Faturamento e recebimento em vendas para o governo: notas fiscais, prazos e conferências

Capítulo 14

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

+ Exercício

O que muda no faturamento para o governo (e por que você deve tratar como um processo)

Em vendas para a Administração Pública, “faturar e receber” não é apenas emitir uma nota fiscal. O recebimento depende de uma sequência de atos formais: entrega/execuçãoatesto (confirmação do fiscal/gestor) → liquidação (conferência do direito de receber) → ordem bancária/pagamento. Se qualquer documento estiver incompleto, divergente do contrato/empenho ou entregue no setor errado, o pagamento pode ser devolvido, glosado (reduzido) ou ficar parado.

O objetivo deste capítulo é você dominar o fluxo de faturamento, entender retenções, montar um dossiê de comprovação e conciliar empenho, medições (serviços), recebimentos e ordens de pagamento, além de ter um procedimento de cobrança administrativa profissional quando houver atraso.

Mapa do fluxo: do empenho ao pagamento

1) Empenho (reserva do orçamento)

O empenho é a formalização da despesa e costuma ser a referência central para faturamento. Antes de emitir a nota, confira:

  • Número do empenho e unidade gestora/órgão emissor.
  • Objeto e descrição (devem “conversar” com o que será faturado).
  • Valor total, saldo disponível e se o faturamento é parcial.
  • Fonte de recurso e natureza da despesa (impacta rotinas internas do órgão).
  • Dados do fornecedor (CNPJ, endereço, inscrição municipal/estadual quando aplicável).

2) Entrega/execução e comprovação

Para bens, o recebimento costuma envolver termo/atesto de recebimento e, às vezes, conferência física e documental. Para serviços, normalmente há medição (mensal, por etapa, por unidade executada) e relatório de execução. O pagamento só anda com comprovação consistente.

3) Atesto do fiscal/gestor

O atesto é a declaração de que o bem/serviço foi entregue conforme o contratado. Sem atesto, a área financeira geralmente não liquida a despesa. Garanta que o fiscal tenha em mãos: nota fiscal, documentos de entrega/medição e evidências (quando aplicável).

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4) Liquidação (conferência do direito de receber)

Na liquidação, o órgão confere se: (a) o objeto foi entregue/medido; (b) o valor está correto; (c) a nota fiscal atende às regras; (d) retenções tributárias foram aplicadas; (e) há saldo de empenho. Qualquer divergência gera exigência/pendência.

5) Pagamento (ordem bancária)

Após liquidar, o órgão emite a ordem de pagamento/ordem bancária. O prazo depende do contrato e do rito interno, mas você deve acompanhar ativamente para evitar que o processo fique parado por falta de documento, conferência ou assinatura.

Emissão de nota fiscal: como emitir “do jeito que o órgão precisa”

O que você deve conferir antes de emitir

  • Regra do instrumento contratual: se exige faturamento por etapa, por unidade, por medição mensal, por entrega, por lote, etc.
  • Dados para faturamento: razão social do órgão, CNPJ, endereço, inscrição estadual/municipal (se houver), unidade tomadora, e-mail do setor de recebimento/fiscal.
  • Referências obrigatórias: número do contrato/ata/instrumento, número do empenho, número do processo administrativo (quando exigido), item/lote.
  • Descrição do item/serviço: deve refletir o contratado e o executado. Evite descrições genéricas que não permitam vincular ao item do empenho.
  • Quantidade e unidade: coerentes com a medição/recebimento.
  • Valor unitário e total: iguais aos do contrato/ata (salvo reajuste/repactuação formalizada).
  • Local de entrega/execução: quando exigido.

Retenções tributárias: como se preparar para não ter surpresa no líquido a receber

Em contratações públicas, é comum haver retenções na fonte, conforme a natureza do serviço/produto e o regime tributário. Isso afeta o valor líquido que entra no caixa. Para controlar:

  • Mapeie as retenções aplicáveis ao seu caso (ex.: ISS, INSS, IR, contribuições). A aplicação varia por município, tipo de serviço, enquadramento e regras do órgão.
  • Separe o “valor bruto” do “valor líquido esperado” no seu controle financeiro, estimando as retenções.
  • Exija o comprovante de retenção quando houver, para conciliar e para sua contabilidade.
  • Evite emitir nota com código/descrição fiscal incorreta, pois isso pode alterar a retenção e gerar exigência.

Dica prática: crie uma planilha padrão por órgão/município com as retenções mais comuns que eles aplicam, para prever o caixa e reduzir retrabalho.

Documentos que costumam acompanhar a nota fiscal (dossiê de faturamento)

O conjunto exato varia, mas um dossiê bem montado acelera a liquidação. Exemplos de anexos frequentes:

  • Nota fiscal (e DANFE, quando aplicável).
  • Comprovante de entrega: canhoto assinado, termo de recebimento, protocolo, ou documento equivalente.
  • Relatório de medição (serviços): planilha de quantidades, período, evidências e assinatura do fiscal.
  • Atesto do fiscal/gestor (quando não vem no próprio termo).
  • Ordem de fornecimento/serviço (se houver).
  • Certidões quando o contrato exigir regularidade para pagamento (alguns órgãos checam internamente, outros pedem atualização).
  • Comprovantes técnicos: laudos, ART/RRT, relatórios fotográficos, logs, checklists de execução, quando aplicável.
  • Dados bancários (quando exigido formalmente): banco, agência, conta, titularidade.

Protocolo de entrega do faturamento: onde muitos pagamentos travam

Mesmo com nota correta, o pagamento pode atrasar se o faturamento não for protocolado no setor competente ou se faltar rastreabilidade. Trate o protocolo como etapa obrigatória.

Passo a passo para protocolar com segurança

  1. Identifique o setor correto: pode ser almoxarifado/recebimento (bens), fiscalização/gestão (serviços) e, depois, financeiro/contabilidade.
  2. Monte o dossiê em PDF único (quando aceito) ou em pasta organizada, com índice.
  3. Protocole e obtenha número de protocolo, data/hora e identificação do recebedor (nome/setor). Se for e-mail institucional, guarde o e-mail enviado e a confirmação de recebimento.
  4. Registre internamente (planilha/ERP): data do protocolo, valor, NF, empenho, responsável no órgão, prazo contratual de pagamento.
  5. Confirme o encaminhamento ao fiscal/contabilidade: em muitos órgãos, o documento “para” na mesa errada.

Modelo de registro interno (campos mínimos)

CampoExemplo
Órgão/UnidadeSecretaria X / Unidade Y
Contrato/InstrumentoContrato nº 012/2026
EmpenhoNE 2026NE000123
NFNFS-e 4587
Competência/Período (serviços)01/01 a 31/01/2026
Valor brutoR$ 50.000,00
Retenções estimadasR$ 5.000,00
Valor líquido esperadoR$ 45.000,00
Data de entrega/protocolo05/02/2026
Prazo contratual de pagamento30 dias após atesto
StatusEm liquidação
Responsável no órgãoFiscal: Nome / Contabilidade: Nome
Último contato10/02/2026 – e-mail

Acompanhamento de liquidação e pagamento: como “puxar o processo” sem atrito

Após protocolar, sua rotina deve ser acompanhar o caminho do processo e remover pendências rapidamente. Atrasos comuns: falta de atesto, divergência de descrição/quantidade, ausência de documento, retenção aplicada de forma diferente, saldo de empenho insuficiente, ou processo parado aguardando assinatura.

Rotina prática de acompanhamento (cadência)

  • D+2 do protocolo: confirmar recebimento e encaminhamento ao fiscal/gestor.
  • D+5: confirmar se houve atesto (ou se há exigência).
  • Semanal até liquidar: checar status com contabilidade/financeiro e registrar.
  • Após liquidação: acompanhar previsão de ordem bancária/pagamento.

Boa prática: mantenha um único canal formal (e-mail institucional) para registrar solicitações e respostas, e use telefone/WhatsApp apenas como apoio, sempre formalizando depois por e-mail.

Conciliação: como bater empenho, medições, recebimentos e ordens de pagamento

Por que conciliar

Conciliação evita três problemas caros: (1) faturar acima do saldo do empenho; (2) receber menos por glosa/retensão não prevista; (3) perder controle de quais medições já foram pagas.

Conciliação para fornecimento de bens (entregas)

Use uma tabela de controle por item do empenho/contrato:

  • Saldo do empenho por item.
  • Entregas realizadas (data, quantidade, documento de recebimento).
  • NFs emitidas vinculadas a cada entrega.
  • Liquidação (data e número do documento interno, se informado).
  • Pagamento (data, valor líquido, comprovante/ordem bancária).

Conciliação para serviços (medições)

Em serviços, a medição é o “coração” do faturamento. Faça a conciliação em três camadas:

  1. Medição aprovada: o que foi executado e aceito (quantidades, período, memória de cálculo).
  2. NF emitida: deve refletir exatamente a medição aprovada (sem “arredondar” ou mudar unidade).
  3. Pagamento: conferir se houve glosa, retenções e se o líquido recebido bate com o esperado.

Exemplo prático de conciliação (serviço mensal)

Você presta manutenção predial mensal com medição por chamados e horas técnicas.

  • Medição de janeiro: 120 horas aprovadas × R$ 200 = R$ 24.000 (bruto).
  • NF de janeiro: descrição “Manutenção predial – medição jan/2026 – 120h” = R$ 24.000.
  • Retenções: órgão reteve R$ 2.400.
  • Líquido esperado: R$ 21.600.
  • Conferência: se o pagamento cair R$ 20.900, houve diferença (glosa e/ou retenção maior). Você deve pedir o demonstrativo e identificar a causa antes de seguir com a próxima medição.

Como tratar glosa (pagamento menor) sem perder o controle

  • Registre a glosa por motivo (quantidade não aceita, item não previsto, falha documental, multa, retenção adicional).
  • Solicite demonstrativo do cálculo e o documento que fundamenta (ex.: relatório do fiscal).
  • Corrija o processo: ajuste de medição, emissão de NF complementar/substitutiva quando cabível, ou recurso administrativo interno conforme rito do órgão (sempre com base documental).

Checklist: faturamento sem pendências (use antes de emitir e antes de protocolar)

Checklist pré-emissão da nota

  • Tenho o número do empenho e confirmei saldo suficiente?
  • O objeto/descrição na NF corresponde ao item do contrato/empenho?
  • Quantidade, unidade e valores batem com medição/recebimento?
  • Incluí referências exigidas: contrato/ata, processo, item/lote?
  • CFOP/código de serviço e tributação estão corretos para evitar retenção indevida?
  • Calculei valor líquido esperado considerando retenções?
  • Dados do tomador (órgão) estão corretos (CNPJ/endereço/unidade)?

Checklist do dossiê para protocolo

  • NF/DANFE (quando aplicável) em PDF legível.
  • Comprovante de entrega/termo de recebimento ou relatório de execução.
  • Medição assinada/aprovada (serviços) e memória de cálculo.
  • Atesto do fiscal/gestor (ou documento equivalente).
  • Ordem de fornecimento/serviço (se houver).
  • Certidões/documentos exigidos para pagamento (se o contrato exigir apresentação).
  • Dados bancários (se solicitado).
  • Índice do dossiê (quando volumoso) e identificação do responsável.

Checklist pós-protocolo (controle)

  • Tenho número de protocolo, data/hora e setor?
  • Registrei no controle financeiro: prazo contratual, responsável no órgão, status?
  • Agendei follow-up (D+2, D+5, semanal)?
  • Tenho pasta com evidências: e-mails, protocolos, comprovantes?

Procedimento de cobrança administrativa profissional em caso de atraso

Cobrar o governo exige postura técnica, registro e objetividade. O foco é destravar o processo (pendência, atesto, liquidação, programação financeira) e criar trilha documental para eventual escalonamento interno.

Antes de cobrar: diagnóstico rápido (10 minutos)

  • Qual é o marco do prazo? Ex.: “X dias após atesto” ou “após apresentação da NF”.
  • O atesto foi emitido? Se não, a cobrança deve ir primeiro ao fiscal/gestor.
  • Há pendência formal? Exigência de documento, divergência na NF, certidão vencida, saldo de empenho.
  • O processo está em qual setor? Fiscalização, contabilidade, tesouraria.
  • Qual o valor líquido esperado? Para não confundir atraso com retenção.

Roteiro de cobrança (escalonamento em camadas)

  1. Contato 1 – Fiscal/gestor (se falta atesto ou medição): pedir status do atesto e se há ajuste necessário.
  2. Contato 2 – Contabilidade/liquidação: confirmar recebimento do dossiê, se está apto a liquidar e se há exigências.
  3. Contato 3 – Financeiro/tesouraria: após liquidação, pedir previsão de pagamento e se está na programação.
  4. Contato 4 – Chefia imediata do setor: se houver silêncio reiterado ou processo parado sem justificativa.

Modelo de e-mail de cobrança (objetivo e registrável)

Assunto: Acompanhamento de pagamento – NF [número] – Empenho [número] – Contrato [número]  Prezados(as),  Solicito, por gentileza, atualização do status do processo de pagamento referente à NF [número], no valor bruto de R$ [valor], vinculada ao Empenho [número] e Contrato [número].  Dados para conferência: - Protocolo de entrega do faturamento: [número], em [data] - Período/medição (se serviço): [período] - Atesto/recebimento: [informar se já ocorreu e data, se houver]  Poderiam informar: 1) Se há alguma pendência documental ou necessidade de correção; 2) Em qual setor o processo se encontra; 3) Previsão para liquidação e/ou pagamento.  Permanecemos à disposição para encaminhar qualquer complemento necessário.  Atenciosamente, [Nome] [Empresa/CNPJ] [Telefone] [E-mail]

Como registrar a comunicação (para controle e para não se perder)

Crie um “log de cobrança” por NF:

DataCanalContato/SetorResumoPróxima ação
12/02/2026E-mailContabilidadeConfirmou recebimento; pediu reenviar medição assinadaReenviar medição até 13/02
18/02/2026E-mailTesourariaProcesso liquidado; aguardando programação financeiraFollow-up em 7 dias

Controle financeiro interno: como refletir atraso sem bagunçar o caixa

  • Classifique o título: “A receber – Governo – NF xxxx”.
  • Data prevista: conforme prazo contratual (ou previsão informada pelo órgão).
  • Valor bruto x líquido: registre ambos e as retenções estimadas/confirmadas.
  • Status: protocolado, em atesto, em liquidação, liquidado, programado, pago.
  • Risco: marque “pendência documental”, “glosa”, “saldo de empenho”, “aguardando programação”.

Quando o atraso é por pendência sua (como resolver rápido)

  • NF com divergência: emitir nota substitutiva/carta de correção quando permitido e reenviar com destaque do que mudou.
  • Documento faltante: enviar em resposta ao e-mail do órgão, citando protocolo e NF, e atualizar o dossiê.
  • Medição sem assinatura: alinhar com o fiscal a forma correta de validação e reenviar.
  • Certidão/documento vencido (se exigido): regularizar e encaminhar comprovante.

Quando o atraso é interno do órgão (como manter profissionalismo e efetividade)

  • Peça informação objetiva: setor atual, pendência, data prevista.
  • Evite mensagens longas: facilite a resposta.
  • Formalize sempre: após ligação, envie e-mail “Conforme conversamos…” com resumo e próximos passos.
  • Mantenha periodicidade: follow-up semanal (ou conforme criticidade), sem agressividade.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em uma venda para a Administração Pública, qual prática reduz o risco de o pagamento ficar parado por falta de rastreabilidade ou envio ao setor errado?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O protocolo é uma etapa crítica: garante rastreabilidade (número, data/hora, setor e recebedor) e facilita o acompanhamento. Sem isso, o faturamento pode parar no setor errado ou gerar exigências por falta de documentos.

Próximo capitúlo

Rotina do fornecedor em licitações públicas: padronização, controles e melhoria contínua

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