Erros frequentes em Matemática no Fundamental: diagnóstico, intervenção e feedback

Capítulo 10

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

+ Exercício

Como usar este guia: diagnóstico → intervenção → feedback

Este capítulo foca em erros frequentes ligados a números e operações e em como agir de forma objetiva. A ideia é observar sinais, levantar uma hipótese de causa conceitual, testar com um exemplo e aplicar uma intervenção curta (com material, desenho ou perguntas). Em seguida, dar feedback corretivo com linguagem neutra e passos verificáveis.

Rotina prática em 4 passos (para qualquer erro)

  • 1) Localize o ponto do erro: em qual linha, qual dígito, qual etapa do algoritmo ou qual frase do problema.
  • 2) Peça para o aluno explicar o que fez (sem julgar). Isso revela a regra que ele está usando.
  • 3) Teste a regra com um caso simples (números menores, desenho, estimativa).
  • 4) Intervenha com uma única mudança: um recurso (material/visual) + uma pergunta que force consistência.

Erro 1: confusão de valor posicional em cálculos (dígitos trocados, zeros ignorados)

Conceito envolvido: em algoritmos, cada dígito representa uma quantidade diferente conforme a posição (unidades, dezenas, centenas). O erro aparece quando o aluno trata os dígitos como se valessem o mesmo.

Sinais de que está ocorrendo

  • Resultados com ordem de grandeza absurda (ex.: 300 + 40 = 3400).
  • Ignora zeros no meio/final (ex.: 405 vira 45).
  • Em contas armadas, soma “dígito com dígito” sem respeitar colunas.

Possível causa conceitual

  • Associa número apenas à sequência de algarismos, não ao valor de cada posição.
  • Falta de checagem por estimativa (não compara com um valor aproximado).

Exemplo típico

Ao calcular 230 + 50, o aluno escreve 2800 (acrescenta um zero sem justificativa) ou 235 (mistura dezenas com unidades).

Intervenção objetiva

  • Representação visual: desenhe uma tabela de colunas (C-D-U) e reescreva os números alinhados. Peça para o aluno apontar: “onde está a dezena em 230?”
  • Material concreto: use blocos/base 10 (ou palitos em feixes de 10). Monte 230 e depois acrescente 50. Pergunte: “Quantas dezenas foram adicionadas? Mudou a centena?”
  • Pergunta de consistência: “Seu resultado é maior ou menor que 230? Faz sentido ser 2800? Por quê?”

Checklist do aluno (valor posicional)

  • Eu consigo dizer quantas centenas/dezenas/unidades tem cada número?
  • Meu resultado tem uma ordem de grandeza parecida com a estimativa?
  • Se tem zero, eu sei explicar o que ele está marcando (ausência naquela coluna)?

Erro 2: reagrupamento (vai 1 / empresta) aplicado como regra mecânica

Conceito envolvido: reagrupamento é trocar 10 unidades por 1 dezena (ou 10 dezenas por 1 centena) e vice-versa. O erro aparece quando o aluno “vai 1” ou “empresta 1” sem entender o que está sendo trocado.

Sinais de que está ocorrendo

  • Esquece de adicionar o “vai 1” na coluna seguinte.
  • Empresta, mas não ajusta a coluna de onde emprestou (ou ajusta errado).
  • Em subtrações com zero (ex.: 400 − 38), trava ou faz passos incoerentes.

Possível causa conceitual

  • Não compreende a troca entre unidades/dezenas/centenas; memoriza passos.
  • Dificuldade em visualizar a decomposição necessária antes de operar.

Exemplo típico

Em 47 + 28, escreve 615 (faz 7+8=15, escreve 15 inteiro na coluna das unidades). Ou em 52 - 38, faz 2-8=6 e 5-3=2, obtendo 26.

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Intervenção objetiva (passo a passo)

  1. Nomeie a troca: “10 unidades viram 1 dezena”.
  2. Mostre com desenho: desenhe 47 como 4 dezenas + 7 unidades; 28 como 2 dezenas + 8 unidades.
  3. Some unidades primeiro: 7 + 8 = 15 unidades.
  4. Reagrupe: circule 10 unidades e troque por 1 dezena; sobram 5 unidades.
  5. Some dezenas: 4 + 2 + 1 (da troca) = 7 dezenas.
  6. Escreva o resultado: 75.
  • Perguntas que revelam inconsistência: “Se você escreveu 15 nas unidades, o que significa ter 15 unidades sem virar dezena?” / “Onde apareceu a dezena que nasceu das 10 unidades?”

Checklist do aluno (reagrupamento)

  • Quando aparece 10 ou mais unidades, eu troco por 1 dezena?
  • Se eu “emprestei”, eu consigo dizer de onde veio e o que virou?
  • Eu revisei se somei o “vai 1” na coluna seguinte?

Erro 3: tabuada como memória frágil (erros sistemáticos em produtos)

Conceito envolvido: fatos básicos de multiplicação precisam ser recuperados com segurança ou reconstruídos rapidamente por relações (dobros, quase dobros, distributiva). O erro aparece quando o aluno chuta resultados ou confunde fatos próximos.

Sinais de que está ocorrendo

  • Demora muito e muda a resposta ao ser perguntado de novo.
  • Erros repetidos em pares específicos (ex.: 6×7, 8×7, 9×6).
  • Em contas maiores, o algoritmo até está certo, mas o produto parcial sai errado.

Possível causa conceitual

  • Memoriza sem conexões; não usa estratégias de reconstrução.
  • Confunde multiplicação com adição repetida sem controle de quantidade de parcelas.

Exemplo típico

Em 7 × 8, responde 54; em 6 × 7, responde 36 (mistura com 6×6).

Intervenção objetiva

  • Representação visual: use arranjos retangulares (grade). Para 7×8, desenhe 7 linhas de 8 pontos (ou 8 de 7) e conte por grupos.
  • Estratégia de decomposição (pergunta guiada): “Qual é 7×10? E 7×2? Então 7×8 é 7×(10-2).”
  • Checagem rápida: “7×8 é perto de 7×7 (=49). Então deve ser um pouco maior que 49. 54 faz sentido?”

Checklist do aluno (produtos)

  • Eu consigo reconstruir o fato usando dobro, 10 vezes ou (a×(b±1))?
  • Meu produto está entre a×(b-1) e a×(b+1)?
  • Se eu errei, eu sei dizer qual fato confundi?

Erro 4: resto na divisão interpretado de forma inadequada ao contexto

Conceito envolvido: o resto indica o que sobra após formar grupos iguais. Em problemas, o resto pode significar sobra, necessidade de mais um grupo (arredondar para cima) ou parte não utilizada. O erro aparece quando o aluno sempre ignora o resto ou sempre arredonda sem pensar.

Sinais de que está ocorrendo

  • Responde apenas o quociente e esquece o resto.
  • Em situações de “quantos pacotes”, responde o quociente sem considerar que precisa de mais um pacote.
  • Escreve resposta com resto em situação que pede quantidade inteira (ex.: pessoas, caixas).

Possível causa conceitual

  • Vê divisão como conta, não como situação de agrupamento.
  • Não relaciona o resto à pergunta final (o que está sendo pedido).

Exemplo típico

“Temos 29 balas para colocar em saquinhos com 6 balas. Quantos saquinhos completos?” O aluno responde 4 (porque 29÷6=4 resto 5), mas a pergunta pede completos (4 completos, sobram 5). Em outra versão: “Quantos saquinhos são necessários para guardar todas as balas?” A resposta correta seria 5 saquinhos (4 completos e 1 incompleto).

Intervenção objetiva (perguntas-chave)

  • Material concreto: distribua 29 fichas em grupos de 6. Pare quando não der para completar outro grupo. Pergunte: “O que representam essas 5 fichas que sobraram?”
  • Perguntas de interpretação: “A pergunta quer grupos completos ou quer guardar tudo?” / “Sobra pode ficar de fora ou precisa de mais um grupo?”
  • Representação: escreva 29 = 6×4 + 5 e peça para o aluno traduzir em frase.

Checklist do aluno (resto)

  • Eu escrevi a igualdade dividendo = divisor×quociente + resto?
  • Eu li a pergunta final e decidi: o resto é sobra, precisa de mais um ou não pode existir?
  • Minha resposta está com unidade (saquinhos, pessoas, caixas)?

Erro 5: alinhamento em algoritmos (colunas trocadas, casas deslocadas)

Conceito envolvido: em adição/subtração/multiplicação por algoritmo, o alinhamento garante que unidades operem com unidades, dezenas com dezenas etc. O erro aparece quando o aluno alinha à esquerda, mistura colunas ou desloca produtos parciais.

Sinais de que está ocorrendo

  • Conta armada com números “tortos” (unidades não ficam na mesma coluna).
  • Em multiplicação, esquece o deslocamento (zero) no segundo produto parcial.
  • Erros grandes em contas aparentemente simples, sem erro nos fatos básicos.

Possível causa conceitual

  • Não usa referência fixa (coluna das unidades) ou não percebe que o deslocamento representa dezenas/centenas.
  • Dificuldade visuoespacial/organização no papel.

Exemplo típico

Em 304 + 58, escreve 58 embaixo do 304 começando pelo 5 sob o 3, e obtém um resultado incoerente. Em 23 × 14, faz 23×4=92 e 23×1=23, soma 92+23=115 (faltou considerar que o 1 está na casa das dezenas).

Intervenção objetiva (passo a passo)

  1. Marque a coluna das unidades com um ponto ou linha vertical no caderno.
  2. Reescreva os números alinhando as unidades.
  3. Multiplicação com dois algarismos: antes de calcular o segundo produto parcial, pergunte: “Esse algarismo é unidade ou dezena? Onde o resultado deve começar?”
  4. Checagem por estimativa: “23×14 é perto de 20×10=200. 115 parece pequeno demais?”
  • Recurso simples: papel quadriculado ou tabela desenhada (C-D-U) para manter colunas.

Checklist do aluno (alinhamento)

  • Eu alinhei as unidades na mesma coluna?
  • Eu conferi se cada linha do algoritmo começa na coluna correta?
  • Meu resultado faz sentido pela estimativa?

Erro 6: interpretação de problemas (responde sem atender à pergunta, escolhe operação por palavra-chave)

Conceito envolvido: interpretar problema é identificar o que se sabe, o que se quer e como as quantidades se relacionam. O erro aparece quando o aluno usa “palavras-gatilho” (mais, menos, cada) sem analisar a relação, ou quando calcula algo correto mas responde outra pergunta.

Sinais de que está ocorrendo

  • Seleciona operação só por uma palavra do enunciado.
  • Faz uma conta correta, mas a resposta não tem unidade ou não responde ao que foi pedido.
  • Ignora condições (limites, “no máximo”, “restam”, “cada”).

Possível causa conceitual

  • Não separa dados relevantes do contexto; não cria representação (desenho/tabela).
  • Foco em “fazer conta” em vez de modelar a situação.

Exemplo típico

“Uma turma tem 28 alunos. Chegaram mais 7. Quantos alunos há agora?” O aluno faz 28 - 7 por ver a palavra “mais” e confundir com “falta” em outros contextos, ou responde apenas 7 (pega o último número).

Intervenção objetiva (roteiro de perguntas)

  • O que muda? “A quantidade total aumentou, diminuiu ou foi repartida?”
  • O que é pedido? “A pergunta quer o total, a diferença, quantos grupos, ou quanto sobra?”
  • Represente: desenhe uma barra/segmento para 28 e acrescente um pedaço de 7; ou use uma tabela com colunas: Antes, Mudança, Depois.
  • Teste com estimativa: “28 com mais 7 deve ficar perto de 35. Seu resultado está perto disso?”

Checklist do aluno (problemas)

  • Eu sublinhei o que a pergunta quer?
  • Eu escrevi os dados com unidades (alunos, reais, metros)?
  • Eu fiz um desenho/tabela curta antes da conta?
  • Eu conferi se a resposta está no formato pedido (inteiro, com resto, arredondado para cima)?

Como dar feedback corretivo: linguagem neutra e passos verificáveis

Feedback corretivo funciona melhor quando descreve o que foi observado, aponta o passo a revisar e oferece um procedimento de checagem. Evite rótulos (“você é desatento”) e foque no processo (“vamos conferir a coluna das unidades”).

Modelo de feedback em 3 partes

  • 1) Observação neutra: descreva o que aparece no caderno. Ex.: “Aqui as unidades não estão alinhadas.”
  • 2) Passo verificável: diga exatamente o que checar. Ex.: “Alinhe as unidades e refaça a soma coluna por coluna.”
  • 3) Pergunta de autocorreção: leve o aluno a testar a consistência. Ex.: “Seu resultado está perto da estimativa?”

Frases prontas (sem julgamento) para erros comuns

SituaçãoFeedback neutroPergunta que guia
Valor posicional confuso“Vamos identificar a coluna de cada dígito antes de calcular.”“Esse 5 representa unidades ou dezenas aqui?”
Reagrupamento“Apareceram 15 unidades. Precisamos trocar 10 por 1 dezena.”“Onde está a dezena que nasceu dessa troca?”
Tabuada instável“Em vez de chutar, vamos reconstruir com uma estratégia.”“Qual fato próximo você sabe com certeza?”
Resto na divisão“Seu quociente está ok. Agora vamos decidir o que o resto significa na pergunta.”“Precisa guardar tudo ou só contar grupos completos?”
Alinhamento“Vamos reescrever alinhando as unidades para manter as colunas.”“Em qual coluna este resultado parcial deve começar?”
Problema do enunciado“Antes da conta, vamos marcar o que está sendo pedido.”“A pergunta quer total, diferença, grupos ou sobra?”

Checklist do professor (intervenção rápida)

  • Eu identifiquei um erro-alvo (não corrigi tudo de uma vez)?
  • Eu pedi ao aluno para explicar o passo antes de corrigir?
  • Eu usei uma representação (material, desenho, tabela) para tornar o erro visível?
  • Eu finalizei com uma checagem (estimativa, igualdade do resto, revisão de colunas)?

Checklist final do aluno (autonomia em operações)

  • Organização: alinhei unidades/dezenas/centenas?
  • Passos: marquei onde houve reagrupamento e conferi se ele foi usado?
  • Sentido: meu resultado faz sentido por estimativa?
  • Resposta: respondi exatamente o que foi perguntado, com unidade?
  • Divisão: se houve resto, eu expliquei o que ele significa na situação?

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao notar que um aluno respondeu 29 ÷ 6 apenas com o quociente, sem considerar o resto, qual intervenção inicial é mais adequada para ajudá-lo a interpretar corretamente a resposta conforme o contexto?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A intervenção deve tornar visível o significado do resto e conectá-lo à pergunta do problema. Ao formar grupos de 6 e observar o que sobra, o aluno decide se o resto indica sobra, necessidade de mais um grupo ou parte não utilizada.

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