Conceito e finalidade da documentação pericial
Documentação pericial em Medicina Legal é o conjunto de registros formais que descrevem, analisam e comunicam resultados de exames periciais, permitindo que a autoridade policial e o Judiciário compreendam o que foi observado, como foi obtido e quais inferências técnico-científicas são sustentáveis. Em concursos, cobra-se a capacidade de estruturar documentos com redação padronizada, rastreabilidade dos vestígios e respostas objetivas aos quesitos, evitando extrapolações e ambiguidades.
Tipos de documentos e quando são utilizados
Requisição de exame (requisição pericial)
Documento que formaliza a demanda: quem requisita, o que deve ser examinado, qual o objetivo (ex.: verificar lesões, estimar tempo de morte, identificar material biológico) e quais quesitos devem ser respondidos. A requisição delimita o escopo do laudo; se houver lacunas, o perito pode solicitar complementação.
Termo de recebimento/encaminhamento de vestígios
Registro de entrada do vestígio no órgão pericial (ou de transferência entre setores), com identificação, condições de lacre, data/hora, responsável pela entrega e pelo recebimento. É peça-chave para a cadeia de custódia.
Laudo pericial (médico-legal)
Documento técnico que consolida: identificação, metodologia, descrição objetiva dos achados, discussão técnico-científica, conclusão e respostas aos quesitos. Deve ser inteligível para não especialistas, sem perder rigor.
Complementação/retificação
Usada quando surgem novos elementos, quando há necessidade de esclarecer ponto específico ou corrigir erro material. Deve indicar claramente o que foi alterado e por quê, preservando a versão original e a rastreabilidade documental.
Continue em nosso aplicativo
Você poderá ouvir o audiobook com a tela desligada, ganhar gratuitamente o certificado deste curso e ainda ter acesso a outros 5.000 cursos online gratuitos.
ou continue lendo abaixo...Baixar o aplicativo
Estrutura do laudo médico-legal cobrada em provas
A nomenclatura pode variar por instituição, mas a lógica é estável. A seguir, uma estrutura funcional e frequentemente exigida:
- Identificação: número do laudo, unidade, perito(s), data/hora, identificação do examinado (quando aplicável), autoridade requisitante, número do procedimento.
- Histórico/elementos informativos: transcrição sucinta do que foi informado na requisição e do que foi apresentado no momento do exame (sem assumir como verdade fatos não verificados). Ex.: “Segundo requisição, solicita-se avaliação de lesões...”
- Material recebido e condições: descrição do que chegou ao perito (vestígios, documentos, mídias), estado de conservação, integridade do lacre, identificação do invólucro.
- Metodologia: técnicas empregadas (ex.: inspeção, mensuração, fotografia pericial, testes laboratoriais), limitações e condições do exame.
- Descrição objetiva (achados): relato impessoal, cronológico e mensurável do que foi observado, sem interpretações antecipadas.
- Discussão técnico-científica: interpretação fundamentada dos achados, correlação com literatura/técnica, hipóteses e limites inferenciais.
- Conclusão: síntese do que pode ser afirmado com base nos achados e na discussão, com linguagem assertiva e qualificada (quando necessário).
- Respostas aos quesitos: item a item, na ordem apresentada, respondendo de forma direta e compatível com o corpo do laudo.
- Anexos: fotografias, tabelas, resultados laboratoriais, croquis, cadeia de custódia (quando aplicável).
Padrões de redação: como escrever para evitar nulidades e impugnações
Linguagem impessoal e técnica
Preferir construções impessoais e verbos no passado: “Observou-se”, “Constatou-se”, “Foi identificado”. Evitar “eu vi”, “na minha opinião” (a opinião deve ser substituída por inferência técnica fundamentada).
Descrição cronológica e organizada
Relatar na ordem do exame (do geral para o particular) e, em lesões, frequentemente do segmento corporal superior para inferior, ou conforme protocolo institucional. Em vestígios, do invólucro para o conteúdo.
Separar achados de interpretações
Achado é o dado observável/medível. Interpretação é a inferência sobre causa, mecanismo, compatibilidade, temporalidade. Misturar ambos fragiliza o laudo.
- Achado: “Lesão contusa, equimose violácea, 3,0 x 2,0 cm, em região malar direita.”
- Interpretação: “Achado compatível com ação de instrumento contundente; coloração sugere lesão recente, com limitações inerentes à estimativa temporal.”
Evitar termos ambíguos e expressões não operacionais
Termos como “provavelmente”, “possivelmente”, “aparentemente” devem ser usados com parcimônia e sempre acompanhados do motivo e da limitação. Preferir expressões operacionais:
- Em vez de “sem sinais”, usar “não foram observados sinais nas condições do exame”.
- Em vez de “agressão”, usar “ação de instrumento contundente” (o termo “agressão” é jurídico e pressupõe autoria/dolo).
- Em vez de “estupro”, usar “achados compatíveis/incompatíveis com conjunção carnal recente” conforme o caso e os limites do exame.
Não extrapolar: autoria, dinâmica e nexo além do suportável
O laudo não deve atribuir autoria (“foi o suspeito X”), nem afirmar dinâmica sem base (“foi empurrado”), salvo quando a evidência técnica sustenta e ainda assim com cautela (“compatível com queda da própria altura”, “compatível com impacto contra plano rígido”).
Consistência interna
Conclusão e respostas aos quesitos devem ser coerentes com a descrição e a discussão. Divergências internas são falhas formais frequentes em questões de prova.
Passo a passo prático: do recebimento à emissão do laudo
1) Ler a requisição e delimitar o objeto
- Identificar o que foi solicitado e quais quesitos existem.
- Checar se há dados mínimos: identificação, data/hora do fato (se relevante), local, material encaminhado.
- Se faltar elemento essencial, registrar a limitação e/ou solicitar complementação por via formal.
2) Receber vestígios e registrar cadeia de custódia
- Conferir integridade do lacre e identificação do invólucro.
- Registrar data/hora, nome e matrícula/identificação funcional de quem entrega e de quem recebe.
- Fotografar o invólucro/lacre quando o protocolo prever.
- Atribuir número interno e vincular ao procedimento.
3) Examinar e documentar (descrição objetiva)
- Descrever antes de interpretar.
- Usar medidas, localização anatômica padronizada, cor, forma, bordas, profundidade (quando aplicável).
- Registrar condições do exame: iluminação, estado de conservação, tempo decorrido, limitações.
4) Discutir tecnicamente com base nos achados
- Relacionar achados a mecanismos possíveis (contundente, cortante, perfurante, etc.) quando pertinente.
- Apontar hipóteses e excluir o que for tecnicamente incompatível, se possível.
- Declarar limites: ausência de exame complementar, material insuficiente, degradação, contaminação, etc.
5) Concluir de forma sintética e qualificada
- Responder ao “o que é possível afirmar”.
- Evitar linguagem absoluta quando a ciência não permite.
- Não introduzir informação nova na conclusão (tudo deve estar fundamentado no corpo).
6) Responder aos quesitos
- Manter a numeração e a ordem.
- Responder “Sim/Não/Prejudicado/Não é possível afirmar” e justificar em uma frase quando necessário.
- Se o quesito for jurídico (ex.: “houve crime?”), responder tecnicamente (ex.: “há lesões corporais...”), indicando a limitação do escopo.
Cadeia de custódia aplicada a vestígios biológicos e não biológicos
Conceito operacional
Cadeia de custódia é o conjunto de procedimentos e registros que garantem a rastreabilidade do vestígio desde o reconhecimento até o descarte, assegurando que o material analisado é o mesmo coletado e que não houve adulteração, troca ou contaminação relevante. Em provas, costuma-se cobrar: etapas, registros mínimos, integridade do lacre e documentação de transferências.
Etapas práticas (visão de fluxo)
- Reconhecimento: identificar o potencial vestígio e seu valor probatório.
- Isolamento: preservar o local/material para evitar contaminação e perda.
- Fixação: registro por fotografia, descrição, croqui, numeração.
- Coleta: técnica adequada ao tipo de vestígio.
- Acondicionamento: embalagem compatível (evitar degradação/contaminação).
- Lacre: fechamento inviolável, identificado.
- Transporte: condições adequadas (temperatura, proteção, tempo).
- Recebimento: conferência do lacre e registro formal.
- Processamento/Análise: abertura controlada, registro de alíquotas, re-lacre quando necessário.
- Armazenamento: local controlado, acesso restrito, condições ambientais.
- Transferência: toda mudança de custódia deve ser registrada (quem, quando, por quê).
- Descarte/devolução: conforme norma, com registro.
Vestígios biológicos: cuidados específicos
- Risco principal: contaminação cruzada e degradação (calor, umidade, tempo).
- Coleta: uso de luvas, troca entre amostras, swabs estéreis, controle negativo quando aplicável.
- Acondicionamento: preferir embalagens que evitem umidade (ex.: papel para material úmido após secagem controlada, conforme protocolo). Evitar “fechar molhado” em plástico quando isso favorecer fungos/degradação.
- Identificação: rótulo com código, local de coleta, data/hora, coletor, tipo de amostra.
- Transporte/armazenamento: respeitar necessidade de refrigeração/congelamento quando indicado para preservar DNA/proteínas, conforme rotina do laboratório.
Vestígios não biológicos: cuidados específicos
- Risco principal: perda de microvestígios, alteração de padrões (impressões, resíduos), mistura de partículas.
- Coleta: pinças limpas, recipientes rígidos para itens frágeis, proteção contra atrito.
- Acondicionamento: recipientes rígidos para fragmentos (vidro/metal), envelopes apropriados para partículas, proteção de superfícies com marcas.
- Lacre e rastreabilidade: essencial em armas, projéteis, documentos, mídias digitais (mídias exigem também integridade lógica e registros de hash quando aplicável, conforme protocolo institucional).
Registros mínimos e rastreabilidade
Em termos práticos, a cadeia de custódia se sustenta em registros consistentes:
- Identificador único do vestígio (código).
- Descrição do item e do invólucro.
- Data/hora de cada ato relevante (coleta, lacre, abertura, transferência).
- Identificação funcional de responsáveis (quem coletou, quem transportou, quem recebeu, quem analisou).
- Condição do lacre (íntegro/violado) e justificativa se houver violação autorizada.
Modelos comentados de trechos de laudo (com boas práticas)
1) Material recebido e integridade do lacre
Material recebido: 01 (um) envelope pardo identificado como “Vestígio A”, contendo 01 (um) swab, acondicionado em tubo estéril. Lacre nº 123456, íntegro, sem sinais de violação. Recebido em 10/01/2026 às 14h20, por servidor identificado, conforme termo de recebimento anexo.Comentário: descreve invólucro, conteúdo, identificação, lacre e rastreabilidade (data/hora e referência ao termo). Evita adjetivos vagos (“bem lacrado”) e informa condição verificável (“íntegro”).
2) Descrição objetiva de lesão (achado)
Ao exame, observou-se equimose de coloração violácea, medindo 3,0 x 2,0 cm, localizada na região malar direita, a 2,5 cm da comissura labial, sem solução de continuidade cutânea associada.Comentário: mensuração, localização e características. Não afirma causa nem tempo de forma categórica.
3) Discussão técnico-científica (interpretação com limites)
O achado descrito é compatível com lesão produzida por ação de instrumento contundente. A estimativa do tempo de produção de equimoses por coloração é limitada e sujeita a variações individuais; assim, não é possível datar com precisão, podendo apenas indicar compatibilidade com lesão recente.Comentário: usa “compatível”, explicita limitação e evita “foi há X horas” sem base robusta.
4) Conclusão e quesitos (objetividade)
Conclusão: Constatou-se a presença de lesão contusa (equimose) em face, compatível com ação contundente, sem elementos no exame atual que permitam afirmar a dinâmica específica do evento.Quesito 1: Há lesões? Resposta: Sim, conforme descrito (equimose em região malar direita). Quesito 2: Qual o instrumento? Resposta: Compatível com instrumento contundente; não é possível individualizar o objeto específico. Quesito 3: Qual o tempo da lesão? Resposta: Não é possível precisar; achado compatível com lesão recente, com limitações descritas.Comentário: respostas diretas, coerentes com o corpo do laudo, sem extrapolar.
Erros formais frequentes (e como corrigir)
1) Misturar fato narrado com achado pericial
Falho: “A vítima foi agredida com socos, apresentando equimose...” (afirma dinâmica como fato).
Melhor: “Segundo a requisição, há relato de agressão. Ao exame, observou-se equimose...” (separa informação recebida do achado).
2) Conclusão com informação não descrita
Falho: concluir “fratura” sem ter descrito exame de imagem ou sinais objetivos.
Melhor: “Há dor à palpação e limitação funcional; para confirmação de fratura, recomenda-se exame complementar, não disponível no momento” (quando cabível ao protocolo).
3) Termos absolutos sem base
Falho: “Não houve conjunção carnal.”
Melhor: “Não foram observados achados específicos de conjunção carnal recente nas condições do exame; tal ausência não permite excluir a ocorrência.”
4) Falhas de cadeia de custódia
Falho: “Recebido um swab” sem lacre, sem data/hora, sem identificação de quem entregou.
Melhor: registrar código, lacre, integridade, data/hora, responsáveis e anexar termo.
Exercícios: identificar falhas formais (estilo concurso)
Exercício 1
“Eu examinei o paciente e, na minha opinião, ele foi espancado. A lesão tem uns 3 cm. Concluo que a agressão ocorreu ontem à noite.”- Identifique pelo menos 4 falhas: (a) linguagem pessoal (“eu”, “na minha opinião”); (b) termo jurídico/dinâmica (“espancado”) sem base; (c) medida imprecisa (“uns 3 cm”); (d) datação categórica (“ontem à noite”) sem fundamentação; (e) ausência de localização anatômica e descrição objetiva.
- Reescreva um trecho corrigido: usar impessoalidade, mensuração precisa, localização e interpretação qualificada.
Exercício 2
Material: “camiseta com manchas”. Lacre: “ok”. Recebido: “de manhã”.- Problemas: descrição insuficiente do item; ausência de identificador único; lacre sem número e sem avaliação objetiva de integridade; data/hora indefinidas; ausência de responsáveis pela entrega/recebimento.
- Corrija: elaborar registro com código do vestígio, descrição do invólucro e do conteúdo, lacre numerado, data/hora e identificação funcional.
Exercício 3
Descrição: “Ferimento corto-contuso no antebraço.” Discussão: “Compatível com faca.” Conclusão: “Lesão por faca.”- Problemas: descrição pobre (sem medidas, sem localização detalhada, sem bordas/profundidade); inferência específica (“faca”) sem elementos; conclusão mais assertiva do que a discussão.
- Ajuste esperado: descrever morfologia e dimensões; na discussão, indicar compatibilidade com instrumento de ação cortante/contundente conforme achados; na conclusão, manter o mesmo nível de certeza (“compatível”, “não é possível individualizar”).