Exemplo completo de Lean Canvas para B2B: compra complexa, ciclo de vendas e prova de valor

Capítulo 16

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

+ Exercício

O que muda em um Lean Canvas B2B com compra complexa

Em B2B, o “cliente” raramente é uma pessoa só. Para o Lean Canvas ficar operacional (e não genérico), você precisa separar três papéis: usuário (quem usa no dia a dia), decisor econômico (quem aprova orçamento/contrato) e influenciadores (quem bloqueia ou acelera: TI, Segurança, Jurídico, Compliance, Compras, Financeiro). Essa separação muda a forma de escrever problema, proposta de valor, solução mínima (piloto) e canais, porque cada papel tem critérios diferentes de “valor” e “risco”.

O exemplo abaixo usa um produto B2B típico de compra complexa: plataforma de compliance e auditoria para indústrias reguladas (ISO, auditorias internas, rastreabilidade e evidências). O mesmo raciocínio serve para software de gestão, marketing industrial ou ferramentas de risco.

Exemplo completo: Lean Canvas (B2B Compliance) com usuário, decisor e influenciadores

1) Segmentos de clientes (separando papéis)

PapelQuem éO que “compra” (critério de decisão)
UsuárioAnalista/Coordenador de Qualidade e ComplianceFacilidade de uso, redução de retrabalho, evidências organizadas, alertas e prazos
Decisor econômicoDiretor Industrial / CFO / Diretor de OperaçõesRedução de risco e custo, ROI, previsibilidade, impacto em multas/paradas, custo total (TCO)
InfluenciadoresTI, Segurança da Informação, Jurídico, ComprasIntegração, requisitos de segurança, contrato (SLA, LGPD), condições comerciais

Recorte do ICP (perfil de cliente ideal) para o exemplo: indústrias com 200–2.000 funcionários, auditorias recorrentes, múltiplas plantas/unidades, histórico de não conformidades, uso de planilhas e e-mails para evidências.

2) Problemas (com impacto financeiro explícito)

Em compra complexa, “dor” precisa virar impacto mensurável para o decisor. Um bom jeito de escrever é: evento + frequência + consequência financeira.

  • Retrabalho e horas improdutivas: coleta de evidências em planilhas/e-mails consome 6–12h/semana por analista; em 5 analistas, isso vira 120–240h/mês (custo direto + atraso em projetos).
  • Risco de não conformidade: falhas de rastreabilidade e evidências incompletas aumentam chance de apontamentos em auditorias; consequência: multas, perda de certificação, bloqueio de fornecimento, paradas de linha.
  • Baixa previsibilidade: prazos e responsáveis difusos geram “correria” pré-auditoria; consequência: horas extras, consultoria emergencial, desgaste e erros.

Alternativas atuais (como resolvem hoje): planilhas, SharePoint/Drive, e-mail, consultorias pontuais, ERPs sem módulo de evidências, ferramentas genéricas de tarefas.

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Como quantificar rapidamente (modelo de cálculo para entrevista e proposta):

Impacto mensal = (Horas/mês desperdiçadas × custo/hora) + custo de horas extras + custo de consultoria emergencial (médio) + (probabilidade de não conformidade × custo do evento)

Exemplo numérico (para ancorar ROI): 180h/mês desperdiçadas × R$ 80/h = R$ 14.400/mês; consultoria emergencial média R$ 8.000/trimestre (~R$ 2.667/mês); risco esperado (0,15 × R$ 200.000/ano) = R$ 2.500/mês. Total aproximado: R$ 19.567/mês de impacto.

3) Proposta de valor (orientada a ROI e redução de risco)

Para o usuário, a promessa é “trabalho mais fácil”. Para o decisor, é “menos custo e menos risco”. Uma forma prática é escrever em duas camadas:

  • Camada do usuário: “Centralize evidências, automatize prazos e reduza retrabalho na preparação de auditorias.”
  • Camada do decisor: “Reduza o custo de conformidade e o risco de não conformidade com rastreabilidade auditável e indicadores em tempo real.”

Proposta de valor (versão única, pronta para o Canvas): “Plataforma de compliance que reduz em 30–50% o tempo de preparação de auditorias e diminui o risco de não conformidade com evidências rastreáveis, integrações com sistemas internos e trilha de auditoria.”

Prova de valor (o que sustenta a promessa no piloto): baseline antes/depois (horas, atrasos, pendências), taxa de evidências completas, tempo para localizar evidência, número de não conformidades por auditoria interna.

4) Solução mínima (MVP para piloto B2B)

Em B2B, “MVP” frequentemente é um piloto controlado com escopo, critérios e governança. O objetivo é provar valor com risco baixo para TI/Segurança e com esforço baixo para o usuário.

Escopo do piloto (8–10 semanas):

  • 1 processo crítico (ex.: auditoria interna de qualidade) em 1 unidade.
  • 3 fluxos essenciais: (a) cadastro de requisitos/itens de auditoria, (b) coleta e versionamento de evidências, (c) plano de ação com responsáveis e prazos.
  • Trilha de auditoria: quem alterou o quê e quando.
  • Relatórios mínimos: pendências por área, SLA de evidências, status por requisito.

Integrações mínimas (para reduzir fricção):

  • SSO (se aplicável) ou autenticação corporativa simples.
  • Importação de usuários/áreas via CSV (se TI não liberar integração no piloto).
  • Conector “leve” com Drive/SharePoint (ou upload controlado) para evidências.

Pacote de entrega do piloto (o que você promete entregar):

  • Setup e configuração inicial (1–2 semanas).
  • Treinamento de 60–90 minutos para usuários-chave.
  • Onboarding assistido nas primeiras 2 coletas de evidência.
  • Reunião quinzenal de valor (30 min) com decisor/influenciadores para revisar métricas.

5) Canais B2B (aquisição e avanço no ciclo)

Em compra complexa, canal não é só “como chega no lead”, mas como você cria conversa, gera confiança e avança etapas com múltiplos stakeholders.

CanalUso práticoHipótese testável
Outbound (ABM)Lista de contas-alvo + cadência com dor quantificada + convite para diagnóstico10 contas/semana geram 2 reuniões com Qualidade/Compliance
ParceriasConsultorias de certificação/auditoria, integradores de TI, escritórios especializados1 parceiro ativo/mês gera 3 oportunidades qualificadas
Eventos e feirasPalestra técnica + demonstração do piloto + estudo de caso (mesmo inicial)1 evento gera 20 leads e 4 reuniões de diagnóstico
ConteúdoChecklist de auditoria, calculadora de custo de conformidade, templates de evidência1 ativo rico/mês gera 30 leads e 5 MQLs com fit

Observação operacional: em B2B, conteúdo e eventos funcionam melhor quando conectados a uma oferta de baixo atrito: diagnóstico + baseline + plano de piloto.

6) Fluxos de receita (modelo típico para piloto e expansão)

  • Piloto pago (taxa fixa) para cobrir setup/onboarding e filtrar curiosos.
  • Assinatura anual por unidade/planta ou por número de usuários + módulos.
  • Serviços (opcional): migração de dados, integrações avançadas, treinamento.
  • Expansão: novas unidades, mais processos (ambiental, segurança do trabalho), mais integrações, auditorias externas.

Estrutura de oferta (exemplo): Piloto 8–10 semanas (R$ X) abatível do contrato anual se atingir critérios; contrato anual com mínimo de usuários e SLA.

7) Métricas-chave (pipeline, ciclo, win rate, churn e expansão)

Em B2B, as métricas precisam cobrir vendas e valor entregue. Um conjunto enxuto e acionável:

  • Pipeline: contas abordadas → reuniões → diagnósticos → pilotos → propostas → fechamentos.
  • Ciclo de vendas: dias por etapa (diagnóstico, piloto, jurídico/compras).
  • Win rate: por segmento e por canal (outbound vs parceiro vs evento).
  • Tempo para primeiro valor (TTV): dias até a primeira auditoria interna rodar com evidências completas.
  • Adoção no piloto: % de usuários ativos semanais, % de itens com evidência anexada, tempo médio para localizar evidência.
  • Churn e expansão: renovação anual, expansão por unidade/processo, NRR (receita líquida retida).

Exemplo de metas para piloto: reduzir 30% do tempo de preparação; aumentar para 90% a completude de evidências; reduzir em 50% o tempo de localizar evidência; manter 70% de usuários-chave ativos semanalmente.

8) Estrutura de custos (vendas, onboarding, suporte e entrega)

Para compra complexa, o custo “real” inclui CAC com equipe comercial e custo de implantação. Separe por fases:

  • Pré-venda: SDR/outbound, ferramentas de prospecção, tempo de demos, viagens/eventos.
  • Venda: executivo de contas, engenharia de soluções (quando necessário), tempo de negociação.
  • Onboarding/implantação: CS/consultor, configuração, migração, treinamento, documentação, segurança.
  • Suporte: tickets, SLAs, manutenção de integrações, infraestrutura.
  • Custos de compliance (do fornecedor): LGPD, auditorias de segurança, contratos, seguros (se aplicável).

Indicador prático: acompanhe Custo do piloto (horas internas + ferramentas + viagens) e compare com Receita do piloto + probabilidade de conversão para evitar “pilotos que queimam caixa”.

9) Vantagem competitiva (integração, dados, processo e contratos)

Em B2B, defensabilidade costuma vir de quatro fontes combinadas:

  • Integração: conectores com sistemas já usados (ERP, GED, SSO, SharePoint/Drive). Quanto mais “encaixado” no fluxo, maior custo de troca.
  • Dados: histórico de evidências, trilhas de auditoria, benchmarks internos (por unidade/área), detecção de padrões de não conformidade.
  • Processo: playbooks e templates por norma/setor, fluxos aprovados por auditoria, governança clara (quem aprova, quem executa, quem audita).
  • Contratos: SLAs, cláusulas de segurança, termos de retenção de dados, condições para multiunidade e renovação anual (previsibilidade).

Como escrever no Canvas (frase única): “Integrações nativas + trilha de auditoria e dados históricos + templates por norma + contrato anual com SLA e governança de acesso.”

Passo a passo: como preencher e usar este Canvas para decisões

Passo 1 — Mapear stakeholders por conta (antes de vender)

  • Liste: usuário principal, gestor do usuário, decisor econômico, TI, Segurança, Jurídico, Compras.
  • Para cada um, anote: objetivo, medo, objeção provável, evidência que precisa para aprovar.

Passo 2 — Transformar “dor” em linha de P&L (para o decisor)

  • Escolha 1–2 dores com maior impacto financeiro.
  • Crie um baseline simples (horas, atrasos, custo de consultoria, risco esperado).
  • Defina quais métricas você consegue medir no piloto sem depender de sistemas complexos.

Passo 3 — Escrever proposta de valor em formato de aprovação

  • Inclua: % de redução de custo/tempo + redução de risco + prazo para provar.
  • Evite promessas vagas (“mais eficiência”); use “em X semanas, provar Y com métrica Z”.

Passo 4 — Desenhar o piloto como produto (escopo, governança e critérios)

  • Defina: duração, processo, unidade, número de usuários, integrações mínimas.
  • Defina: rituais (kickoff, check-ins quinzenais, readout final).
  • Defina: critérios de sucesso e o que acontece se bater (conversão/expansão).

Passo 5 — Planejar canais por etapa do ciclo (não só topo de funil)

  • Outbound para abrir portas e qualificar.
  • Parcerias para credibilidade e acesso a contas com dor latente.
  • Eventos para volume qualificado em nichos regulados.
  • Conteúdo para sustentar confiança e municiar o champion interno.

Passo 6 — Amarrar métricas de vendas com métricas de valor

  • Se o pipeline cresce mas o ciclo estoura, o gargalo é aprovação (TI/Jurídico/Compras) ou piloto mal desenhado.
  • Se o piloto tem adoção baixa, o problema é usabilidade, onboarding ou falta de dono interno.
  • Se o piloto prova valor mas não converte, o problema é preço, contrato, risco percebido ou falta de decisor envolvido.

Plano de 90 dias: experimentos e critérios de go/no-go para escalar

Dia 1–30: Descoberta orientada a ROI + validação de mensagem

  • Experimento A (Outbound ABM): 40 contas-alvo, cadência de 4 toques, oferta de diagnóstico com cálculo de impacto. Métrica: taxa de resposta, reuniões, % com dor quantificada.
  • Experimento B (Conteúdo com calculadora): landing com “Calculadora de custo de conformidade” + checklist de auditoria. Métrica: leads com fit, conversão para diagnóstico.
  • Experimento C (Parceria 1): 1 consultoria de auditoria para co-vender piloto. Métrica: oportunidades geradas e velocidade até piloto.

Go/no-go (30 dias):

  • Go se: pelo menos 10 diagnósticos realizados e 5 com baseline financeiro claro; pelo menos 2 contas aceitam discutir piloto.
  • No-go / ajuste se: não há dor quantificável recorrente ou o decisor não reconhece impacto (rever ICP, dor principal e linguagem).

Dia 31–60: Pilotos com prova de valor e redução de risco para influenciadores

  • Experimento D (Piloto 1): 1 unidade, 1 processo, 10–20 usuários. Métricas: TTV, adoção semanal, completude de evidências, redução de horas.
  • Experimento E (Pacote de segurança/contrato): checklist de requisitos (LGPD, retenção, trilha de auditoria, SLA) + minuta padrão. Métrica: tempo de aprovação por TI/Jurídico.
  • Experimento F (Readout executivo): reunião com decisor no dia 45–55 com resultados parciais e plano de expansão. Métrica: compromisso com proposta comercial.

Go/no-go (60 dias):

  • Go se: piloto atinge 2 de 3 metas (tempo, completude, localização) e decisor confirma valor econômico.
  • No-go / ajuste se: adoção baixa persistente (<40% usuários-chave ativos/semana) ou TTV alto (>21 dias) sem justificativa (rever onboarding, escopo e integrações mínimas).

Dia 61–90: Conversão, expansão e repetibilidade do processo comercial

  • Experimento G (Oferta de conversão): contrato anual com desconto condicionado a expansão por unidade/processo + SLA. Métrica: taxa de conversão piloto→contrato.
  • Experimento H (Playbook de vendas): roteiro por stakeholder (usuário, decisor, TI, compras) + biblioteca de objeções. Métrica: redução do ciclo e aumento de win rate.
  • Experimento I (Expansão interna): proposta para 2ª unidade ou 2º processo no mesmo cliente. Métrica: expansão em 30 dias após contrato.

Go/no-go (90 dias) para escalar aquisição:

  • Go se: (1) win rate em pilotos ≥ 40%, (2) ciclo piloto→contrato ≤ 45 dias, (3) pelo menos 1 expansão (unidade/processo) em até 60 dias após contrato, (4) custo do piloto controlado (margem positiva ou claramente recuperável no ano 1).
  • No-go / ajuste se: dependência excessiva de customização, integrações sempre “projeto”, ou aprovação travada por segurança/contrato (rever produto, pacote de compliance, posicionamento e ICP).

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao preencher um Lean Canvas B2B com compra complexa, qual abordagem torna o canvas mais operacional e ajuda a avançar no ciclo de vendas com múltiplos stakeholders?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Em compra complexa, “cliente” não é uma pessoa só. Separar usuário, decisor e influenciadores permite escrever dores, valor, piloto e canais com critérios diferentes de valor e risco, tornando o canvas operacional.

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