Conceito: o que são erros pré-analíticos e por que importam
Erros pré-analíticos são falhas que acontecem antes da análise do laboratório (na solicitação, preparo do paciente, coleta, acondicionamento, armazenamento e transporte). Eles podem gerar resultados falsamente alterados, necessidade de recoleta, atrasos terapêuticos e riscos ao paciente. Na prática de enfermagem, a prevenção depende de padronização, checagens em pontos críticos e comunicação efetiva com o laboratório e a equipe assistencial.
Catálogo de falhas pré-analíticas com ações preventivas
1) Identificação incorreta do paciente/amostra
Causas comuns
- Coleta em paciente com nome semelhante, troca de leito, pulseira ausente/ilegível.
- Rotulagem feita longe do paciente ou após sair do quarto.
- Uso de etiquetas “pré-impressas” aplicadas em lote.
Impacto no resultado
- Resultado atribuído ao paciente errado (erro crítico), podendo levar a condutas inadequadas.
- Invalidação da amostra e recoleta.
Sinais de detecção
- Divergência entre requisição e pulseira (nome, data de nascimento, prontuário).
- Amostra sem identificadores mínimos ou com rasuras.
- Incompatibilidade clínica evidente (ex.: “potássio incompatível” com quadro e ECG).
Como corrigir
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- Interromper o fluxo: não enviar amostra com identificação duvidosa.
- Notificar liderança e laboratório conforme protocolo; providenciar recoleta quando indicado.
Como prevenir com padronização
- Usar dois identificadores (ex.: nome completo + data de nascimento/prontuário) conferidos com pulseira e confirmação ativa do paciente quando possível.
- Rotular à beira-leito imediatamente após a coleta, antes de sair do local.
- Padronizar “pausa de segurança” antes de puncionar:
Paciente certo + exame certo + tubo certo.
2) Tubo errado (tipo de aditivo/anticoagulante inadequado)
Causas comuns
- Sem conferência do exame solicitado versus tubo necessário.
- Sem separação/organização dos tubos no carrinho.
- Troca por tubos visualmente parecidos.
Impacto no resultado
- Interferência química (ex.: EDTA alterando eletrólitos), coagulação indevida, impossibilidade de realizar o teste.
- Rejeição pelo laboratório e recoleta.
Sinais de detecção
- Laboratório reporta “amostra inadequada”/“tubo incompatível”.
- Presença de coágulos em tubo que deveria conter anticoagulante ou ausência de separação adequada.
Como corrigir
- Se identificado antes do envio: recolher nova amostra no tubo correto.
- Se já enviado: comunicar laboratório para bloqueio do processamento e orientar recoleta.
Como prevenir com padronização
- Manter tabela de compatibilidade (exame → tipo de tubo) acessível no posto/carrinho.
- Organizar tubos por cor e finalidade em compartimentos fixos.
- Checagem dupla em exames menos frequentes (ex.: coagulação, gasometria, dosagens especiais).
3) Volume inadequado (subenchimento ou superenchimento)
Causas comuns
- Interrupção precoce do enchimento por dor/movimento.
- Uso de seringa e transferência inadequada para tubo a vácuo.
- Veia de baixo fluxo, colapso venoso, torniquete prolongado.
Impacto no resultado
- Relação sangue/aditivo incorreta: pode alterar testes (especialmente coagulação e hematologia) e favorecer hemólise/coágulos.
- Volume insuficiente para repetir/confirmar testes.
Sinais de detecção
- Marca de enchimento do tubo não atingida.
- Laboratório sinaliza “volume insuficiente” ou “relação anticoagulante inadequada”.
Como corrigir
- Se ainda no local e seguro: coletar novo tubo completo (evitar “completar” com outro momento/punção no mesmo tubo).
- Se amostra crítica e sem possibilidade imediata: comunicar laboratório para avaliar viabilidade analítica.
Como prevenir com padronização
- Treinar equipe para reconhecer marcas de volume e nunca “chutar” volume.
- Preferir sistema a vácuo quando indicado; se usar seringa, transferir com dispositivo apropriado e sem pressão excessiva.
- Planejar punção: escolher veia com melhor fluxo e estabilizar o membro para evitar interrupções.
4) Ordem de coleta inadequada
Causas comuns
- Coleta por hábito pessoal sem seguir ordem padronizada.
- Pressa e troca de sequência ao trocar tubos.
Impacto no resultado
- Contaminação por aditivos entre tubos (carryover), alterando resultados (ex.: anticoagulantes interferindo em dosagens).
Sinais de detecção
- Resultados incoerentes com quadro clínico e repetição normal em nova amostra.
- Laboratório questiona possível contaminação por aditivo.
Como corrigir
- Recolher seguindo a ordem padronizada quando houver suspeita de interferência.
Como prevenir com padronização
- Fixar no carrinho e sala de coleta um cartaz de ordem de coleta adotada pelo serviço.
- Usar “sequência física” no carrinho (tubos posicionados na ordem).
5) Hemólise
Causas comuns
- Calibre inadequado, aspiração/pressão excessiva ao usar seringa.
- Agitação vigorosa do tubo, queda/impacto, transporte inadequado.
- Coleta em acesso com infusão recente, ou punção traumática com múltiplas tentativas.
Impacto no resultado
- Liberação de conteúdo intracelular e interferências analíticas: pode alterar eletrólitos, enzimas e outros parâmetros; pode levar à rejeição da amostra.
Sinais de detecção
- Plasma/soro com coloração rosada a avermelhada após centrifugação.
- Relato do laboratório: “amostra hemolisada”.
Como corrigir
- Recolher com técnica que minimize trauma e manipulação.
- Se resultado for crítico e hemólise leve, discutir com laboratório a possibilidade de liberar com observação (conforme política local).
Como prevenir com padronização
- Evitar pressão excessiva na transferência; não “forçar” sangue para dentro do tubo.
- Homogeneizar por inversões suaves conforme recomendação do tubo (sem chacoalhar).
- Padronizar critérios de recoleta e comunicação de hemólise.
6) Coagulação em amostras com anticoagulante
Causas comuns
- Subenchimento do tubo com anticoagulante.
- Homogeneização insuficiente após a coleta.
- Atraso para misturar o tubo (deixar “parado” logo após coletar).
Impacto no resultado
- Microcoágulos alteram contagens e índices hematológicos; podem obstruir equipamentos e invalidar testes.
Sinais de detecção
- Presença de coágulos visíveis ao inspecionar o tubo (inclinar e observar).
- Laboratório reporta “coágulo”/“amostra coagulada”.
Como corrigir
- Recolher nova amostra garantindo volume correto e homogeneização imediata.
Como prevenir com padronização
- Inversões suaves imediatamente após encher o tubo, seguindo número recomendado pelo fabricante.
- Treinar inspeção rápida do tubo antes do envio (checagem visual de coágulos).
7) Contaminação por soluções IV (diluição/contaminação do sangue)
Causas comuns
- Coleta em membro com infusão em curso ou recém-interrompida.
- Coleta por cateter com flush recente, sem descarte adequado conforme protocolo.
- Coleta acima do sítio de infusão.
Impacto no resultado
- Resultados falsamente diluídos ou contaminados (ex.: glicose, eletrólitos, fármacos), levando a condutas incorretas.
Sinais de detecção
- Resultados incompatíveis com clínica e com amostras prévias.
- Diferença importante entre amostras de membros diferentes.
Como corrigir
- Recolher em membro sem infusão quando possível.
- Se coleta por cateter for inevitável, seguir protocolo institucional de pausa da infusão, descarte e documentação (sem improvisos).
Como prevenir com padronização
- Mapear previamente quais membros estão com infusão e sinalizar no leito.
- Padronizar decisão:
preferir punção periférica contralateralquando houver infusão. - Documentar local, condição da infusão e método de coleta para rastreabilidade.
8) Tempo excessivo de torniquete
Causas comuns
- Torniquete aplicado antes de preparar materiais e tubos.
- Dificuldade de punção com torniquete mantido durante múltiplas tentativas.
Impacto no resultado
- Hemoconcentração e alterações em analitos sensíveis; maior risco de hemólise e desconforto.
Sinais de detecção
- Tempo percebido acima do recomendado, congestão importante, dor.
- Resultados com padrão de hemoconcentração em comparação a amostras anteriores.
Como corrigir
- Soltar o torniquete, permitir reperfusão e reavaliar o sítio; se necessário, escolher outra veia e reiniciar com tempo controlado.
Como prevenir com padronização
- Aplicar torniquete apenas quando tudo estiver pronto para puncionar.
- Adotar regra operacional: se ultrapassar o tempo definido pelo serviço,
soltar e reiniciar. - Usar alternativas para evidenciar veia (posição, aquecimento local conforme protocolo) sem prolongar torniquete.
9) Armazenamento/transporte inadequados (temperatura, luz, agitação, posição)
Causas comuns
- Deixar amostras em bancada por tempo prolongado.
- Exposição ao calor/frio fora do recomendado.
- Transporte com agitação intensa, sem suporte, ou em recipientes inadequados.
- Exposição à luz quando o analito é fotossensível.
Impacto no resultado
- Degradação de analitos, alterações metabólicas na amostra, hemólise mecânica, resultados falsos.
Sinais de detecção
- Laboratório informa “amostra fora de estabilidade”, “temperatura inadequada”, “tubo vazando/avariado”.
Como corrigir
- Se identificado antes do processamento: recolher nova amostra e enviar em condições corretas.
- Registrar ocorrência e ajustar fluxo de transporte.
Como prevenir com padronização
- Definir rotas e horários de coleta/expedição (janelas fixas) e responsável pelo envio.
- Usar embalagem/caixa de transporte apropriada, com suporte para tubos e controle térmico quando indicado.
- Padronizar proteção contra luz para exames específicos conforme orientação do laboratório.
10) Atraso no envio ao laboratório (tempo de estabilidade excedido)
Causas comuns
- Acúmulo de amostras para “enviar tudo junto”.
- Falta de mensageiro/rota definida, falhas de comunicação com laboratório.
- Prioridade assistencial concorrente sem plano de contingência.
Impacto no resultado
- Perda de estabilidade, alterações por metabolismo celular, necessidade de recoleta e atraso diagnóstico.
Sinais de detecção
- Horário de coleta muito anterior ao recebimento no laboratório.
- Laboratório rejeita por “tempo excedido” ou solicita recoleta.
Como corrigir
- Acionar envio imediato; se estabilidade já excedida, alinhar com laboratório e providenciar recoleta.
- Registrar o motivo do atraso para ação corretiva (processo).
Como prevenir com padronização
- Definir SLA interno: tempo máximo entre coleta e expedição por tipo de exame (conforme laboratório).
- Implementar “amostras prioritárias” (ex.: urgência) com fluxo separado.
- Usar registro de horários (coleta/saída/recebimento) para auditoria e melhoria contínua.
Passos práticos transversais (aplicáveis a vários erros)
Rotina de checagem em 60–90 segundos antes de enviar
- Identificação: dois identificadores legíveis e compatíveis com a requisição.
- Tubo: tipo correto e integridade (sem trinca, tampa firme).
- Volume: dentro da marca indicada.
- Aspecto: sem coágulos (quando aplicável), sem vazamento, sem hemólise evidente (quando visível).
- Condições: proteção de luz/temperatura conforme exame.
- Tempo: registrar horário de coleta e garantir envio dentro do limite.
Quando suspeitar de erro: mini-fluxo de decisão
1) Pausar: não enviar amostra com dúvida de identificação/adequação. 2) Verificar: qual erro provável (tubo, volume, coágulo, hemólise, IV, tempo). 3) Comunicar: laboratório e liderança conforme protocolo. 4) Corrigir: recoleta/novo acondicionamento quando indicado. 5) Registrar: ocorrência e ação tomada (rastreabilidade e melhoria).Checklist de conformidade pré-analítica (uso no serviço)
| Item | Verificação | OK | Não OK/Ação |
|---|---|---|---|
| Identificação do paciente | Dois identificadores conferidos com pulseira e requisição; confirmação ativa quando possível | ☐ | ☐ |
| Rotulagem | Rotulado à beira-leito imediatamente após coleta; sem rasuras; dados completos | ☐ | ☐ |
| Tubo correto | Tubo compatível com o exame (aditivo/anticoagulante correto) | ☐ | ☐ |
| Ordem de coleta | Sequência seguida conforme padrão institucional | ☐ | ☐ |
| Volume | Volume dentro da marca do tubo; sem subenchimento crítico | ☐ | ☐ |
| Homogeneização | Inversões suaves realizadas imediatamente conforme recomendação do tubo | ☐ | ☐ |
| Inspeção de coágulos | Sem coágulos visíveis em tubos com anticoagulante | ☐ | ☐ |
| Hemólise (quando visível) | Amostra sem sinais evidentes de hemólise; coleta/manuseio sem trauma | ☐ | ☐ |
| Risco de contaminação por IV | Coleta realizada longe de infusão; se inevitável, protocolo seguido e documentado | ☐ | ☐ |
| Torniquete | Aplicado apenas quando pronto para puncionar; tempo controlado conforme padrão | ☐ | ☐ |
| Armazenamento/Transporte | Condição correta (temperatura/luz/posição); embalagem adequada; sem agitação excessiva | ☐ | ☐ |
| Tempo até envio | Horário de coleta registrado; envio dentro do limite de estabilidade do exame | ☐ | ☐ |
| Comunicação de não conformidade | Laboratório/chefia informados quando aplicável; ocorrência registrada | ☐ | ☐ |