Documentação clínica em Fisioterapia: SOAP, evolução e registro orientado por problemas

Capítulo 14

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

+ Exercício

Por que a documentação clínica é parte do cuidado

Documentação clínica em Fisioterapia é o registro estruturado do que foi coletado, observado, interpretado e realizado ao longo do atendimento. Ela serve para: (1) continuidade do cuidado (você e outros profissionais entendem rapidamente o caso), (2) rastreabilidade e segurança (o que foi feito, quando e por quê), (3) comunicação com paciente/equipe e (4) respaldo ético-legal. Um bom prontuário não é “texto bonito”: é um registro objetivo, verificável e orientado por problemas.

Princípios de um registro de qualidade

  • Objetividade: descreva fatos observáveis e medidas. Evite julgamentos (“paciente preguiçoso”, “não colaborou”).
  • Clareza e padronização: use termos consistentes, abreviações apenas se forem amplamente aceitas no seu serviço.
  • Relevância: registre achados positivos e negativos relevantes (o que foi testado e não apareceu), pois isso sustenta o raciocínio e a segurança.
  • Rastreabilidade: data/hora, identificação do profissional, assinatura (ou assinatura digital), número do registro profissional quando aplicável, e referência à sessão (ex.: Sessão 3/10).
  • Coerência interna: o Plano deve derivar da Avaliação, que por sua vez deve ser sustentada por S e O.
  • Confidencialidade: registre o necessário; evite dados sensíveis não pertinentes.

Modelos de prontuário: SOAP e registro orientado por problemas (ROP)

SOAP: estrutura e lógica

O modelo SOAP organiza o atendimento em quatro blocos:

  • S – Subjetivo: o que o paciente relata (sintomas, limitações, resposta ao tratamento, adesão).
  • O – Objetivo: o que você mede/observa (testes, escalas, sinais, desempenho funcional, parâmetros).
  • A – Avaliação: sua interpretação clínica do estado atual e da resposta ao tratamento (problemas prioritários, progresso, fatores contribuintes).
  • P – Plano: o que será feito (intervenções, dose, educação, progressões, reavaliações, encaminhamentos).

Em um prontuário bem feito, cada sessão pode ser registrada em SOAP (evolução), e a avaliação inicial pode ser registrada em SOAP ampliado (com mais detalhes em S e O).

Registro Orientado por Problemas (ROP)

No registro orientado por problemas, você mantém uma lista de problemas ativos (ex.: P1 dor, P2 limitação funcional, P3 déficit de força) e conecta cada evolução a esses problemas. Isso melhora a consistência e facilita auditoria e reavaliações.

Como integrar SOAP + ROP: na Avaliação (A), cite os problemas (P1, P2, P3) e, no Plano (P), descreva condutas específicas para cada problema e os critérios de progresso.

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Linguagem objetiva: como escrever sem ambiguidade

Regras práticas

  • Prefira medidas: “Dor 6/10 na EAV ao subir escadas” em vez de “muita dor”.
  • Descreva comportamento observável: “interrompeu exercício por dor” em vez de “não tolerou”.
  • Evite causalidade sem evidência: “dor aumentou após agachamento” (observação) é melhor que “agachamento causou lesão”.
  • Registre adesão com fatos: “realizou exercícios domiciliares 2x/semana (relato)” em vez de “não faz nada”.
  • Use termos de tempo e contexto: início, duração, fatores de melhora/piora, e situação funcional.

Achados positivos e negativos relevantes: exemplos

  • Positivo: “Teste X reproduziu dor anterior em região Y.”
  • Negativo relevante: “Sem parestesia; sem perda de força referida; sem dor noturna.” (apenas se isso for clinicamente pertinente ao caso)
  • Negativo de segurança: “Sem sinais de intolerância ao esforço durante sessão; PA e FC dentro do esperado para o paciente.”

Consentimento e registro: o que documentar

O consentimento deve estar registrado quando houver avaliação/intervenção que exija explicação clara de finalidade, riscos e alternativas (por exemplo: técnicas manuais mais invasivas, procedimentos com maior desconforto, exposição corporal, uso de recursos eletrotermofototerapêuticos, gravações/imagens, compartilhamento de dados com terceiros).

Como registrar de forma objetiva

  • “Paciente orientado sobre objetivo, procedimento, possíveis desconfortos e alternativas. Consentimento verbal obtido.”
  • Quando aplicável: “Consentimento escrito anexado ao prontuário.”
  • Se houver recusa: “Paciente recusou técnica X após esclarecimentos; optado por alternativa Y.”

Rastreabilidade: itens mínimos em toda anotação

  • Identificação do paciente (nome/ID) e do profissional.
  • Data e hora do atendimento.
  • Tipo de registro (avaliação inicial, evolução, reavaliação, intercorrência, alta).
  • Assinatura (e carimbo/registro profissional quando aplicável) ou assinatura digital com trilha de auditoria.
  • Reavaliações programadas e realizadas (com data e medidas comparáveis).
  • Intercorrências e condutas (ex.: pausa, encaminhamento, contato com médico).

SOAP completo com exemplo preenchido (avaliação inicial)

A seguir, um exemplo didático de SOAP de avaliação inicial. Ajuste para sua área (ortopedia, neuro, cardio, respiratória, esportiva etc.).

S – Subjetivo (exemplo)

  • Queixa principal: dor anterior no joelho direito ao subir/descer escadas.
  • Início e evolução: há 6 semanas, início gradual após aumento de volume de corrida (relato).
  • Intensidade: EAV 6/10 em escadas; 2/10 em repouso.
  • Comportamento: piora com agachamento e corrida em descida; melhora com repouso relativo.
  • Limitações funcionais: evita escadas; reduziu corrida de 20 km/semana para 5 km/semana.
  • Tratamentos prévios: gelo ocasional; sem fisioterapia anterior para o quadro.
  • Expectativas/objetivo do paciente: voltar a correr 20 km/semana sem dor.
  • Consentimento: paciente orientado sobre avaliação física e testes funcionais; consentimento verbal obtido.

O – Objetivo (exemplo)

  • Observação funcional: dor referida ao descer degrau; valgo dinâmico leve em apoio unipodal (observação).
  • Medida de desfecho: escala funcional específica (registrar nome e escore) – ex.: 62/100.
  • Teste de desempenho: agachamento unilateral: 8 repetições com dor 5/10 a partir da 5ª repetição.
  • Força (exemplo de registro): abdutores de quadril D: 4-/5; E: 4+/5 (método padronizado do serviço).
  • Amplitude de movimento: joelho D: flexão e extensão dentro do esperado; dor leve em flexão profunda.
  • Achados negativos relevantes: sem derrame visível; sem instabilidade referida; sem parestesia.

A – Avaliação (exemplo)

  • Problemas (ROP): P1 dor anterior no joelho D relacionada a carga em flexão; P2 controle motor insuficiente em tarefas unipodais; P3 déficit de força de abdutores de quadril D.
  • Interpretação: quadro compatível com dor anterior no joelho associada a aumento de carga e controle de valgo dinâmico. Limitação funcional principal: escadas e corrida em descida.
  • Prognóstico: favorável com modulação de carga, fortalecimento progressivo e reeducação de movimento (sem sinais de alerta no momento).
  • Critérios de progresso (início): reduzir dor em escadas para ≤2/10; melhorar escore funcional em ≥10 pontos; executar agachamento unilateral 10 repetições com dor ≤2/10.

P – Plano (exemplo)

  • Frequência/duração: 2x/semana por 4 semanas, com reavaliação na 4ª semana.
  • Educação e modulação de carga: orientar redução temporária de corrida em descida; manter atividade dentro de dor tolerável (ex.: ≤3/10 durante e sem piora sustentada no dia seguinte).
  • Exercícios terapêuticos (dose exemplo): fortalecimento de abdutores/extensores de quadril e quadríceps em cadeia cinética fechada, 3 séries de 8–12 repetições, progressão por tolerância.
  • Treino de movimento: feedback para alinhamento em agachamento e step-down, 2–3 blocos de prática com pausas.
  • Recursos complementares: se necessário, estratégias para analgesia pós-sessão (registrar qual e parâmetros quando aplicável).
  • Plano domiciliar: 3–4x/semana, exercícios A/B (descrever), registrar adesão na próxima sessão.
  • Encaminhamento/contato: se piora progressiva, derrame, travamento ou incapacidade de sustentar carga, orientar reavaliação médica.

Evolução por sessão (SOAP) com exemplos práticos

Modelo de evolução (estrutura mínima)

  • S: sintomas desde a última sessão, resposta ao plano domiciliar, eventos/intercorrências.
  • O: medidas rápidas comparáveis (dor, repetição, carga, tempo, escala), execução e tolerância, parâmetros de recursos (se usados).
  • A: interpretação do progresso (melhorou/piorou/estável) e por quê; problemas ativos.
  • P: manter/progredir/regredir; ajustes de dose; tarefas domiciliares; data da próxima reavaliação.

Exemplo de evolução – Sessão 2

Data/hora: 12/03/2026 – 14:00 | Sessão: 2/8

S: relata dor 4/10 ao descer escadas (antes 6/10). Realizou exercícios domiciliares 3x na semana (relato). Sem novos sintomas.

O: step-down 10 cm: 3 séries de 8 repetições com dor 3/10, alinhamento melhor com feedback verbal. Agachamento unilateral: 10 repetições com dor 3/10 (antes 5/10 a partir da 5ª). Força abdutores D: mantida (4-/5). Sem sinais de intolerância durante sessão.

A: melhora de dor e tolerância à carga (P1) e melhora de controle motor com feedback (P2). Déficit de força (P3) ainda limita progressão de carga.

P: progredir step-down para 12–15 cm se dor ≤3/10; manter fortalecimento 3x8–12 com aumento de resistência leve; reforçar plano domiciliar (A/B) 4x/semana; reavaliar escala funcional na sessão 4.

Exemplo de evolução – Sessão com intercorrência

Data/hora: 19/03/2026 – 14:00 | Sessão: 4/8

S: relata piora de dor para 7/10 após corrida longa no fim de semana; dor em repouso 3/10. Nega trauma direto. Sem sintomas neurológicos associados (relato).

O: teste funcional reduzido por dor: step-down interrompido na 4ª repetição (dor 6/10). Sem aumento visível de edema; marcha com leve antalgia. Medida de desfecho: 58/100 (queda em relação a 62/100 inicial).

A: provável exacerbação por aumento agudo de carga (P1). Sem sinais objetivos de instabilidade/derrame no momento, porém tolerância à carga reduzida. Necessário regredir temporariamente e reforçar modulação de carga.

P: regredir exercícios para variações com menor demanda (ex.: amplitude reduzida), manter dor alvo ≤3/10; orientar suspensão temporária de corrida e retorno gradual; reavaliar em 1 semana com medidas comparáveis; registrar orientação e entendimento do paciente.

Templates reutilizáveis (copiar e usar)

Template – Avaliação inicial (SOAP ampliado)

IDENTIFICAÇÃO: Nome/ID | Data/hora | Profissional | Local | Tipo: Avaliação inicial

S (Subjetivo)
- Queixa principal:
- Início/duração/evolução:
- Localização/irradiação (se aplicável):
- Intensidade (escala):
- Fatores de piora/melhora:
- Limitações funcionais (tarefas específicas):
- Histórico relevante (comorbidades/medicações quando pertinente):
- Tratamentos prévios e resposta:
- Objetivo do paciente:
- Consentimento: (verbal/escrito) + observações

O (Objetivo)
- Observação/inspeção funcional relevante:
- Medidas de desfecho (nome + escore):
- Testes funcionais (resultado + dor/qualidade):
- Medidas físicas principais (ADM/força/etc. conforme caso):
- Achados positivos relevantes:
- Achados negativos relevantes (o que foi testado e não apareceu):
- Segurança/tolerância (se aplicável):

A (Avaliação)
- Lista de problemas (P1, P2, P3...):
- Interpretação clínica do estado atual:
- Fatores contribuintes/hipóteses funcionais:
- Prognóstico (justificativa breve):
- Metas e critérios mensuráveis (curto/médio prazo):

P (Plano)
- Frequência/duração e data de reavaliação:
- Intervenções planejadas (dose/parâmetros quando aplicável):
- Educação/orientações:
- Plano domiciliar (o quê, dose, progressão):
- Critérios de progressão/regressão:
- Encaminhamentos/contatos (se necessário):
- Assinatura/registro profissional:

Template – Evolução por sessão (SOAP)

IDENTIFICAÇÃO: Nome/ID | Data/hora | Sessão X/Y | Profissional

S
- Dor (escala) + situação funcional desde última sessão:
- Adesão ao plano domiciliar (frequência) + resposta:
- Intercorrências/medicações/novos sintomas:

O
- Medidas rápidas comparáveis (ex.: dor em tarefa, repetições, tempo, escore):
- Execução/tolerância às intervenções:
- Parâmetros de recursos (se usados):

A
- Status: melhorou/piorou/estável (com base em quais medidas):
- Problemas ativos (P1, P2...):
- Barreiras/ajustes necessários:

P
- Manter/progredir/regredir (o quê e quanto):
- Atualização do plano domiciliar:
- Próxima reavaliação (data/medidas):
- Assinatura/registro profissional:

Template – Reavaliação (comparativa e orientada por problemas)

IDENTIFICAÇÃO: Nome/ID | Data/hora | Tipo: Reavaliação | Profissional

1) Medidas comparativas (inicial vs atual)
- Dor (situação padrão):
- Escala funcional (nome):
- Teste funcional principal (qual):
- Medidas físicas-chave (as mesmas do início):

2) Problemas (ROP)
- P1: status (resolvido/melhorou/ativo) + evidência
- P2: status + evidência
- P3: status + evidência

3) Análise
- O que funcionou (resposta às intervenções):
- O que limitou (adesão, carga, barreiras):
- Necessidade de ajustar hipóteses/estratégia:

4) Plano atualizado
- Novas metas e critérios:
- Progressões/regressões:
- Frequência e nova data de reavaliação:
- Encaminhamentos (se aplicável):
- Assinatura/registro profissional:

Erros comuns a evitar (checklist rápido)

ErroPor que é um problemaComo corrigir
Plano sem ligação com achadosNão mostra justificativa clínicaNa Avaliação, liste problemas; no Plano, associe condutas a cada problema
Texto subjetivo/julgamentosGera ruído e risco ético-legalTroque por medidas e descrições observáveis
Não registrar achados negativos relevantesPerde evidência de triagem e segurançaInclua 2–5 negativos pertinentes ao caso
Sem rastreabilidade (data/assinatura)Fragiliza o prontuárioPadronize cabeçalho e assinatura em todo registro
Abreviações confusasRisco de interpretação erradaUse apenas abreviações padronizadas do serviço
Não registrar consentimento quando necessárioRisco ético e de comunicaçãoInclua frase objetiva de orientação e consentimento (verbal/escrito)
Não documentar dose/parâmetrosDificulta replicação e auditoriaRegistre séries/reps/carga/tempo e parâmetros de recursos
Reavaliação sem medidas comparáveisNão demonstra evoluçãoRepita as mesmas medidas-chave do início

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao integrar SOAP com Registro Orientado por Problemas (ROP), qual prática torna a evolução mais consistente e facilita auditoria e reavaliações?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

No ROP, a lista de problemas ativos organiza o caso. Integrar com SOAP significa referenciar os problemas na A e definir no P condutas e critérios de progresso por problema, aumentando consistência e rastreabilidade.

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Comunicação interprofissional na Avaliação Fisioterapêutica: encaminhamentos e relatórios

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