O que é “encerrar” no PMI (e por que não é só parar de trabalhar)
No PMI/PMBOK, encerramento é o conjunto de atividades para finalizar formalmente o projeto (ou uma fase), confirmando que as entregas foram concluídas e aceitas, que a transição para operação/sustentação foi realizada, que contratos e pendências foram resolvidos e que o conhecimento gerado foi registrado de forma reutilizável. Encerrar bem reduz disputas (“faltou isso”), evita que o time fique preso em correções intermináveis e aumenta a chance de benefícios se materializarem após a entrega.
Um encerramento completo costuma responder a quatro perguntas objetivas:
- Entrega: tudo o que foi combinado foi entregue e verificado?
- Aceite: existe evidência formal de aceitação (ou registro de exceções)?
- Transição: operação/sustentação consegue manter e evoluir o que foi entregue?
- Aprendizado: o que deve ser repetido/evitado e quem fará o quê a partir disso?
Pré-requisitos mínimos para iniciar o encerramento
Antes de marcar a reunião de aceite e “dar baixa” no projeto, valide se você tem, no mínimo:
- Lista final de entregas e seus critérios de aceite (mesmo que simples).
- Registro de pendências (bugs, ajustes, itens de documentação, treinamentos) com responsável e prazo.
- Plano de handover (o que será transferido, para quem, quando e como).
- Mapa de contratos/fornecedores envolvidos e o que falta para encerrar cada um.
- Local definido para arquivamento dos artefatos (com estrutura e permissões).
Passo a passo prático do encerramento formal
1) Validação final das entregas (verificação “última milha”)
Objetivo: confirmar que cada entrega atende aos critérios acordados e que evidências estão disponíveis.
- Revise item a item: entrega, versão, data, responsável, evidência (link/arquivo), resultado do teste/validação.
- Garanta que o que será apresentado para aceite está “congelado” (ex.: versão final do documento, release final do sistema).
- Se houver itens não conformes, registre como pendência com decisão explícita: corrigir antes do aceite, aceitar com ressalva, ou mover para backlog operacional.
Exemplo prático (projeto de implantação de ferramenta): a entrega “Dashboard de indicadores” só pode ser considerada validada se os dados batem com a fonte oficial e se usuários-chave conseguem reproduzir o relatório seguindo um passo a passo.
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2) Checklist de pendências e decisão de “o que fica para depois”
Objetivo: evitar que o projeto seja encerrado com itens críticos escondidos e, ao mesmo tempo, impedir que melhorias opcionais travem o aceite.
Use um checklist simples de pendências:
- Críticas (bloqueiam aceite): impedem uso, geram risco legal/segurança, quebram requisito essencial.
- Importantes (aceite com plano): não impedem uso, mas precisam de prazo e responsável definidos.
- Oportunidades (backlog): melhorias desejáveis sem compromisso de prazo no encerramento.
Regra prática: se uma pendência não tem responsável e data, ela não é plano; é risco. No encerramento, tudo o que ficar “para depois” deve virar item formal em operação/sustentação (com dono).
3) Termo de aceite (aceite formal e rastreável)
Objetivo: registrar formalmente que o cliente/patrocinador aceitou as entregas e sob quais condições.
O termo de aceite pode ser um documento curto (1–2 páginas) ou um e-mail padronizado, desde que contenha:
- Identificação do projeto e das entregas aceitas (com versão/data).
- Critérios de aceite atendidos (ou referência ao documento de critérios).
- Ressalvas e pendências aceitas (se houver), com responsáveis e prazos.
- Data de início da garantia/suporte (quando aplicável) e condições.
- Assinatura/validação do responsável pelo aceite (nome, cargo, data).
Boa prática: inclua links diretos para as evidências (repositório, release notes, atas de validação) para reduzir disputas futuras.
4) Handover (transição para operação/sustentação)
Objetivo: garantir que quem vai operar tenha condições reais de manter o resultado do projeto.
Handover não é só “passar um arquivo”; é transferência de responsabilidade. Um handover mínimo costuma incluir:
- O que foi entregue: componentes, integrações, acessos, ambientes, contatos.
- Como operar: rotinas, SLAs, monitoramento, backups, procedimentos de incidentes.
- Como suportar: base de conhecimento, troubleshooting, limites do suporte, escalonamento.
- Como evoluir: backlog remanescente, restrições técnicas, decisões arquiteturais relevantes.
- Treinamento: público-alvo, conteúdo, presença/registro, materiais.
Exemplo prático (projeto de processo): ao entregar um novo fluxo de atendimento, o handover deve incluir o procedimento oficial, exemplos preenchidos, critérios de qualidade, e como auditar se o fluxo está sendo seguido.
5) Atualização e consolidação da documentação final
Objetivo: deixar o “pacote final” consistente, encontrável e pronto para auditoria, suporte e reutilização.
Checklist de documentação final (adapte ao seu contexto):
- Documentos de entrega: manuais, especificações finais, desenhos, scripts, configurações, release notes.
- Registros de validação: evidências de testes, homologação, checklists assinados.
- Decisões e mudanças: principais decisões, justificativas, aprovações, impactos.
- Operação: runbook, procedimentos, contatos, SLAs, matriz de suporte.
- Treinamento: materiais, gravações (se permitido), lista de presença, avaliação.
- Conformidade: licenças, termos, evidências exigidas por auditoria/regulatório.
Regra prática: documentação final deve ser “suficiente para alguém novo entender e operar”, não “perfeita”. O que não for útil para operar, auditar ou evoluir tende a virar ruído.
6) Encerramento de contratos e fornecedores
Objetivo: finalizar obrigações contratuais, evitar cobranças indevidas e registrar desempenho do fornecedor.
- Confirme entregas do fornecedor e aceite (interno e/ou do cliente, conforme contrato).
- Valide notas fiscais, medições, marcos e pagamentos pendentes.
- Registre aditivos, variações e justificativas (se existirem).
- Formalize encerramento: termo de recebimento, aceite de serviço, encerramento de chamado/ordem de compra.
- Faça avaliação objetiva do fornecedor: qualidade, prazo, comunicação, flexibilidade, conformidade.
Se houver garantia/assistência pós-entrega prevista em contrato, registre claramente: período, canais, tempos de resposta e o que está fora de escopo.
7) Consolidação de lições aprendidas com plano de ação (acionáveis)
Objetivo: transformar aprendizado em melhoria real, não em uma lista genérica.
Para serem acionáveis, lições aprendidas precisam de três elementos: contexto (quando aconteceu), causa (por que aconteceu) e ação (o que muda daqui para frente).
Formato prático (use como tabela):
| Categoria | O que aconteceu | Causa raiz (provável) | Ação recomendada | Dono | Quando aplicar | Status |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Planejamento | Homologação atrasou 2 semanas | Usuários-chave sem agenda reservada | Bloquear agenda de homologação no início e criar substitutos | PMO/GP | Próximos projetos similares | Aberto |
| Qualidade | Retrabalho em relatórios | Critérios de aceite ambíguos | Padronizar checklist de aceite para relatórios | Líder de Produto | Próxima entrega de BI | Em andamento |
Boa prática: limite a 5–10 lições principais e exija dono e data para cada ação. Se não há dono, não é ação; é desejo.
Modelo enxuto de Relatório de Encerramento (copiar e preencher)
Use este modelo como documento único (1–3 páginas) com links para anexos. Ele serve para registrar o “estado final” do projeto.
RELATÓRIO DE ENCERRAMENTO DO PROJETO (ENXUTO)
1) Identificação
- Projeto:
- Sponsor/Cliente:
- Gerente do Projeto:
- Período (início/fim):
- Versão do relatório / Data:
2) Objetivo e entregas finais
- Objetivo do projeto (1-2 frases):
- Entregas aceitas (lista com versão/data e link):
1.
2.
3) Aceite
- Data do aceite:
- Responsável pelo aceite:
- Evidência do aceite (link/arquivo):
- Ressalvas/pendências aceitas (se houver):
- Pendência | Dono | Prazo | Onde será tratada (operação/backlog)
4) Transição (handover)
- Área receptora (operação/sustentação):
- Itens transferidos (acessos, ambientes, documentação, runbook):
- Treinamentos realizados (datas/público/material):
- Suporte/garantia: período, canal, SLA, limites:
5) Contratos e fornecedores (se aplicável)
- Contratos encerrados (sim/não) e evidências:
- Pagamentos pendentes (sim/não):
- Avaliação de desempenho do fornecedor (pontos objetivos):
6) Métricas de sucesso
- Critérios de aceite atendidos: (sim/não + observações)
- Satisfação do cliente/usuário: método, nota, comentários:
- Benefícios (quando aplicável): indicador, baseline, meta, status atual:
7) Lições aprendidas acionáveis
- Top lições e ações (link para tabela completa):
1) Lição -> Ação -> Dono -> Prazo
2) ...
8) Arquivamento e localização dos artefatos
- Repositório oficial (link):
- Estrutura de pastas usada:
- Permissões e responsáveis pelo repositório:
9) Aprovações
- GP:
- Sponsor/Cliente:
- Operação/Sustentação:
Como arquivar artefatos para reutilização futura (sem virar “cemitério de arquivos”)
Estrutura recomendada de pastas (simples e escalável)
Escolha um repositório oficial (ex.: drive corporativo, SharePoint, Git, ferramenta interna) e padronize uma estrutura. Exemplo:
/Projeto_Nome_YYYY
/01_Gestao
- Relatorio_Encerramento.pdf
- Termo_Aceite.pdf
- Registro_Pendencias.xlsx
- Cronologia_Decisoes.md
/02_Entregas
/Produto_ou_Servico
/03_Validacao
- Evidencias_Testes
- Checklists_Assinados
/04_Transicao_Operacao
- Runbook.pdf
- Matriz_Suporte.xlsx
- Treinamentos
/05_Contratos
- Contrato.pdf
- Aditivos.pdf
- Aceites_Fornecedor.pdf
/06_Licoes_Aprendidas
- Licoes_Aprendidas_Acoes.xlsx
/99_Administrativo (opcional)
Regras práticas de arquivamento
- Um “arquivo mestre”: o Relatório de Encerramento deve apontar para todos os links importantes.
- Nomenclatura consistente:
Tipo_Documento_Versao_Data(ex.:Termo_Aceite_v1_2026-01-30.pdf). - Controle de acesso: operação precisa de acesso contínuo ao runbook e às evidências essenciais.
- Reutilização: separe modelos e checklists que podem virar template corporativo (ex.: pasta “Modelos”).
- Retenção: defina prazo de retenção conforme política interna (especialmente para contratos e evidências).
Como medir sucesso no encerramento (além de “entregou”)
1) Critérios de aceite (objetivo e verificável)
Meça sucesso confirmando o percentual de critérios atendidos e registrando exceções. Exemplos de métricas:
- % de entregas aceitas na primeira submissão.
- Número de ressalvas no termo de aceite (e severidade).
- Tempo entre entrega final e aceite (dias).
2) Satisfação do cliente/usuário (percepção estruturada)
Use um método simples e repetível, como pesquisa rápida pós-entrega (3–5 perguntas). Exemplos:
- Nota de 0 a 10 para “atendeu à necessidade”.
- Nota de 0 a 10 para “facilidade de adoção/uso”.
- Campo aberto: “o que mais ajudou” e “o que mais atrapalhou”.
Registre a amostra (quantas pessoas responderam) e o público (cliente, usuários finais, operação).
3) Realização de benefícios (quando aplicável)
Nem todo projeto mede benefício imediatamente no encerramento, mas você pode deixar o mecanismo pronto. Para benefícios, registre:
- Indicador: o que será medido (ex.: tempo de atendimento, custo por transação, taxa de erro).
- Baseline: valor antes do projeto.
- Meta: valor esperado e prazo.
- Responsável pelo acompanhamento: geralmente a área de negócio/operação.
- Cadência: quando medir (30/60/90 dias, trimestral).
Exemplo: se o projeto automatizou um processo, o encerramento pode registrar que a operação medirá “tempo médio de ciclo” por 90 dias e reportará ao sponsor, com data da primeira medição.
Checklists rápidos (para usar no dia a dia)
Checklist de encerramento em 15 itens
- Entregas finais revisadas e “congeladas” (versão final).
- Evidências de validação anexadas/links disponíveis.
- Pendências classificadas (críticas/importantes/oportunidades).
- Decisão formal sobre pendências pós-aceite (dono e prazo).
- Termo de aceite pronto e revisado.
- Aceite coletado e arquivado.
- Handover realizado com área receptora.
- Acessos transferidos (contas, permissões, chaves, credenciais conforme política).
- Runbook/procedimentos entregues.
- Matriz de suporte e escalonamento definida.
- Treinamentos realizados e registrados.
- Documentação final consolidada e versionada.
- Contratos encerrados e pagamentos reconciliados.
- Lições aprendidas registradas com ações, donos e prazos.
- Relatório de encerramento publicado com links e local de arquivo.