Objetivo da estrutura de triagem
A estrutura da triagem organiza uma coleta dirigida de dados para responder rapidamente a duas perguntas clínicas: 1) há risco imediato? e 2) qual a prioridade de atendimento?. O foco é estimar gravidade e potencial de deterioração, e não fechar diagnóstico. Uma entrevista bem estruturada reduz omissões, melhora a consistência entre profissionais e permite priorização segura mesmo com pouco tempo.
Coleta dirigida: o que significa na prática
Coleta dirigida é perguntar apenas o que muda conduta de prioridade: sinais de instabilidade, sintomas de alarme, fatores de risco que elevam probabilidade de evento grave e elementos que indicam necessidade de intervenção rápida (monitorização, analgesia, isolamento, exames urgentes, avaliação médica imediata).
- Dirigida: perguntas curtas, com opções de resposta claras e orientadas a risco.
- Padronizada: mesma sequência para a maioria dos pacientes, com ramificações conforme a queixa.
- Verificável: sempre que possível, confirmar com sinais vitais, glicemia capilar, oximetria, escala de dor e observação direta.
Roteiro de entrevista de triagem (perguntas essenciais)
Use um roteiro fixo e acrescente perguntas específicas conforme a queixa. A seguir, um modelo de sequência que cabe em poucos minutos quando treinado.
1) Identificação rápida e contexto
- Nome/idade (ou faixa etária), acompanhante, contato.
- Origem: demanda espontânea, encaminhado, resgate.
- Capacidade de responder: orientado? confuso? sonolento? (se não responde, a triagem vira prioritariamente observacional e baseada em sinais vitais).
2) Queixa principal (QP) em uma frase
Pergunta-chave: “O que está acontecendo agora?” Registre com as palavras do paciente quando possível e evite transformar a QP em diagnóstico. Exemplos: “dor no peito”, “falta de ar”, “queda com dor no quadril”, “vômitos”, “febre”.
3) Início e evolução (tempo é risco)
Perguntas essenciais:
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- Quando começou? (hora/data; súbito vs gradual)
- Como evoluiu? (piorando, melhorando, intermitente, recorrente)
- Já aconteceu antes? (episódios prévios e diferença do atual)
Tempo de início ajuda a identificar janelas de maior risco (ex.: início súbito, piora rápida, sintomas progressivos).
4) Caracterização dirigida do sintoma (sem “anamnese longa”)
Escolha 2–4 perguntas que mudam risco. Exemplos por sintoma:
- Dor: localização, intensidade (0–10), irradiação, tipo (opressiva/queimação), associação com esforço, presença de sudorese/náusea.
- Dispneia: repouso ou esforço, fala frases completas?, chiado, dor torácica associada, ortopneia, cianose percebida.
- Febre: pico, duração, calafrios, foco provável, uso de antitérmico e resposta.
- Neurológico: início súbito, fraqueza unilateral, alteração da fala, convulsão, cefaleia “pior da vida”, rigidez de nuca.
5) Fatores de piora e melhora
Pergunta-chave: “O que piora? O que melhora?” Isso ajuda a diferenciar risco e orientar necessidade de intervenção imediata (ex.: dor que piora com esforço e melhora com repouso; dispneia que piora ao deitar).
6) Comorbidades relevantes (apenas as que elevam risco)
Em triagem, comorbidade é “relevante” quando aumenta chance de desfecho grave ou muda limiar de prioridade. Perguntas objetivas:
- Doença cardíaca (IAM prévio, insuficiência cardíaca, arritmias).
- Doença pulmonar (DPOC, asma grave).
- Diabetes (especialmente com hipoglicemias, uso de insulina).
- Doença renal crônica, hepatopatia.
- História de AVC, epilepsia.
- Câncer em tratamento, transplante, HIV com imunossupressão.
7) Medicamentos críticos: anticoagulantes e outros que mudam risco
Perguntas essenciais:
- “Usa algum anticoagulante ou remédio para afinar o sangue?” (varfarina, rivaroxabana, apixabana, dabigatrana, heparinas)
- “Usa antiagregante?” (AAS, clopidogrel) quando houver trauma, sangramento ou dor torácica.
- Insulina/hipoglicemiantes em queixas de mal-estar, confusão, sudorese, síncope.
Registre nome, última dose e, se aplicável, motivo do uso (ex.: FA, TEV). Em trauma ou sangramento, anticoagulação eleva prioridade por risco de hemorragia oculta.
8) Gestação e puerpério
Perguntas essenciais para pessoas com potencial gestacional:
- “Há chance de estar grávida?” e idade gestacional se confirmado.
- “Sangramento vaginal, dor abdominal, perda de líquido, diminuição de movimentos fetais?” quando aplicável.
- Puerpério: “Parto nas últimas 6 semanas?” (risco aumentado para tromboembolismo, infecção, hemorragia).
Gestação/puerpério reduz tolerância a atrasos em queixas como dor abdominal, sangramento, cefaleia intensa, dispneia e hipertensão.
9) Imunossupressão e risco infeccioso
Perguntas essenciais:
- “Faz quimioterapia, usa corticoide em dose alta, biológicos, ou tem transplante?”
- “Teve febre medida?” e duração.
- Presença de sinais de infecção: calafrios, prostração, confusão, queda do estado geral.
Imunossupressão eleva prioridade em febre, dispneia, dor abdominal e sinais sistêmicos, mesmo com sintomas aparentemente “leves”.
10) Alergias e riscos imediatos de intervenção
Em triagem, alergias importam quando podem interferir em analgesia, antibiótico, contraste, ou quando há suspeita de anafilaxia. Pergunta curta: “Tem alergia a algum medicamento?” e reação (ex.: urticária vs anafilaxia).
Transformando dados em hipóteses de risco (sem buscar diagnóstico definitivo)
Após coletar dados essenciais, traduza em hipóteses de risco: frases curtas que conectam achados a possíveis ameaças à vida/órgão e ao potencial de piora. O objetivo é decidir prioridade, monitorização e necessidade de avaliação imediata.
Modelo mental: “ameaça + evidência + vulnerabilidade”
- Ameaça: qual evento grave precisa ser descartado/abordado primeiro? (ex.: insuficiência respiratória, choque, hemorragia, sepse, síndrome coronariana, AVC, abdome agudo).
- Evidência: quais sinais/sintomas sustentam risco? (ex.: dispneia em repouso, dor torácica opressiva, rebaixamento de consciência, sangramento ativo, febre com prostração).
- Vulnerabilidade: o que reduz reserva fisiológica ou aumenta gravidade? (idoso, gestação, anticoagulante, imunossupressão, comorbidades).
Exemplos de hipóteses de risco bem formuladas
- “Risco respiratório”: dispneia em repouso + fala entrecortada + SpO2 baixa na triagem → prioridade elevada, monitorização e avaliação rápida.
- “Risco hemorrágico”: queda com trauma craniano + uso de anticoagulante + cefaleia/vômitos → risco de sangramento intracraniano, priorizar.
- “Risco infeccioso sistêmico”: febre + confusão/prostração + imunossupressão → risco de sepse, priorizar.
- “Risco obstétrico”: gestante com dor abdominal e sangramento → risco materno-fetal, priorizar.
Armadilhas comuns (e como evitar)
- Armadilha: “diagnosticar” na triagem. Evite rótulos fechados (“é gastrite”). Prefira “dor epigástrica com sinais de alarme ausentes/presentes”.
- Armadilha: subestimar por aparência tranquila. Confirme com sinais vitais e perguntas de risco (tempo de início, anticoagulantes, imunossupressão).
- Armadilha: coletar demais e atrasar. Se houver instabilidade, interrompa entrevista e priorize medidas imediatas e fluxo rápido.
Passo a passo prático: triagem em poucos minutos com qualidade
Passo 1 — Observação imediata (10–20 segundos)
- Via aérea e padrão respiratório: fala frases completas? uso de musculatura acessória?
- Perfusão: palidez, sudorese, extremidades frias, enchimento capilar.
- Consciência: alerta, confuso, sonolento, agitado.
- Sangramento visível, vômitos, convulsão, dor intensa evidente.
Se houver sinais de ameaça imediata, a prioridade é acionar fluxo rápido e iniciar medidas conforme protocolo local.
Passo 2 — Sinais vitais e medidas rápidas (1–2 minutos)
- PA, FC, FR, SpO2, temperatura.
- Glicemia capilar quando houver alteração do sensório, mal-estar, síncope, diabetes, sudorese, tremores.
- Escala de dor (0–10) e localização.
Registre valores e horário. Repetição é parte da qualidade: sinais vitais “normais” podem mudar rapidamente em pacientes de risco.
Passo 3 — Roteiro de perguntas essenciais (2–4 minutos)
Use a sequência: QP → início/evolução → piora/melhora → comorbidades → anticoagulantes → gestação/puerpério → imunossupressão → alergias. Faça perguntas fechadas quando o tempo for curto e abra apenas quando necessário para esclarecer risco.
Passo 4 — Síntese de risco e decisão de prioridade (30–60 segundos)
Produza uma síntese curta e acionável, por exemplo:
QP: dor torácica há 40 min, opressiva, piora ao esforço, sudorese. HAS e DM. Sem alergias. Hipótese de risco: evento cardíaco agudo. Prioridade: alta, monitorização e avaliação imediata.Essa síntese deve orientar: prioridade, local de espera (monitorizado ou não), necessidade de reavaliação e alertas para equipe.
Passo 5 — Reavaliação programada
Triagem não é ato único. Defina gatilhos de reavaliação:
- Piora da dor, dispneia, sangramento, vômitos persistentes, síncope.
- Alteração de sinais vitais.
- Tempo de espera prolongado em pacientes com vulnerabilidades (idosos, gestantes, imunossuprimidos, anticoagulados).
Campos mínimos de um formulário de triagem (exemplo)
Um formulário enxuto ajuda a manter consistência. Abaixo, um exemplo de campos mínimos (adaptável ao serviço):
| Seção | Campos mínimos | Observações |
|---|---|---|
| Identificação | Nome, idade/data nasc., sexo, contato, acompanhante | Registrar barreiras de comunicação |
| Queixa e tempo | QP (texto curto), início (data/hora), evolução | Tempo de início é dado crítico |
| Sinais vitais | PA, FC, FR, SpO2, T°, dor (0–10), glicemia (se indicada) | Incluir horário da aferição |
| Perguntas de risco | Piora/melhora; comorbidades relevantes | Checklist reduz esquecimento |
| Medicamentos críticos | Anticoagulante/antiagregante (sim/não; qual; última dose) | Campo estruturado + texto livre |
| Gestação/puerpério | Chance de gestação; IG; puerpério < 6 semanas | Acionar fluxo específico quando aplicável |
| Imunossupressão | Quimio/biológicos/corticoide alto/transplante (sim/não) | Eleva prioridade em febre e sinais sistêmicos |
| Alergias | Medicamento e reação | Diferenciar efeito colateral de alergia |
| Síntese e prioridade | Hipótese de risco (texto curto), prioridade definida, destino/fluxo | Registrar justificativa objetiva |
| Reavaliação | Horário previsto e gatilhos de retorno | Especialmente em espera |
Exemplo de formulário em formato checklist (texto)
QP: ____________________ Início: ____/____ ____:____ Evolução: ( ) piora ( ) estável ( ) intermitente Dor 0-10: __ Local: ________ Piora com: __________ Melhora com: __________ SV: PA ___/___ FC ___ FR ___ SpO2 ___% T ___°C HGT ___ mg/dL (se indicado) Comorbidades: ( ) cardiopatia ( ) DPOC/asma grave ( ) DM ( ) DRC ( ) AVC prévio ( ) câncer/tratamento Anticoagulante: ( ) não ( ) sim: ________ última dose: ____:____ Antiagregante: ( ) não ( ) sim: ________ Gestação: ( ) não ( ) sim/possível IG: ____ sem Puerpério <6 sem: ( ) não ( ) sim Imunossupressão: ( ) não ( ) sim: ________ Alergias: ( ) não ( ) sim: ________ reação: ________ Síntese de risco: ______________________________ Prioridade: ________ Destino/fluxo: __________ Reavaliação: ____:____ Gatilhos: __________________Boas práticas para manter qualidade em triagem rápida
Comunicação objetiva e segura
- Use perguntas curtas e uma por vez; confirme entendimento.
- Evite termos vagos no registro (“bem”, “regular”). Prefira descrições observáveis (“dispneia ao falar”, “dor 8/10”).
- Ao final, faça uma checagem: “O que mais te preocupa hoje?” (frequentemente revela sintoma de alarme omitido).
Padronização com flexibilidade
- Tenha um roteiro fixo, mas permita ramificações por queixa (dor torácica, dispneia, trauma, febre, neurológico).
- Se o paciente estiver instável, reduza entrevista ao mínimo e priorize fluxo rápido.
Registro que sustenta decisão
- Justifique prioridade com dados: sinais vitais, tempo de início, sintomas de alarme, vulnerabilidades (anticoagulante, gestação, imunossupressão).
- Registre negativos relevantes quando ajudam a sustentar menor risco (ex.: “nega sangramento”, “nega dispneia”, “sem uso de anticoagulante”), sem transformar em anamnese extensa.
Gestão do tempo sem perder dados críticos
- Use checklists para itens de alto impacto (anticoagulante, gestação, imunossupressão).
- Treine frases-padrão para acelerar: “Quando começou?”, “Está piorando?”, “O que piora?”, “Usa anticoagulante?”, “Há chance de gravidez?”, “Faz quimio ou usa remédio que baixa imunidade?”
- Se houver fila, priorize: observação + sinais vitais + perguntas críticas + síntese de risco. Detalhes adicionais podem ser coletados na reavaliação ou na avaliação clínica subsequente.