Como usar este guia: diagnóstico → intervenção → feedback
Este capítulo foca em erros frequentes ligados a números e operações e em como agir de forma objetiva. A ideia é observar sinais, levantar uma hipótese de causa conceitual, testar com um exemplo e aplicar uma intervenção curta (com material, desenho ou perguntas). Em seguida, dar feedback corretivo com linguagem neutra e passos verificáveis.
Rotina prática em 4 passos (para qualquer erro)
- 1) Localize o ponto do erro: em qual linha, qual dígito, qual etapa do algoritmo ou qual frase do problema.
- 2) Peça para o aluno explicar o que fez (sem julgar). Isso revela a regra que ele está usando.
- 3) Teste a regra com um caso simples (números menores, desenho, estimativa).
- 4) Intervenha com uma única mudança: um recurso (material/visual) + uma pergunta que force consistência.
Erro 1: confusão de valor posicional em cálculos (dígitos trocados, zeros ignorados)
Conceito envolvido: em algoritmos, cada dígito representa uma quantidade diferente conforme a posição (unidades, dezenas, centenas). O erro aparece quando o aluno trata os dígitos como se valessem o mesmo.
Sinais de que está ocorrendo
- Resultados com ordem de grandeza absurda (ex.: 300 + 40 = 3400).
- Ignora zeros no meio/final (ex.: 405 vira 45).
- Em contas armadas, soma “dígito com dígito” sem respeitar colunas.
Possível causa conceitual
- Associa número apenas à sequência de algarismos, não ao valor de cada posição.
- Falta de checagem por estimativa (não compara com um valor aproximado).
Exemplo típico
Ao calcular 230 + 50, o aluno escreve 2800 (acrescenta um zero sem justificativa) ou 235 (mistura dezenas com unidades).
Intervenção objetiva
- Representação visual: desenhe uma tabela de colunas (C-D-U) e reescreva os números alinhados. Peça para o aluno apontar: “onde está a dezena em 230?”
- Material concreto: use blocos/base 10 (ou palitos em feixes de 10). Monte 230 e depois acrescente 50. Pergunte: “Quantas dezenas foram adicionadas? Mudou a centena?”
- Pergunta de consistência: “Seu resultado é maior ou menor que 230? Faz sentido ser 2800? Por quê?”
Checklist do aluno (valor posicional)
- Eu consigo dizer quantas centenas/dezenas/unidades tem cada número?
- Meu resultado tem uma ordem de grandeza parecida com a estimativa?
- Se tem zero, eu sei explicar o que ele está marcando (ausência naquela coluna)?
Erro 2: reagrupamento (vai 1 / empresta) aplicado como regra mecânica
Conceito envolvido: reagrupamento é trocar 10 unidades por 1 dezena (ou 10 dezenas por 1 centena) e vice-versa. O erro aparece quando o aluno “vai 1” ou “empresta 1” sem entender o que está sendo trocado.
Sinais de que está ocorrendo
- Esquece de adicionar o “vai 1” na coluna seguinte.
- Empresta, mas não ajusta a coluna de onde emprestou (ou ajusta errado).
- Em subtrações com zero (ex.: 400 − 38), trava ou faz passos incoerentes.
Possível causa conceitual
- Não compreende a troca entre unidades/dezenas/centenas; memoriza passos.
- Dificuldade em visualizar a decomposição necessária antes de operar.
Exemplo típico
Em 47 + 28, escreve 615 (faz 7+8=15, escreve 15 inteiro na coluna das unidades). Ou em 52 - 38, faz 2-8=6 e 5-3=2, obtendo 26.
- Ouça o áudio com a tela desligada
- Ganhe Certificado após a conclusão
- + de 5000 cursos para você explorar!
Baixar o aplicativo
Intervenção objetiva (passo a passo)
- Nomeie a troca: “10 unidades viram 1 dezena”.
- Mostre com desenho: desenhe 47 como 4 dezenas + 7 unidades; 28 como 2 dezenas + 8 unidades.
- Some unidades primeiro: 7 + 8 = 15 unidades.
- Reagrupe: circule 10 unidades e troque por 1 dezena; sobram 5 unidades.
- Some dezenas: 4 + 2 + 1 (da troca) = 7 dezenas.
- Escreva o resultado: 75.
- Perguntas que revelam inconsistência: “Se você escreveu 15 nas unidades, o que significa ter 15 unidades sem virar dezena?” / “Onde apareceu a dezena que nasceu das 10 unidades?”
Checklist do aluno (reagrupamento)
- Quando aparece 10 ou mais unidades, eu troco por 1 dezena?
- Se eu “emprestei”, eu consigo dizer de onde veio e o que virou?
- Eu revisei se somei o “vai 1” na coluna seguinte?
Erro 3: tabuada como memória frágil (erros sistemáticos em produtos)
Conceito envolvido: fatos básicos de multiplicação precisam ser recuperados com segurança ou reconstruídos rapidamente por relações (dobros, quase dobros, distributiva). O erro aparece quando o aluno chuta resultados ou confunde fatos próximos.
Sinais de que está ocorrendo
- Demora muito e muda a resposta ao ser perguntado de novo.
- Erros repetidos em pares específicos (ex.: 6×7, 8×7, 9×6).
- Em contas maiores, o algoritmo até está certo, mas o produto parcial sai errado.
Possível causa conceitual
- Memoriza sem conexões; não usa estratégias de reconstrução.
- Confunde multiplicação com adição repetida sem controle de quantidade de parcelas.
Exemplo típico
Em 7 × 8, responde 54; em 6 × 7, responde 36 (mistura com 6×6).
Intervenção objetiva
- Representação visual: use arranjos retangulares (grade). Para 7×8, desenhe 7 linhas de 8 pontos (ou 8 de 7) e conte por grupos.
- Estratégia de decomposição (pergunta guiada): “Qual é 7×10? E 7×2? Então 7×8 é 7×(10-2).”
- Checagem rápida: “7×8 é perto de 7×7 (=49). Então deve ser um pouco maior que 49. 54 faz sentido?”
Checklist do aluno (produtos)
- Eu consigo reconstruir o fato usando dobro, 10 vezes ou (a×(b±1))?
- Meu produto está entre a×(b-1) e a×(b+1)?
- Se eu errei, eu sei dizer qual fato confundi?
Erro 4: resto na divisão interpretado de forma inadequada ao contexto
Conceito envolvido: o resto indica o que sobra após formar grupos iguais. Em problemas, o resto pode significar sobra, necessidade de mais um grupo (arredondar para cima) ou parte não utilizada. O erro aparece quando o aluno sempre ignora o resto ou sempre arredonda sem pensar.
Sinais de que está ocorrendo
- Responde apenas o quociente e esquece o resto.
- Em situações de “quantos pacotes”, responde o quociente sem considerar que precisa de mais um pacote.
- Escreve resposta com resto em situação que pede quantidade inteira (ex.: pessoas, caixas).
Possível causa conceitual
- Vê divisão como conta, não como situação de agrupamento.
- Não relaciona o resto à pergunta final (o que está sendo pedido).
Exemplo típico
“Temos 29 balas para colocar em saquinhos com 6 balas. Quantos saquinhos completos?” O aluno responde 4 (porque 29÷6=4 resto 5), mas a pergunta pede completos (4 completos, sobram 5). Em outra versão: “Quantos saquinhos são necessários para guardar todas as balas?” A resposta correta seria 5 saquinhos (4 completos e 1 incompleto).
Intervenção objetiva (perguntas-chave)
- Material concreto: distribua 29 fichas em grupos de 6. Pare quando não der para completar outro grupo. Pergunte: “O que representam essas 5 fichas que sobraram?”
- Perguntas de interpretação: “A pergunta quer grupos completos ou quer guardar tudo?” / “Sobra pode ficar de fora ou precisa de mais um grupo?”
- Representação: escreva
29 = 6×4 + 5e peça para o aluno traduzir em frase.
Checklist do aluno (resto)
- Eu escrevi a igualdade
dividendo = divisor×quociente + resto? - Eu li a pergunta final e decidi: o resto é sobra, precisa de mais um ou não pode existir?
- Minha resposta está com unidade (saquinhos, pessoas, caixas)?
Erro 5: alinhamento em algoritmos (colunas trocadas, casas deslocadas)
Conceito envolvido: em adição/subtração/multiplicação por algoritmo, o alinhamento garante que unidades operem com unidades, dezenas com dezenas etc. O erro aparece quando o aluno alinha à esquerda, mistura colunas ou desloca produtos parciais.
Sinais de que está ocorrendo
- Conta armada com números “tortos” (unidades não ficam na mesma coluna).
- Em multiplicação, esquece o deslocamento (zero) no segundo produto parcial.
- Erros grandes em contas aparentemente simples, sem erro nos fatos básicos.
Possível causa conceitual
- Não usa referência fixa (coluna das unidades) ou não percebe que o deslocamento representa dezenas/centenas.
- Dificuldade visuoespacial/organização no papel.
Exemplo típico
Em 304 + 58, escreve 58 embaixo do 304 começando pelo 5 sob o 3, e obtém um resultado incoerente. Em 23 × 14, faz 23×4=92 e 23×1=23, soma 92+23=115 (faltou considerar que o 1 está na casa das dezenas).
Intervenção objetiva (passo a passo)
- Marque a coluna das unidades com um ponto ou linha vertical no caderno.
- Reescreva os números alinhando as unidades.
- Multiplicação com dois algarismos: antes de calcular o segundo produto parcial, pergunte: “Esse algarismo é unidade ou dezena? Onde o resultado deve começar?”
- Checagem por estimativa: “23×14 é perto de 20×10=200. 115 parece pequeno demais?”
- Recurso simples: papel quadriculado ou tabela desenhada (C-D-U) para manter colunas.
Checklist do aluno (alinhamento)
- Eu alinhei as unidades na mesma coluna?
- Eu conferi se cada linha do algoritmo começa na coluna correta?
- Meu resultado faz sentido pela estimativa?
Erro 6: interpretação de problemas (responde sem atender à pergunta, escolhe operação por palavra-chave)
Conceito envolvido: interpretar problema é identificar o que se sabe, o que se quer e como as quantidades se relacionam. O erro aparece quando o aluno usa “palavras-gatilho” (mais, menos, cada) sem analisar a relação, ou quando calcula algo correto mas responde outra pergunta.
Sinais de que está ocorrendo
- Seleciona operação só por uma palavra do enunciado.
- Faz uma conta correta, mas a resposta não tem unidade ou não responde ao que foi pedido.
- Ignora condições (limites, “no máximo”, “restam”, “cada”).
Possível causa conceitual
- Não separa dados relevantes do contexto; não cria representação (desenho/tabela).
- Foco em “fazer conta” em vez de modelar a situação.
Exemplo típico
“Uma turma tem 28 alunos. Chegaram mais 7. Quantos alunos há agora?” O aluno faz 28 - 7 por ver a palavra “mais” e confundir com “falta” em outros contextos, ou responde apenas 7 (pega o último número).
Intervenção objetiva (roteiro de perguntas)
- O que muda? “A quantidade total aumentou, diminuiu ou foi repartida?”
- O que é pedido? “A pergunta quer o total, a diferença, quantos grupos, ou quanto sobra?”
- Represente: desenhe uma barra/segmento para 28 e acrescente um pedaço de 7; ou use uma tabela com colunas:
Antes,Mudança,Depois. - Teste com estimativa: “28 com mais 7 deve ficar perto de 35. Seu resultado está perto disso?”
Checklist do aluno (problemas)
- Eu sublinhei o que a pergunta quer?
- Eu escrevi os dados com unidades (alunos, reais, metros)?
- Eu fiz um desenho/tabela curta antes da conta?
- Eu conferi se a resposta está no formato pedido (inteiro, com resto, arredondado para cima)?
Como dar feedback corretivo: linguagem neutra e passos verificáveis
Feedback corretivo funciona melhor quando descreve o que foi observado, aponta o passo a revisar e oferece um procedimento de checagem. Evite rótulos (“você é desatento”) e foque no processo (“vamos conferir a coluna das unidades”).
Modelo de feedback em 3 partes
- 1) Observação neutra: descreva o que aparece no caderno. Ex.: “Aqui as unidades não estão alinhadas.”
- 2) Passo verificável: diga exatamente o que checar. Ex.: “Alinhe as unidades e refaça a soma coluna por coluna.”
- 3) Pergunta de autocorreção: leve o aluno a testar a consistência. Ex.: “Seu resultado está perto da estimativa?”
Frases prontas (sem julgamento) para erros comuns
| Situação | Feedback neutro | Pergunta que guia |
|---|---|---|
| Valor posicional confuso | “Vamos identificar a coluna de cada dígito antes de calcular.” | “Esse 5 representa unidades ou dezenas aqui?” |
| Reagrupamento | “Apareceram 15 unidades. Precisamos trocar 10 por 1 dezena.” | “Onde está a dezena que nasceu dessa troca?” |
| Tabuada instável | “Em vez de chutar, vamos reconstruir com uma estratégia.” | “Qual fato próximo você sabe com certeza?” |
| Resto na divisão | “Seu quociente está ok. Agora vamos decidir o que o resto significa na pergunta.” | “Precisa guardar tudo ou só contar grupos completos?” |
| Alinhamento | “Vamos reescrever alinhando as unidades para manter as colunas.” | “Em qual coluna este resultado parcial deve começar?” |
| Problema do enunciado | “Antes da conta, vamos marcar o que está sendo pedido.” | “A pergunta quer total, diferença, grupos ou sobra?” |
Checklist do professor (intervenção rápida)
- Eu identifiquei um erro-alvo (não corrigi tudo de uma vez)?
- Eu pedi ao aluno para explicar o passo antes de corrigir?
- Eu usei uma representação (material, desenho, tabela) para tornar o erro visível?
- Eu finalizei com uma checagem (estimativa, igualdade do resto, revisão de colunas)?
Checklist final do aluno (autonomia em operações)
- Organização: alinhei unidades/dezenas/centenas?
- Passos: marquei onde houve reagrupamento e conferi se ele foi usado?
- Sentido: meu resultado faz sentido por estimativa?
- Resposta: respondi exatamente o que foi perguntado, com unidade?
- Divisão: se houve resto, eu expliquei o que ele significa na situação?