Falhas comuns na Impressão 3D FDM: diagnóstico por sintomas e correções

Capítulo 13

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

+ Exercício

Método de diagnóstico: conserte por sintomas sem “atirar para todos os lados”

Em impressão 3D FDM, muitos defeitos têm aparência parecida, mas causas diferentes. O erro mais comum ao tentar corrigir é mudar vários parâmetros ao mesmo tempo (temperatura, retração, velocidade, fluxo etc.). Isso até pode “melhorar”, mas você perde rastreabilidade: não sabe qual mudança realmente resolveu e pode criar um novo problema.

Regra de ouro: uma variável por vez

  • Escolha 1 sintoma principal (o mais visível/mais frequente na peça).
  • Defina um teste curto (peça pequena, 10–20 min) que evidencie o problema.
  • Mude apenas 1 coisa por tentativa (um parâmetro ou uma intervenção mecânica).
  • Registre o que mudou e o resultado (melhorou/piorou/igual).
  • Volte ao valor anterior se piorar, e tente a próxima causa provável.

Checklist rápido antes de mexer no fatiador

Antes de ajustar parâmetros, elimine causas simples e frequentes:

  • Filamento: diâmetro correto no fatiador, bobina desenrolando livre, sem nós, sem umidade evidente (estalos/bolhas).
  • Bico e hotend: bico bem apertado a quente (sem vazamento), sem resíduos externos, ventoinha do hotend funcionando.
  • Extrusor: engrenagem limpa, pressão do idler adequada, sem “mastigar” o filamento.
  • Mecânica: correias tensionadas, polias firmes no eixo (parafuso no chanfro/flat), rodas/rolamentos sem folga, mesa firme.

Como registrar para ter rastreabilidade

Use um log simples por tentativa:

Data: __/__/__  Material: ____  Bico: _._mm  Altura camada: __mm  Velocidade: __mm/s  Temp: __°C  Mesa: __°C  Ventilação: __%  Retração: __mm @ __mm/s  Fluxo: __%  Sintoma: ______  Mudança aplicada: ______  Resultado: (melhorou/piorou/igual)  Observações: ______

Guia por sintomas: causas prováveis e correções

1) Subextrusão (faltando material, linhas falhadas, paredes “magras”)

Conceito: o volume de plástico depositado é menor do que o esperado. Visualmente aparecem falhas entre linhas, camadas fracas, superfícies “ralas” e, em casos severos, gaps e buracos.

Causas prováveis (mais comuns primeiro)

  • Entupimento parcial no bico/hotend (resíduo, sujeira, degradação do material).
  • Temperatura baixa para a velocidade/filamento (viscosidade alta).
  • Extrusor patinando (engrenagem suja, pressão do idler baixa/alta demais, filamento “mastigado”).
  • Filamento com atrito no caminho (tubo PTFE danificado, guia com rebarba, bobina travando).
  • Fluxo (flow) baixo ou diâmetro de filamento configurado errado no fatiador.
  • Velocidade/volumetric flow alto demais para o hotend (limite de fusão).

Ações corretivas (passo a passo)

  • Inspeção rápida do extrusor: abra a alavanca/idler, limpe a engrenagem, verifique se o filamento não está “comido”. Ajuste a pressão para que marque o filamento sem esmagar.
  • Teste de extrusão no ar: aqueça o hotend e extrude 50–100 mm. O fluxo deve sair contínuo e reto; se sair torto, falhando ou “cuspindo”, suspeite de entupimento.
  • Desentupimento: faça limpeza com filamento de limpeza ou procedimento de “cold pull” (quando aplicável ao seu hotend). Se persistir, troque o bico.
  • Ajuste de temperatura: aumente em passos de +5 a +10 °C e repita o teste curto.
  • Reduza velocidade: diminua 10–20% (ou reduza velocidade de parede externa) para aliviar o hotend.
  • Verifique no fatiador: diâmetro do filamento (1,75/2,85), flow em 100% como base, largura de linha compatível com o bico.

Teste recomendado

Imprima um cubo simples com 2 paredes e 0% infill. Subextrusão aparece claramente nas paredes e na consistência das linhas.

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2) Superextrusão (excesso de material, paredes “gordas”, detalhes fechando)

Conceito: a impressora deposita mais plástico do que o necessário. Isso causa cantos inchados, superfícies com “acúmulo” e dimensões maiores.

Causas prováveis

  • Flow alto no fatiador (ou multiplicador de extrusão elevado).
  • Diâmetro do filamento configurado menor do que o real (faz o fatiador mandar mais material).
  • Temperatura alta (material muito fluido, aumenta “squeeze” e acúmulo).
  • Largura de linha exagerada para o bico/altura de camada.

Ações corretivas

  • Confirme o diâmetro configurado no fatiador (1,75/2,85) e, se você usa valor medido, meça em 3–5 pontos e use a média.
  • Reduza o flow em passos de -2% a -5% (ex.: 100% → 95%).
  • Reduza temperatura em -5 °C por tentativa.
  • Cheque largura de linha: como base, use algo próximo ao diâmetro do bico (ex.: bico 0,4 mm → linha ~0,40–0,48 mm).

3) Stringing (fios finos entre partes)

Conceito: durante movimentos de viagem (travel), o bico “vaza” material e cria fios. É comum em peças com torres/ilhas separadas.

Causas prováveis

  • Temperatura alta (material muito fluido).
  • Retração insuficiente (distância/velocidade).
  • Filamento úmido (vapor aumenta oozing e cria fios).
  • Travel lento (mais tempo para vazar).
  • Pressão no bico por aceleração/jerk baixos e trajetórias longas sem retração.

Ações corretivas (passo a passo)

  • Seque/valide o filamento se houver estalos, bolhas ou stringing “peludo” persistente.
  • Baixe a temperatura em -5 °C e reimprima um teste de torres.
  • Ajuste retração: aumente a distância em passos pequenos (ex.: +0,2 a +0,5 mm) e/ou a velocidade (ex.: +5 mm/s). Evite exageros para não causar entupimento por “heat creep” ou desgaste do filamento.
  • Aumente travel (ex.: 150–200 mm/s, se sua máquina suportar) e habilite “avoid crossing perimeters”/“combing” conforme o caso para reduzir cruzamentos.

Teste recomendado

Teste de duas torres (duas colunas separadas). Compare a quantidade de fios após cada mudança.

4) Blobs/Zits (bolinhas, “espinhas” na parede)

Conceito: pequenos acúmulos localizados de material, muitas vezes repetindo em uma linha vertical (ponto de início/fim de camada) ou aparecendo aleatoriamente.

Causas prováveis

  • Costura (seam) mal posicionada e/ou retração/pressão mal ajustadas no reinício.
  • Temperatura alta (oozing).
  • Fluxo ligeiramente alto.
  • Variação no filamento (diâmetro inconsistente) ou sujeira.
  • Vazamento no hotend/bico (plástico escorrendo por rosca e caindo na peça).

Ações corretivas

  • Identifique se é “linha vertical”: se os zits alinham, é costura. Ajuste a estratégia de seam (ex.: alinhar em canto, esconder atrás, aleatório) e refine retração/coasting/wipe (se disponíveis).
  • Reduza temperatura em -5 °C.
  • Reduza flow em -2% a -3% se houver sinais de superextrusão.
  • Inspeção do hotend: procure plástico queimado ao redor do bloco/bico. Se houver, reaperte o bico corretamente a quente e verifique o assentamento do heatbreak.

5) Ghosting/Ringing (ondas após cantos, “eco” em letras)

Conceito: vibrações mecânicas fazem a cabeça/mesa oscilar após mudanças bruscas de direção, criando ondulações repetidas na superfície.

Causas prováveis

  • Aceleração/jerk muito altos para a rigidez do conjunto.
  • Correias frouxas ou polias com folga.
  • Estrutura instável (mesa bamba, impressora em superfície flexível).
  • Velocidade alta em perímetros externos.

Ações corretivas

  • Reduza aceleração (principalmente de perímetro) e, se aplicável, jerk/junction deviation. Faça mudanças de 10–20%.
  • Reduza velocidade da parede externa (ex.: 40 → 30 mm/s).
  • Tensione correias e confira polias: parafusos firmes e alinhamento.
  • Estabilize a base: coloque a impressora em superfície rígida e nivelada; verifique folgas em rodas/rolamentos.

6) Layer shifting (camadas “escorregadas”, deslocamento repentino)

Conceito: em algum ponto a posição do eixo X/Y “perde passos” e as camadas seguintes continuam deslocadas, criando um degrau claro.

Causas prováveis

  • Correia/polia escorregando (tensão baixa, parafuso solto).
  • Colisão do bico com a peça (warping local, blobs, suporte levantado).
  • Aceleração/velocidade altas causando perda de passos.
  • Arrasto no eixo (cabo prendendo, rolamento travando, sujeira no trilho).
  • Driver/motor aquecendo (proteção térmica) ou corrente mal ajustada (em máquinas que permitem ajuste).

Ações corretivas (passo a passo)

  • Inspeção mecânica imediata: verifique tensão das correias e aperto das polias (parafuso no chanfro do eixo do motor).
  • Procure marcas de colisão: bico raspando, cantos levantados, suportes soltos. Se houver, corrija a causa da colisão (ex.: reduza temperatura/flow para evitar blobs, melhore aderência local, ajuste Z-hop com cautela).
  • Reduza aceleração e velocidade em 20% e repita a impressão do trecho crítico.
  • Cheque cabos e arrasto: mova os eixos manualmente (com a impressora desligada, quando aplicável) e sinta pontos de travamento.

7) Entupimentos (clog) e falhas de extrusão intermitentes

Conceito: o fluxo para parcial ou totalmente. Pode acontecer após algum tempo de impressão (intermitente) ou logo no início (total).

Causas prováveis

  • Sujeira/partículas no filamento ou bico gasto.
  • Temperatura inadequada (baixa para a vazão) ou resfriamento do bloco por vento/ventoinha mal direcionada.
  • Heat creep (amolecimento do filamento acima do heatbreak por refrigeração insuficiente do hotend).
  • Retração excessiva (puxa material derretido para zona fria e cria tampão).
  • PTFE degradado (em hotends com PTFE até o bico) ou montagem com folga interna.

Ações corretivas

  • Troque o bico se houver suspeita de desgaste/obstrução persistente (é uma variável simples e comum).
  • Verifique a ventoinha do hotend: deve estar sempre ligada durante impressão e soprando no dissipador, não no bloco.
  • Reduza retração (distância e/ou velocidade) se o entupimento ocorre após muitas retrações.
  • Aumente temperatura em +5 °C se o entupimento ocorre em altas velocidades.
  • Inspecione PTFE: corte a ponta reta e sem deformação, confirme encaixe firme sem folga; substitua se estiver escurecido/deformado.

8) Delaminação (camadas se separando, peça fraca no eixo Z)

Conceito: baixa adesão entre camadas. A peça pode rachar ao longo das linhas de camada, especialmente sob esforço.

Causas prováveis

  • Temperatura baixa (camadas não “fundem” bem).
  • Ventilação alta demais (resfria antes de aderir), especialmente em materiais que exigem menos fan.
  • Velocidade alta (menos tempo para transferência de calor).
  • Correntes de ar/ambiente frio (resfriamento desigual).
  • Subextrusão (menos material de contato entre camadas).

Ações corretivas

  • Aumente temperatura em +5 a +10 °C.
  • Reduza fan (ex.: -10% a -30%, dependendo do material e geometria).
  • Reduza velocidade de perímetros e/ou aumente a largura de linha levemente para melhorar a área de contato.
  • Elimine correntes de ar e mantenha temperatura ambiente mais estável (sem apontar ventilador/ar-condicionado para a impressora).
  • Se houver sinais de subextrusão, trate primeiro a subextrusão (entupimento, extrusor, vazão).

9) Elephant foot (base “alargada”, primeira(s) camadas esmagadas)

Conceito: as camadas inferiores ficam mais largas que o restante, criando um “degrau” na base. Isso afeta encaixes e estética.

Causas prováveis

  • Z-offset muito baixo (primeira camada excessivamente comprimida).
  • Mesa muito quente ou calor acumulado na base (material amolece e “escorre” para fora).
  • Primeira camada muito lenta e com flow alto.
  • Excesso de aderência (gruda demais e deforma ao remover, confundindo o diagnóstico).

Ações corretivas

  • Ajuste Z-offset em passos pequenos (ex.: +0,02 a +0,05 mm) até a primeira camada ficar bem assentada sem “esmagar” demais.
  • Reduza a temperatura da mesa em -5 °C e observe se o alargamento diminui.
  • Reduza flow da primeira camada (ex.: 100% → 95–98%) e/ou aumente levemente a altura da primeira camada.
  • Use compensação no fatiador (elephant foot compensation/horizontal expansion negativa) apenas depois de resolver o básico (Z e temperatura), para não mascarar problemas.

10) Bolhas por umidade (estalos, superfície áspera, “pontos” e microvazios)

Conceito: filamento úmido contém água que vira vapor no hotend, gerando estalos, bolhas e extrusão irregular. A superfície pode ficar áspera e com pequenos crateramentos.

Causas prováveis

  • Filamento absorveu umidade (muito comum em PETG, Nylon, TPU; também pode ocorrer em PLA dependendo do armazenamento).
  • Armazenamento inadequado (sem vedação/dessecante).

Ações corretivas (passo a passo)

  • Confirme o sintoma: durante extrusão no ar, ouça estalos e observe “fumacinha”/microbolhas no fio extrudado.
  • Seque o filamento em secador apropriado ou forno com controle estável (seguindo a temperatura segura do material). Faça teste após 2–6 horas conforme o material.
  • Armazene corretamente: saco vedado + dessecante; mantenha a bobina fora do ambiente quando não estiver usando.

11) Problemas de primeira camada (não gruda, gruda demais, falhas, textura irregular)

Conceito: a primeira camada define a base geométrica e a estabilidade do restante. Problemas aqui costumam se manifestar como linhas que não se unem, cantos levantando, áreas “raspadas” ou excesso de esmagamento.

Sintomas comuns e causas prováveis

SintomaCausas mais prováveis
Linhas não se unem, falhas entre traçosZ-offset alto; mesa suja; temperatura baixa; velocidade alta na 1ª camada
Bico “raspando”, material muito achatadoZ-offset baixo; flow alto na 1ª camada
Descola durante a 1ª camadaSuperfície contaminada; mesa fria; ventilação cedo demais; Z alto
Textura irregular em áreas específicasMesa desnivelada localmente; empeno; sujeira localizada; variação de Z-offset

Ações corretivas (passo a passo prático)

  • Faça um teste de primeira camada (um quadrado grande e fino) para observar a união das linhas em toda a área.
  • Ajuste Z-offset em micro-passos (0,02–0,05 mm) enquanto imprime o teste, até obter linhas unidas, sem rebarbas excessivas.
  • Limpe a superfície com método adequado ao seu tipo de mesa (ex.: álcool isopropílico para muitas superfícies; evite produtos oleosos).
  • Ajuste parâmetros da 1ª camada: reduza velocidade (ex.: 15–25 mm/s), aumente levemente a temperatura do bico/mesa se houver falhas de adesão, e mantenha fan baixo ou desligado nas primeiras camadas quando necessário.
  • Se a falha é localizada, investigue nivelamento/planicidade e fixação da mesa (folgas e pontos altos/baixos).

Sequência sugerida de diagnóstico (fluxo rápido)

Quando você não sabe por onde começar, use esta ordem para reduzir retrabalho:

  • 1) Identifique se é extrusão: sub/superextrusão, entupimento, umidade.
  • 2) Depois trate movimentos: ghosting e layer shifting (mecânica/velocidade/aceleração).
  • 3) Por fim refine estética: stringing, blobs/zits e costura.

Exemplo de aplicação do método (sem mudanças simultâneas)

Problema: stringing forte em uma peça com duas torres.

  • Tentativa 1: reduzir temperatura -5 °C. Resultado: diminuiu 30%.
  • Tentativa 2: manter temperatura e aumentar retração +0,4 mm. Resultado: diminuiu mais 40%.
  • Tentativa 3: manter ajustes e aumentar travel. Resultado: fios residuais mínimos.

Perceba que cada passo isolou uma variável e deixou claro o que realmente ajudou.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao diagnosticar uma falha na impressão 3D FDM, qual abordagem melhora a rastreabilidade e reduz o risco de criar novos problemas?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A estratégia recomendada é diagnosticar por sintomas com uma variável por vez, usando testes curtos e registro das mudanças. Assim fica claro o que realmente corrigiu o defeito e evita mascarar ou criar novos problemas.

Próximo capitúlo

Manutenção preventiva da Impressão 3D FDM: limpeza, lubrificação e checagens periódicas

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