Dilatação térmica em líquidos e gases: comportamento, limitações e cuidados

Capítulo 5

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

+ Exercício

Por que líquidos e gases são tratados principalmente por dilatação volumétrica

Em sólidos, é comum acompanhar a dilatação em uma direção (linear) ou em uma área (superficial) porque o objeto mantém forma e dimensões bem definidas. Já líquidos e gases não têm forma própria: eles se ajustam ao recipiente. Por isso, o efeito mais direto e mensurável do aquecimento é a variação de volume do fluido (dilatação volumétrica).

Em muitas situações do cotidiano, a pergunta prática é: “quanto o volume do fluido muda quando a temperatura muda?”. Para líquidos (em intervalos moderados de temperatura), usa-se frequentemente a aproximação:

ΔV = β · V0 · ΔT

onde V0 é o volume inicial, ΔT é a variação de temperatura e β é o coeficiente de dilatação volumétrica do líquido (depende da substância e da faixa de temperatura).

Leitura rápida: o que muda mais, líquido ou gás?

  • Líquidos: em geral têm β pequeno, então a variação de volume é perceptível, mas moderada.
  • Gases: são muito mais sensíveis à temperatura. Em condições comuns, pequenas variações de T podem causar grandes variações de V (se a pressão for mantida aproximadamente constante) ou grandes variações de P (se o volume for mantido constante).

Cuidados conceituais essenciais: recipiente também dilata

Quando um líquido está dentro de um recipiente (tanque, frasco, termômetro), o que você observa pode ser a dilatação do líquido, a dilatação do recipiente, ou a combinação dos dois. Isso afeta diretamente a interpretação de enunciados e medições.

Dilatação real × dilatação aparente (líquido + recipiente)

Considere um líquido em um recipiente que também se expande ao aquecer. O líquido tende a aumentar de volume, mas o recipiente também aumenta sua capacidade interna. A leitura “do quanto subiu” pode corresponder a uma dilatação aparente menor do que a dilatação real do líquido.

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Uma forma prática de organizar o raciocínio é separar:

  • Dilatação real do líquido: quanto o líquido aumentaria se estivesse em um recipiente que não mudasse de volume.
  • Dilatação do recipiente: quanto a capacidade interna do recipiente aumenta com a temperatura.
  • Dilatação aparente: diferença entre as duas (o que “sobra” para aparecer como aumento de nível/volume medido).

Em muitos problemas, aparece a relação:

ΔV_aparente = ΔV_líquido − ΔV_recipiente

Se o enunciado não disser que o recipiente é rígido, é prudente considerar a possibilidade de dilatação do recipiente, especialmente em medições de precisão (termômetros, vidrarias, tanques metálicos).

Passo a passo prático: como decidir se o recipiente importa

  1. Identifique o que está sendo medido: nível, volume “lido” numa escala, volume transbordado, pressão, etc.
  2. Verifique o tipo de sistema: recipiente aberto (pressão ~ constante), recipiente fechado (volume fixo ou quase), presença de folgas/expansão.
  3. Procure pistas no enunciado: “recipiente rígido”, “despreze a dilatação do recipiente”, “tanque metálico”, “vidro”, “calibrado a 20 °C”.
  4. Escolha a grandeza correta: se a leitura depende do recipiente, use dilatação aparente; se o recipiente é rígido, use dilatação real do líquido.
  5. Declare a hipótese antes de calcular: isso evita usar fórmulas incompatíveis com a situação física.

Líquidos em situações comuns: nível, transbordamento e termômetros

1) Nível de combustível em tanque: o que muda na leitura?

Combustíveis (gasolina, etanol, diesel) expandem com a temperatura. Isso afeta:

  • Volume ocupado no tanque (pode aumentar com o aquecimento).
  • Leitura de nível (altura da coluna), que depende da geometria do tanque e da dilatação do próprio tanque.

Em tanques de veículos, normalmente a preocupação prática é que o volume do combustível aumenta ao aquecer, mas o tanque também pode dilatar um pouco. Em problemas didáticos, o enunciado costuma simplificar para “tanque rígido” ou “despreze a dilatação do tanque”.

Exemplo contextualizado (interpretação): Um tanque rígido contém 50 L de combustível a 15 °C. Após ficar ao sol, a temperatura vai a 35 °C. Pergunta-se o novo volume do combustível. Aqui, a hipótese “tanque rígido” indica que você calcula a dilatação do líquido diretamente por ΔV = β·V0·ΔT e interpreta o resultado como o volume que o combustível “tentaria” ocupar. Se o tanque estiver completamente cheio, isso pode implicar transbordamento ou aumento de pressão (dependendo de haver respiro).

2) Líquidos em termômetros: por que a escala depende do vidro?

Em termômetros de líquido (como álcool ou mercúrio), a leitura é baseada na altura da coluna no capilar. O que faz a coluna subir é a diferença entre:

  • o quanto o líquido se expande;
  • o quanto o vidro (reservatório e capilar) também se expande.

Por isso, a calibração do termômetro já “embute” a dilatação do vidro. Em exercícios, quando se pede para comparar líquidos termométricos ou discutir sensibilidade, é comum assumir que o recipiente é o mesmo e focar no líquido; mas conceitualmente, a leitura é um efeito combinado.

Problema contextualizado: Dois termômetros idênticos (mesmo vidro e geometria) usam líquidos diferentes. Qual é mais sensível? A resposta depende de qual líquido tem maior dilatação volumétrica efetiva em relação ao vidro, pois maior ΔV_aparente tende a produzir maior deslocamento da coluna para o mesmo ΔT.

3) Recipiente fechado com líquido: transbordamento ou pressão?

Se um recipiente está totalmente preenchido com líquido e é aquecido, o líquido tenta expandir. Se o recipiente for rígido e não houver espaço, o volume não pode aumentar: a consequência pode ser aumento de pressão (e risco de ruptura), não “aumento de volume”.

Em muitos exercícios introdutórios, evita-se calcular a pressão e pergunta-se apenas se transborda (recipiente aberto) ou se há risco (recipiente fechado). O ponto-chave é: volume só aumenta se houver como aumentar. Caso contrário, outra grandeza (pressão) é que muda.

Gases: alta sensibilidade à temperatura e necessidade de hipóteses

Para gases, a variação de volume com temperatura depende fortemente de como a pressão e a quantidade de gás se comportam. Em problemas escolares, a modelagem mais comum é o gás ideal, com:

P·V = n·R·T

Daí, surgem três “casos-padrão” que o enunciado precisa deixar claro (ou você precisa explicitar como hipótese):

  • Pressão constante (P constante): V ∝ T (em Kelvin). Então V2/V1 = T2/T1.
  • Volume constante (V constante): P ∝ T (em Kelvin). Então P2/P1 = T2/T1.
  • Temperatura constante (T constante): P ∝ 1/V.

Como gases são muito compressíveis, uma mesma variação de temperatura pode gerar variações grandes de volume (se puder expandir) ou de pressão (se estiver confinado). Por isso, em recipientes fechados, o cuidado com segurança e interpretação é maior do que em líquidos.

Passo a passo prático: como resolver problemas de gases sem cair em armadilhas

  1. Converta temperaturas para Kelvin quando usar proporcionalidades do gás ideal (V ∝ T, P ∝ T).
  2. Identifique o que está constante: o enunciado diz “recipiente rígido” (volume constante)? Diz “aberto à atmosfera” (pressão aproximadamente constante)?
  3. Verifique se a quantidade de gás muda: há vazamento? válvula aberta? Se n muda, as relações simples V2/V1 = T2/T1 podem falhar.
  4. Escolha a forma adequada da equação: use P1V1/T1 = P2V2/T2 quando apenas uma grandeza não estiver constante.
  5. Declare as hipóteses (gás ideal, sem vazamento, pressão externa constante, etc.).

Problemas contextualizados com orientação de hipóteses

Problema 1 — Nível de combustível e leitura no painel

Enunciado: Um tanque (assuma rígido) contém 40 L de combustível a 10 °C. Após aquecer para 30 °C, estime o volume do combustível. Discuta se a leitura de “nível” necessariamente aumenta na mesma proporção do volume.

Como explicitar hipóteses:

  • Tanque rígido: despreza dilatação do tanque.
  • Combustível tratado como líquido com β constante no intervalo.
  • Sem evaporação significativa e sem vazamentos.

Roteiro de solução: Use ΔV = β·V0·ΔT para obter V = V0 + ΔV. Para a leitura de nível, observe que depende da geometria do tanque: se a seção transversal varia com a altura, a relação “nível ↔ volume” não é linear.

Problema 2 — Termômetro: líquido e vidro aquecem juntos

Enunciado: Um termômetro de líquido foi calibrado. Ao aquecer, a coluna sobe. Explique por que não basta considerar apenas a dilatação do líquido e como a dilatação do vidro entra como correção.

Como explicitar hipóteses:

  • O vidro e o líquido atingem a mesma temperatura (equilíbrio térmico local).
  • O capilar e o bulbo dilatam com o mesmo coeficiente volumétrico efetivo do material do recipiente.

Roteiro conceitual: A subida da coluna está ligada ao excesso de expansão do líquido em relação ao aumento de capacidade do recipiente. Em termos de volumes: ΔV_aparente = ΔV_líquido − ΔV_vidro.

Problema 3 — Recipiente fechado com líquido: quando não há “ΔV” observável

Enunciado: Uma garrafa rígida está completamente cheia de água e é tampada. Ao aquecer, o que é mais adequado prever: aumento de volume, aumento de pressão ou transbordamento?

Como explicitar hipóteses:

  • Garrafa rígida: volume interno constante.
  • Sem bolha de ar (sem espaço para expansão).
  • Tampa não permite vazamento.

Roteiro de interpretação: Como o volume não pode aumentar, a tendência de expansão se manifesta como aumento de pressão (e possível falha mecânica). Se o recipiente não fosse rígido, poderia haver deformação; se fosse aberto, poderia transbordar.

Problema 4 — Gás em seringa: pressão constante versus volume constante

Enunciado: Um gás está em uma seringa com êmbolo móvel. Ao aquecer, o volume aumenta. Agora considere o mesmo gás em um frasco rígido fechado: ao aquecer, o que aumenta?

Como explicitar hipóteses:

  • Seringa: êmbolo se move sem atrito relevante; pressão interna ~ pressão externa (aprox. constante).
  • Frasco rígido: volume constante; sem vazamento; gás ideal.

Roteiro de solução: Na seringa, use V2/V1 = T2/T1 (temperaturas em Kelvin). No frasco rígido, use P2/P1 = T2/T1.

Como escrever (e ler) hipóteses no enunciado

Expressão no enunciadoInterpretação físicaConsequência típica
“recipiente rígido”V constanteem gases: P varia com T; em líquidos: pode haver aumento de pressão
“recipiente aberto” / “à pressão atmosférica”P aproximadamente constanteem gases: V varia com T; em líquidos: pode transbordar
“despreze a dilatação do recipiente”capacidade do recipiente constanteuse dilatação real do líquido
“considere a dilatação do recipiente”capacidade aumenta com Tuse dilatação aparente: líquido − recipiente
“sem vazamento” / “válvula fechada”n constantepode usar relações do gás ideal sem ajustar quantidade
“com vazamento” / “válvula aberta”n pode variarrelações simples podem falhar; precisa modelar saída/entrada

Exercícios (foco em interpretação e escolha de fórmulas)

  1. Um líquido está em um frasco de vidro com marca de 1,0 L. O conjunto é aquecido em 20 °C. O enunciado pede “o volume indicado na marcação”. Você deve usar dilatação real do líquido ou dilatação aparente? Justifique explicitando o que está sendo medido.

  2. Um tanque metálico contém 200 L de um líquido a 25 °C. Ao aquecer para 45 °C, o problema pergunta “quanto transborda” por um ladrão (saída no topo). Quais hipóteses são necessárias sobre: (i) tanque aberto/fechado, (ii) tanque inicialmente cheio ou com folga, (iii) considerar ou não a dilatação do tanque?

  3. Um recipiente rígido está completamente cheio de um líquido e é aquecido. O enunciado fornece β do líquido e pergunta “o aumento de volume”. Explique por que essa pergunta é fisicamente inadequada sem uma hipótese adicional e proponha duas reformulações corretas do enunciado.

  4. Um gás em um cilindro com êmbolo móvel é aquecido de 300 K para 360 K, mantendo pressão aproximadamente constante. Determine a razão V2/V1 e indique qual frase do enunciado garante a hipótese usada.

  5. O mesmo gás do exercício anterior é colocado em um frasco rígido e aquecido de 300 K para 360 K. Determine a razão P2/P1 e indique qual frase do enunciado garante a hipótese usada.

  6. Um enunciado diz: “um balão fechado é aquecido”. Liste pelo menos três interpretações possíveis (balão flexível, balão rígido, possibilidade de vazamento) e, para cada uma, diga qual grandeza tende a variar mais diretamente (V, P ou n).

  7. Um termômetro de líquido apresenta menor variação de altura da coluna do que o esperado ao aquecer. Cite duas causas conceituais compatíveis com o tema do capítulo (uma relacionada ao recipiente e outra relacionada ao líquido) e indique como isso se conecta à ideia de dilatação aparente.

  8. Um tanque de combustível tem formato irregular. O enunciado fornece apenas β do combustível e V0. Ele pede “quanto o nível sobe”. Explique por que faltam dados e quais informações geométricas seriam necessárias para relacionar ΔV com variação de altura.

  9. Um gás é aquecido em um recipiente “fechado, mas com válvula de alívio”. Explique por que a hipótese de n constante pode falhar e qual consequência isso tem ao tentar usar P1V1/T1 = P2V2/T2.

  10. Um líquido é aquecido dentro de um recipiente que também dilata. O enunciado fornece β do líquido e o coeficiente volumétrico do material do recipiente. Escreva a expressão simbólica para o volume aparente após um ΔT, deixando claro o que você está chamando de V0 (líquido inicial ou capacidade inicial do recipiente).

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao aquecer um líquido dentro de um recipiente que também dilata, o que a leitura de aumento de volume (ou subida de nível) normalmente representa?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Como o recipiente também se expande, parte da expansão do líquido é “compensada” pelo aumento da capacidade interna. Assim, o que se observa na leitura tende a ser a dilatação aparente: ΔV_aparente = ΔV_líquido − ΔV_recipiente.

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Calor sensível em termologia: variação de temperatura e a relação Q = m·c·ΔT

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