Estrutura da Triagem: Coleta Dirigida de Dados e Priorização Clínica

Capítulo 3

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

Objetivo da estrutura de triagem

A estrutura da triagem organiza uma coleta dirigida de dados para responder rapidamente a duas perguntas clínicas: 1) há risco imediato? e 2) qual a prioridade de atendimento?. O foco é estimar gravidade e potencial de deterioração, e não fechar diagnóstico. Uma entrevista bem estruturada reduz omissões, melhora a consistência entre profissionais e permite priorização segura mesmo com pouco tempo.

Coleta dirigida: o que significa na prática

Coleta dirigida é perguntar apenas o que muda conduta de prioridade: sinais de instabilidade, sintomas de alarme, fatores de risco que elevam probabilidade de evento grave e elementos que indicam necessidade de intervenção rápida (monitorização, analgesia, isolamento, exames urgentes, avaliação médica imediata).

  • Dirigida: perguntas curtas, com opções de resposta claras e orientadas a risco.
  • Padronizada: mesma sequência para a maioria dos pacientes, com ramificações conforme a queixa.
  • Verificável: sempre que possível, confirmar com sinais vitais, glicemia capilar, oximetria, escala de dor e observação direta.

Roteiro de entrevista de triagem (perguntas essenciais)

Use um roteiro fixo e acrescente perguntas específicas conforme a queixa. A seguir, um modelo de sequência que cabe em poucos minutos quando treinado.

1) Identificação rápida e contexto

  • Nome/idade (ou faixa etária), acompanhante, contato.
  • Origem: demanda espontânea, encaminhado, resgate.
  • Capacidade de responder: orientado? confuso? sonolento? (se não responde, a triagem vira prioritariamente observacional e baseada em sinais vitais).

2) Queixa principal (QP) em uma frase

Pergunta-chave: “O que está acontecendo agora?” Registre com as palavras do paciente quando possível e evite transformar a QP em diagnóstico. Exemplos: “dor no peito”, “falta de ar”, “queda com dor no quadril”, “vômitos”, “febre”.

3) Início e evolução (tempo é risco)

Perguntas essenciais:

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  • Quando começou? (hora/data; súbito vs gradual)
  • Como evoluiu? (piorando, melhorando, intermitente, recorrente)
  • Já aconteceu antes? (episódios prévios e diferença do atual)

Tempo de início ajuda a identificar janelas de maior risco (ex.: início súbito, piora rápida, sintomas progressivos).

4) Caracterização dirigida do sintoma (sem “anamnese longa”)

Escolha 2–4 perguntas que mudam risco. Exemplos por sintoma:

  • Dor: localização, intensidade (0–10), irradiação, tipo (opressiva/queimação), associação com esforço, presença de sudorese/náusea.
  • Dispneia: repouso ou esforço, fala frases completas?, chiado, dor torácica associada, ortopneia, cianose percebida.
  • Febre: pico, duração, calafrios, foco provável, uso de antitérmico e resposta.
  • Neurológico: início súbito, fraqueza unilateral, alteração da fala, convulsão, cefaleia “pior da vida”, rigidez de nuca.

5) Fatores de piora e melhora

Pergunta-chave: “O que piora? O que melhora?” Isso ajuda a diferenciar risco e orientar necessidade de intervenção imediata (ex.: dor que piora com esforço e melhora com repouso; dispneia que piora ao deitar).

6) Comorbidades relevantes (apenas as que elevam risco)

Em triagem, comorbidade é “relevante” quando aumenta chance de desfecho grave ou muda limiar de prioridade. Perguntas objetivas:

  • Doença cardíaca (IAM prévio, insuficiência cardíaca, arritmias).
  • Doença pulmonar (DPOC, asma grave).
  • Diabetes (especialmente com hipoglicemias, uso de insulina).
  • Doença renal crônica, hepatopatia.
  • História de AVC, epilepsia.
  • Câncer em tratamento, transplante, HIV com imunossupressão.

7) Medicamentos críticos: anticoagulantes e outros que mudam risco

Perguntas essenciais:

  • “Usa algum anticoagulante ou remédio para afinar o sangue?” (varfarina, rivaroxabana, apixabana, dabigatrana, heparinas)
  • “Usa antiagregante?” (AAS, clopidogrel) quando houver trauma, sangramento ou dor torácica.
  • Insulina/hipoglicemiantes em queixas de mal-estar, confusão, sudorese, síncope.

Registre nome, última dose e, se aplicável, motivo do uso (ex.: FA, TEV). Em trauma ou sangramento, anticoagulação eleva prioridade por risco de hemorragia oculta.

8) Gestação e puerpério

Perguntas essenciais para pessoas com potencial gestacional:

  • “Há chance de estar grávida?” e idade gestacional se confirmado.
  • “Sangramento vaginal, dor abdominal, perda de líquido, diminuição de movimentos fetais?” quando aplicável.
  • Puerpério: “Parto nas últimas 6 semanas?” (risco aumentado para tromboembolismo, infecção, hemorragia).

Gestação/puerpério reduz tolerância a atrasos em queixas como dor abdominal, sangramento, cefaleia intensa, dispneia e hipertensão.

9) Imunossupressão e risco infeccioso

Perguntas essenciais:

  • “Faz quimioterapia, usa corticoide em dose alta, biológicos, ou tem transplante?”
  • “Teve febre medida?” e duração.
  • Presença de sinais de infecção: calafrios, prostração, confusão, queda do estado geral.

Imunossupressão eleva prioridade em febre, dispneia, dor abdominal e sinais sistêmicos, mesmo com sintomas aparentemente “leves”.

10) Alergias e riscos imediatos de intervenção

Em triagem, alergias importam quando podem interferir em analgesia, antibiótico, contraste, ou quando há suspeita de anafilaxia. Pergunta curta: “Tem alergia a algum medicamento?” e reação (ex.: urticária vs anafilaxia).

Transformando dados em hipóteses de risco (sem buscar diagnóstico definitivo)

Após coletar dados essenciais, traduza em hipóteses de risco: frases curtas que conectam achados a possíveis ameaças à vida/órgão e ao potencial de piora. O objetivo é decidir prioridade, monitorização e necessidade de avaliação imediata.

Modelo mental: “ameaça + evidência + vulnerabilidade”

  • Ameaça: qual evento grave precisa ser descartado/abordado primeiro? (ex.: insuficiência respiratória, choque, hemorragia, sepse, síndrome coronariana, AVC, abdome agudo).
  • Evidência: quais sinais/sintomas sustentam risco? (ex.: dispneia em repouso, dor torácica opressiva, rebaixamento de consciência, sangramento ativo, febre com prostração).
  • Vulnerabilidade: o que reduz reserva fisiológica ou aumenta gravidade? (idoso, gestação, anticoagulante, imunossupressão, comorbidades).

Exemplos de hipóteses de risco bem formuladas

  • “Risco respiratório”: dispneia em repouso + fala entrecortada + SpO2 baixa na triagem → prioridade elevada, monitorização e avaliação rápida.
  • “Risco hemorrágico”: queda com trauma craniano + uso de anticoagulante + cefaleia/vômitos → risco de sangramento intracraniano, priorizar.
  • “Risco infeccioso sistêmico”: febre + confusão/prostração + imunossupressão → risco de sepse, priorizar.
  • “Risco obstétrico”: gestante com dor abdominal e sangramento → risco materno-fetal, priorizar.

Armadilhas comuns (e como evitar)

  • Armadilha: “diagnosticar” na triagem. Evite rótulos fechados (“é gastrite”). Prefira “dor epigástrica com sinais de alarme ausentes/presentes”.
  • Armadilha: subestimar por aparência tranquila. Confirme com sinais vitais e perguntas de risco (tempo de início, anticoagulantes, imunossupressão).
  • Armadilha: coletar demais e atrasar. Se houver instabilidade, interrompa entrevista e priorize medidas imediatas e fluxo rápido.

Passo a passo prático: triagem em poucos minutos com qualidade

Passo 1 — Observação imediata (10–20 segundos)

  • Via aérea e padrão respiratório: fala frases completas? uso de musculatura acessória?
  • Perfusão: palidez, sudorese, extremidades frias, enchimento capilar.
  • Consciência: alerta, confuso, sonolento, agitado.
  • Sangramento visível, vômitos, convulsão, dor intensa evidente.

Se houver sinais de ameaça imediata, a prioridade é acionar fluxo rápido e iniciar medidas conforme protocolo local.

Passo 2 — Sinais vitais e medidas rápidas (1–2 minutos)

  • PA, FC, FR, SpO2, temperatura.
  • Glicemia capilar quando houver alteração do sensório, mal-estar, síncope, diabetes, sudorese, tremores.
  • Escala de dor (0–10) e localização.

Registre valores e horário. Repetição é parte da qualidade: sinais vitais “normais” podem mudar rapidamente em pacientes de risco.

Passo 3 — Roteiro de perguntas essenciais (2–4 minutos)

Use a sequência: QP → início/evolução → piora/melhora → comorbidades → anticoagulantes → gestação/puerpério → imunossupressão → alergias. Faça perguntas fechadas quando o tempo for curto e abra apenas quando necessário para esclarecer risco.

Passo 4 — Síntese de risco e decisão de prioridade (30–60 segundos)

Produza uma síntese curta e acionável, por exemplo:

QP: dor torácica há 40 min, opressiva, piora ao esforço, sudorese. HAS e DM. Sem alergias. Hipótese de risco: evento cardíaco agudo. Prioridade: alta, monitorização e avaliação imediata.

Essa síntese deve orientar: prioridade, local de espera (monitorizado ou não), necessidade de reavaliação e alertas para equipe.

Passo 5 — Reavaliação programada

Triagem não é ato único. Defina gatilhos de reavaliação:

  • Piora da dor, dispneia, sangramento, vômitos persistentes, síncope.
  • Alteração de sinais vitais.
  • Tempo de espera prolongado em pacientes com vulnerabilidades (idosos, gestantes, imunossuprimidos, anticoagulados).

Campos mínimos de um formulário de triagem (exemplo)

Um formulário enxuto ajuda a manter consistência. Abaixo, um exemplo de campos mínimos (adaptável ao serviço):

SeçãoCampos mínimosObservações
IdentificaçãoNome, idade/data nasc., sexo, contato, acompanhanteRegistrar barreiras de comunicação
Queixa e tempoQP (texto curto), início (data/hora), evoluçãoTempo de início é dado crítico
Sinais vitaisPA, FC, FR, SpO2, T°, dor (0–10), glicemia (se indicada)Incluir horário da aferição
Perguntas de riscoPiora/melhora; comorbidades relevantesChecklist reduz esquecimento
Medicamentos críticosAnticoagulante/antiagregante (sim/não; qual; última dose)Campo estruturado + texto livre
Gestação/puerpérioChance de gestação; IG; puerpério < 6 semanasAcionar fluxo específico quando aplicável
ImunossupressãoQuimio/biológicos/corticoide alto/transplante (sim/não)Eleva prioridade em febre e sinais sistêmicos
AlergiasMedicamento e reaçãoDiferenciar efeito colateral de alergia
Síntese e prioridadeHipótese de risco (texto curto), prioridade definida, destino/fluxoRegistrar justificativa objetiva
ReavaliaçãoHorário previsto e gatilhos de retornoEspecialmente em espera

Exemplo de formulário em formato checklist (texto)

QP: ____________________  Início: ____/____ ____:____  Evolução: ( ) piora ( ) estável ( ) intermitente  Dor 0-10: __ Local: ________  Piora com: __________  Melhora com: __________  SV: PA ___/___  FC ___  FR ___  SpO2 ___%  T ___°C  HGT ___ mg/dL (se indicado)  Comorbidades: ( ) cardiopatia ( ) DPOC/asma grave ( ) DM ( ) DRC ( ) AVC prévio ( ) câncer/tratamento  Anticoagulante: ( ) não ( ) sim: ________ última dose: ____:____  Antiagregante: ( ) não ( ) sim: ________  Gestação: ( ) não ( ) sim/possível IG: ____ sem  Puerpério <6 sem: ( ) não ( ) sim  Imunossupressão: ( ) não ( ) sim: ________  Alergias: ( ) não ( ) sim: ________ reação: ________  Síntese de risco: ______________________________  Prioridade: ________  Destino/fluxo: __________  Reavaliação: ____:____  Gatilhos: __________________

Boas práticas para manter qualidade em triagem rápida

Comunicação objetiva e segura

  • Use perguntas curtas e uma por vez; confirme entendimento.
  • Evite termos vagos no registro (“bem”, “regular”). Prefira descrições observáveis (“dispneia ao falar”, “dor 8/10”).
  • Ao final, faça uma checagem: “O que mais te preocupa hoje?” (frequentemente revela sintoma de alarme omitido).

Padronização com flexibilidade

  • Tenha um roteiro fixo, mas permita ramificações por queixa (dor torácica, dispneia, trauma, febre, neurológico).
  • Se o paciente estiver instável, reduza entrevista ao mínimo e priorize fluxo rápido.

Registro que sustenta decisão

  • Justifique prioridade com dados: sinais vitais, tempo de início, sintomas de alarme, vulnerabilidades (anticoagulante, gestação, imunossupressão).
  • Registre negativos relevantes quando ajudam a sustentar menor risco (ex.: “nega sangramento”, “nega dispneia”, “sem uso de anticoagulante”), sem transformar em anamnese extensa.

Gestão do tempo sem perder dados críticos

  • Use checklists para itens de alto impacto (anticoagulante, gestação, imunossupressão).
  • Treine frases-padrão para acelerar: “Quando começou?”, “Está piorando?”, “O que piora?”, “Usa anticoagulante?”, “Há chance de gravidez?”, “Faz quimio ou usa remédio que baixa imunidade?”
  • Se houver fila, priorize: observação + sinais vitais + perguntas críticas + síntese de risco. Detalhes adicionais podem ser coletados na reavaliação ou na avaliação clínica subsequente.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Durante a triagem, qual abordagem melhor traduz o objetivo de uma coleta dirigida de dados para definir a prioridade de atendimento?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A coleta dirigida pergunta apenas o que muda a conduta de prioridade (instabilidade, alarmes e vulnerabilidades) e busca confirmação com dados verificáveis, como sinais vitais e oximetria, visando gravidade e risco de deterioração, não diagnóstico.

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