Erros pré-analíticos em coleta de exames e como evitá-los na prática de enfermagem

Capítulo 13

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

Conceito: o que são erros pré-analíticos e por que importam

Erros pré-analíticos são falhas que acontecem antes da análise do laboratório (na solicitação, preparo do paciente, coleta, acondicionamento, armazenamento e transporte). Eles podem gerar resultados falsamente alterados, necessidade de recoleta, atrasos terapêuticos e riscos ao paciente. Na prática de enfermagem, a prevenção depende de padronização, checagens em pontos críticos e comunicação efetiva com o laboratório e a equipe assistencial.

Catálogo de falhas pré-analíticas com ações preventivas

1) Identificação incorreta do paciente/amostra

Causas comuns

  • Coleta em paciente com nome semelhante, troca de leito, pulseira ausente/ilegível.
  • Rotulagem feita longe do paciente ou após sair do quarto.
  • Uso de etiquetas “pré-impressas” aplicadas em lote.

Impacto no resultado

  • Resultado atribuído ao paciente errado (erro crítico), podendo levar a condutas inadequadas.
  • Invalidação da amostra e recoleta.

Sinais de detecção

  • Divergência entre requisição e pulseira (nome, data de nascimento, prontuário).
  • Amostra sem identificadores mínimos ou com rasuras.
  • Incompatibilidade clínica evidente (ex.: “potássio incompatível” com quadro e ECG).

Como corrigir

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  • Interromper o fluxo: não enviar amostra com identificação duvidosa.
  • Notificar liderança e laboratório conforme protocolo; providenciar recoleta quando indicado.

Como prevenir com padronização

  • Usar dois identificadores (ex.: nome completo + data de nascimento/prontuário) conferidos com pulseira e confirmação ativa do paciente quando possível.
  • Rotular à beira-leito imediatamente após a coleta, antes de sair do local.
  • Padronizar “pausa de segurança” antes de puncionar: Paciente certo + exame certo + tubo certo.

2) Tubo errado (tipo de aditivo/anticoagulante inadequado)

Causas comuns

  • Sem conferência do exame solicitado versus tubo necessário.
  • Sem separação/organização dos tubos no carrinho.
  • Troca por tubos visualmente parecidos.

Impacto no resultado

  • Interferência química (ex.: EDTA alterando eletrólitos), coagulação indevida, impossibilidade de realizar o teste.
  • Rejeição pelo laboratório e recoleta.

Sinais de detecção

  • Laboratório reporta “amostra inadequada”/“tubo incompatível”.
  • Presença de coágulos em tubo que deveria conter anticoagulante ou ausência de separação adequada.

Como corrigir

  • Se identificado antes do envio: recolher nova amostra no tubo correto.
  • Se já enviado: comunicar laboratório para bloqueio do processamento e orientar recoleta.

Como prevenir com padronização

  • Manter tabela de compatibilidade (exame → tipo de tubo) acessível no posto/carrinho.
  • Organizar tubos por cor e finalidade em compartimentos fixos.
  • Checagem dupla em exames menos frequentes (ex.: coagulação, gasometria, dosagens especiais).

3) Volume inadequado (subenchimento ou superenchimento)

Causas comuns

  • Interrupção precoce do enchimento por dor/movimento.
  • Uso de seringa e transferência inadequada para tubo a vácuo.
  • Veia de baixo fluxo, colapso venoso, torniquete prolongado.

Impacto no resultado

  • Relação sangue/aditivo incorreta: pode alterar testes (especialmente coagulação e hematologia) e favorecer hemólise/coágulos.
  • Volume insuficiente para repetir/confirmar testes.

Sinais de detecção

  • Marca de enchimento do tubo não atingida.
  • Laboratório sinaliza “volume insuficiente” ou “relação anticoagulante inadequada”.

Como corrigir

  • Se ainda no local e seguro: coletar novo tubo completo (evitar “completar” com outro momento/punção no mesmo tubo).
  • Se amostra crítica e sem possibilidade imediata: comunicar laboratório para avaliar viabilidade analítica.

Como prevenir com padronização

  • Treinar equipe para reconhecer marcas de volume e nunca “chutar” volume.
  • Preferir sistema a vácuo quando indicado; se usar seringa, transferir com dispositivo apropriado e sem pressão excessiva.
  • Planejar punção: escolher veia com melhor fluxo e estabilizar o membro para evitar interrupções.

4) Ordem de coleta inadequada

Causas comuns

  • Coleta por hábito pessoal sem seguir ordem padronizada.
  • Pressa e troca de sequência ao trocar tubos.

Impacto no resultado

  • Contaminação por aditivos entre tubos (carryover), alterando resultados (ex.: anticoagulantes interferindo em dosagens).

Sinais de detecção

  • Resultados incoerentes com quadro clínico e repetição normal em nova amostra.
  • Laboratório questiona possível contaminação por aditivo.

Como corrigir

  • Recolher seguindo a ordem padronizada quando houver suspeita de interferência.

Como prevenir com padronização

  • Fixar no carrinho e sala de coleta um cartaz de ordem de coleta adotada pelo serviço.
  • Usar “sequência física” no carrinho (tubos posicionados na ordem).

5) Hemólise

Causas comuns

  • Calibre inadequado, aspiração/pressão excessiva ao usar seringa.
  • Agitação vigorosa do tubo, queda/impacto, transporte inadequado.
  • Coleta em acesso com infusão recente, ou punção traumática com múltiplas tentativas.

Impacto no resultado

  • Liberação de conteúdo intracelular e interferências analíticas: pode alterar eletrólitos, enzimas e outros parâmetros; pode levar à rejeição da amostra.

Sinais de detecção

  • Plasma/soro com coloração rosada a avermelhada após centrifugação.
  • Relato do laboratório: “amostra hemolisada”.

Como corrigir

  • Recolher com técnica que minimize trauma e manipulação.
  • Se resultado for crítico e hemólise leve, discutir com laboratório a possibilidade de liberar com observação (conforme política local).

Como prevenir com padronização

  • Evitar pressão excessiva na transferência; não “forçar” sangue para dentro do tubo.
  • Homogeneizar por inversões suaves conforme recomendação do tubo (sem chacoalhar).
  • Padronizar critérios de recoleta e comunicação de hemólise.

6) Coagulação em amostras com anticoagulante

Causas comuns

  • Subenchimento do tubo com anticoagulante.
  • Homogeneização insuficiente após a coleta.
  • Atraso para misturar o tubo (deixar “parado” logo após coletar).

Impacto no resultado

  • Microcoágulos alteram contagens e índices hematológicos; podem obstruir equipamentos e invalidar testes.

Sinais de detecção

  • Presença de coágulos visíveis ao inspecionar o tubo (inclinar e observar).
  • Laboratório reporta “coágulo”/“amostra coagulada”.

Como corrigir

  • Recolher nova amostra garantindo volume correto e homogeneização imediata.

Como prevenir com padronização

  • Inversões suaves imediatamente após encher o tubo, seguindo número recomendado pelo fabricante.
  • Treinar inspeção rápida do tubo antes do envio (checagem visual de coágulos).

7) Contaminação por soluções IV (diluição/contaminação do sangue)

Causas comuns

  • Coleta em membro com infusão em curso ou recém-interrompida.
  • Coleta por cateter com flush recente, sem descarte adequado conforme protocolo.
  • Coleta acima do sítio de infusão.

Impacto no resultado

  • Resultados falsamente diluídos ou contaminados (ex.: glicose, eletrólitos, fármacos), levando a condutas incorretas.

Sinais de detecção

  • Resultados incompatíveis com clínica e com amostras prévias.
  • Diferença importante entre amostras de membros diferentes.

Como corrigir

  • Recolher em membro sem infusão quando possível.
  • Se coleta por cateter for inevitável, seguir protocolo institucional de pausa da infusão, descarte e documentação (sem improvisos).

Como prevenir com padronização

  • Mapear previamente quais membros estão com infusão e sinalizar no leito.
  • Padronizar decisão: preferir punção periférica contralateral quando houver infusão.
  • Documentar local, condição da infusão e método de coleta para rastreabilidade.

8) Tempo excessivo de torniquete

Causas comuns

  • Torniquete aplicado antes de preparar materiais e tubos.
  • Dificuldade de punção com torniquete mantido durante múltiplas tentativas.

Impacto no resultado

  • Hemoconcentração e alterações em analitos sensíveis; maior risco de hemólise e desconforto.

Sinais de detecção

  • Tempo percebido acima do recomendado, congestão importante, dor.
  • Resultados com padrão de hemoconcentração em comparação a amostras anteriores.

Como corrigir

  • Soltar o torniquete, permitir reperfusão e reavaliar o sítio; se necessário, escolher outra veia e reiniciar com tempo controlado.

Como prevenir com padronização

  • Aplicar torniquete apenas quando tudo estiver pronto para puncionar.
  • Adotar regra operacional: se ultrapassar o tempo definido pelo serviço, soltar e reiniciar.
  • Usar alternativas para evidenciar veia (posição, aquecimento local conforme protocolo) sem prolongar torniquete.

9) Armazenamento/transporte inadequados (temperatura, luz, agitação, posição)

Causas comuns

  • Deixar amostras em bancada por tempo prolongado.
  • Exposição ao calor/frio fora do recomendado.
  • Transporte com agitação intensa, sem suporte, ou em recipientes inadequados.
  • Exposição à luz quando o analito é fotossensível.

Impacto no resultado

  • Degradação de analitos, alterações metabólicas na amostra, hemólise mecânica, resultados falsos.

Sinais de detecção

  • Laboratório informa “amostra fora de estabilidade”, “temperatura inadequada”, “tubo vazando/avariado”.

Como corrigir

  • Se identificado antes do processamento: recolher nova amostra e enviar em condições corretas.
  • Registrar ocorrência e ajustar fluxo de transporte.

Como prevenir com padronização

  • Definir rotas e horários de coleta/expedição (janelas fixas) e responsável pelo envio.
  • Usar embalagem/caixa de transporte apropriada, com suporte para tubos e controle térmico quando indicado.
  • Padronizar proteção contra luz para exames específicos conforme orientação do laboratório.

10) Atraso no envio ao laboratório (tempo de estabilidade excedido)

Causas comuns

  • Acúmulo de amostras para “enviar tudo junto”.
  • Falta de mensageiro/rota definida, falhas de comunicação com laboratório.
  • Prioridade assistencial concorrente sem plano de contingência.

Impacto no resultado

  • Perda de estabilidade, alterações por metabolismo celular, necessidade de recoleta e atraso diagnóstico.

Sinais de detecção

  • Horário de coleta muito anterior ao recebimento no laboratório.
  • Laboratório rejeita por “tempo excedido” ou solicita recoleta.

Como corrigir

  • Acionar envio imediato; se estabilidade já excedida, alinhar com laboratório e providenciar recoleta.
  • Registrar o motivo do atraso para ação corretiva (processo).

Como prevenir com padronização

  • Definir SLA interno: tempo máximo entre coleta e expedição por tipo de exame (conforme laboratório).
  • Implementar “amostras prioritárias” (ex.: urgência) com fluxo separado.
  • Usar registro de horários (coleta/saída/recebimento) para auditoria e melhoria contínua.

Passos práticos transversais (aplicáveis a vários erros)

Rotina de checagem em 60–90 segundos antes de enviar

  • Identificação: dois identificadores legíveis e compatíveis com a requisição.
  • Tubo: tipo correto e integridade (sem trinca, tampa firme).
  • Volume: dentro da marca indicada.
  • Aspecto: sem coágulos (quando aplicável), sem vazamento, sem hemólise evidente (quando visível).
  • Condições: proteção de luz/temperatura conforme exame.
  • Tempo: registrar horário de coleta e garantir envio dentro do limite.

Quando suspeitar de erro: mini-fluxo de decisão

1) Pausar: não enviar amostra com dúvida de identificação/adequação. 2) Verificar: qual erro provável (tubo, volume, coágulo, hemólise, IV, tempo). 3) Comunicar: laboratório e liderança conforme protocolo. 4) Corrigir: recoleta/novo acondicionamento quando indicado. 5) Registrar: ocorrência e ação tomada (rastreabilidade e melhoria).

Checklist de conformidade pré-analítica (uso no serviço)

ItemVerificaçãoOKNão OK/Ação
Identificação do pacienteDois identificadores conferidos com pulseira e requisição; confirmação ativa quando possível
RotulagemRotulado à beira-leito imediatamente após coleta; sem rasuras; dados completos
Tubo corretoTubo compatível com o exame (aditivo/anticoagulante correto)
Ordem de coletaSequência seguida conforme padrão institucional
VolumeVolume dentro da marca do tubo; sem subenchimento crítico
HomogeneizaçãoInversões suaves realizadas imediatamente conforme recomendação do tubo
Inspeção de coágulosSem coágulos visíveis em tubos com anticoagulante
Hemólise (quando visível)Amostra sem sinais evidentes de hemólise; coleta/manuseio sem trauma
Risco de contaminação por IVColeta realizada longe de infusão; se inevitável, protocolo seguido e documentado
TorniqueteAplicado apenas quando pronto para puncionar; tempo controlado conforme padrão
Armazenamento/TransporteCondição correta (temperatura/luz/posição); embalagem adequada; sem agitação excessiva
Tempo até envioHorário de coleta registrado; envio dentro do limite de estabilidade do exame
Comunicação de não conformidadeLaboratório/chefia informados quando aplicável; ocorrência registrada

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao perceber que a identificação do paciente e a do tubo coletado não coincidem com a requisição, qual deve ser a conduta imediata mais segura?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Quando há dúvida de identificação/adequação, a conduta é interromper o fluxo e não enviar a amostra. Deve-se verificar os identificadores, comunicar laboratório e liderança conforme protocolo e realizar recoleta quando necessário, garantindo rastreabilidade e segurança do paciente.

Próximo capitúlo

Registros de enfermagem e orientações ao paciente na punção venosa e coleta de exames

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