Febre, Sepse e Infecções na Triagem: Identificação Precoce e Prioridade Assistencial

Capítulo 13

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

Febre na triagem: quando é sinal de alerta

Febre é um achado frequente e, isoladamente, nem sempre indica gravidade. Na triagem, o objetivo é diferenciar quadros autolimitados de situações em que a febre é marcador de infecção grave, com risco de disfunção orgânica (sepse) ou rápida deterioração clínica. A prioridade assistencial aumenta quando a febre vem acompanhada de sinais de hipoperfusão, alteração do nível de consciência, instabilidade hemodinâmica, taquipneia importante, hipóxia, ou história clínica de alto risco.

Definições práticas para a triagem

  • Infecção suspeita: sintomas e/ou sinais compatíveis com foco infeccioso (respiratório, urinário, abdominal, pele/partes moles, SNC, cateter, entre outros).
  • Sepse (conceito operacional): infecção suspeita + evidência de disfunção orgânica (clínica e/ou por sinais vitais/perfusão/consciência). Na triagem, o reconhecimento é clínico e baseado em risco, não depende de confirmação laboratorial.
  • Choque séptico (suspeito): sepse com hipoperfusão e/ou hipotensão persistente, pele fria/moteada, enchimento capilar lento, rebaixamento do nível de consciência, oligúria, ou lactato elevado quando disponível.

Reconhecimento precoce de sepse: o que observar em 60–120 segundos

1) Sinais vitais que devem acender alerta

  • Temperatura: febre ou hipotermia (hipotermia em infecção pode indicar maior gravidade).
  • Frequência respiratória: taquipneia é um dos sinais mais precoces de sepse; valor elevado deve aumentar prioridade, especialmente com esforço respiratório ou saturação baixa.
  • Frequência cardíaca: taquicardia desproporcional ao desconforto/dor, principalmente com sinais de hipoperfusão.
  • Pressão arterial: hipotensão ou queda relativa em relação ao habitual (idosos e hipertensos podem “descompensar” com valores ainda aparentemente normais).
  • Saturação de O2: queda sem explicação clara ou associada a foco respiratório.

2) Perfusão e sinais de hipoperfusão (exame rápido)

  • Enchimento capilar prolongado.
  • Pele fria, pegajosa, pálida ou moteada.
  • Pulsos finos, extremidades frias.
  • Diurese referida reduzida (oligúria) nas últimas horas.
  • Sede intensa, tontura ao levantar, prostração importante (contextualizar com idade e comorbidades).

3) Nível de consciência e comportamento

  • Confusão aguda, desorientação, sonolência incomum, agitação nova.
  • “Não está como de costume” (relato de familiar/cuidador é valioso, especialmente em idosos).

4) História clínica dirigida para sepse (perguntas-chave)

  • Tempo de sintomas: início e evolução (horas vs dias), piora rápida, calafrios/rigores.
  • Foco suspeito: sintomas urinários, tosse produtiva, dor abdominal, ferida com secreção, dor em pele/partes moles, cefaleia intensa com rigidez de nuca, dor lombar com febre, etc.
  • Uso recente de antibióticos: qual, dose, início, adesão, última dose; falha terapêutica (piora apesar de antibiótico) aumenta suspeita de infecção complicada/resistente.
  • Procedimentos/dispositivos: cateter venoso, sonda vesical, hemodiálise, próteses, feridas cirúrgicas recentes.
  • Condições de risco: imunossupressão (corticoide crônico, quimioterapia, transplante, HIV avançado), asplenia, doença renal/hepática, diabetes descompensado, gestação/puerpério, extremos de idade (neonatos/lactentes e idosos).
  • Exposição: contato com doentes, viagens, picadas, ingestão de alimentos suspeitos, ambientes com surtos.

Como registrar de forma útil para priorização e continuidade do cuidado

O registro na triagem deve permitir que a equipe identifique rapidamente risco de sepse, foco provável e linha do tempo. Use linguagem objetiva, com dados mensuráveis e termos padronizados.

Campos essenciais (modelo prático)

  • Queixa principal: “Febre há 24h + prostração” / “Febre e confusão aguda”.
  • Tempo de início: “Início há 8h, piora progressiva” / “Piora nas últimas 2h”.
  • Foco suspeito: “Suspeita de foco urinário (disúria, urgência, dor suprapúbica)” / “Foco respiratório (tosse, dispneia, expectoração)”.
  • Antibiótico recente: “Amoxicilina iniciada há 48h, sem melhora; última dose hoje 08:00”.
  • Risco: “Imunossuprimido (prednisona 20 mg/dia)” / “Idoso frágil, demência, cuidador relata confusão nova”.
  • Sinais vitais: registrar valores e horário.
  • Perfusão/consciência: “TEC 4s, extremidades frias” / “Sonolento, responde a voz”.
  • Suspeita clínica: “Risco de sepse: sim/não; critérios observados: taquipneia + alteração de consciência + hipotensão relativa”.

Exemplo de anotação (curta e acionável)

QP: Febre e prostração. Início: 12h, piora rápida nas últimas 3h. Foco suspeito: urinário (disúria, dor lombar). ATB recente: ciprofloxacino há 24h, sem melhora. Risco: idoso 78a, DM2. SV 14:20: T 38,9°C; FC 118; FR 28; PA 92/58; SpO2 95% AA. Perfusão: TEC 4s, extremidades frias. Consciência: confuso (agudo). Suspeita de sepse: alta. Acionado protocolo.

Gatilhos para acionar protocolo de sepse na triagem

Os gatilhos variam conforme o serviço, mas na prática devem ser sensíveis para não atrasar atendimento. Considere acionar protocolo quando houver infecção suspeita associada a qualquer sinal de disfunção orgânica/hipoperfusão ou deterioração clínica.

Gatilhos clínicos comuns (use como checklist)

  • Hipotensão ou sinais de choque (pele fria/moteada, TEC prolongado, pulso fino).
  • Alteração aguda do nível de consciência (confusão, sonolência, agitação nova).
  • Taquipneia importante e/ou aumento do trabalho respiratório.
  • Hipóxia sem outra explicação imediata.
  • Oligúria referida ou sinais de desidratação/hipoperfusão em contexto infeccioso.
  • Febre em imunossuprimido ou em extremos de idade, mesmo com sinais vitais “limítrofes”.
  • Falha de antibiótico recente com piora clínica.

Observação prática: em idosos, gestantes e imunossuprimidos, a sepse pode ocorrer com febre discreta ou ausente; valorize mais a perfusão, a respiração e a mudança de estado mental.

Passo a passo prático na triagem: suspeita de sepse

Passo 1 — Identificar infecção provável

  • Defina foco suspeito com 2–3 perguntas dirigidas e inspeção rápida (pele, feridas, dispositivos).
  • Registre tempo de sintomas e trajetória (estável vs piora rápida).

Passo 2 — Procurar disfunção orgânica com dados disponíveis

  • Revisar sinais vitais do momento.
  • Avaliar perfusão (TEC, pele, extremidades, pulso) e estado mental.
  • Se houver glicemia capilar disponível e paciente com alteração de consciência, registrar (hipo/hiperglicemia pode coexistir e agravar quadro).

Passo 3 — Classificar prioridade e acionar fluxo rápido

  • Se sinais de instabilidade/hipoperfusão/alteração de consciência: prioridade imediata e comunicação direta com equipe médica.
  • Se estável, mas com alto risco (imunossupressão, extremos de idade, falha de antibiótico, foco potencialmente grave): prioridade elevada e reavaliação programada.

Passo 4 — Iniciar medidas do protocolo conforme rotina institucional

Na triagem, a enfermagem geralmente não “fecha diagnóstico”, mas dispara o processo para reduzir tempo até intervenção.

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  • Coleta de lactato (quando disponível): solicitar/coletar conforme protocolo; registrar horário.
  • Hemoculturas e culturas do foco (quando disponível e indicado): coletar antes do antibiótico quando possível, sem atrasar atendimento em paciente instável; registrar local e horário.
  • Acesso venoso e preparo para fluidos/medicações conforme prescrição e fluxo do serviço.
  • Monitorização: manter monitor, oximetria, PA seriada conforme gravidade.

Passo 5 — Reavaliação seriada (essencial em febre/infecção)

Mesmo pacientes inicialmente estáveis podem deteriorar. Defina um intervalo de reavaliação conforme risco e registre tendência.

  • Reavaliar: sinais vitais, perfusão (TEC/pele), nível de consciência, dor, diurese referida.
  • Intervalos sugeridos (ajustar ao protocolo local): alto risco ou sinais limítrofes: 15–30 min; risco moderado: 30–60 min; baixo risco: conforme fluxo, mantendo vigilância para piora.
  • Critérios de escalonamento: queda de PA, aumento de FR/FC, nova confusão, piora de perfusão, dessaturação, calafrios intensos com prostração, ou “aparência tóxica”.

Focos infecciosos: pistas rápidas e armadilhas na triagem

Respiratório

  • Pistas: tosse, dispneia, dor pleurítica, expectoração, saturação em queda.
  • Armadilha: idoso com pneumonia pode apresentar confusão e queda funcional sem febre alta.

Urinário

  • Pistas: disúria, urgência, dor suprapúbica, dor lombar, urina turva; em idosos, delirium pode ser apresentação.
  • Armadilha: bacteriúria assintomática não explica instabilidade; correlacionar com sinais sistêmicos.

Pele e partes moles

  • Pistas: área dolorosa desproporcional, calor, edema, bolhas, necrose, ferida com secreção, sinais de linfangite.
  • Armadilha: dor intensa “fora do esperado” pode indicar infecção grave (ex.: fasciíte necrosante) mesmo com pele pouco alterada no início.

Abdominal

  • Pistas: dor abdominal com febre, vômitos persistentes, distensão, sensibilidade localizada, história de cirurgia recente.
  • Armadilha: imunossuprimidos podem ter sinais peritoneais discretos.

SNC (meningite/encefalite suspeita)

  • Pistas: febre + cefaleia intensa, rigidez de nuca, fotofobia, alteração de consciência, convulsão.
  • Armadilha: ausência de rigidez de nuca não exclui; priorizar se houver rebaixamento ou sinais neurológicos.

Casos rápidos para treino de decisão na triagem

Caso 1 — Febre “simples” que não é simples

Paciente: 82 anos, febre referida há 1 dia, sem queixa específica; cuidadora relata “muito sonolento e diferente”. SV: T 37,6°C, FC 110, FR 26, PA 104/66, SpO2 94% AA. TEC 4s.

  • Interpretação na triagem: suspeita de infecção com disfunção orgânica (alteração aguda de consciência + hipoperfusão/taquipneia), mesmo sem febre alta.
  • Ação: priorizar atendimento, acionar protocolo de sepse, registrar foco a investigar, iniciar reavaliação seriada.

Caso 2 — Uso recente de antibiótico e piora

Paciente: 35 anos, febre há 3 dias, iniciou antibiótico há 48h por “sinusite”, agora com calafrios, prostração e tontura. SV: T 39,2°C, FC 125, FR 30, PA 90/55.

  • Interpretação: falha terapêutica + instabilidade hemodinâmica sugere infecção complicada/sepse.
  • Ação: fluxo rápido, protocolo de sepse, preparar coleta de lactato/culturas conforme disponibilidade e rotina.

Caso 3 — Imunossuprimido com febre baixa

Paciente: 28 anos, em quimioterapia, refere mal-estar e “calafrios”, T 37,8°C, FC 112, PA 108/70, FR 22. Sem foco claro.

  • Interpretação: alto risco; febre pode ser discreta e evolução rápida.
  • Ação: priorização elevada, registro de imunossupressão e tempo de sintomas, reavaliação seriada curta e comunicação precoce com equipe.

Checklist de triagem para febre/infecção com risco de sepse

ItemO que registrarPor quê
TempoInício e piora (horas/dias)Ajuda a identificar deterioração rápida
Foco suspeitoRespiratório/urinário/pele/abdominal/SNC/outrosDireciona exames, culturas e conduta
Antibiótico recenteNome, início, adesão, última doseFalha terapêutica e resistência aumentam risco
Risco do pacienteImunossupressão, extremos de idade, comorbidadesSepse pode ser atípica e mais grave
Disfunção orgânicaConsciência, perfusão, PA, FR, SpO2, diureseDefine prioridade e gatilho de protocolo
ReavaliaçãoIntervalo e tendência dos sinaisDetecta piora precoce

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Na triagem, em qual situação a febre deve aumentar a prioridade assistencial por sugerir sepse, mesmo sem confirmação laboratorial?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Na triagem, a suspeita de sepse é operacional: infecção suspeita + sinais clínicos de disfunção orgânica (ex.: hipoperfusão, hipotensão relativa, taquipneia importante, hipóxia) ou alteração aguda do estado mental. Isso eleva a prioridade e indica acionar protocolo.

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