O que é Fluxo de Caixa Projetado (e por que ele é diferente do realizado)
Fluxo de caixa projetado é a previsão de entradas e saídas futuras de dinheiro, organizada por datas prováveis de recebimento e pagamento. Ele serve para antecipar faltas ou sobras de caixa e decidir com antecedência (negociar prazos, reforçar cobrança, ajustar compras, planejar promoções, segurar despesas). Diferente do realizado (o que de fato aconteceu), o projetado trabalha com compromissos e probabilidades: contas a receber, contas a pagar, recorrências e efeitos de sazonalidade.
Definindo o horizonte de projeção (semanal, 30, 60, 90 dias)
O horizonte é o “quanto para frente” você enxerga. A escolha depende do ciclo financeiro do negócio (prazo médio de recebimento, prazo de fornecedores, sazonalidade e estoque).
- Semanal (próximos 7–14 dias): ideal para negócios com muita movimentação diária, pagamentos frequentes e risco de aperto de caixa no curto prazo.
- 30 dias: bom para controlar folha, aluguel, impostos e giro mensal.
- 60 dias: útil quando há vendas parceladas, recebíveis em D+30/D+60 ou compras com prazo.
- 90 dias: recomendado quando o negócio tem sazonalidade relevante (datas comemorativas) ou decisões de compra/estoque com antecedência.
Na prática, muitas pequenas empresas usam uma combinação: detalhe diário/semanal para as próximas 2 semanas e visão semanal para 30–90 dias.
Regra prática para começar
- Se você já teve “surpresas” de caixa no fim do mês: comece com 30 dias.
- Se vende parcelado ou recebe por repasse (marketplace, cartão): use 60–90 dias.
- Se o caixa oscila muito: adote semanal + 30 dias.
Fontes da projeção: de onde vêm as entradas e saídas futuras
1) Contas a receber (entradas previstas)
Liste os recebimentos futuros com base em documentos e regras claras:
- Vendas a prazo (boleto, duplicata, crediário): data de vencimento e valor.
- Cartão: datas de repasse por bandeira/adquirente (D+X) e taxas.
- PIX/transferência: normalmente à vista (pode entrar como “provável” se depender de envio/entrega).
- Contratos recorrentes (mensalidades, assinaturas): datas fixas e histórico de pontualidade.
Boa prática: projete entradas pelo dia esperado de cair no banco, não apenas pelo vencimento do cliente (ex.: boleto vence dia 10, mas costuma cair dia 12).
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2) Contas a pagar (saídas previstas)
Inclua compromissos já assumidos e previsíveis:
- Fornecedores: vencimentos negociados, parcelas, adiantamentos.
- Folha e pró-labore: datas fixas (salários, encargos).
- Aluguel, energia, internet, sistemas: recorrências mensais.
- Impostos: datas e estimativas (mesmo que o valor ainda seja aproximado).
- Empréstimos: parcelas e juros.
Boa prática: se um pagamento depende de “quando der”, não deixe fora: registre como despesa provável com data-alvo (e revise depois).
3) Recorrências (entradas e saídas repetitivas)
Recorrências são itens que se repetem com padrão (mensal, semanal, quinzenal). Elas dão estabilidade ao projetado e reduzem trabalho manual.
- Exemplos de entradas: mensalidades, contratos, manutenção.
- Exemplos de saídas: aluguel, softwares, contabilidade, internet, salários.
Regra: recorrência deve ter data, valor e critério de reajuste (fixo, índice, “revisar a cada 3 meses”).
4) Sazonalidade (picos e vales previsíveis)
Sazonalidade é variação recorrente de vendas e/ou custos em certos períodos (mês, semana, datas específicas). Ela deve entrar como ajuste de premissa, não como “chute”.
- Exemplos: aumento de vendas em datas comemorativas; queda em férias; aumento de custos com estoque antes de campanhas; impostos sazonais.
Como aplicar: use um fator de ajuste por período (ex.: “na semana do Dia das Mães, vendas +25% vs. base”).
Passo a passo prático para montar a projeção por prazos
Passo 1 — Defina a granularidade do calendário
Escolha como você vai enxergar o tempo:
- Diário: ideal para 7–14 dias.
- Semanal: ideal para 30–90 dias (semana 1, semana 2...).
Uma estrutura comum é: colunas diárias nas próximas 2 semanas e depois colunas semanais até 90 dias.
Passo 2 — Comece pelo saldo inicial
O projetado precisa partir do caixa disponível no início do horizonte (saldo em conta + caixa). Esse número é o ponto de partida para calcular o saldo final de cada período.
Passo 3 — Preencha as saídas “certas” primeiro
Liste tudo que tem vencimento e valor conhecidos (ou quase conhecidos). Isso reduz o risco de otimismo excessivo.
- Fornecedores já faturados
- Aluguel e contratos
- Parcelas de empréstimos
- Folha (se já definida)
Passo 4 — Preencha as entradas “mais prováveis”
Inclua recebíveis com base em:
- títulos emitidos e vencimentos
- agenda de repasses de cartão
- contratos recorrentes
Se parte das vendas futuras ainda não existe (ex.: varejo), trate como premissa de vendas (ver seção de cenários).
Passo 5 — Inclua variáveis previsíveis (impostos, comissões, fretes)
Alguns itens variam com vendas. Em vez de adivinhar valor fixo, use regra percentual:
- Impostos sobre vendas: % do faturamento
- Taxas de cartão: % e prazo de repasse
- Comissões: % sobre vendas pagas
- Frete: média por pedido ou %
Isso melhora a coerência do projetado quando você muda o cenário de vendas.
Passo 6 — Calcule saldos por período e identifique “vales de caixa”
Para cada dia/semana:
- Saldo inicial do período
- (+) Entradas previstas
- (-) Saídas previstas
- (=) Saldo final (que vira o saldo inicial do próximo período)
Marque os períodos em que o saldo fica abaixo do mínimo de segurança (definido por você). Esses pontos são os que exigem ação antecipada.
Exemplo simples (semana a semana)
| Semana | Saldo inicial | Entradas | Saídas | Saldo final |
|---|---|---|---|---|
| Sem 1 | R$ 20.000 | R$ 12.000 | R$ 18.000 | R$ 14.000 |
| Sem 2 | R$ 14.000 | R$ 10.000 | R$ 16.500 | R$ 7.500 |
| Sem 3 | R$ 7.500 | R$ 15.000 | R$ 9.000 | R$ 13.500 |
Na semana 2 há um vale de caixa. Antes de chegar nela, você pode: negociar fornecedor, antecipar recebíveis, reforçar cobrança, ajustar compras ou adiar despesas não essenciais.
Projeção por cenários: conservador, base e otimista
Cenários são versões do futuro com premissas diferentes. Eles evitam que você trate uma única previsão como “verdade” e ajudam a decidir com margem de segurança.
Como montar os 3 cenários (modelo prático)
Crie um conjunto de premissas para cada cenário e aplique nas linhas que dependem de vendas e comportamento de pagamento.
- Base: o que é mais provável, baseado em média recente e carteira atual.
- Conservador: considera atrasos, queda de vendas, maior inadimplência e custos um pouco maiores.
- Otimista: considera vendas acima do esperado, melhor conversão e recebimentos mais pontuais (sem exageros).
Premissas típicas que mudam por cenário
- Vendas futuras: volume e ticket médio
- Prazo de recebimento: % à vista vs. prazo; D+X do cartão
- Atraso de clientes: parte dos recebíveis escorrega para semanas seguintes
- Inadimplência: % que não entra no horizonte (ou entra parcialmente)
- Custos variáveis: impostos, taxas, comissões, frete
- Compras/estoque: necessidade de reposição e prazo de fornecedor
Exemplo de premissas documentadas por cenário
| Premissa | Conservador | Base | Otimista |
|---|---|---|---|
| Vendas (próximos 30 dias) | -15% vs. média | igual à média | +10% vs. média |
| Atraso em recebíveis a prazo | 25% atrasam 7–14 dias | 15% atrasam 7 dias | 8% atrasam 7 dias |
| Inadimplência (não recebida no período) | 4% | 2% | 1% |
| Taxa total de cartão | 3,8% | 3,5% | 3,5% |
| Compras para reposição | reduzir 10% | normal | aumentar 10% |
Como tratar incertezas (atrasos, inadimplência, variação de vendas)
1) Atrasos: “escorregar” recebimentos para frente
Em vez de manter tudo na data de vencimento, aplique um deslocamento para uma parte dos títulos.
Método simples:
- Separe os recebíveis por tipo (boleto, crediário, contrato, cartão).
- Defina um percentual que atrasa e quantos dias/semana atrasa (por cenário).
- Mova esse percentual para o período seguinte.
Exemplo: R$ 10.000 a receber na semana 2. No cenário base, 15% atrasa 7 dias: R$ 1.500 sai da semana 2 e entra na semana 3.
2) Inadimplência: “descontar” parte do que não entra
Inadimplência é diferente de atraso: é o valor que não será recebido no horizonte (ou tem baixa probabilidade).
Método simples: aplique um percentual de perda sobre recebíveis a prazo (ou sobre um grupo específico de clientes) e retire do período.
Exemplo: recebíveis a prazo de R$ 50.000 no horizonte. Inadimplência base 2%: considerar R$ 49.000 como entrada e R$ 1.000 como “não recebido no período”.
3) Variação de vendas: use drivers (quantidade x ticket) e não um número único
Quando a venda futura é incerta, projete por componentes:
- Quantidade de pedidos esperada por semana
- Ticket médio
- % à vista vs. % a prazo
- Prazo médio de recebimento
Isso facilita ajustar o cenário sem bagunçar todo o fluxo.
4) Crie um “colchão” de segurança (mínimo de caixa)
Defina um valor mínimo de caixa (ex.: 1 folha de pagamento, ou 15 dias de despesas fixas). No projetado, trate qualquer saldo abaixo desse mínimo como alerta para ação.
Como atualizar a previsão com base no realizado (rotina de rolling forecast)
Projeção útil é projeção atualizada. O método mais prático é o rolling forecast: você atualiza o que passou com o realizado e mantém sempre o mesmo horizonte para frente (ex.: sempre próximos 60 dias).
Rotina semanal (recomendada)
- 1) Feche o que aconteceu: substitua as previsões dos dias/semana que passaram pelos valores realizados.
- 2) Recalcule o saldo: o saldo final realizado vira o novo saldo inicial do horizonte.
- 3) Atualize recebíveis: títulos pagos saem; títulos em atraso são movidos para a nova data provável.
- 4) Atualize contas a pagar: pagamentos feitos saem; contas renegociadas mudam de data/valor.
- 5) Revise premissas: se a realidade está sistematicamente diferente (ex.: atrasos maiores), ajuste percentuais do cenário base.
- 6) Estenda o horizonte: se você trabalha com 60 dias, adicione mais uma semana no final para manter 60 dias à frente.
Métrica prática para calibrar a previsão
Registre, por semana, a diferença entre previsto e realizado:
- Erro de entradas = entradas realizadas - entradas previstas
- Erro de saídas = saídas realizadas - saídas previstas
- Erro de saldo = saldo final realizado - saldo final previsto
Se o erro é recorrente na mesma direção (sempre faltam entradas, ou sempre sobram saídas), o problema é premissa, não “azar”.
Premissas documentadas: como criar e manter um “caderno de premissas”
Premissas são regras que sustentam a projeção. Documentar evita que a previsão vire opinião e facilita revisões.
Modelo de registro de premissas (copie e use)
Premissa: Prazo de repasse do cartão (crédito 1x) Origem: extrato/adquirente Valor: D+30 Última revisão: 10/01 Observação: taxas 3,5% já descontadas no valor líquidoPremissa: Atraso médio em boletos (clientes B2B) Origem: histórico 90 dias Valor base: 15% atrasam 7 dias Conservador: 25% atrasam 14 dias Última revisão: 10/01Premissa: Sazonalidade (Semana do Dia das Mães) Origem: vendas 2024/2025 Ajuste: +25% em pedidos; ticket +5% Efeito em compras: +15% na semana anterior Última revisão: 10/01O que toda premissa deve ter
- Nome claro (o que é)
- Fonte (histórico, contrato, extrato, política comercial)
- Valor/regra (percentual, prazo, fórmula)
- Onde aplica (quais entradas/saídas)
- Data da última revisão
- Dono (quem decide/atualiza)
Revisões periódicas: cadência e gatilhos de mudança
Cadência mínima sugerida
- Semanal: atualizar títulos (a receber/a pagar), atrasos e renegociações; recalcular saldos; estender horizonte.
- Mensal: revisar premissas de vendas, inadimplência, custos variáveis e sazonalidade; comparar cenário base vs. realizado do mês.
- Trimestral: revisar estrutura de cenários e mínimo de caixa; checar se o horizonte (30/60/90) ainda faz sentido.
Gatilhos para revisar premissas antes do prazo
- mudança de política de prazo (fornecedor ou cliente)
- alteração de taxas de cartão/antecipação
- queda ou pico de vendas por 2–3 semanas seguidas
- aumento de atrasos/inadimplência acima do padrão
- entrada de um cliente grande (concentração de recebíveis)
Checklist de implementação rápida (primeiros 60 minutos)
- Escolher horizonte (30/60/90) e granularidade (diário/semanal)
- Inserir saldo inicial
- Listar contas a pagar com vencimento (próximos 30–90 dias)
- Listar contas a receber (títulos + repasses de cartão)
- Criar 3 cenários com 4–6 premissas-chave (vendas, atraso, inadimplência, custos variáveis)
- Calcular saldos e marcar vales de caixa
- Registrar premissas com fonte e data
- Agendar revisão semanal fixa