Estrutura do Capital de Giro: contas que puxam caixa e contas que aliviam caixa

Capítulo 2

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

+ Exercício

O que entra na estrutura do capital de giro

Capital de giro, na prática, é o conjunto de contas do dia a dia que mudam o saldo de caixa conforme a empresa vende, compra, estoca, paga e recebe. Para gerir bem, é útil separar as contas em dois grupos: as que puxam caixa (consomem dinheiro) e as que aliviam caixa (financiam o giro no curto prazo).

Contas que puxam caixa (consomem dinheiro)

  • Caixa e bancos: é o “termômetro” do giro. Não é uma conta que puxa caixa por si só, mas é onde o efeito das demais aparece. Se contas a receber e estoque crescem mais rápido que contas a pagar, o caixa tende a cair.
  • Contas a receber (Clientes): vendas feitas e ainda não recebidas. Quanto maior o prazo dado ao cliente, mais dinheiro fica “preso” aqui.
  • Estoques: mercadorias/matérias-primas compradas e ainda não vendidas. Aumentos de estoque normalmente significam saída de caixa antes da venda acontecer.

Contas que aliviam caixa (financiam o giro)

  • Contas a pagar (Fornecedores): compras já feitas e ainda não pagas. Prazo de fornecedor é uma forma de financiamento operacional.
  • Impostos a recolher: tributos apurados e ainda não pagos. Enquanto não vencem, funcionam como “fôlego” temporário (mas com data certa para sair).
  • Outras obrigações de curto prazo: salários e encargos a pagar, aluguel a pagar, comissões a pagar, parcelas de empréstimos de curto prazo, adiantamentos de clientes (quando existirem), entre outras.

Capital de Giro Líquido (CGL) x Necessidade de Capital de Giro (NCG)

Capital de Giro Líquido (CGL): visão do balanço

O Capital de Giro Líquido mede a “folga” de recursos de curto prazo. Em linguagem simples, é o quanto os ativos de curto prazo superam (ou não) as dívidas de curto prazo.

Fórmula:

CGL = Ativo Circulante (AC) - Passivo Circulante (PC)

Exemplo numérico simples:

  • AC: Caixa 20.000 + Contas a Receber 60.000 + Estoques 40.000 = 120.000
  • PC: Fornecedores 50.000 + Impostos a Recolher 10.000 + Outras Obrigações 20.000 = 80.000

CGL = 120.000 - 80.000 = 40.000. Interpretação: existe uma folga de 40.000 no curto prazo (não significa que está “sobrando” no caixa hoje, e sim que, no conjunto, os ativos de curto prazo superam as dívidas de curto prazo).

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Necessidade de Capital de Giro (NCG): visão operacional do dia a dia

A Necessidade de Capital de Giro foca no que a operação exige para funcionar: dinheiro preso em clientes e estoque, descontado do financiamento espontâneo vindo de fornecedores e obrigações operacionais.

Uma forma prática e comum de calcular:

NCG = (Contas a Receber + Estoques + Outros Ativos Operacionais de Curto Prazo) - (Fornecedores + Impostos a Recolher + Outras Obrigações Operacionais de Curto Prazo)

Exemplo com os mesmos números:

  • Contas a Receber: 60.000
  • Estoques: 40.000
  • Fornecedores: 50.000
  • Impostos a Recolher: 10.000
  • Outras Obrigações (operacionais): 20.000

NCG = (60.000 + 40.000) - (50.000 + 10.000 + 20.000) = 100.000 - 80.000 = 20.000.

Interpretação: a operação precisa de 20.000 “financiados” para rodar (pode vir de caixa próprio, capital dos sócios, crédito bancário, etc.).

Como interpretar CGL e NCG juntos (sem complicar)

Uma leitura bem prática é comparar a folga estrutural (CGL) com a necessidade operacional (NCG):

  • Se CGL > NCG, em geral há mais conforto para sustentar o giro.
  • Se CGL < NCG, a operação tende a pressionar caixa e pode exigir reforço (renegociar prazos, reduzir estoque, acelerar recebimentos, etc.).

Exemplo: CGL 40.000 e NCG 20.000 sugere uma margem de segurança. Se, em outro mês, o estoque sobe para 70.000 (mantendo o resto igual), a NCG vira: (60.000 + 70.000) - 80.000 = 50.000. A operação passa a exigir mais capital do que antes, e o caixa tende a sentir.

Mapa prático das contas: como levantar saldos reais no seu negócio

O objetivo aqui é montar um “painel” simples com saldos de cada conta de capital de giro em uma data (por exemplo, todo fim de mês). Você vai usar três fontes: extratos, relatórios de vendas, relatórios de compras/financeiro, e consolidar em uma planilha-base padronizada.

Passo a passo para mapear (em 60 a 90 minutos na primeira vez)

1) Defina a data de corte

Escolha uma data para fotografar os saldos (ex.: último dia do mês). A regra é: todos os números precisam ser “da mesma data” para fazer sentido.

2) Levante Caixa e Bancos pelos extratos

  • Baixe o extrato do banco na data de corte (ou do dia seguinte, conferindo o saldo final do dia anterior).
  • Some saldos de todas as contas (corrente, aplicações com liquidez diária, maquininhas com saldo disponível, etc.).
  • Separe o que é disponível do que é bloqueado (se houver), para não se enganar.

Dica prática: se você usa mais de um banco, crie uma linha por banco na planilha e depois um total.

3) Levante Contas a Receber com relatório de vendas/financeiro

Você quer o saldo “a receber” na data de corte, por tipo:

  • Boletos/faturas emitidos e não pagos
  • Cartão (valores a receber da adquirente, por agenda de recebíveis)
  • Pix/transferência pendentes (se houver)
  • Crediário/parcelado (se a empresa financia)

Checklist: o relatório deve mostrar valor em aberto (não o valor vendido no mês). Se o sistema só mostra vendas, você precisará filtrar por “não recebidas” e somar o saldo.

4) Levante Estoques (com critério simples e consistente)

Para capital de giro, o importante é ter um valor de estoque que seja comparável mês a mês.

  • Se você tem sistema de estoque: use o relatório de posição de estoque na data de corte.
  • Se não tem: faça um inventário simplificado dos itens principais (curva A) e estime os demais, mas mantenha o mesmo método todo mês.

Critério recomendado: valorize pelo custo (quanto você pagou), não pelo preço de venda.

5) Levante Contas a Pagar (Fornecedores) com relatórios de compras/financeiro

  • Extraia a lista de títulos a pagar em aberto na data de corte.
  • Separe fornecedores de mercadoria/insumo de outras contas (aluguel, serviços), se possível.
  • Confirme se há notas recebidas e ainda não lançadas (isso distorce o saldo).

Ponto de atenção: compras no cartão corporativo ou boletos emitidos pelo fornecedor e ainda não lançados precisam entrar, senão o passivo fica “menor” do que é.

6) Levante Impostos a Recolher

Use o relatório do contador ou do sistema fiscal/financeiro com tributos apurados e vencimentos. Registre o saldo em aberto na data de corte.

  • Exemplos: Simples Nacional a pagar, ICMS, ISS, PIS/COFINS, INSS/FGTS (quando aplicável).

Regra prática: imposto apurado e ainda não pago é obrigação de curto prazo, mesmo que vença no mês seguinte.

7) Levante Outras Obrigações de curto prazo

Liste e some os saldos em aberto na data de corte, como:

  • Salários e encargos a pagar
  • Aluguel e condomínio a pagar
  • Comissões a pagar
  • Parcelas de empréstimos com vencimento em até 12 meses (se quiser separar “financeiro” de “operacional”, mantenha em uma seção própria)
  • Adiantamentos de clientes (se existirem; normalmente aliviam caixa porque você recebeu antes de entregar)

Planilha-base padronizada para consolidar saldos

Padronização evita retrabalho e permite comparar meses. Abaixo vai um modelo simples (você pode montar no Excel/Google Sheets).

GrupoContaSaldo na data de corteFonteObservação
AtivoCaixa e BancosR$ ___ExtratosSeparar disponível/bloqueado
AtivoContas a ReceberR$ ___Relatório financeiro/vendasSaldo em aberto (não vendas do mês)
AtivoEstoquesR$ ___Relatório de estoque/inventárioValor pelo custo
PassivoFornecedores (Contas a Pagar)R$ ___Relatório de contas a pagarIncluir notas não lançadas
PassivoImpostos a RecolherR$ ___Fiscal/contadorApurado e não pago
PassivoOutras Obrigações CPR$ ___Financeiro/contratosSalários, aluguel, comissões etc.

Como usar a planilha para calcular CGL e NCG

Depois de preencher os saldos:

  • Ativo Circulante (AC) = Caixa e Bancos + Contas a Receber + Estoques (+ outros ativos de curto prazo, se existirem)
  • Passivo Circulante (PC) = Fornecedores + Impostos a Recolher + Outras Obrigações (+ outras dívidas de curto prazo)
  • CGL = AC - PC
  • NCG = (Contas a Receber + Estoques + outros ativos operacionais) - (Fornecedores + Impostos + obrigações operacionais)

Exemplo de fórmulas (planilha):

AC = SOMA(Caixa_Bancos; Contas_Receber; Estoques) PC = SOMA(Fornecedores; Impostos_Recolher; Outras_Obrigacoes) CGL = AC - PC NCG = (Contas_Receber + Estoques) - (Fornecedores + Impostos_Recolher + Outras_Obrigacoes)

Checagens rápidas para evitar erros comuns

  • Caixa alto e contas a pagar altas: pode ser apenas “dinheiro com destino” (vencimentos próximos). Confira o calendário de pagamentos.
  • Contas a receber muito baixas em empresa que vende a prazo: pode faltar agenda de cartão/boletos não baixados.
  • Estoque muito baixo em negócio com reposição lenta: pode estar valorizado errado (preço de venda em vez de custo) ou incompleto.
  • Fornecedores baixos demais: notas não lançadas e compras no cartão fora do contas a pagar são causas frequentes.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao comparar Capital de Giro Líquido (CGL) e Necessidade de Capital de Giro (NCG), o que geralmente indica maior conforto para sustentar o giro no curto prazo?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Em geral, CGL > NCG sugere mais conforto, pois a folga de curto prazo (AC - PC) tende a ser suficiente para cobrir a necessidade gerada por clientes e estoques, descontado o financiamento de fornecedores e obrigações.

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Ciclo Operacional: estoque e vendas como parte do ciclo de caixa

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