Famílias lógicas TTL e CMOS: como escolher e interligar corretamente

Capítulo 4

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

TTL vs CMOS na prática: o que muda no projeto

TTL e CMOS são “famílias lógicas” (tecnologias e padrões elétricos) que determinam como um CI interpreta níveis de entrada, como ele entrega níveis de saída, quanto consome, quão rápido comuta e quão sensível é a ruído. Na prática, escolher (e interligar) TTL e CMOS corretamente evita falhas intermitentes, superaquecimento, consumo inesperado e incompatibilidade de níveis.

Alimentação típica

  • TTL (ex.: 74LS): tipicamente VCC = 5 V (faixa estreita). Muitos TTL clássicos não operam em 3,3 V.
  • CMOS (ex.: 74HC): costuma aceitar uma faixa mais ampla de alimentação (dependendo da série), por exemplo 2 V a 6 V em várias famílias 74HC. Isso facilita operar em 3,3 V ou 5 V.

Níveis de entrada/saída (o ponto que mais causa incompatibilidade)

O “nível lógico” não é um valor único; é uma faixa garantida por datasheet. O problema típico: uma saída TTL pode não atingir uma tensão alta suficiente para ser reconhecida como “1” por uma entrada CMOS alimentada em 5 V.

  • TTL (74LS) como referência típica: VOH(min) ≈ 2,7 V e VOL(max) ≈ 0,5 V (valores variam por série e carga).
  • CMOS 74HC a 5 V: VIH(min) costuma ser uma fração de VCC (frequentemente perto de 0,7·VCC), o que dá algo em torno de 3,5 V quando VCC=5 V. Assim, 2,7 V (TTL alto) pode não ser suficiente para um “1” garantido em 74HC.
  • CMOS 74HCT a 5 V: entradas com limiares “compatíveis com TTL”, ou seja, VIH(min) mais baixo (tipicamente ~2,0 V), permitindo que saídas TTL sejam reconhecidas com margem.

Consumo de corrente

  • TTL (74LS): consome corrente mesmo parado (corrente “estática” maior). Entradas TTL também podem exigir corrente (especialmente em nível baixo), o que afeta fan-out.
  • CMOS (74HC/74HCT): consumo estático muito baixo; o consumo cresce com a frequência de comutação e com a carga capacitiva na saída (consumo dinâmico).

Velocidade de comutação

Depende da série. Em geral, famílias CMOS modernas (HC/HCT) podem ser rápidas e com bordas mais íngremes, mas o desempenho real depende de carga, layout e desacoplamento. TTL LS é “rápido o suficiente” para muitas aplicações, porém com consumo maior.

Imunidade a ruído

  • CMOS: costuma ter maior margem de ruído (especialmente quando os limiares são proporcionais a VCC), mas é mais sensível a ESD e a entradas flutuantes.
  • TTL: margens de ruído diferentes; entradas tendem a não flutuar da mesma forma, mas ainda assim não é boa prática deixar entradas sem definição.

Séries comuns: 74LS, 74HC, 74HCT (o que significam as letras)

O prefixo 74 indica a família “comercial” clássica de lógica. O sufixo (letras) indica a tecnologia e características elétricas.

  • 74LS: Low-power Schottky TTL. Tecnologia TTL com diodos Schottky para reduzir saturação e aumentar velocidade, com consumo menor que TTL antigo, porém ainda maior que CMOS.
  • 74HC: High-speed CMOS. CMOS rápido, ampla faixa de alimentação em muitos componentes, entradas CMOS (limiares mais altos quando VCC=5 V).
  • 74HCT: High-speed CMOS, TTL-compatible inputs. Saída CMOS, mas entradas com limiares compatíveis com TTL quando alimentado em 5 V. É o “tradutor” mais comum para ligar TTL → CMOS sem dor de cabeça.

Observação prática: dentro de uma mesma “série”, diferentes fabricantes podem ter pequenas diferenças em limites e correntes. Sempre confirme no datasheet do componente exato (por exemplo, 74HC00 de um fabricante vs outro).

Continue em nosso aplicativo e ...
  • Ouça o áudio com a tela desligada
  • Ganhe Certificado após a conclusão
  • + de 5000 cursos para você explorar!
ou continue lendo abaixo...
Download App

Baixar o aplicativo

Diretrizes de compatibilidade TTL ↔ CMOS (com exemplos práticos)

1) TTL (74LS) dirigindo CMOS 74HC (a 5 V): caso problemático

Esse é o erro clássico: saída TTL pode ter VOH(min) menor que o VIH(min) exigido por 74HC em 5 V. Pode “funcionar na bancada” e falhar com temperatura, ruído, variação de lote ou carga.

Como corrigir:

  • Trocar a entrada CMOS de 74HC por 74HCT (mesma função lógica, limiar TTL).
  • Usar um buffer/driver com entrada TTL e saída CMOS.
  • Reduzir VCC do CMOS (quando permitido) para diminuir VIH (por exemplo, operar o HC em 3,3 V pode tornar VIH menor), mas isso só vale se todo o sistema aceitar essa alimentação.

2) TTL (74LS) dirigindo CMOS 74HCT (a 5 V): solução direta

O 74HCT foi feito para isso: entradas reconhecem “1” TTL e as saídas são CMOS (normalmente com VOH alto próximo de VCC e VOL baixo), o que ajuda a dirigir outras entradas CMOS e melhora margens.

Exemplo típico: um contador 74LS90 alimenta um decodificador 74HCT4511 (ou portas 74HCTxx). O 74HCT recebe níveis TTL com folga e entrega níveis CMOS robustos para o restante do circuito.

3) CMOS (74HC/74HCT) dirigindo TTL (74LS): geralmente funciona, mas verifique corrente

Em termos de tensão, uma saída CMOS a 5 V costuma ter VOH alto suficiente para ser “1” em TTL. O ponto crítico pode ser corrente: entradas TTL em nível baixo podem exigir corrente de entrada (IIL), e a saída CMOS precisa conseguir afundar (sink) essa corrente mantendo VOL dentro do limite.

  • Verifique se a saída CMOS suporta o IOL necessário para o número de entradas TTL conectadas (fan-out).
  • Se precisar dirigir muitas entradas TTL, use um buffer/driver apropriado.

4) Entradas CMOS nunca devem ficar flutuando

Entradas CMOS (HC/HCT) flutuantes podem oscilar, aumentar consumo e gerar comportamento imprevisível. Em projetos reais:

  • Use pull-up ou pull-down (por exemplo, 10 kΩ a 100 kΩ, conforme velocidade/ruído).
  • Ou amarre diretamente a VCC/GND quando a entrada for fixa.

Passo a passo: como escolher a família e garantir interligação correta

Passo 1 — Defina a alimentação do sistema e as tensões disponíveis

  • Se o sistema é 5 V e você precisa compatibilidade com TTL existente: considere 74HCT para receber sinais TTL e manter saídas CMOS.
  • Se o sistema é 3,3 V: 74HC pode ser adequado (dependendo do CI), mas TTL clássico (74LS) geralmente não serve. Avalie famílias CMOS próprias para 3,3 V (varia por catálogo).

Passo 2 — Verifique compatibilidade de níveis (tensão) entre saída e entrada

Para cada ligação “A → B”, compare:

  • Saída do A: VOH(min) e VOL(max)
  • Entrada do B: VIH(min) e VIL(max)

Critérios:

  • Precisa garantir VOH(min) ≥ VIH(min)
  • Precisa garantir VOL(max) ≤ VIL(max)

Se qualquer um falhar, não é compatível “por garantia”, mesmo que pareça funcionar.

Passo 3 — Verifique compatibilidade de corrente (fan-out real)

Compare a capacidade da saída com a demanda das entradas:

  • Para nível alto: saída fornece corrente (IOH) e entradas consomem (IIH).
  • Para nível baixo: saída afunda corrente (IOL) e entradas exigem (IIL).

Regra prática: some as correntes de entrada de todas as cargas e garanta que a saída suporta com margem, mantendo VOH/VOL dentro do especificado.

Passo 4 — Consumo e aquecimento

  • Se o circuito fica sempre ligado e a frequência é baixa, TTL pode desperdiçar energia por consumo estático.
  • Em CMOS, atenção ao consumo dinâmico: muitas saídas comutando rápido com cargas capacitivas (trilhas longas, muitos CIs em paralelo) aumentam ICC.

Passo 5 — Ruído, layout e desacoplamento

Famílias rápidas (HC/HCT) têm bordas rápidas; isso aumenta risco de ruído e “ringing” em trilhas longas. Boas práticas:

  • Coloque capacitor de desacoplamento (ex.: 100 nF cerâmico) próximo a cada CI entre VCC e GND.
  • Mantenha trilhas de clock e sinais rápidos curtas e com retorno de terra adequado.
  • Se houver overshoot/undershoot, considere resistor em série (22 Ω a 100 Ω) perto da fonte do sinal.

O papel do 74HCT como interface (quando usar)

Use 74HCT quando:

  • Você tem saídas TTL (74LS, 74ALS etc.) e precisa alimentar entradas CMOS mantendo VCC=5 V.
  • Você quer manter o “ecossistema 74xx” com pinagem e funções equivalentes, mas com melhor margem de saída CMOS.

Evite assumir que “qualquer CMOS serve” para receber TTL em 5 V: 74HC não é TTL-compatible por padrão; 74HCT é.

Roteiro de verificação de datasheet: VIL, VIH, VOL, VOH, ICC (e por que importam)

Ao escolher e interligar CIs, estes parâmetros são os mais úteis para evitar surpresas. Abaixo um roteiro objetivo do que checar e como isso impacta o projeto.

1) VIL e VIH (limiares de entrada)

  • VIL(max): maior tensão ainda reconhecida como “0”. Se o seu VOL(max) for maior que isso, o “0” pode virar indefinido.
  • VIH(min): menor tensão reconhecida como “1”. Se o seu VOH(min) for menor que isso, o “1” pode falhar.

Impacto: define compatibilidade de tensão e margem de ruído. É aqui que aparece a diferença crítica entre 74HC e 74HCT em 5 V.

2) VOL e VOH (níveis garantidos de saída)

  • VOL(max) é especificado para uma corrente de afundamento (IOL) definida.
  • VOH(min) é especificado para uma corrente de fornecimento (IOH) definida.

Impacto: não basta “medir sem carga”. Se você aumentar a carga (mais entradas, LEDs, resistores baixos), VOH pode cair e VOL pode subir. Sempre compare usando as condições do datasheet.

3) ICC (corrente de alimentação)

  • ICC pode ser dado como típico e máximo, e às vezes separado por condição (estático, comutando, entradas em determinado estado).
  • Em CMOS, procure também especificações relacionadas a frequência e carga (alguns datasheets trazem curvas).

Impacto: dimensionamento da fonte, aquecimento e autonomia (se for bateria). Também ajuda a identificar problemas: entradas CMOS flutuando podem elevar ICC.

Checklist rápido (copie e use no projeto)

Para cada conexão A → B (mesma alimentação ou não): 1) Confira VCC e faixa de operação de A e B. 2) Compare VOH(min) de A com VIH(min) de B. 3) Compare VOL(max) de A com VIL(max) de B. 4) Some correntes de entrada (IIH/IIL) das cargas e compare com IOH/IOL da saída. 5) Estime ICC total (pior caso) e verifique fonte/regulador. 6) Garanta entradas não usadas com nível definido (pull-up/down). 7) Planeje desacoplamento (100 nF por CI) e layout para sinais rápidos.

Tabela-resumo (visão rápida)

Característica74LS (TTL)74HC (CMOS)74HCT (CMOS c/ entrada TTL)
Alimentação típica5 VFaixa ampla (depende do CI)5 V (para compatibilidade TTL)
Entrada “1” em 5 VVIH menor (TTL)VIH mais alto (pode exigir ~3,5 V)VIH baixo (≈ TTL)
Consumo estáticoMaiorMuito baixoMuito baixo
SaídaNíveis TTL, corrente característica de TTLNíveis CMOS (próximo a VCC/GND)Níveis CMOS (próximo a VCC/GND)
Uso típicoCompatibilidade com sistemas TTL legadosSistemas CMOS, 3,3 V/5 V (conforme CI)Interface TTL → CMOS em 5 V

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao interligar uma saída TTL 74LS a uma entrada CMOS alimentada em 5 V, qual escolha reduz o risco de incompatibilidade de nível lógico “1” e por quê?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Em 5 V, entradas 74HC costumam exigir VIH alto (próximo a 0,7·VCC), e o VOH de 74LS pode não atingir isso com garantia. A série 74HCT tem limiares de entrada compatíveis com TTL, evitando falhas intermitentes.

Próximo capitúlo

Entradas digitais estáveis: pull-up, pull-down e entradas flutuantes

Arrow Right Icon
Capa do Ebook gratuito Eletrônica Digital para Iniciantes: Portas Lógicas, TTL/CMOS e Interfaces Básicas
27%

Eletrônica Digital para Iniciantes: Portas Lógicas, TTL/CMOS e Interfaces Básicas

Novo curso

15 páginas

Baixe o app para ganhar Certificação grátis e ouvir os cursos em background, mesmo com a tela desligada.