Exames comuns da primeira gestação: para que servem e quando são feitos

Capítulo 5

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

Por que existem tantos exames na primeira gestação?

Os exames do pré-natal servem para três objetivos principais: (1) confirmar e datar a gestação com mais precisão, (2) avaliar sua saúde geral (anemia, glicose, rins, tireoide, etc.) e (3) rastrear condições que podem afetar você e o bebê (infecções, incompatibilidade Rh, alterações de crescimento). A lista e a frequência variam conforme idade, histórico de saúde, sintomas e achados das consultas.

Importante: resultados “fora do padrão” nem sempre significam doença. Em gestação, alguns valores mudam naturalmente. Evite autodiagnóstico: use o laudo como ponto de partida para conversar com o(a) profissional, que interpreta o conjunto (semanas de gestação, sintomas, exame físico e histórico).

Exames mais comuns por fase (visão prática)

1) Início da gestação (geralmente 1º trimestre)

Nesta fase, costuma-se pedir um “pacote” inicial para mapear seu estado de saúde e identificar riscos precoces.

  • Hemograma (avalia anemia, infecção, plaquetas).
  • Urina tipo 1 (EAS) e urocultura (detecta infecção urinária, que pode ser assintomática).
  • Tipagem sanguínea ABO e fator Rh + Coombs indireto (rastreia risco de incompatibilidade Rh).
  • Glicemia (triagem inicial de alterações de açúcar no sangue).
  • Sorologias comuns (ex.: HIV, sífilis, hepatites; outras conforme protocolo local e histórico).
  • Ultrassom do 1º trimestre (datação/viabilidade e avaliação inicial; pode incluir translucência nucal quando indicado).

2) Meio da gestação (geralmente 2º trimestre)

  • Ultrassom morfológico (avalia anatomia do bebê e placenta).
  • Rastreamento de diabetes gestacional (frequentemente com teste de tolerância à glicose, conforme rotina do serviço).
  • Repetições selecionadas (hemograma, urina, sorologias) conforme risco, sintomas ou protocolos.
  • Rastreios específicos quando recomendados (por exemplo, testes genéticos/aneuploidias, avaliação do colo uterino, Doppler em situações específicas).

3) Final da gestação (geralmente 3º trimestre)

  • Reavaliações (hemograma, urina e sorologias em alguns protocolos).
  • Ultrassons de crescimento quando há indicação (ex.: suspeita de crescimento alterado, líquido amniótico, hipertensão, diabetes, redução de movimentos).
  • Cultura para Streptococcus do grupo B (em muitos locais, entre 35–37 semanas) para orientar conduta no parto.

Tabela prática: exame, objetivo, período aproximado, observações

ExameObjetivoPeríodo aproximadoObservações
HemogramaRastrear anemia, alterações de glóbulos brancos e plaquetasInício e repetir conforme rotina/risco (muitas vezes 2º e/ou 3º tri)Ferro baixo é comum; conduta depende de sintomas, ferritina e avaliação clínica
Ferritina (quando solicitada)Estimar reservas de ferroQuando há suspeita/risco de deficiência de ferroAjuda a diferenciar anemia por falta de ferro de outras causas
Urina tipo 1 (EAS)Triar infecção urinária, proteína, glicose, cetonasInício e repetir conforme rotina/riscoLeucócitos/nitrito podem sugerir infecção, mas confirmação e tratamento dependem de avaliação e, muitas vezes, urocultura
UroculturaConfirmar bactéria e orientar antibióticoInício e/ou quando há sintomas/alteração no EASInfecção urinária pode ocorrer sem sintomas na gestação; tratar reduz complicações
ABO e fator RhIdentificar grupo sanguíneo e RhInícioSe Rh negativo, pode haver condutas preventivas específicas conforme o caso
Coombs indiretoDetectar anticorpos contra hemácias (isoimunização)Início e repetir conforme protocolo se Rh negativoResultado positivo exige acompanhamento especializado; não significa automaticamente problema no bebê
Glicemia de jejumTriagem inicial de alteração glicêmicaInícioValores de referência na gestação podem ser diferentes; interpretação deve ser feita pelo(a) profissional
Teste oral de tolerância à glicose (TOTG)Rastrear/diagnosticar diabetes gestacionalComum entre 24–28 semanas (ou antes se alto risco)Exige preparo e tempos de coleta; o serviço orienta jejum e permanência no local
Sorologia para sífilisRastrear infecção tratável que pode afetar o bebêInício e, em muitos protocolos, repetir no 3º trimestreTratamento e acompanhamento do(a) parceiro(a) podem ser necessários
Sorologia para HIVRastrear infecção e reduzir transmissão vertical com medidas adequadasInício e repetir conforme protocolo/riscoResultado reagente precisa de confirmação; há estratégias eficazes para reduzir transmissão
Hepatite B (HBsAg) e Hepatite C (quando indicado)Rastrear hepatites e planejar cuidados no parto e para o recém-nascidoInício (e repetir conforme risco)Condutas incluem vacinação/imunoglobulina para o bebê em casos específicos (hepatite B)
Imunidade para rubéola/toxoplasmose (conforme protocolo local)Avaliar imunidade/risco de infecçãoInícioInterpretação depende de IgG/IgM e, às vezes, testes confirmatórios; evite conclusões sem orientação
TSH (tireoide) (quando indicado)Rastrear disfunção tireoidianaInício (especialmente se sintomas, histórico ou risco)Metas de TSH podem ser específicas por trimestre; ajuste de dose é comum em quem já trata hipotireoidismo
Ultrassom do 1º trimestre (datação/viabilidade)Confirmar localização, batimentos, idade gestacional e número de fetosGeralmente 6–10 semanas (varia)Datação por medida do embrião costuma ser mais precisa no início; sangramento/dor podem antecipar o exame
Translucência nucal e rastreio combinado (quando disponível/indicado)Rastrear risco de alterações cromossômicasPor volta de 11–14 semanasÉ rastreio, não diagnóstico; resultados alterados podem levar a exames confirmatórios
Ultrassom morfológicoAvaliar anatomia fetal, placenta e líquidoGeralmente 20–24 semanas (varia)Nem toda “variação” é problema; achados podem pedir reavaliação ou exames adicionais
Ultrassom de crescimento / Doppler (quando indicado)Avaliar crescimento, circulação e bem-estar fetalMais comum no 3º trimestre, conforme necessidadeÉ direcionado a situações específicas (hipertensão, diabetes, suspeita de restrição, etc.)
Cultura para Streptococcus do grupo B (GBS)Definir necessidade de antibiótico no parto para reduzir infecção neonatalFrequentemente 35–37 semanasColeta com swab; resultado orienta conduta intraparto, não é “infecção” no sentido comum

Como se preparar: passo a passo prático (sem complicar)

Antes de ir ao laboratório

  • Confirme o preparo de cada exame no pedido ou com o laboratório (principalmente glicemia/TOTG). Alguns exigem jejum; outros não.
  • Leve documento, pedido e carteirinha do convênio (se houver).
  • Anote medicamentos e suplementos que você usa (ferro, vitaminas, remédios de tireoide, etc.). Isso ajuda na interpretação.
  • Se tiver enjoos, pergunte sobre horários mais cedo e leve um lanche para depois do jejum (quando permitido).

Coleta de urina (EAS e/ou urocultura): passo a passo

  1. Use frasco estéril fornecido pelo laboratório/farmácia.
  2. Higienize a região íntima conforme orientação do serviço (geralmente água e sabonete neutro; evitar antissépticos fortes sem orientação).
  3. Despreze o primeiro jato e colha o jato médio (isso reduz contaminação).
  4. Feche bem e entregue rapidamente ao laboratório (ou mantenha refrigerado pelo tempo indicado, se houver orientação).

Dica: urocultura contaminada é comum e pode gerar “falso positivo”. Se o laudo vier como “flora mista/contaminação”, pode ser necessário repetir com técnica mais cuidadosa.

Glicemia e TOTG: como costuma funcionar

Glicemia de jejum geralmente exige jejum (o tempo varia por protocolo). Já o TOTG costuma envolver:

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  1. Chegar em jejum conforme orientação.
  2. Coletar sangue em jejum.
  3. Ingerir uma solução de glicose fornecida pelo laboratório.
  4. Fazer novas coletas em tempos definidos (por exemplo, 1h e 2h, conforme protocolo).

Durante o TOTG: normalmente você deve permanecer em repouso, sem comer, sem mascar chiclete e sem atividade física intensa, para não alterar o resultado. Se houver náusea/vômito, avise a equipe (às vezes é preciso reagendar).

Como ler resultados com cautela (sem autodiagnóstico)

Hemograma

  • Hemoglobina/hematócrito: podem cair por “hemodiluição” da gestação. O(a) profissional avalia se é esperado ou se sugere anemia que precisa tratar.
  • Leucócitos: podem estar mais altos na gestação sem infecção. Sintomas e exame clínico importam.
  • Plaquetas: pequenas quedas podem ocorrer; quedas importantes exigem investigação.

Urina

  • Leucócitos/nitrito: sugerem infecção, mas a confirmação e o antibiótico ideal costumam depender da urocultura.
  • Proteína: traços podem ocorrer; valores persistentes/altos precisam ser correlacionados com pressão arterial e outros exames.

Tipagem, Rh e Coombs indireto

  • Rh negativo não é doença. O ponto é prevenir formação de anticorpos em situações específicas (por exemplo, sangramentos, procedimentos, parto), conforme avaliação.
  • Coombs indireto positivo indica presença de anticorpos e muda o acompanhamento, mas a gravidade varia muito. Não dá para concluir risco apenas olhando “positivo/negativo”.

Sorologias

  • Alguns exames têm resultados como reagente/não reagente e podem exigir teste confirmatório.
  • Resultados de IgM/IgG (quando presentes) podem confundir: IgM pode ter falso positivo e IgG pode indicar imunidade prévia. A interpretação depende do contexto e, às vezes, de repetição seriada.

Ultrassonografias

  • Idade gestacional: no começo, a datação por ultrassom costuma ser mais precisa do que “contar por conta própria”.
  • “Achados”: termos como “variante”, “suspeita”, “a esclarecer” geralmente significam que precisa correlacionar com outros dados ou repetir o exame, não que há diagnóstico fechado.
  • Medidas variam com posição do bebê, aparelho e examinador; por isso, tendência ao longo do tempo é mais útil do que um número isolado.

Rastreios específicos: quando podem entrar no seu pré-natal

Além do pacote básico, alguns rastreios são recomendados em situações específicas:

  • Risco aumentado para alterações cromossômicas (idade materna, histórico, achados no ultrassom): pode-se discutir rastreio combinado, testes de DNA fetal no sangue materno (quando disponível) e, se necessário, exames diagnósticos.
  • História de parto prematuro ou colo curto: pode haver avaliação do colo uterino por ultrassom transvaginal e medidas preventivas.
  • Hipertensão, diabetes, doenças autoimunes, trombofilias, restrição de crescimento anterior: podem indicar Doppler, exames adicionais e maior frequência de monitorização.
  • Sintomas específicos (coceira intensa, dor, sangramento, febre, perda de líquido, redução de movimentos): podem antecipar exames e mudar prioridades.

Como organizar e guardar laudos e imagens (para facilitar consultas e decisões)

Passo a passo de organização

  1. Crie uma pasta única (física e/ou digital) chamada “Pré-natal”.
  2. Separe por trimestre: 1º, 2º, 3º, e um subgrupo “Urgências/Intercorrências”.
  3. Nomeie arquivos digitais com padrão: AAAA-MM-DD_exame_local (ex.: 2026-01-10_hemograma_laboratorioX).
  4. Guarde imagens de ultrassom: peça também o laudo (texto) e, se possível, o arquivo digital (link/QR/pendrive, conforme o serviço).
  5. Registre valores-chave em uma lista simples (data, exame, resultado principal) para mostrar rapidamente em consultas, sem substituir o laudo.
  6. Leve sempre os últimos resultados às consultas, especialmente: hemograma, urina/urocultura, glicemia/TOTG, sorologias e laudos de ultrassom.

Cuidados com privacidade e acesso

  • Se usar nuvem, ative senha forte e verificação em duas etapas.
  • Evite enviar laudos completos em grupos; prefira compartilhar diretamente com o(a) profissional.

Perguntas úteis para levar ao(à) profissional ao receber um resultado

  • Este resultado está dentro do esperado para a semana gestacional?
  • Preciso repetir o exame? Quando?
  • Há algo que eu deva mudar na alimentação/rotina antes de repetir?
  • Este achado muda algo no acompanhamento (mais consultas, ultrassom, medicação)?
  • Quais sinais exigem procurar atendimento antes da próxima consulta?

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Qual é o principal objetivo de pedir urina tipo 1 (EAS) e urocultura no início da gestação?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O EAS ajuda a triar sinais de infecção urinária e a urocultura confirma a bactéria e orienta o antibiótico. Isso é importante porque a infecção pode ocorrer sem sintomas na gestação.

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Primeiro trimestre na primeira gestação: desenvolvimento do bebê e cuidados essenciais

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