Verdade: três maneiras de entender o que significa “estar certo”
Quando dizemos “isso é verdade”, podemos estar fazendo coisas diferentes: descrevendo o mundo, defendendo que uma ideia “se encaixa” num conjunto de crenças, ou dizendo que uma afirmação “funciona” bem na prática. As teorias de verdade tentam esclarecer qual é o critério principal por trás desse uso.
1) Teoria da correspondência
Ideia central: uma afirmação é verdadeira quando corresponde aos fatos (ao modo como o mundo é). Ex.: “Está chovendo” é verdadeira se, de fato, está chovendo.
O que ela tenta esclarecer: por que a verdade parece “depender do mundo” e por que buscamos evidências observáveis (medições, registros, testemunhos confiáveis).
Dificuldades típicas:
- Fatos complexos e vagos: “A economia está melhor” — melhor em quê? Para quem? Em qual período?
- Entidades não observáveis diretamente: “Há matéria escura” — a correspondência é mediada por modelos e inferências.
- Afirmações normativas: “É injusto” não parece corresponder a um “fato” do mesmo tipo que “está chovendo”.
2) Teoria da coerência
Ideia central: uma afirmação é verdadeira quando coerente com um sistema de crenças bem organizado (sem contradições e com suporte mútuo). Ex.: em matemática, “2+2=4” é verdadeiro por sua posição num sistema axiomático.
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O que ela tenta esclarecer: por que valorizamos consistência, explicação unificada e por que algumas áreas dependem mais de relações internas do que de observação direta.
Dificuldades típicas:
- Vários sistemas coerentes: pode haver mais de um conjunto de crenças internamente consistente, mas incompatível com outro.
- Coerência não garante contato com a realidade: uma teoria conspiratória pode ser “coerente” internamente se aceitar premissas muito fortes e blindadas.
- Risco de circularidade: “é verdadeiro porque combina com o sistema; o sistema é bom porque contém verdades”.
3) Teoria pragmática
Ideia central: uma afirmação é verdadeira (ou “verdadeira o suficiente”) quando funciona bem para orientar ação e investigação: produz previsões úteis, resolve problemas, melhora decisões. Ex.: “Lavar as mãos reduz infecções” é valorizada por orientar práticas que diminuem contágio.
O que ela tenta esclarecer: por que, em ciência aplicada e vida cotidiana, tratamos como “verdade” aquilo que se mostra confiável ao longo do tempo e em diferentes contextos.
Dificuldades típicas:
- “Funcionar” para quem e em que horizonte? uma crença pode ser útil no curto prazo e ruim no longo prazo.
- Utilidade não é sinônimo de verdade: um placebo pode “funcionar” para aliviar sintomas sem que a explicação proposta seja correta.
- Risco de relativizar demais: se “verdade” vira apenas “o que dá certo”, pode faltar critério para distinguir acerto de conveniência.
Como usar as três sem confundir
Em vez de escolher uma teoria como “a única”, é útil perguntar: qual aspecto da verdade está em jogo aqui?
- Correspondência: quando a questão é “isso descreve o mundo?”
- Coerência: quando a questão é “isso se sustenta com o resto do que aceitamos?”
- Pragmática: quando a questão é “isso guia bem nossas decisões e investigações?”
Evidência, ônus da prova e grau de confiança
O que conta como evidência
Evidência é aquilo que aumenta (ou diminui) nossa confiança numa afirmação. Ela pode vir de observação, dados, documentos, testemunhos, experimentos, rastros digitais, ou inferências bem justificadas.
Uma forma prática de pensar é: evidência é o que responde à pergunta “por que eu deveria acreditar nisso?”
Ônus da prova: quem precisa mostrar o quê
Ônus da prova é a responsabilidade de oferecer evidências e argumentos. Em geral, recai sobre quem:
- faz a afirmação (especialmente se for forte, específica ou extraordinária);
- quer mudar o status quo (propor uma política, um tratamento, uma acusação);
- atribui causalidade (“X causa Y”) ou intenção (“foi de propósito”).
Ex.: “Esse suplemento cura insônia” exige evidência melhor do que “não tenho certeza se funciona”.
Grau de confiança: além de “verdadeiro/falso”
No cotidiano, muitas crenças são melhor tratadas como graus de confiança (alta, média, baixa), porque:
- as evidências são incompletas;
- as medições têm erro;
- o tema envolve incerteza e risco.
Uma linguagem útil é: “Com base no que vi, eu atribuo X% de confiança” ou “tenho alta confiança, mas reviso se aparecerem novos dados”.
Passo a passo: avaliando evidência de forma prática
- Defina a afirmação com precisão. Troque “faz mal” por “aumenta o risco em tal condição” ou “piora tal indicador”.
- Liste o tipo de evidência disponível. Experimento? Observação? Relato? Comparação histórica?
- Cheque qualidade e relevância. A evidência mede o que promete medir? É atual? É comparável ao seu caso?
- Procure explicações alternativas. Há outros fatores que explicam o resultado (confundidores)?
- Estime o tamanho do efeito. Não basta “tem efeito”; quanto? Em quais condições?
- Atualize seu grau de confiança. A evidência aumenta, mantém ou reduz sua confiança?
- Defina o que mudaria sua mente. Que dado/experimento/registro seria decisivo para você?
Por que pessoas razoáveis discordam
Desacordo racional acontece quando duas pessoas competentes e bem-intencionadas chegam a conclusões diferentes. Isso pode ocorrer mesmo quando ambas valorizam evidência e consistência.
1) Dados diferentes (ou acesso desigual a dados)
Uma pessoa viu um estudo recente; outra se baseia em experiências pessoais; outra acompanha uma fonte com recorte específico. O desacordo pode ser, antes de tudo, um desacordo sobre o que está no conjunto de evidências.
2) Interpretações diferentes do mesmo dado
Mesmo com os mesmos números, pode haver divergência sobre:
- o que é causa e o que é correlação;
- se o dado é representativo;
- se o efeito é grande o bastante para importar.
3) Valores e prioridades diferentes
Em temas práticos, valores entram no cálculo: segurança vs. liberdade, igualdade vs. eficiência, privacidade vs. conveniência. Duas pessoas podem concordar nos fatos e discordar na decisão.
4) Pressupostos de fundo
Pressupostos são “peças invisíveis” do raciocínio: confiança em instituições, visão sobre natureza humana, expectativas sobre incentivos, crenças sobre o que é uma boa vida. Muitas discussões travam porque os pressupostos não foram explicitados.
5) Vieses e limitações humanas
Mesmo pessoas razoáveis têm vieses. Alguns comuns em desacordos:
- viés de confirmação: buscar e lembrar mais do que favorece sua posição;
- heurística da disponibilidade: dar mais peso ao que é vívido ou recente;
- efeito de identidade: sentir que mudar de opinião ameaça pertencimento a um grupo;
- assimetria de ceticismo: exigir prova altíssima do outro lado e aceitar facilmente o próprio.
Como conduzir um desacordo produtivo
Caridade interpretativa: entender a melhor versão
Caridade interpretativa é reconstruir o argumento do outro na forma mais forte e plausível antes de criticar. Isso reduz mal-entendidos e melhora a qualidade do debate.
Prática rápida: antes de responder, tente dizer: “Se entendi, sua ideia é X por causa de Y, e você acha que isso implica Z.” Peça confirmação.
Perguntas de clarificação (em vez de contra-ataque)
- Definições: “O que você quer dizer com ‘melhor’, ‘seguro’, ‘censura’, ‘eficiente’?”
- Escopo: “Você está falando de todos os casos ou de alguns?”
- Critério: “Que evidência te convenceria do contrário?”
- Comparação: “Qual alternativa você considera e por quê?”
Revisão de premissas: onde realmente está a divergência
Muitas vezes o conflito não está na conclusão, mas em uma premissa escondida. Um método simples é separar:
- Premissas factuais: o que acontece no mundo;
- Premissas normativas: o que deve ser priorizado;
- Premissas metodológicas: que tipo de evidência conta mais (estudos, experiência, especialistas, etc.).
Passo a passo: um protocolo de conversa em desacordo
- Escolha o objetivo. “Queremos decidir uma ação?” ou “queremos entender melhor?”
- Formule a tese em uma frase. Cada lado escreve sua frase (sem adjetivos vagos).
- Faça steelman. Cada um reformula a posição do outro; o outro aprova ou corrige.
- Liste evidências aceitas por ambos. O que é ponto comum?
- Identifique o ponto de bifurcação. “Nós discordamos porque você aceita P e eu não.”
- Classifique o tipo de desacordo. Dados? Interpretação? Valores? Pressupostos?
- Defina testes ou informações que resolveriam. O que buscar, onde, e com que padrão de qualidade.
- Atualize graus de confiança. Mesmo sem concordar, cada um pode ajustar 5–10%.
Exemplos de debates cotidianos (saúde, política, tecnologia)
Saúde: “Esse alimento faz mal”
Afirmação vaga: “Carboidrato faz mal.”
Refinando: “Dietas muito ricas em carboidratos refinados aumentam risco de resistência à insulina em pessoas sedentárias.”
Onde surgem discordâncias razoáveis:
- Dados: um lado cita estudos populacionais; outro cita experiência pessoal com dieta.
- Interpretação: correlação vs. causalidade; papel de atividade física e calorias totais.
- Valores: prioridade em performance, estética, prazer alimentar, custo, praticidade.
Aplicando teorias de verdade:
- Correspondência: quais marcadores de saúde mudam, em quais grupos?
- Coerência: a afirmação combina com o que sabemos de metabolismo e com outros resultados?
- Pragmática: qual orientação é mais útil e segura para a maioria, dado o risco?
Política: “Essa política pública funciona”
Afirmação: “Aumentar a fiscalização reduz crimes.”
Fontes de desacordo:
- Dados diferentes: estatísticas locais vs. nacionais; períodos diferentes; subnotificação.
- Interpretação: queda pode ser por outros fatores (economia, demografia, mudanças legais).
- Valores: redução de crime vs. risco de abuso; custo vs. benefício; liberdade vs. segurança.
Perguntas de clarificação úteis: “Reduz quais crimes?”, “Em quais bairros?”, “Qual é o custo por crime evitado?”, “Quais salvaguardas contra abuso?”
Tecnologia: “IA vai tirar empregos (ou criar empregos)”
Afirmações concorrentes: “Vai destruir empregos” vs. “vai aumentar produtividade e criar novas funções”.
Por que o desacordo é racional:
- Horizonte temporal: curto prazo pode ser diferente do longo prazo.
- Pressupostos: sobre adaptação do mercado, educação, regulação, concentração de poder.
- Dados incompletos: tecnologia em rápida mudança; métricas ainda instáveis.
Como tornar a conversa produtiva: separar “o que provavelmente acontece” de “o que deveríamos fazer” (requalificação, proteção social, regras de uso).
Roteiro para mapear concordâncias e divergências
Use este roteiro como uma folha de trabalho mental (ou escrita) para qualquer discussão importante.
1) Mapa da afirmação
| Item | Pergunta | Resposta (A) | Resposta (B) |
|---|---|---|---|
| Tese | Qual frase resume sua posição? | ||
| Termos | Quais palavras precisam de definição? | ||
| Escopo | Vale para todos os casos ou alguns? | ||
| Previsões | O que esperaríamos observar se fosse verdade? |
2) Mapa de evidências
| Fonte | Tipo | Força | Limitações | Ambos aceitam? |
|---|---|---|---|---|
| Ex.: estudo | experimental/observacional | alta/média/baixa | amostra, viés, contexto | sim/não |
| Ex.: experiência | anecdótica | baixa–média | generalização | sim/não |
3) Mapa do desacordo (diagnóstico)
- Discordamos sobre dados? Quais dados faltam?
- Discordamos sobre interpretação? Qual alternativa causal cada um propõe?
- Discordamos sobre valores? O que cada um prioriza e por quê?
- Discordamos sobre pressupostos? Quais crenças de fundo estão operando?
4) Condições de revisão (o que mudaria a mente)
Preencha explicitamente:
- Eu aumentaria minha confiança se: (ex.: aparecerem estudos com tal desenho; dados locais consistentes por X anos).
- Eu reduziria minha confiança se: (ex.: surgirem evidências de efeito reverso; falhas metodológicas graves).
- Eu manteria minha confiança se: (ex.: resultados forem mistos, mas dentro de uma faixa esperada).
5) Linguagem de precisão (para evitar ruído)
Troque frases absolutas por formulações que carregam grau de confiança:
- Em vez de “É óbvio que…”, use “Pelo que vi até agora…”
- Em vez de “Sempre/Nunca”, use “Na maioria dos casos/Em certos contextos…”
- Em vez de “Isso prova”, use “Isso é evidência a favor, com estas limitações…”
Exercício rápido (5 minutos): aplicando o roteiro
- Escolha um tema real de desacordo (saúde, política ou tecnologia).
- Escreva a tese em uma frase e defina dois termos ambíguos.
- Liste 3 evidências a favor e 2 contra (mesmo que você discorde delas).
- Classifique o desacordo: dados, interpretação, valores ou pressupostos.
- Escreva uma condição concreta que mudaria seu grau de confiança.