Um ETF (Exchange Traded Fund) é um fundo de investimento cujas cotas são negociadas em bolsa, como se fossem uma ação. Na prática, ele é estruturado para buscar replicar o desempenho de um índice (de ações, de renda fixa, de commodities, de moedas etc.), entregando ao investidor uma forma simples de “comprar o índice” por meio de uma única cota.
O que significa “replicar um índice”
Um índice é uma regra de carteira: ele define quais ativos entram, com quais pesos e quando rebalanceia. O ETF tenta acompanhar esse índice o mais de perto possível. A diferença entre o retorno do ETF e o retorno do índice é chamada de tracking difference (diferença de acompanhamento) e pode existir por custos, impostos, fricções de negociação e pela forma de replicação.
Exemplos de índices (renda variável)
- Índice amplo de mercado: reúne as ações mais negociadas/representativas de um mercado, com regras de elegibilidade e ponderação.
- Índice setorial: concentra empresas de um setor (ex.: financeiro, tecnologia, energia), podendo ser mais volátil por ter menos diversificação.
- Índice de dividendos: seleciona empresas com histórico de distribuição, com regras específicas (ex.: payout, liquidez, consistência).
Exemplos de índices (renda fixa)
- Índice de títulos públicos: pode acompanhar uma cesta de títulos por prazo (curto, médio, longo) e por indexador (prefixado, inflação etc.).
- Índice de crédito privado: reúne debêntures/CRIs/CRAs (quando aplicável) com critérios de rating, liquidez e vencimento.
- Índice de curto prazo: foca em títulos de menor duration, geralmente com menor oscilação de preço.
Como funcionam as cotas e a precificação intradiária
O ETF é dividido em cotas. Cada cota representa uma fração do patrimônio do fundo, que por sua vez está investido para replicar o índice. O preço da cota em bolsa varia ao longo do pregão conforme oferta e demanda, mas tende a ficar próximo do valor “justo” do fundo.
Preço em bolsa x valor patrimonial
Existem dois conceitos importantes:
- Preço de tela: o preço pelo qual você compra/vende a cota no home broker durante o pregão.
- Valor patrimonial por cota (NAV): o valor teórico da cota com base no valor de mercado dos ativos da carteira do ETF (menos despesas), dividido pelo número de cotas.
Em ETFs, é comum acompanhar também uma estimativa intradiária do valor patrimonial (muitas vezes chamada de iNAV), que ajuda o mercado a enxergar se o ETF está sendo negociado com ágio (acima do valor justo) ou deságio (abaixo do valor justo).
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Por que o preço não “descola” muito do índice
O mecanismo que ajuda a manter o preço do ETF alinhado ao valor da carteira envolve participantes especializados que conseguem criar ou resgatar grandes lotes de cotas (processo de arbitragem). Quando o ETF fica caro demais, esses agentes tendem a vender cotas e comprar os ativos (ou a cesta equivalente), pressionando o preço para baixo. Quando fica barato demais, tendem a comprar cotas e vender a cesta, pressionando o preço para cima.
Quem faz o ETF funcionar: principais participantes
Gestor
É quem toma as decisões operacionais para que o ETF siga o índice: executa rebalanceamentos, administra eventos corporativos (no caso de ações), rolagens (no caso de renda fixa), e controla o risco de desvio em relação ao benchmark. Em ETFs passivos, o gestor não escolhe “as melhores ações”; ele executa a estratégia definida pelo índice.
Administrador
Cuida da estrutura do fundo: escrituração de cotas, cálculo do valor patrimonial, controles, prestação de informações, e rotinas regulatórias. Em termos práticos, é uma peça-chave para garantir que o ETF opere com governança e transparência.
Formador de mercado (market maker)
É uma instituição que se compromete a manter ofertas de compra e venda, ajudando a dar liquidez ao ETF e reduzindo o spread (diferença entre melhor compra e melhor venda). Isso é especialmente relevante em ETFs com menor volume, em que o investidor pode sofrer mais com spreads altos.
Participantes autorizados (APs) e o mecanismo de criação/resgate
Alguns participantes (geralmente grandes instituições) conseguem trocar uma “cesta” de ativos por um lote grande de cotas do ETF (criação) ou fazer o caminho inverso (resgate). Esse processo é o que viabiliza a arbitragem que mantém o ETF próximo do valor justo.
Replicação física x replicação sintética
A forma como o ETF acompanha o índice pode variar. Entender isso ajuda a mapear riscos e expectativas de tracking.
Replicação física (full replication ou amostragem)
- Full replication: o ETF compra (quase) todos os ativos do índice, nas proporções definidas.
- Amostragem (sampling): em índices muito grandes ou com ativos pouco líquidos, o ETF pode comprar um subconjunto representativo para tentar reproduzir o comportamento do índice com menor custo e melhor execução.
Implicações práticas: tende a ser mais intuitivo (você “vê” os ativos na carteira), mas pode ter custos maiores de negociação em rebalanceamentos e pode sofrer mais em índices com ativos difíceis de comprar.
Replicação sintética (via derivativos/contratos)
Em vez de comprar diretamente os ativos do índice, o ETF pode usar derivativos (como swaps e futuros) para entregar o retorno do índice. A carteira do fundo pode conter colaterais e instrumentos que suportam esses contratos.
Implicações práticas: pode reduzir custos e facilitar acesso a mercados/índices complexos, mas introduz risco de contraparte (dependência do cumprimento do contrato) e exige atenção redobrada à estrutura e garantias.
Como o investidor acessa ETFs na prática (via bolsa)
Para o investidor pessoa física, o acesso típico ao ETF é pela bolsa, usando o home broker, como se fosse uma ação. Isso é diferente de fundos tradicionais, em que você faz uma aplicação e um resgate diretamente com a gestora/administradora.
Compra e venda no home broker (passo a passo)
- Encontrar o ticker: identifique o código de negociação do ETF e confirme qual índice ele acompanha (no material do fundo).
- Checar liquidez e spread: observe volume, book de ofertas e a diferença entre compra e venda. Spreads maiores podem aumentar seu custo de entrada/saída.
- Escolher o tipo de ordem: em geral, ordem limitada ajuda a controlar o preço (especialmente em ETFs menos líquidos). A ordem a mercado pode executar com preço pior em momentos de baixa liquidez.
- Definir quantidade de cotas: o investimento é “preço da cota × número de cotas”, somado a custos operacionais aplicáveis.
- Acompanhar a execução: após executada, as cotas aparecem na custódia da corretora, como um ativo negociado em bolsa.
- Venda: para sair, você vende as cotas no home broker. O preço de venda dependerá do mercado naquele momento.
Diferença prática: ETF em bolsa x fundo tradicional (aplicação/resgate)
| Ponto | ETF (bolsa) | Fundo tradicional |
|---|---|---|
| Forma de entrada/saída | Compra e venda de cotas no pregão | Aplicação e resgate junto ao fundo |
| Precificação | Preço varia intradiariamente (oferta/demanda) | Cota geralmente calculada 1x ao dia (D+0/D+1) |
| Liquidez | Depende do mercado (volume, spread, formador) | Depende das regras do fundo (prazo de cotização e pagamento) |
| Controle de preço | Você define preço via ordem limitada | Você aceita a cota do dia conforme regra do fundo |
Exemplo prático de leitura do que você está comprando
Antes de comprar um ETF, transforme a decisão em perguntas objetivas:
- Qual é o índice? Ex.: um índice amplo de ações, um índice de inflação, um índice de títulos prefixados.
- Como o índice é construído? Critérios de seleção, pesos, rebalanceamento, concentração em poucos emissores/setores.
- Como o ETF replica? Física (total/amostragem) ou sintética (derivativos).
- Quais custos existem? Taxa de administração e fricções (spread, custos de rebalanceamento), que afetam o tracking.
- Qual a liquidez? Volume, presença de formador de mercado e spread típico.
Checklist prático de entendimento (antes de comprar)
- O que estou comprando? Cotas de um fundo negociado em bolsa, cujo patrimônio busca acompanhar um índice.
- Qual índice acompanha? Nome do índice, classe de ativos (ações, títulos públicos, crédito etc.) e regras básicas (rebalanceamento, critérios).
- Como ele replica? Replicação física (total/amostragem) ou sintética (derivativos) e quais implicações isso traz.
- Quais riscos eu assumo? Risco de mercado do índice (volatilidade), risco de liquidez (spread/volume), risco de tracking (desvio do índice), e, se sintético, risco de contraparte.
- Como entro e saio? Compra e venda no home broker, com atenção ao tipo de ordem e ao spread.