Filosofia para Iniciantes: verdade, evidência e desacordo racional

Capítulo 4

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

Verdade: três maneiras de entender o que significa “estar certo”

Quando dizemos “isso é verdade”, podemos estar fazendo coisas diferentes: descrevendo o mundo, defendendo que uma ideia “se encaixa” num conjunto de crenças, ou dizendo que uma afirmação “funciona” bem na prática. As teorias de verdade tentam esclarecer qual é o critério principal por trás desse uso.

1) Teoria da correspondência

Ideia central: uma afirmação é verdadeira quando corresponde aos fatos (ao modo como o mundo é). Ex.: “Está chovendo” é verdadeira se, de fato, está chovendo.

O que ela tenta esclarecer: por que a verdade parece “depender do mundo” e por que buscamos evidências observáveis (medições, registros, testemunhos confiáveis).

Dificuldades típicas:

  • Fatos complexos e vagos: “A economia está melhor” — melhor em quê? Para quem? Em qual período?
  • Entidades não observáveis diretamente: “Há matéria escura” — a correspondência é mediada por modelos e inferências.
  • Afirmações normativas: “É injusto” não parece corresponder a um “fato” do mesmo tipo que “está chovendo”.

2) Teoria da coerência

Ideia central: uma afirmação é verdadeira quando coerente com um sistema de crenças bem organizado (sem contradições e com suporte mútuo). Ex.: em matemática, “2+2=4” é verdadeiro por sua posição num sistema axiomático.

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O que ela tenta esclarecer: por que valorizamos consistência, explicação unificada e por que algumas áreas dependem mais de relações internas do que de observação direta.

Dificuldades típicas:

  • Vários sistemas coerentes: pode haver mais de um conjunto de crenças internamente consistente, mas incompatível com outro.
  • Coerência não garante contato com a realidade: uma teoria conspiratória pode ser “coerente” internamente se aceitar premissas muito fortes e blindadas.
  • Risco de circularidade: “é verdadeiro porque combina com o sistema; o sistema é bom porque contém verdades”.

3) Teoria pragmática

Ideia central: uma afirmação é verdadeira (ou “verdadeira o suficiente”) quando funciona bem para orientar ação e investigação: produz previsões úteis, resolve problemas, melhora decisões. Ex.: “Lavar as mãos reduz infecções” é valorizada por orientar práticas que diminuem contágio.

O que ela tenta esclarecer: por que, em ciência aplicada e vida cotidiana, tratamos como “verdade” aquilo que se mostra confiável ao longo do tempo e em diferentes contextos.

Dificuldades típicas:

  • “Funcionar” para quem e em que horizonte? uma crença pode ser útil no curto prazo e ruim no longo prazo.
  • Utilidade não é sinônimo de verdade: um placebo pode “funcionar” para aliviar sintomas sem que a explicação proposta seja correta.
  • Risco de relativizar demais: se “verdade” vira apenas “o que dá certo”, pode faltar critério para distinguir acerto de conveniência.

Como usar as três sem confundir

Em vez de escolher uma teoria como “a única”, é útil perguntar: qual aspecto da verdade está em jogo aqui?

  • Correspondência: quando a questão é “isso descreve o mundo?”
  • Coerência: quando a questão é “isso se sustenta com o resto do que aceitamos?”
  • Pragmática: quando a questão é “isso guia bem nossas decisões e investigações?”

Evidência, ônus da prova e grau de confiança

O que conta como evidência

Evidência é aquilo que aumenta (ou diminui) nossa confiança numa afirmação. Ela pode vir de observação, dados, documentos, testemunhos, experimentos, rastros digitais, ou inferências bem justificadas.

Uma forma prática de pensar é: evidência é o que responde à pergunta “por que eu deveria acreditar nisso?”

Ônus da prova: quem precisa mostrar o quê

Ônus da prova é a responsabilidade de oferecer evidências e argumentos. Em geral, recai sobre quem:

  • faz a afirmação (especialmente se for forte, específica ou extraordinária);
  • quer mudar o status quo (propor uma política, um tratamento, uma acusação);
  • atribui causalidade (“X causa Y”) ou intenção (“foi de propósito”).

Ex.: “Esse suplemento cura insônia” exige evidência melhor do que “não tenho certeza se funciona”.

Grau de confiança: além de “verdadeiro/falso”

No cotidiano, muitas crenças são melhor tratadas como graus de confiança (alta, média, baixa), porque:

  • as evidências são incompletas;
  • as medições têm erro;
  • o tema envolve incerteza e risco.

Uma linguagem útil é: “Com base no que vi, eu atribuo X% de confiança” ou “tenho alta confiança, mas reviso se aparecerem novos dados”.

Passo a passo: avaliando evidência de forma prática

  1. Defina a afirmação com precisão. Troque “faz mal” por “aumenta o risco em tal condição” ou “piora tal indicador”.
  2. Liste o tipo de evidência disponível. Experimento? Observação? Relato? Comparação histórica?
  3. Cheque qualidade e relevância. A evidência mede o que promete medir? É atual? É comparável ao seu caso?
  4. Procure explicações alternativas. Há outros fatores que explicam o resultado (confundidores)?
  5. Estime o tamanho do efeito. Não basta “tem efeito”; quanto? Em quais condições?
  6. Atualize seu grau de confiança. A evidência aumenta, mantém ou reduz sua confiança?
  7. Defina o que mudaria sua mente. Que dado/experimento/registro seria decisivo para você?

Por que pessoas razoáveis discordam

Desacordo racional acontece quando duas pessoas competentes e bem-intencionadas chegam a conclusões diferentes. Isso pode ocorrer mesmo quando ambas valorizam evidência e consistência.

1) Dados diferentes (ou acesso desigual a dados)

Uma pessoa viu um estudo recente; outra se baseia em experiências pessoais; outra acompanha uma fonte com recorte específico. O desacordo pode ser, antes de tudo, um desacordo sobre o que está no conjunto de evidências.

2) Interpretações diferentes do mesmo dado

Mesmo com os mesmos números, pode haver divergência sobre:

  • o que é causa e o que é correlação;
  • se o dado é representativo;
  • se o efeito é grande o bastante para importar.

3) Valores e prioridades diferentes

Em temas práticos, valores entram no cálculo: segurança vs. liberdade, igualdade vs. eficiência, privacidade vs. conveniência. Duas pessoas podem concordar nos fatos e discordar na decisão.

4) Pressupostos de fundo

Pressupostos são “peças invisíveis” do raciocínio: confiança em instituições, visão sobre natureza humana, expectativas sobre incentivos, crenças sobre o que é uma boa vida. Muitas discussões travam porque os pressupostos não foram explicitados.

5) Vieses e limitações humanas

Mesmo pessoas razoáveis têm vieses. Alguns comuns em desacordos:

  • viés de confirmação: buscar e lembrar mais do que favorece sua posição;
  • heurística da disponibilidade: dar mais peso ao que é vívido ou recente;
  • efeito de identidade: sentir que mudar de opinião ameaça pertencimento a um grupo;
  • assimetria de ceticismo: exigir prova altíssima do outro lado e aceitar facilmente o próprio.

Como conduzir um desacordo produtivo

Caridade interpretativa: entender a melhor versão

Caridade interpretativa é reconstruir o argumento do outro na forma mais forte e plausível antes de criticar. Isso reduz mal-entendidos e melhora a qualidade do debate.

Prática rápida: antes de responder, tente dizer: “Se entendi, sua ideia é X por causa de Y, e você acha que isso implica Z.” Peça confirmação.

Perguntas de clarificação (em vez de contra-ataque)

  • Definições: “O que você quer dizer com ‘melhor’, ‘seguro’, ‘censura’, ‘eficiente’?”
  • Escopo: “Você está falando de todos os casos ou de alguns?”
  • Critério: “Que evidência te convenceria do contrário?”
  • Comparação: “Qual alternativa você considera e por quê?”

Revisão de premissas: onde realmente está a divergência

Muitas vezes o conflito não está na conclusão, mas em uma premissa escondida. Um método simples é separar:

  • Premissas factuais: o que acontece no mundo;
  • Premissas normativas: o que deve ser priorizado;
  • Premissas metodológicas: que tipo de evidência conta mais (estudos, experiência, especialistas, etc.).

Passo a passo: um protocolo de conversa em desacordo

  1. Escolha o objetivo. “Queremos decidir uma ação?” ou “queremos entender melhor?”
  2. Formule a tese em uma frase. Cada lado escreve sua frase (sem adjetivos vagos).
  3. Faça steelman. Cada um reformula a posição do outro; o outro aprova ou corrige.
  4. Liste evidências aceitas por ambos. O que é ponto comum?
  5. Identifique o ponto de bifurcação. “Nós discordamos porque você aceita P e eu não.”
  6. Classifique o tipo de desacordo. Dados? Interpretação? Valores? Pressupostos?
  7. Defina testes ou informações que resolveriam. O que buscar, onde, e com que padrão de qualidade.
  8. Atualize graus de confiança. Mesmo sem concordar, cada um pode ajustar 5–10%.

Exemplos de debates cotidianos (saúde, política, tecnologia)

Saúde: “Esse alimento faz mal”

Afirmação vaga: “Carboidrato faz mal.”

Refinando: “Dietas muito ricas em carboidratos refinados aumentam risco de resistência à insulina em pessoas sedentárias.”

Onde surgem discordâncias razoáveis:

  • Dados: um lado cita estudos populacionais; outro cita experiência pessoal com dieta.
  • Interpretação: correlação vs. causalidade; papel de atividade física e calorias totais.
  • Valores: prioridade em performance, estética, prazer alimentar, custo, praticidade.

Aplicando teorias de verdade:

  • Correspondência: quais marcadores de saúde mudam, em quais grupos?
  • Coerência: a afirmação combina com o que sabemos de metabolismo e com outros resultados?
  • Pragmática: qual orientação é mais útil e segura para a maioria, dado o risco?

Política: “Essa política pública funciona”

Afirmação: “Aumentar a fiscalização reduz crimes.”

Fontes de desacordo:

  • Dados diferentes: estatísticas locais vs. nacionais; períodos diferentes; subnotificação.
  • Interpretação: queda pode ser por outros fatores (economia, demografia, mudanças legais).
  • Valores: redução de crime vs. risco de abuso; custo vs. benefício; liberdade vs. segurança.

Perguntas de clarificação úteis: “Reduz quais crimes?”, “Em quais bairros?”, “Qual é o custo por crime evitado?”, “Quais salvaguardas contra abuso?”

Tecnologia: “IA vai tirar empregos (ou criar empregos)”

Afirmações concorrentes: “Vai destruir empregos” vs. “vai aumentar produtividade e criar novas funções”.

Por que o desacordo é racional:

  • Horizonte temporal: curto prazo pode ser diferente do longo prazo.
  • Pressupostos: sobre adaptação do mercado, educação, regulação, concentração de poder.
  • Dados incompletos: tecnologia em rápida mudança; métricas ainda instáveis.

Como tornar a conversa produtiva: separar “o que provavelmente acontece” de “o que deveríamos fazer” (requalificação, proteção social, regras de uso).

Roteiro para mapear concordâncias e divergências

Use este roteiro como uma folha de trabalho mental (ou escrita) para qualquer discussão importante.

1) Mapa da afirmação

ItemPerguntaResposta (A)Resposta (B)
TeseQual frase resume sua posição?
TermosQuais palavras precisam de definição?
EscopoVale para todos os casos ou alguns?
PrevisõesO que esperaríamos observar se fosse verdade?

2) Mapa de evidências

FonteTipoForçaLimitaçõesAmbos aceitam?
Ex.: estudoexperimental/observacionalalta/média/baixaamostra, viés, contextosim/não
Ex.: experiênciaanecdóticabaixa–médiageneralizaçãosim/não

3) Mapa do desacordo (diagnóstico)

  • Discordamos sobre dados? Quais dados faltam?
  • Discordamos sobre interpretação? Qual alternativa causal cada um propõe?
  • Discordamos sobre valores? O que cada um prioriza e por quê?
  • Discordamos sobre pressupostos? Quais crenças de fundo estão operando?

4) Condições de revisão (o que mudaria a mente)

Preencha explicitamente:

  • Eu aumentaria minha confiança se: (ex.: aparecerem estudos com tal desenho; dados locais consistentes por X anos).
  • Eu reduziria minha confiança se: (ex.: surgirem evidências de efeito reverso; falhas metodológicas graves).
  • Eu manteria minha confiança se: (ex.: resultados forem mistos, mas dentro de uma faixa esperada).

5) Linguagem de precisão (para evitar ruído)

Troque frases absolutas por formulações que carregam grau de confiança:

  • Em vez de “É óbvio que…”, use “Pelo que vi até agora…”
  • Em vez de “Sempre/Nunca”, use “Na maioria dos casos/Em certos contextos…”
  • Em vez de “Isso prova”, use “Isso é evidência a favor, com estas limitações…”

Exercício rápido (5 minutos): aplicando o roteiro

  1. Escolha um tema real de desacordo (saúde, política ou tecnologia).
  2. Escreva a tese em uma frase e defina dois termos ambíguos.
  3. Liste 3 evidências a favor e 2 contra (mesmo que você discorde delas).
  4. Classifique o desacordo: dados, interpretação, valores ou pressupostos.
  5. Escreva uma condição concreta que mudaria seu grau de confiança.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em uma discussão, duas pessoas concordam com os dados disponíveis, mas tomam decisões diferentes porque priorizam objetivos distintos (por exemplo, segurança versus liberdade). Segundo o conteúdo, que tipo de fonte de desacordo isso exemplifica?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O caso descreve concordância nos fatos, mas divergência na escolha prática por causa do que cada um prioriza. Isso caracteriza desacordo racional por valores e prioridades, não por falta de dados ou interpretação.

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Filosofia para Iniciantes: metafísica e a pergunta “o que é real?”

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