Por que existem tantos exames na primeira gestação?
Os exames do pré-natal servem para três objetivos principais: (1) confirmar e datar a gestação com mais precisão, (2) avaliar sua saúde geral (anemia, glicose, rins, tireoide, etc.) e (3) rastrear condições que podem afetar você e o bebê (infecções, incompatibilidade Rh, alterações de crescimento). A lista e a frequência variam conforme idade, histórico de saúde, sintomas e achados das consultas.
Importante: resultados “fora do padrão” nem sempre significam doença. Em gestação, alguns valores mudam naturalmente. Evite autodiagnóstico: use o laudo como ponto de partida para conversar com o(a) profissional, que interpreta o conjunto (semanas de gestação, sintomas, exame físico e histórico).
Exames mais comuns por fase (visão prática)
1) Início da gestação (geralmente 1º trimestre)
Nesta fase, costuma-se pedir um “pacote” inicial para mapear seu estado de saúde e identificar riscos precoces.
- Hemograma (avalia anemia, infecção, plaquetas).
- Urina tipo 1 (EAS) e urocultura (detecta infecção urinária, que pode ser assintomática).
- Tipagem sanguínea ABO e fator Rh + Coombs indireto (rastreia risco de incompatibilidade Rh).
- Glicemia (triagem inicial de alterações de açúcar no sangue).
- Sorologias comuns (ex.: HIV, sífilis, hepatites; outras conforme protocolo local e histórico).
- Ultrassom do 1º trimestre (datação/viabilidade e avaliação inicial; pode incluir translucência nucal quando indicado).
2) Meio da gestação (geralmente 2º trimestre)
- Ultrassom morfológico (avalia anatomia do bebê e placenta).
- Rastreamento de diabetes gestacional (frequentemente com teste de tolerância à glicose, conforme rotina do serviço).
- Repetições selecionadas (hemograma, urina, sorologias) conforme risco, sintomas ou protocolos.
- Rastreios específicos quando recomendados (por exemplo, testes genéticos/aneuploidias, avaliação do colo uterino, Doppler em situações específicas).
3) Final da gestação (geralmente 3º trimestre)
- Reavaliações (hemograma, urina e sorologias em alguns protocolos).
- Ultrassons de crescimento quando há indicação (ex.: suspeita de crescimento alterado, líquido amniótico, hipertensão, diabetes, redução de movimentos).
- Cultura para Streptococcus do grupo B (em muitos locais, entre 35–37 semanas) para orientar conduta no parto.
Tabela prática: exame, objetivo, período aproximado, observações
| Exame | Objetivo | Período aproximado | Observações |
|---|---|---|---|
| Hemograma | Rastrear anemia, alterações de glóbulos brancos e plaquetas | Início e repetir conforme rotina/risco (muitas vezes 2º e/ou 3º tri) | Ferro baixo é comum; conduta depende de sintomas, ferritina e avaliação clínica |
| Ferritina (quando solicitada) | Estimar reservas de ferro | Quando há suspeita/risco de deficiência de ferro | Ajuda a diferenciar anemia por falta de ferro de outras causas |
| Urina tipo 1 (EAS) | Triar infecção urinária, proteína, glicose, cetonas | Início e repetir conforme rotina/risco | Leucócitos/nitrito podem sugerir infecção, mas confirmação e tratamento dependem de avaliação e, muitas vezes, urocultura |
| Urocultura | Confirmar bactéria e orientar antibiótico | Início e/ou quando há sintomas/alteração no EAS | Infecção urinária pode ocorrer sem sintomas na gestação; tratar reduz complicações |
| ABO e fator Rh | Identificar grupo sanguíneo e Rh | Início | Se Rh negativo, pode haver condutas preventivas específicas conforme o caso |
| Coombs indireto | Detectar anticorpos contra hemácias (isoimunização) | Início e repetir conforme protocolo se Rh negativo | Resultado positivo exige acompanhamento especializado; não significa automaticamente problema no bebê |
| Glicemia de jejum | Triagem inicial de alteração glicêmica | Início | Valores de referência na gestação podem ser diferentes; interpretação deve ser feita pelo(a) profissional |
| Teste oral de tolerância à glicose (TOTG) | Rastrear/diagnosticar diabetes gestacional | Comum entre 24–28 semanas (ou antes se alto risco) | Exige preparo e tempos de coleta; o serviço orienta jejum e permanência no local |
| Sorologia para sífilis | Rastrear infecção tratável que pode afetar o bebê | Início e, em muitos protocolos, repetir no 3º trimestre | Tratamento e acompanhamento do(a) parceiro(a) podem ser necessários |
| Sorologia para HIV | Rastrear infecção e reduzir transmissão vertical com medidas adequadas | Início e repetir conforme protocolo/risco | Resultado reagente precisa de confirmação; há estratégias eficazes para reduzir transmissão |
| Hepatite B (HBsAg) e Hepatite C (quando indicado) | Rastrear hepatites e planejar cuidados no parto e para o recém-nascido | Início (e repetir conforme risco) | Condutas incluem vacinação/imunoglobulina para o bebê em casos específicos (hepatite B) |
| Imunidade para rubéola/toxoplasmose (conforme protocolo local) | Avaliar imunidade/risco de infecção | Início | Interpretação depende de IgG/IgM e, às vezes, testes confirmatórios; evite conclusões sem orientação |
| TSH (tireoide) (quando indicado) | Rastrear disfunção tireoidiana | Início (especialmente se sintomas, histórico ou risco) | Metas de TSH podem ser específicas por trimestre; ajuste de dose é comum em quem já trata hipotireoidismo |
| Ultrassom do 1º trimestre (datação/viabilidade) | Confirmar localização, batimentos, idade gestacional e número de fetos | Geralmente 6–10 semanas (varia) | Datação por medida do embrião costuma ser mais precisa no início; sangramento/dor podem antecipar o exame |
| Translucência nucal e rastreio combinado (quando disponível/indicado) | Rastrear risco de alterações cromossômicas | Por volta de 11–14 semanas | É rastreio, não diagnóstico; resultados alterados podem levar a exames confirmatórios |
| Ultrassom morfológico | Avaliar anatomia fetal, placenta e líquido | Geralmente 20–24 semanas (varia) | Nem toda “variação” é problema; achados podem pedir reavaliação ou exames adicionais |
| Ultrassom de crescimento / Doppler (quando indicado) | Avaliar crescimento, circulação e bem-estar fetal | Mais comum no 3º trimestre, conforme necessidade | É direcionado a situações específicas (hipertensão, diabetes, suspeita de restrição, etc.) |
| Cultura para Streptococcus do grupo B (GBS) | Definir necessidade de antibiótico no parto para reduzir infecção neonatal | Frequentemente 35–37 semanas | Coleta com swab; resultado orienta conduta intraparto, não é “infecção” no sentido comum |
Como se preparar: passo a passo prático (sem complicar)
Antes de ir ao laboratório
- Confirme o preparo de cada exame no pedido ou com o laboratório (principalmente glicemia/TOTG). Alguns exigem jejum; outros não.
- Leve documento, pedido e carteirinha do convênio (se houver).
- Anote medicamentos e suplementos que você usa (ferro, vitaminas, remédios de tireoide, etc.). Isso ajuda na interpretação.
- Se tiver enjoos, pergunte sobre horários mais cedo e leve um lanche para depois do jejum (quando permitido).
Coleta de urina (EAS e/ou urocultura): passo a passo
- Use frasco estéril fornecido pelo laboratório/farmácia.
- Higienize a região íntima conforme orientação do serviço (geralmente água e sabonete neutro; evitar antissépticos fortes sem orientação).
- Despreze o primeiro jato e colha o jato médio (isso reduz contaminação).
- Feche bem e entregue rapidamente ao laboratório (ou mantenha refrigerado pelo tempo indicado, se houver orientação).
Dica: urocultura contaminada é comum e pode gerar “falso positivo”. Se o laudo vier como “flora mista/contaminação”, pode ser necessário repetir com técnica mais cuidadosa.
Glicemia e TOTG: como costuma funcionar
Glicemia de jejum geralmente exige jejum (o tempo varia por protocolo). Já o TOTG costuma envolver:
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- Chegar em jejum conforme orientação.
- Coletar sangue em jejum.
- Ingerir uma solução de glicose fornecida pelo laboratório.
- Fazer novas coletas em tempos definidos (por exemplo, 1h e 2h, conforme protocolo).
Durante o TOTG: normalmente você deve permanecer em repouso, sem comer, sem mascar chiclete e sem atividade física intensa, para não alterar o resultado. Se houver náusea/vômito, avise a equipe (às vezes é preciso reagendar).
Como ler resultados com cautela (sem autodiagnóstico)
Hemograma
- Hemoglobina/hematócrito: podem cair por “hemodiluição” da gestação. O(a) profissional avalia se é esperado ou se sugere anemia que precisa tratar.
- Leucócitos: podem estar mais altos na gestação sem infecção. Sintomas e exame clínico importam.
- Plaquetas: pequenas quedas podem ocorrer; quedas importantes exigem investigação.
Urina
- Leucócitos/nitrito: sugerem infecção, mas a confirmação e o antibiótico ideal costumam depender da urocultura.
- Proteína: traços podem ocorrer; valores persistentes/altos precisam ser correlacionados com pressão arterial e outros exames.
Tipagem, Rh e Coombs indireto
- Rh negativo não é doença. O ponto é prevenir formação de anticorpos em situações específicas (por exemplo, sangramentos, procedimentos, parto), conforme avaliação.
- Coombs indireto positivo indica presença de anticorpos e muda o acompanhamento, mas a gravidade varia muito. Não dá para concluir risco apenas olhando “positivo/negativo”.
Sorologias
- Alguns exames têm resultados como reagente/não reagente e podem exigir teste confirmatório.
- Resultados de IgM/IgG (quando presentes) podem confundir: IgM pode ter falso positivo e IgG pode indicar imunidade prévia. A interpretação depende do contexto e, às vezes, de repetição seriada.
Ultrassonografias
- Idade gestacional: no começo, a datação por ultrassom costuma ser mais precisa do que “contar por conta própria”.
- “Achados”: termos como “variante”, “suspeita”, “a esclarecer” geralmente significam que precisa correlacionar com outros dados ou repetir o exame, não que há diagnóstico fechado.
- Medidas variam com posição do bebê, aparelho e examinador; por isso, tendência ao longo do tempo é mais útil do que um número isolado.
Rastreios específicos: quando podem entrar no seu pré-natal
Além do pacote básico, alguns rastreios são recomendados em situações específicas:
- Risco aumentado para alterações cromossômicas (idade materna, histórico, achados no ultrassom): pode-se discutir rastreio combinado, testes de DNA fetal no sangue materno (quando disponível) e, se necessário, exames diagnósticos.
- História de parto prematuro ou colo curto: pode haver avaliação do colo uterino por ultrassom transvaginal e medidas preventivas.
- Hipertensão, diabetes, doenças autoimunes, trombofilias, restrição de crescimento anterior: podem indicar Doppler, exames adicionais e maior frequência de monitorização.
- Sintomas específicos (coceira intensa, dor, sangramento, febre, perda de líquido, redução de movimentos): podem antecipar exames e mudar prioridades.
Como organizar e guardar laudos e imagens (para facilitar consultas e decisões)
Passo a passo de organização
- Crie uma pasta única (física e/ou digital) chamada “Pré-natal”.
- Separe por trimestre: 1º, 2º, 3º, e um subgrupo “Urgências/Intercorrências”.
- Nomeie arquivos digitais com padrão:
AAAA-MM-DD_exame_local(ex.:2026-01-10_hemograma_laboratorioX). - Guarde imagens de ultrassom: peça também o laudo (texto) e, se possível, o arquivo digital (link/QR/pendrive, conforme o serviço).
- Registre valores-chave em uma lista simples (data, exame, resultado principal) para mostrar rapidamente em consultas, sem substituir o laudo.
- Leve sempre os últimos resultados às consultas, especialmente: hemograma, urina/urocultura, glicemia/TOTG, sorologias e laudos de ultrassom.
Cuidados com privacidade e acesso
- Se usar nuvem, ative senha forte e verificação em duas etapas.
- Evite enviar laudos completos em grupos; prefira compartilhar diretamente com o(a) profissional.
Perguntas úteis para levar ao(à) profissional ao receber um resultado
- Este resultado está dentro do esperado para a semana gestacional?
- Preciso repetir o exame? Quando?
- Há algo que eu deva mudar na alimentação/rotina antes de repetir?
- Este achado muda algo no acompanhamento (mais consultas, ultrassom, medicação)?
- Quais sinais exigem procurar atendimento antes da próxima consulta?