 20.000R$ 12.000R$ 18.000R$ 14.000
Sem 2R$ 14.000R$ 10.000R$ 16.500R$ 7.500
Sem 3R$ 7.500R$ 15.000R$ 9.000R$ 13.500

Na semana 2 há um vale de caixa. Antes de chegar nela, você pode: negociar fornecedor, antecipar recebíveis, reforçar cobrança, ajustar compras ou adiar despesas não essenciais.

Projeção por cenários: conservador, base e otimista

Cenários são versões do futuro com premissas diferentes. Eles evitam que você trate uma única previsão como “verdade” e ajudam a decidir com margem de segurança.

Como montar os 3 cenários (modelo prático)

Crie um conjunto de premissas para cada cenário e aplique nas linhas que dependem de vendas e comportamento de pagamento.

  • Base: o que é mais provável, baseado em média recente e carteira atual.
  • Conservador: considera atrasos, queda de vendas, maior inadimplência e custos um pouco maiores.
  • Otimista: considera vendas acima do esperado, melhor conversão e recebimentos mais pontuais (sem exageros).

Premissas típicas que mudam por cenário

  • Vendas futuras: volume e ticket médio
  • Prazo de recebimento: % à vista vs. prazo; D+X do cartão
  • Atraso de clientes: parte dos recebíveis escorrega para semanas seguintes
  • Inadimplência: % que não entra no horizonte (ou entra parcialmente)
  • Custos variáveis: impostos, taxas, comissões, frete
  • Compras/estoque: necessidade de reposição e prazo de fornecedor

Exemplo de premissas documentadas por cenário

PremissaConservadorBaseOtimista
Vendas (próximos 30 dias)-15% vs. médiaigual à média+10% vs. média
Atraso em recebíveis a prazo25% atrasam 7–14 dias15% atrasam 7 dias8% atrasam 7 dias
Inadimplência (não recebida no período)4%2%1%
Taxa total de cartão3,8%3,5%3,5%
Compras para reposiçãoreduzir 10%normalaumentar 10%

Como tratar incertezas (atrasos, inadimplência, variação de vendas)

1) Atrasos: “escorregar” recebimentos para frente

Em vez de manter tudo na data de vencimento, aplique um deslocamento para uma parte dos títulos.

Método simples:

  • Separe os recebíveis por tipo (boleto, crediário, contrato, cartão).
  • Defina um percentual que atrasa e quantos dias/semana atrasa (por cenário).
  • Mova esse percentual para o período seguinte.

Exemplo: R$ 10.000 a receber na semana 2. No cenário base, 15% atrasa 7 dias: R$ 1.500 sai da semana 2 e entra na semana 3.

2) Inadimplência: “descontar” parte do que não entra

Inadimplência é diferente de atraso: é o valor que não será recebido no horizonte (ou tem baixa probabilidade).

Método simples: aplique um percentual de perda sobre recebíveis a prazo (ou sobre um grupo específico de clientes) e retire do período.

Exemplo: recebíveis a prazo de R$ 50.000 no horizonte. Inadimplência base 2%: considerar R$ 49.000 como entrada e R$ 1.000 como “não recebido no período”.

3) Variação de vendas: use drivers (quantidade x ticket) e não um número único

Quando a venda futura é incerta, projete por componentes:

  • Quantidade de pedidos esperada por semana
  • Ticket médio
  • % à vista vs. % a prazo
  • Prazo médio de recebimento

Isso facilita ajustar o cenário sem bagunçar todo o fluxo.

4) Crie um “colchão” de segurança (mínimo de caixa)

Defina um valor mínimo de caixa (ex.: 1 folha de pagamento, ou 15 dias de despesas fixas). No projetado, trate qualquer saldo abaixo desse mínimo como alerta para ação.

Como atualizar a previsão com base no realizado (rotina de rolling forecast)

Projeção útil é projeção atualizada. O método mais prático é o rolling forecast: você atualiza o que passou com o realizado e mantém sempre o mesmo horizonte para frente (ex.: sempre próximos 60 dias).

Rotina semanal (recomendada)

  • 1) Feche o que aconteceu: substitua as previsões dos dias/semana que passaram pelos valores realizados.
  • 2) Recalcule o saldo: o saldo final realizado vira o novo saldo inicial do horizonte.
  • 3) Atualize recebíveis: títulos pagos saem; títulos em atraso são movidos para a nova data provável.
  • 4) Atualize contas a pagar: pagamentos feitos saem; contas renegociadas mudam de data/valor.
  • 5) Revise premissas: se a realidade está sistematicamente diferente (ex.: atrasos maiores), ajuste percentuais do cenário base.
  • 6) Estenda o horizonte: se você trabalha com 60 dias, adicione mais uma semana no final para manter 60 dias à frente.

Métrica prática para calibrar a previsão

Registre, por semana, a diferença entre previsto e realizado:

  • Erro de entradas = entradas realizadas - entradas previstas
  • Erro de saídas = saídas realizadas - saídas previstas
  • Erro de saldo = saldo final realizado - saldo final previsto

Se o erro é recorrente na mesma direção (sempre faltam entradas, ou sempre sobram saídas), o problema é premissa, não “azar”.

Premissas documentadas: como criar e manter um “caderno de premissas”

Premissas são regras que sustentam a projeção. Documentar evita que a previsão vire opinião e facilita revisões.

Modelo de registro de premissas (copie e use)

Premissa: Prazo de repasse do cartão (crédito 1x)  Origem: extrato/adquirente  Valor: D+30  Última revisão: 10/01  Observação: taxas 3,5% já descontadas no valor líquido
Premissa: Atraso médio em boletos (clientes B2B)  Origem: histórico 90 dias  Valor base: 15% atrasam 7 dias  Conservador: 25% atrasam 14 dias  Última revisão: 10/01
Premissa: Sazonalidade (Semana do Dia das Mães)  Origem: vendas 2024/2025  Ajuste: +25% em pedidos; ticket +5%  Efeito em compras: +15% na semana anterior  Última revisão: 10/01

O que toda premissa deve ter

  • Nome claro (o que é)
  • Fonte (histórico, contrato, extrato, política comercial)
  • Valor/regra (percentual, prazo, fórmula)
  • Onde aplica (quais entradas/saídas)
  • Data da última revisão
  • Dono (quem decide/atualiza)

Revisões periódicas: cadência e gatilhos de mudança

Cadência mínima sugerida

  • Semanal: atualizar títulos (a receber/a pagar), atrasos e renegociações; recalcular saldos; estender horizonte.
  • Mensal: revisar premissas de vendas, inadimplência, custos variáveis e sazonalidade; comparar cenário base vs. realizado do mês.
  • Trimestral: revisar estrutura de cenários e mínimo de caixa; checar se o horizonte (30/60/90) ainda faz sentido.

Gatilhos para revisar premissas antes do prazo

  • mudança de política de prazo (fornecedor ou cliente)
  • alteração de taxas de cartão/antecipação
  • queda ou pico de vendas por 2–3 semanas seguidas
  • aumento de atrasos/inadimplência acima do padrão
  • entrada de um cliente grande (concentração de recebíveis)

Checklist de implementação rápida (primeiros 60 minutos)

  • Escolher horizonte (30/60/90) e granularidade (diário/semanal)
  • Inserir saldo inicial
  • Listar contas a pagar com vencimento (próximos 30–90 dias)
  • Listar contas a receber (títulos + repasses de cartão)
  • Criar 3 cenários com 4–6 premissas-chave (vendas, atraso, inadimplência, custos variáveis)
  • Calcular saldos e marcar vales de caixa
  • Registrar premissas com fonte e data
  • Agendar revisão semanal fixa

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao montar um fluxo de caixa projetado, qual abordagem ajuda a reduzir otimismo excessivo e aumentar a confiabilidade da previsão?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

No fluxo projetado, partir do saldo inicial e preencher primeiro as saídas “certas” reduz o risco de superestimar o caixa. Em seguida, entram as receitas mais prováveis, alinhadas às datas esperadas de recebimento.

Próximo capitúlo

Periodicidade do Fluxo de Caixa na Prática: diário, semanal e mensal sem perder controle

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