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Papiloscopista da Polícia Civil: Identificação Humana e Preparação para Concursos

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14 páginas

Documentoscopia Aplicada ao Papiloscopista: Identificação Civil, Sinais Físicos e Validação de Documentos

Capítulo 7

Tempo estimado de leitura: 13 minutos

+ Exercício

Documentoscopia aplicada ao papiloscopista é o conjunto de procedimentos técnicos de verificação de autenticidade e integridade de documentos de identificação civil, correlacionando o suporte documental com a pessoa atendida (biometria e sinais físicos) e com a biografia declarada. No contexto policial, o objetivo é reduzir risco de erro de identidade, detectar indícios de fraude e produzir registros objetivos para decisão administrativa (aceitar, recusar, reter, encaminhar para perícia) e para eventual responsabilização penal.

Escopo prático: o que deve ser validado em uma identificação civil

  • Autenticidade do documento: presença e coerência de elementos de segurança e de impressão.
  • Integridade física: sinais de substituição de páginas, rasuras, recortes, laminação irregular, perfurações e remendos.
  • Coerência biográfica: dados pessoais, filiação, naturalidade, datas, numeração, órgão emissor, compatibilidade entre documentos apresentados.
  • Coerência biométrica e fisionômica: correspondência entre foto, pessoa presente e descritores morfológicos observáveis.
  • Sinais identificadores: cicatrizes, tatuagens e outras marcas permanentes ou semipermanentes descritas e observadas.
  • Rastreabilidade: registro do atendimento, das inconsistências e do encaminhamento adequado.

Conferência de elementos de segurança e de impressão

1) Inspeção inicial do suporte (sem instrumentos)

Antes de usar qualquer equipamento, faça uma leitura global: tipo de papel ou cartão, rigidez, textura, qualidade de impressão, alinhamento, nitidez de bordas, presença de borrões, variação de cor e sinais de reimpressão. Documentos autênticos tendem a apresentar padrão consistente de impressão e acabamento; fraudes comuns deixam pistas como granulação irregular, áreas “lavadas” e desalinhamentos.

2) Elementos de segurança: o que conferir e como

Os elementos abaixo variam conforme o modelo do documento e o ente emissor, mas o método de conferência é aplicável de forma geral.

  • Microtextos: verifique se há linhas de texto em tamanho muito reduzido, com legibilidade sob ampliação. Indícios de fraude: microtexto que vira “linha contínua” (pixelado), letras deformadas, ausência em áreas onde deveria existir.
  • Fundos numismáticos (guilloches): observe padrões geométricos finos e repetitivos. Indícios de fraude: padrão quebrado, repetição evidente, moiré (efeito de ondas), falhas de continuidade e variação abrupta de cor.
  • Impressões especiais: avalie se há relevo perceptível, transições de cor, áreas com brilho diferenciado e impressão com bordas nítidas. Indícios de fraude: “chapado” sem variação, bordas serrilhadas, tinta que mancha ao toque, brilho uniforme em toda a área (sinal de impressão doméstica).
  • Elementos ópticos: conforme o documento, podem existir marcas que mudam com o ângulo e áreas com resposta específica à luz. Indícios de fraude: ausência do efeito, efeito “simulado” por impressão comum, ou efeito presente mas fora de posição.

3) Procedimento com ampliação e iluminação controlada

Quando disponível, utilize lupa e iluminação direcionada para comparar: nitidez de microtextos, continuidade de linhas do fundo numismático, sobreposições de camadas de impressão e possíveis áreas de raspagem. A lógica é procurar discrepâncias locais: uma fraude costuma afetar uma região (foto, nome, data), deixando “ilhas” com padrão diferente do restante.

4) Verificação de foto e área de personalização

A área de personalização (foto e dados variáveis) é o alvo mais comum. Verifique:

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  • Uniformidade de impressão: foto e texto devem ter o mesmo padrão de resolução e cor esperados para o documento.
  • Contornos e recortes: bordas da foto, sombras e transições devem ser naturais. Indícios de fraude: halo ao redor do rosto, recorte grosseiro, sombras incompatíveis, fundo “colado”.
  • Alinhamento: campos devem estar alinhados com guias e margens. Indícios de fraude: texto “subindo/descendo”, espaçamento irregular, fonte divergente.

Análise de sinais identificadores e características morfológicas descritivas

1) Sinais físicos: como observar e registrar

Sinais identificadores são úteis para reforçar a individualização quando a foto é antiga, quando há dúvida de semelhança ou quando há suspeita de uso de documento de terceiro. Registre sempre de forma descritiva, sem juízo de valor.

  • Cicatrizes: local anatômico, extensão aproximada, orientação (longitudinal/transversal/oblíqua), aspecto (linear, irregular), coloração.
  • Tatuagens: local anatômico, tema/figura, cores predominantes, dimensões aproximadas, particularidades (texto, símbolos, datas).
  • Marcas e características: nevos, manchas, amputações, deformidades aparentes, assimetrias marcantes.

2) Características morfológicas descritivas (fisionomia)

Use descritores observáveis e comparáveis com a foto e com registros anteriores quando disponíveis. Exemplos de descritores úteis:

  • Formato do rosto: oval, arredondado, quadrado, alongado.
  • Implantação capilar: linha frontal, entradas, rarefação.
  • Sobrancelhas: espessura, arco, distância.
  • Nariz: dorso (reto/convexo/côncavo), largura da base, ponta.
  • Orelhas: projeção, lóbulo aderente/solto, assimetrias.
  • Queixo: proeminente/recuado, fenda.

Evite inferências subjetivas (por exemplo, “parece mais velho”); prefira comparações objetivas (por exemplo, “foto apresenta cicatriz supraorbital direita; atendido não apresenta”).

Coerência biográfica e biométrica: checagens cruzadas

1) Coerência biográfica

Consiste em verificar se os dados declarados fazem sentido entre si e entre os documentos apresentados. Pontos práticos:

  • Datas: nascimento, emissão, validade (quando houver) e cronologia plausível.
  • Filiação e naturalidade: consistência entre documentos e com a narrativa do atendido.
  • Órgão emissor e numeração: padrão esperado (formato, dígitos, UF/órgão), sem inconsistências visíveis.
  • Endereço e estado civil: coerência com outros documentos e com o atendimento (sem exigir “prova”, mas registrando divergências).

2) Coerência biométrica e fisionômica

Compare a pessoa presente com a foto e com os descritores morfológicos. Quando houver captura biométrica no atendimento (por exemplo, fotografia padronizada e assinatura), garanta:

  • Foto atual: enquadramento, iluminação uniforme, fundo neutro, sem acessórios que ocultem traços (salvo justificativa).
  • Assinatura: compatibilidade com assinaturas anteriores quando disponíveis; atenção a assinaturas “tremidas” ou excessivamente simplificadas em conjunto com outros indícios.

Quando houver discrepância, descreva o que diverge (ex.: “foto do documento apresenta orelhas proeminentes e lóbulo solto; atendido apresenta orelhas pouco proeminentes e lóbulo aderente”), em vez de afirmar “não é a mesma pessoa” sem base suficiente.

Fraudes comuns: sinais de alerta e como proceder

1) Alteração de foto

Como ocorre: substituição física da foto, sobreposição, reimpressão da área de personalização, ou manipulação digital em documento impresso.

Indícios:

  • Diferença de textura/brilho na área da foto.
  • Desalinhamento do retrato com molduras e fundos.
  • Halo, serrilhado ou “recorte” visível ao redor do rosto.
  • Incompatibilidade entre idade aparente e data de emissão, sem justificativa plausível.

Ação: registrar indícios, coletar imagem do documento (conforme protocolo local), reter para análise quando permitido, e encaminhar para perícia documentoscópica se houver materialidade suficiente.

2) Substituição de páginas (documentos em caderneta ou com folhas)

Como ocorre: troca de folha de qualificação, folha com foto, ou página de dados variáveis.

Indícios:

  • Grampos, costuras ou colagens com sinais de violação.
  • Diferença de tonalidade entre páginas.
  • Numeração de páginas incoerente, cortes desalinhados, bordas irregulares.
  • Elementos de segurança presentes em uma página e ausentes em outra, sem padrão do modelo.

Ação: não tentar “reparar” ou manusear excessivamente; acondicionar e encaminhar para perícia com descrição do ponto de violação.

3) Adulteração de dados (rasura, lavagem, reimpressão)

Como ocorre: raspagem mecânica, uso de solventes, reimpressão de campos, inserção de caracteres.

Indícios:

  • Campo com brilho diferente, fibras do papel expostas, perda de fundo numismático.
  • Fonte divergente, espaçamento irregular, caracteres “fora do eixo”.
  • Manchas, ondulações, descoloração localizada.

Ação: registrar exatamente o campo suspeito (ex.: “campo ‘nome’ com espaçamento irregular entre sobrenome e prenome; fundo numismático interrompido”), e encaminhar para perícia quando houver suspeita fundada.

4) Uso de documento de terceiro (sósia ou semelhança parcial)

Como ocorre: pessoa com semelhança geral utiliza documento legítimo de outra pessoa.

Indícios:

  • Semelhança geral, mas divergências em sinais permanentes (tatuagens/cicatrizes) e em descritores morfológicos estáveis (orelha, queixo, implantação capilar).
  • Insegurança ao responder dados biográficos simples (filiação, local de nascimento, datas).
  • Assinatura muito diferente do padrão do documento.

Ação: reforçar checagens cruzadas, registrar divergências objetivas, e seguir o roteiro de atendimento para suspeita de fraude.

Roteiro de atendimento (fluxo prático) para validação de documentos

Roteiro 1: atendimento padrão (sem indícios iniciais)

  • Etapa 1: recepção e triagem: identificar quais documentos serão analisados e se há mais de um documento de identidade apresentado.
  • Etapa 2: inspeção do suporte: integridade física, sinais de violação, padrão de impressão.
  • Etapa 3: conferência de elementos de segurança: microtextos, fundos numismáticos, impressões especiais e elementos ópticos (conforme aplicável).
  • Etapa 4: conferência biográfica: dados essenciais, cronologia, coerência entre documentos.
  • Etapa 5: conferência fisionômica e sinais físicos: comparação com foto e registro de sinais identificadores relevantes.
  • Etapa 6: registro do atendimento: resultado (apto/pendente/inconsistente), observações objetivas e medidas adotadas.

Roteiro 2: atendimento com suspeita (um ou mais indícios)

  • Etapa 1: preservar o documento: reduzir manuseio; evitar dobrar, raspar, limpar ou destacar partes.
  • Etapa 2: isolar o indício: apontar exatamente qual campo/área apresenta discrepância (foto, nome, data, página, impressão).
  • Etapa 3: checagens cruzadas: solicitar documento complementar (quando previsto), comparar dados e observar coerência biográfica.
  • Etapa 4: reforço de comparação fisionômica: descrever divergências morfológicas e sinais físicos, sem acusações.
  • Etapa 5: decisão administrativa: conforme norma local, recusar o ato, reter o documento mediante recibo, ou aceitar com ressalva e encaminhar para perícia.
  • Etapa 6: documentação: elaborar relatório de inconsistência com linguagem técnica e verificável.

Checklists de validação (uso rápido no balcão)

Checklist A: integridade e impressão

  • Sem rasgos, recortes, delaminação, bolhas ou colagens?
  • Sem sinais de violação em grampos/costuras/encadernação (se houver)?
  • Impressão nítida, sem pixelização anormal?
  • Alinhamento de campos e margens consistente?
  • Ausência de manchas localizadas, ondulações ou descoloração em campos críticos?

Checklist B: elementos de segurança

  • Microtextos presentes e legíveis sob ampliação?
  • Fundo numismático contínuo, sem quebras e sem moiré evidente?
  • Impressões especiais com aspecto compatível (relevo/brilho/transição de cor, quando aplicável)?
  • Elementos ópticos com comportamento esperado ao variar o ângulo (quando aplicável)?

Checklist C: coerência biográfica

  • Nome, filiação, data e local de nascimento coerentes entre documentos apresentados?
  • Data de emissão compatível com a aparência e com a narrativa do atendido?
  • Órgão emissor e numeração sem divergências visuais (formato, dígitos, UF/órgão)?
  • Assinatura compatível com a do documento (quando comparável)?

Checklist D: coerência biométrica/fisionômica e sinais físicos

  • Semelhança facial global compatível com a foto?
  • Descritores estáveis (orelha, queixo, nariz, sobrancelhas) compatíveis?
  • Cicatrizes/tatuagens visíveis compatíveis com a foto ou com registros anteriores (se houver)?
  • Há divergências objetivas registráveis (sim/não)? Quais?

Modelos de registro: relatório de inconsistência e encaminhamento

1) Relatório de inconsistência (exemplo preenchido)

RELATÓRIO DE INCONSISTÊNCIA DOCUMENTAL – ATENDIMENTO DE IDENTIFICAÇÃO CIVIL

Data/Hora: 15/01/2026 – 14:35
Unidade/Setor: Posto de Identificação – Plantão
Atendente: (identificação funcional)

Documento apresentado: Documento de identidade (tipo/modelo conforme apresentado)
Número/Órgão emissor/UF: (conforme impresso)

Motivo do registro:
( ) Suspeita de adulteração de dados
( ) Suspeita de alteração de foto
( ) Suspeita de substituição de páginas
( ) Suspeita de uso de documento de terceiro
(X) Outros: Divergências de elementos de segurança e incoerência fisionômica

Achados objetivos (descrever por item):
1) Elementos de segurança: microtexto na área (localização) apresenta aspecto pixelado e ilegível sob ampliação, divergindo do padrão observado em outros exemplares do mesmo modelo.
2) Fundo numismático: interrupção do padrão geométrico no campo “nome”, com mudança abrupta de tonalidade.
3) Foto: presença de halo ao redor do contorno facial e diferença de brilho em relação ao restante do documento.
4) Coerência fisionômica: foto apresenta lóbulo auricular solto e orelhas proeminentes; atendido apresenta lóbulo aderente e orelhas pouco proeminentes.
5) Coerência biográfica: atendido não soube informar filiação completa conforme consta no documento.

Providências adotadas (conforme norma local):
- Atendimento suspenso/ato não concluído.
- Documento preservado sem manuseio excessivo.
- Encaminhamento para perícia documentoscópica.

Anexos:
- Registro fotográfico do documento (frente/verso) conforme protocolo.
- Termo/recibo de retenção (se aplicável).

Assinatura do atendente: ______________________

2) Encaminhamento para perícia (roteiro do que não pode faltar)

  • Identificação do caso: data/hora, unidade, responsável pelo encaminhamento.
  • Descrição do documento: tipo, numeração, órgão emissor, estado de conservação.
  • Quesitos objetivos: “há indícios de substituição de foto?”, “há sinais de raspagem/reimpressão no campo X?”, “há compatibilidade dos elementos de segurança com o modelo?”
  • Contexto do atendimento: como o documento foi apresentado, quais outros documentos foram exibidos, e quais divergências foram observadas.
  • Preservação: informar se houve retenção, acondicionamento e cadeia de custódia conforme rotina.

Exemplos práticos de inconsistências e como descrever corretamente

Exemplo 1: suspeita de alteração de foto

Descrição inadequada: “Foto falsa, documento fraudado.”

Descrição adequada: “Área da fotografia com brilho e textura distintos do restante do documento; contorno facial com halo e serrilhado; alinhamento do retrato divergente da moldura; microtexto adjacente com perda de nitidez.”

Exemplo 2: suspeita de adulteração de nome/data

Descrição inadequada: “Nome alterado.”

Descrição adequada: “No campo ‘nome’, há interrupção do fundo numismático e variação de tonalidade; caracteres com espaçamento irregular e leve desalinhamento em relação à linha de base; presença de área com brilho diferente sob iluminação oblíqua.”

Exemplo 3: suspeita de uso de documento de terceiro

Descrição inadequada: “Não confere com a pessoa.”

Descrição adequada: “Divergência em descritores morfológicos: foto com orelhas proeminentes e lóbulo solto; atendido com orelhas pouco proeminentes e lóbulo aderente. Atendido não confirmou filiação conforme impresso. Semelhança global parcial, com divergências estáveis registradas.”

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Durante a validação de um documento de identificação civil com indícios de fraude, qual conduta é mais adequada para embasar uma decisão administrativa e eventual encaminhamento à perícia?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O procedimento recomendado prioriza preservar o documento, localizar o indício e descrevê-lo tecnicamente, além de fazer checagens cruzadas (biográficas e fisionômicas). Isso produz registro objetivo e orienta a decisão (aceitar, recusar, reter ou encaminhar à perícia).

Próximo capitúlo

Bancos de Dados e Sistemas Biométricos para Papiloscopista: AFIS/ABIS, Qualidade e Auditoria

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