Por que fisiologia importa para escolher o analgésico certo
Dor, inflamação e febre são fenômenos diferentes, mas frequentemente aparecem juntos. Entender onde o sinal começa (periferia), como ele é amplificado (sensibilização) e onde ele é percebido (SNC) ajuda a prever por que AINEs funcionam melhor em dor inflamatória, por que paracetamol é forte em febre e dor leve/moderada, e por que opioides podem reduzir dor intensa mesmo sem “desinflamar” o tecido.
Nocicepção: do estímulo ao cérebro
Nociceptores: os sensores de dano (ou ameaça de dano)
Nociceptores são terminações nervosas livres (principalmente fibras A-delta e C) que respondem a estímulos potencialmente lesivos: mecânicos, térmicos e químicos. Eles não “medem dor”; eles transduzem estímulos em impulsos elétricos que podem ser interpretados como dor no SNC.
- Fibras A-delta: condução mais rápida; dor “pontada”, bem localizada.
- Fibras C: condução lenta; dor “queimação”, difusa, persistente.
Diagrama conceitual: caminho básico da dor
Lesão/ameaça → Nociceptor (transdução) → Nervo periférico (condução) → Corno dorsal da medula (sinapse/modulação) → Tratos ascendentes → Tálamo/córtex (percepção) + Sistema límbico (afetivo)Vias periféricas e centrais: onde a dor pode ser modulada
Periferia: no local da lesão, mediadores inflamatórios “baixam o limiar” do nociceptor, facilitando disparos. Medula (corno dorsal): ocorre integração e amplificação; interneurônios e neurotransmissores podem aumentar ou reduzir a transmissão. Encéfalo: percepção consciente, componente emocional e controle descendente (inibitório/facilitador).
Mediadores inflamatórios e sensibilização: por que a dor “fica mais fácil”
Inflamação e dor: o que muda no tecido
Após lesão ou infecção, células locais e imunes liberam mediadores que aumentam fluxo sanguíneo, permeabilidade e recrutamento celular. Esses mesmos mediadores também aumentam a excitabilidade dos nociceptores.
Principais mediadores e efeitos na dor
| Mediador | Fonte comum | Efeito relevante | Impacto na dor |
|---|---|---|---|
| Prostaglandinas (ex.: PGE2) | Várias células via COX | Sensibilizam nociceptores; febre | Aumentam dor inflamatória e hiperalgesia |
| Bradicinina | Cascata cinina | Ativa/sensibiliza nociceptores | Dor local, latejante |
| Histamina | Mastócitos | Vasodilatação, prurido | Desconforto e sensibilização |
| Citocinas (IL-1, TNF, IL-6) | Células imunes | Amplificam inflamação; induzem COX-2 | Potencializam dor e febre |
| Substância P / CGRP | Neurônios sensoriais | Neuroinflamação, vasodilatação | Amplificação periférica |
Sensibilização periférica (local)
É a redução do limiar do nociceptor no local inflamado. O resultado é hiperalgesia (dor exagerada a estímulo doloroso) e às vezes alodinia (dor a estímulo normalmente não doloroso, como toque leve).
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Exemplo prático: torção de tornozelo: nas primeiras horas, PGE2 e bradicinina aumentam a resposta do nociceptor; pisar ou movimentar dói mais do que “deveria” pelo estímulo mecânico.
Sensibilização central (medular/encefálica)
É o aumento da excitabilidade dos neurônios no corno dorsal e em circuitos centrais. Mesmo quando o estímulo periférico diminui, o sistema pode continuar “ganhando volume”. Isso ajuda a explicar dor persistente, alodinia e expansão da área dolorosa.
Exemplo prático: após dor intensa prolongada (pós-operatório mal controlado), o paciente pode relatar dor ao toque ao redor da incisão, além do local original.
Diagrama conceitual: sensibilização e alvos farmacológicos
Lesão → mediadores (PGE2, bradicinina, citocinas) → sensibilização periférica → ↑ entrada nociceptiva na medula → sensibilização central → dor amplificada/persistenteProstaglandinas e COX: o elo entre inflamação, dor e febre
COX-1 e COX-2 (visão funcional)
Ciclo-oxigenases (COX) convertem ácido araquidônico em prostaglandinas e tromboxanos. Em termos didáticos:
- COX-1: mais relacionada a funções “de manutenção” (mucosa gástrica, plaquetas, perfusão renal).
- COX-2: mais induzida em inflamação (embora também exista constitutivamente em alguns tecidos); aumenta produção de prostaglandinas pró-inflamatórias.
Como a PGE2 sensibiliza nociceptores e participa da febre, reduzir sua síntese tende a reduzir dor inflamatória e febre.
Termorregulação e febre: como o corpo “muda o set point”
Febre não é hipertermia
Febre é aumento regulado da temperatura corporal por elevação do “set point” no hipotálamo. Hipertermia é aumento de temperatura sem ajuste adequado do set point (ex.: insolação), e a resposta a antitérmicos pode ser limitada.
Passo a passo fisiológico da febre
- Pirógenos exógenos (ex.: componentes bacterianos) estimulam resposta imune.
- Células imunes liberam pirógenos endógenos (IL-1, TNF, IL-6).
- Essas citocinas aumentam produção de PGE2 em áreas do SNC relacionadas ao controle térmico.
- A PGE2 eleva o set point hipotalâmico.
- O corpo “entende” que está frio: vasoconstrição, calafrios, busca por calor → temperatura sobe.
Diagrama conceitual: febre e prostaglandinas
Infecção/Inflamação → IL-1/TNF/IL-6 → ↑ COX-2 → ↑ PGE2 (hipotálamo) → ↑ set point → calafrios/vasoconstrição → febreComo AINEs, paracetamol e opioides “encaixam” nesses mecanismos
AINEs: melhor desempenho quando há componente inflamatório periférico
Ideia central: AINEs reduzem a síntese de prostaglandinas ao inibir COX, diminuindo sensibilização periférica e parte da inflamação.
- Tendem a melhorar: dor inflamatória (entorses, dor odontológica inflamatória, dismenorreia, artrites), edema e febre.
- Podem não melhorar bem: dor predominantemente neuropática (queimação, choque, formigamento) e dor em que a amplificação central é dominante sem inflamação periférica relevante.
- Ponto fisiológico-chave: se a dor é sustentada por PGE2 e outros mediadores periféricos, bloquear COX costuma trazer ganho clínico.
Paracetamol: analgésico/antitérmico com ação predominantemente central
Ideia central: paracetamol tem efeito analgésico e antitérmico principalmente por mecanismos centrais (modulação de vias no SNC e redução de prostaglandinas no SNC), com pouca ação anti-inflamatória periférica em muitos cenários.
- Tende a melhorar: febre e dor leve a moderada (cefaleia inespecífica, mialgia viral, dor pós-procedimento leve).
- Geralmente não melhora tanto: edema e sinais inflamatórios periféricos marcantes (rubor, calor local, tumefação) quando a dor depende fortemente da inflamação tecidual.
- Ponto fisiológico-chave: útil quando o alvo principal é o set point/febre e a percepção central da dor, sem necessidade de “desinflamar” o foco.
Opioides: reduzem a transmissão e a percepção central da dor
Ideia central: opioides ativam receptores opioides (ex.: μ) no SNC e em vias nociceptivas, reduzindo liberação de neurotransmissores e a excitabilidade neuronal, além de alterar a percepção/afetividade da dor.
- Tendem a melhorar: dor moderada a intensa de múltiplas origens (pós-operatória, trauma, dor oncológica), inclusive quando não há grande componente inflamatório periférico.
- Não tratam a causa inflamatória: não reduzem edema nem a cascata inflamatória; podem mascarar sinais de piora se usados sem reavaliação clínica.
- Ponto fisiológico-chave: úteis quando a “alavanca” mais eficiente é diminuir transmissão central e percepção, especialmente em dor intensa.
Mapa rápido: mecanismo → classe com maior probabilidade de benefício
| Mecanismo predominante | O que o paciente sente/mostra | Classe com maior tendência de ajudar | O que tende a não resolver |
|---|---|---|---|
| Sensibilização periférica por prostaglandinas | Dor piora com movimento; sinais inflamatórios locais | AINEs | Dor neuropática típica |
| Set point elevado (febre) | Calafrios, febre, mal-estar | Paracetamol (e AINEs) | Hipertermia por calor ambiental |
| Amplificação central/dor intensa | Dor forte, sofrimento, limitação importante | Opioides (quando indicados) | Edema/inflamação tecidual |
| Inflamação + dor intensa | Dor forte com sinais inflamatórios | Combinação racional (ex.: AINE + analgésico central) | Eliminar causa (ex.: abscesso) sem intervenção |
Diagramas conceituais para diferenciar dor inflamatória vs. não inflamatória
Diagrama 1: dor inflamatória (periférica dominante)
Lesão tecidual → inflamação → ↑ PGE2/bradicinina/citocinas → nociceptor sensibilizado → dor ao movimento/pressão + edema/calor → (AINEs costumam ter maior impacto)Diagrama 2: dor não inflamatória (exemplos comuns)
Neuropática: lesão/disfunção nervosa → disparos ectópicos + sensibilização central → queimação/choque/alodinia → (AINEs geralmente pouco efetivos; opioides podem reduzir percepção, mas não corrigem mecanismo)Nociplástica (amplificação central): processamento alterado → dor difusa, fadiga, hipersensibilidade → (anti-inflamatórios tendem a ter pouco efeito; foco é modulação central)Observação didática: na prática, muitos quadros são mistos (ex.: lombalgia aguda pode ter componente mecânico + inflamatório; pós-operatório tem inflamação + sensibilização central).
Passo a passo prático: como identificar o “motor” fisiológico da dor (para orientar a classe)
Passo 1 — Caracterize a qualidade e o padrão
- Inflamatória: latejante, piora com uso/movimento, melhora com repouso; rigidez matinal; sinais locais.
- Neuropática: queimação, choque, formigamento, dormência; alodinia; distribuição em trajeto nervoso.
- Predominantemente central: dor difusa, hipersensibilidade, desproporcional ao achado periférico.
Passo 2 — Procure sinais de inflamação e febre
- Local: calor, rubor, edema, dor à palpação.
- Sistêmico: febre, mal-estar, mialgia.
Passo 3 — Relacione ao alvo farmacológico
- Se há forte componente inflamatório periférico: pensar em reduzir prostaglandinas (AINEs).
- Se o foco é febre e dor leve/moderada sem grande edema: paracetamol tende a ser suficiente.
- Se a dor é intensa e limitante, ou há grande componente central: opioides podem ser necessários (quando indicados), lembrando que não tratam inflamação.
Passo 4 — Cheque o que “não vai melhorar” com a classe escolhida
- AINE não é “antineuropático”.
- Paracetamol não é “anti-inflamatório potente” para edema importante.
- Opioide não é “anti-inflamatório” e não reduz febre de forma confiável como alvo principal.
Perguntas de fixação (dor inflamatória vs. não inflamatória)
1) Classificação por pistas clínicas
a) Paciente com tornozelo torcido, edema e calor local, dor pior ao apoiar. Qual mecanismo predomina e qual classe tende a ter maior benefício?
b) Paciente com dor em “choques” e queimação no trajeto de um nervo, com alodinia ao toque da roupa. Isso sugere qual tipo de dor? AINEs tendem a ajudar?
c) Paciente com febre e calafrios em quadro viral, sem sinais inflamatórios locais importantes. Qual mediador central é chave e qual classe é mais diretamente útil?
2) Verdadeiro ou falso (justifique mentalmente pelo mecanismo)
- A redução de PGE2 tende a diminuir hiperalgesia periférica.
- Opioides reduzem edema por bloquear COX-2.
- Febre envolve aumento do set point hipotalâmico mediado por PGE2.
- Dor neuropática típica costuma responder melhor a anti-inflamatórios do que a moduladores centrais.
3) Mini-casos para diferenciar “o que melhora”
Caso A: dor odontológica com gengiva inflamada e pulsátil. O que você espera que melhore com AINE? O que pode permanecer (ex.: dor intensa) exigindo outra abordagem?
Caso B: pós-operatório imediato com dor intensa e náusea. Qual parte do circuito (percepção/transmissão central) é alvo típico de opioides?
Caso C: febre alta com calafrios. Por que o paciente “sente frio” mesmo com temperatura elevada?