O que é calor sensível
Calor sensível é a energia térmica transferida para um corpo (ou retirada dele) que provoca variação de temperatura sem mudança de fase. Ou seja: a substância continua no mesmo estado físico (sólido, líquido ou gasoso), mas fica mais quente ou mais fria.
Exemplos típicos de calor sensível: aquecer água de 20 °C para 60 °C (continua líquida), resfriar um refrigerante de 25 °C para 5 °C (continua líquido), aquecer uma panela metálica no fogão (continua sólida).
Construindo a relação Q = m·c·ΔT (dedução operacional)
Na prática, observa-se experimentalmente que, quando não há mudança de fase:
- Quanto maior a massa do corpo, maior a energia necessária para produzir a mesma variação de temperatura.
- Quanto maior a variação de temperatura, maior a energia necessária.
- Materiais diferentes exigem quantidades diferentes de energia para a mesma massa e a mesma variação de temperatura (água “demora” mais para aquecer do que metal, por exemplo).
Essas três dependências podem ser organizadas como uma proporcionalidade:
Q ∝ m e Q ∝ ΔT e Q ∝ (propriedade do material)
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Juntando tudo em uma única expressão, introduzimos uma constante do material chamada calor específico (c):
Q = m · c · ΔT
Essa é uma “dedução operacional”: ela nasce de regularidades experimentais e define o papel físico de c como o fator que liga energia, massa e variação de temperatura.
O significado físico de c (calor específico)
O calor específico é a energia necessária para elevar a temperatura de 1 kg de uma substância em 1 K (ou 1 °C de variação). Em termos de unidades:
cemJ/(kg·K)(ouJ/(kg·°C)quando se trata de variação)
Interpretação direta: se a água tem calor específico alto, ela precisa de muita energia para aumentar sua temperatura; por isso, aquecer água costuma exigir mais energia do que aquecer a mesma massa de metal.
Variáveis e unidades (com atenção às variações)
| Grandeza | Símbolo | O que representa | Unidade SI |
|---|---|---|---|
| Calor (energia transferida) | Q | Energia recebida (+) ou cedida (−) na forma de calor | J |
| Massa | m | Quantidade de matéria do corpo | kg |
| Calor específico | c | “Dificuldade” do material em variar a temperatura | J/(kg·K) |
| Variação de temperatura | ΔT | Diferença entre temperatura final e inicial | K (ou °C para variação) |
Como calcular ΔT corretamente (e evitar confusão com “temperatura negativa”)
Por definição:
ΔT = T_final − T_inicial
- Se
ΔT > 0, a temperatura aumentou (aquecimento). - Se
ΔT < 0, a temperatura diminuiu (resfriamento).
Um ΔT negativo não significa “temperatura negativa” do corpo; significa apenas que a temperatura final é menor que a inicial.
Sinal de Q e sentido de ganho/perda de calor
Na convenção mais usada em exercícios:
- Q > 0: o corpo recebe calor (ganha energia térmica) e tende a aquecer (
ΔTgeralmente positivo). - Q < 0: o corpo cede calor (perde energia térmica) e tende a resfriar (
ΔTgeralmente negativo).
Se você usar Q = m·c·ΔT com ΔT calculado como Tf − Ti, o sinal de Q sai automaticamente coerente (desde que m e c sejam positivos).
Conversões essenciais antes de aplicar a fórmula
1) g ↔ kg
1 kg = 1000 gm(kg) = m(g) / 1000
Exemplo rápido: 250 g = 0,250 kg.
2) °C ↔ K (para variações)
Para variação de temperatura, o tamanho do grau é o mesmo:
ΔT em °C = ΔT em K
Exemplo: de 20 °C para 70 °C, ΔT = 50. Isso equivale a 50 K de variação.
Atenção: isso vale para diferenças (ΔT). Não é uma regra para converter temperaturas absolutas sem cuidado (isso já foi tratado em capítulos anteriores).
Exemplos do cotidiano (com passo a passo)
Exemplo 1: aquecer água (energia necessária)
Problema: Qual a energia necessária para aquecer 0,50 kg de água de 20 °C para 80 °C? Use c_água = 4200 J/(kg·K).
Passo 1 — Dados: m = 0,50 kg, Ti = 20 °C, Tf = 80 °C, c = 4200 J/(kg·K).
Passo 2 — Variação de temperatura: ΔT = 80 − 20 = 60 (°C ou K).
Passo 3 — Aplicar a fórmula:
Q = m·c·ΔT = 0,50 · 4200 · 60
Q = 126000 J (ou 1,26×10^5 J).
Leitura física: é uma energia considerável; por isso aquecer água demanda tempo e potência do fogão/resistência.
Exemplo 2: resfriar uma bebida (Q negativo)
Problema: Uma lata de refrigerante (massa aproximada do líquido 350 g) é resfriada de 25 °C para 5 °C. Adote c = 4200 J/(kg·K) (aproximação como água). Calcule o calor trocado pelo refrigerante.
Passo 1 — Conversão de massa: 350 g = 0,350 kg.
Passo 2 — ΔT: ΔT = 5 − 25 = −20.
Passo 3 — Fórmula:
Q = 0,350 · 4200 · (−20)
Q = −29400 J.
Interpretação: o sinal negativo indica que o refrigerante cedeu 29,4 kJ de energia térmica ao ambiente/geladeira (ou ao gelo), por isso esfriou.
Exemplo 3: panela no fogão (comparação de materiais)
Ideia prática: uma panela metálica costuma aquecer (e esfriar) mais rapidamente que a água dentro dela. Um dos motivos é que muitos metais têm calor específico menor que o da água. Assim, para a mesma massa e o mesmo Q, o metal tende a ter ΔT maior do que a água.
Se dois corpos recebem a mesma energia Q:
ΔT = Q/(m·c)
Logo, quanto menor c, maior a variação de temperatura obtida com a mesma energia.
Exercícios graduais (com conversões e sinal)
Exercício 1 (direto)
Calcule Q para aquecer 2,0 kg de água de 30 °C para 35 °C (c = 4200 J/(kg·K)).
Gabarito (resultado): ΔT = 5 ⇒ Q = 2,0·4200·5 = 42000 J.
Exercício 2 (com g → kg)
Um bloco de alumínio de 200 g recebe 1800 J. Sabendo que c_al = 900 J/(kg·K), determine ΔT.
Passos essenciais: m = 0,200 kg; ΔT = Q/(m·c) = 1800/(0,200·900) = 10 K.
Gabarito (resultado): ΔT = 10 (ou 10 °C de variação).
Exercício 3 (resfriamento e sinal)
Uma massa de 0,80 kg de água vai de 60 °C para 20 °C. Calcule Q (c = 4200 J/(kg·K)).
Gabarito (resultado): ΔT = 20 − 60 = −40 ⇒ Q = 0,80·4200·(−40) = −134400 J.
Exercício 4 (mistura de unidades e checagem)
Um recipiente contém 750 g de água a 18 °C. Quanto calor é necessário para chegar a 90 °C? Use c = 4200 J/(kg·K).
Gabarito (resultado): m = 0,750 kg; ΔT = 72; Q = 0,750·4200·72 = 226800 J.
Método padrão de resolução (roteiro em passos)
1) Dados
- Identifique
m,c,TieTf. - Confirme que é um caso de calor sensível (sem mudança de fase).
2) Conversões
- Converta massa para
kg(se vier em g). - Calcule
ΔT = Tf − Ti(em °C ou K; para variação, tanto faz). - Verifique se
cestá emJ/(kg·K)(ou unidade equivalente).
3) Fórmula
- Use
Q = m·c·ΔT. - Deixe o sinal aparecer naturalmente via
ΔT(aquecimento: positivo; resfriamento: negativo).
4) Verificação de plausibilidade
- Ordem de grandeza: aquecer água costuma dar valores grandes (dezenas a centenas de kJ para massas do dia a dia e variações de dezenas de graus).
- Sinal: se a temperatura diminuiu,
ΔTdeve ser negativo eQtambém. - Unidade final:
Qdeve sair emJ.