Didática Inclusiva para TDAH e funções executivas: atenção, organização e autorregulação

Capítulo 11

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

TDAH e funções executivas: o que isso muda na aprendizagem

No contexto escolar, TDAH costuma se manifestar como dificuldade persistente em sustentar a atenção, iniciar tarefas, manter o foco em etapas longas, organizar materiais e tempo, inibir impulsos e regular emoções. Essas habilidades são chamadas de funções executivas: um conjunto de processos que ajudam o estudante a planejar, priorizar, monitorar o próprio desempenho e ajustar o comportamento conforme a meta.

Na prática, isso significa que o estudante pode saber o conteúdo, mas ter dificuldade em mostrar o que sabe quando a tarefa exige planejamento longo, muitas instruções de uma vez, espera prolongada, cópia extensa, ou quando há muitos estímulos competindo pela atenção.

Princípio de ajuste didático

Em vez de aumentar cobranças genéricas (“preste atenção”), o foco é reduzir carga executiva (o quanto a tarefa exige de planejamento, memória de trabalho e autocontrole) e aumentar apoios visíveis (metas claras, passos curtos, monitoramento rápido e feedback de esforço).

Ajustando demandas de atenção e planejamento

1) Tarefas em blocos curtos (chunking)

Blocos curtos diminuem a sensação de “tarefa infinita” e facilitam o início. Um bom bloco tem começo e fim claros e um critério simples de sucesso.

  • Exemplo (produção de texto): em vez de “escreva um texto de 20 linhas”, usar: (1) escolha tema e escreva 3 palavras-chave; (2) escreva uma frase de abertura; (3) escreva 3 frases de desenvolvimento; (4) escreva uma frase de fechamento; (5) revise pontuação em 2 minutos.
  • Exemplo (matemática): “faça 12 exercícios” vira “faça 4 exercícios, confira com gabarito/feedback, faça mais 4, pausa curta com movimento, finalize 4”.

2) Metas visíveis e critérios de pronto

Metas visíveis funcionam como “bússola” durante a atividade. Elas devem estar no quadro, em um cartão na mesa ou no próprio enunciado.

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  • Modelo de meta: “Em 10 minutos, vou completar as questões 1 e 2 e marcar com um ✓ quando terminar”.
  • Critério de pronto: “Pronto = respondi, conferi se coloquei unidade, e assinei meu nome”.

3) Checklists (para iniciar, manter e finalizar)

Checklists reduzem a dependência de memória de trabalho e ajudam a concluir tarefas (um ponto crítico no TDAH). Use listas curtas, com verbos de ação.

Checklist de sala (exemplo para atividades escritas):

  • Li o enunciado e sublinhei o que é para fazer
  • Separei material (caderno, lápis, régua)
  • Fiz a primeira parte
  • Conferi uma vez
  • Entreguei no local certo

4) Timers e “tempo externo”

Muitos estudantes com TDAH têm dificuldade de perceber passagem do tempo. O timer torna o tempo “visível” e apoia o ritmo.

  • Como usar: combine um bloco (ex.: 8 minutos), mostre o timer, e ao final faça uma checagem rápida: “o que avançou?”
  • Boa prática: timer para começar (2 minutos para iniciar) e timer para manter (8–12 minutos de foco), alternando com pausas curtas.

5) Instruções segmentadas e checagem de compreensão

Instruções longas aumentam erros por perda de informação. Segmentar é dar uma etapa, garantir que foi compreendida, e só então avançar.

Passo a passo prático (roteiro do professor):

  • Passo 1: dê a instrução em uma frase (ex.: “Abra na página 32 e faça a questão 1”).
  • Passo 2: peça uma repetição breve (“O que você vai fazer primeiro?”).
  • Passo 3: mostre um exemplo pronto (modelo) quando possível.
  • Passo 4: só depois adicione a próxima etapa (“Agora faça a questão 2”).

Dica de linguagem: prefira verbos concretos (circule, sublinhe, escreva, marque) e evite múltiplas condições na mesma frase.

6) Oportunidades de movimento com propósito

Movimento não é “pausa aleatória”; é uma estratégia para regular ativação e atenção. O objetivo é permitir movimento planejado sem interromper a aprendizagem.

  • Funções de sala: entregar materiais, apagar quadro, buscar folhas, organizar livros por equipe.
  • Movimento acadêmico: estações de atividade, leitura em pé por 3 minutos, “galeria” para ver respostas no mural.
  • Acordo simples: “Quando terminar o bloco 1, você pode fazer 1 tarefa de movimento por 2 minutos e volta para o bloco 2”.

Estratégias de autorregulação e monitoramento

Autoavaliação rápida (check-in/check-out)

Autoavaliação curta ensina o estudante a perceber o próprio estado e ajustar estratégias. Deve ser rápida, objetiva e repetível.

Modelo 30 segundos (no início e no fim):

  • Antes: “Meu foco agora está: baixo / médio / alto. O que vai me ajudar? (timer / checklist / sentar na frente / fone abafador / pedir para repetir instrução)”.
  • Depois: “Completei: 0% / 50% / 100%. O que funcionou? O que vou tentar no próximo bloco?”

Registro simples: um cartão semanal com 5 linhas (uma por dia) para marcar com X e uma palavra (“timer”, “pausa”, “modelo”).

Contratos de comportamento positivos (com metas observáveis)

Contratos funcionam melhor quando descrevem comportamentos observáveis e metas pequenas, com reforço por esforço e consistência (não apenas por resultado).

Passo a passo prático:

  • Passo 1 (definir 1 comportamento-alvo): ex.: “iniciar a atividade em até 2 minutos”.
  • Passo 2 (definir apoio): “usar checklist + timer de 2 minutos”.
  • Passo 3 (definir critério): “conseguiu em 3 de 5 aulas na semana”.
  • Passo 4 (definir reforço): escolha breve e viável (ex.: escolher a ordem das questões, ser monitor de material, 5 minutos de leitura de interesse ao final, adesivo no quadro de progresso).
  • Passo 5 (revisar semanalmente): manter, ajustar ou trocar a meta.

Evite: metas vagas (“se comportar”), punições como foco principal, e contratos longos com muitas regras.

Reforço de esforço e estratégia (feedback que ensina)

O reforço mais útil para funções executivas destaca o que o estudante fez para conseguir, ajudando a repetir a estratégia.

  • Exemplos de frases: “Você começou rápido quando colocou o timer”, “Você terminou porque foi marcando no checklist”, “Você pediu para eu repetir a instrução antes de errar, boa estratégia”.
  • Formato rápido: elogio específico + próxima ação (“Agora faça o bloco 2 do mesmo jeito”).

Organização de caderno e portfólio (modelos práticos)

Organização do caderno: estrutura fixa e visual

O objetivo é reduzir tempo perdido procurando informações e diminuir a chance de tarefas “sumirem”. A organização precisa ser ensinada e praticada, não apenas cobrada.

Modelo de caderno em 4 partes (com abas ou cores):

  • 1. Agenda/Plano da semana: tarefas e datas (uma página fixa).
  • 2. Aulas (anotações): título + data + 3 tópicos-chave (evitar copiar tudo).
  • 3. Exercícios: sempre iniciar em nova página, numerar questões, deixar margem para correção.
  • 4. Correções/Recuperação: erros comuns e exemplos resolvidos.

Passo a passo prático (10 minutos semanais):

  • Passo 1: conferir se todas as folhas estão coladas/guardadas no lugar certo.
  • Passo 2: destacar com marca-texto onde estão “tarefas pendentes”.
  • Passo 3: escrever a próxima ação ao lado (ex.: “terminar Q3”, “refazer com ajuda”).

Portfólio: evidências curtas e organizadas

Portfólio ajuda a acompanhar progresso sem depender apenas de provas. Para TDAH, funciona melhor com itens pequenos e frequentes.

  • Estrutura sugerida: uma pasta com divisórias: “Produções”, “Avaliações”, “Revisões”, “Metas”.
  • Evidências curtas: 1 atividade por semana com rubrica simples (2–3 critérios), uma autoavaliação de 1 minuto, e uma correção destacando 1 acerto e 1 próximo passo.

Rotina de entrega de atividades (para reduzir esquecimentos)

Esquecimento de entrega é comum quando a rotina depende de muitos passos invisíveis (guardar, lembrar, tirar da mochila, localizar local de entrega). Simplifique e padronize.

Rotina de entrega em 5 passos (sempre igual):

  • 1. Sinal fixo: no início da aula, 2 minutos para “entregas”.
  • 2. Local único: uma bandeja/caixa identificada por turma (sempre no mesmo lugar).
  • 3. Conferência rápida: checklist no quadro: “Nome? Data? Página certa?”
  • 4. Registro: o estudante marca no próprio checklist/agenda: “entregue ✓”.
  • 5. Plano B: se esqueceu, combinar um canal único de regularização (ex.: entregar na próxima aula no início, sem exposição pública).

Adaptação útil: permitir foto da atividade como “comprovante” quando a entrega física falhar, e depois regularizar a versão final.

Adaptações de avaliação: tempo e formato

Em TDAH, avaliações podem medir mais “resistência executiva” do que conhecimento. Ajustes de tempo e formato ajudam a avaliar a aprendizagem com menos interferência de atenção, organização e impulsividade.

Tempo: como ajustar sem perder o objetivo

  • Tempo ampliado: oferecer mais tempo ou dividir a prova em duas partes (com pausa curta).
  • Tempo por bloco: “Você fará primeiro as questões 1–5 em 15 minutos; depois revisa 3 minutos; depois 6–10”.
  • Ambiente: quando possível, local com menos distrações para a avaliação.

Formato: reduzir carga executiva e aumentar clareza

  • Prova segmentada: uma página por vez, ou seções com instruções curtas.
  • Questões com destaque visual: palavras-chave em negrito (ex.: “explique”, “calcule”, “justifique”).
  • Menos itens, mais qualidade: reduzir quantidade repetitiva e manter itens que realmente medem o objetivo.
  • Resposta alternativa: permitir resposta oral, gravação curta, ou uso de organizador gráfico quando o objetivo não for “escrita longa”.
  • Rascunho guiado: oferecer linhas com estrutura (ex.: “Ideia 1 / evidência / conclusão”) para respostas discursivas.

Passo a passo para planejar uma avaliação acessível ao TDAH

  • Passo 1: defina o que será avaliado (conteúdo/habilidade) e o que não deve interferir (ex.: velocidade, cópia extensa).
  • Passo 2: escolha 1–2 apoios executivos (segmentação, tempo ampliado, checklist de revisão).
  • Passo 3: escreva instruções em etapas e inclua um exemplo de resposta quando adequado.
  • Passo 4: inclua um minuto de leitura inicial com marcação do que fazer primeiro (“Comece pela seção A”).
  • Passo 5: ao final, ofereça checklist de revisão (ex.: “assinei o nome”, “revisei contas”, “respondi todas”).

Modelos prontos para uso (copiar e adaptar)

Cartão de foco (na mesa)

Meta do bloco (10 min): ______________________  ✓ quando terminar  [  ]  [  ]  [  ]  (3 passos)  Timer: ____:____  Se eu travar, eu: ( ) releio o enunciado  ( ) peço para repetir  ( ) começo pela parte mais fácil

Checklist de entrega (colado no caderno)

[ ] Coloquei nome e data  [ ] Fiz todas as partes  [ ] Conferi 1 vez  [ ] Marquei na agenda “entregue”  [ ] Entreguei na caixa da turma

Autoavaliação rápida (1 minuto)

Hoje eu consegui…Como eu fizPróximo passo
( ) iniciar rápido ( ) manter foco ( ) terminar( ) timer ( ) checklist ( ) pausa com movimento ( ) pedi ajudaVou tentar: __________________

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao ajustar uma atividade para um estudante com TDAH, qual prática está mais alinhada ao princípio de reduzir a carga executiva e aumentar apoios visíveis?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A estratégia indicada reduz exigências de planejamento e memória de trabalho (blocos curtos) e aumenta apoios visíveis (metas, checklist e timer), facilitando iniciar, manter e finalizar a tarefa.

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