Didática Inclusiva para deficiência visual e auditiva: estratégias multissensoriais e mediação

Capítulo 8

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

Conceito: multissensorialidade e mediação para acesso ao conteúdo

Didática inclusiva para deficiência visual e auditiva consiste em planejar e conduzir a aula para que a informação principal não dependa de um único canal (apenas visão ou apenas audição). Na prática, isso significa: (1) oferecer caminhos equivalentes de acesso (ver, ouvir, tocar, ler), (2) mediar a interação para que a comunicação em sala seja compartilhada e verificável, e (3) antecipar adaptações de materiais (gráficos, vídeos, discussões) para que todos acompanhem o mesmo objetivo de aprendizagem.

“Estratégias multissensoriais” não é “fazer tudo ao mesmo tempo”; é selecionar, para cada atividade, pelo menos dois caminhos de acesso que sejam funcionais e claros. “Mediação” é a ação docente de organizar turnos de fala, explicitar o que está implícito (apontar, mostrar, sussurrar, falar de costas), checar entendimento e garantir que a informação circule para todos.

Deficiência visual: estratégias para tornar conteúdos acessíveis

1) Descrições verbais objetivas (o que dizer e como dizer)

Uma boa descrição verbal substitui o “apontar” e o “olhar aqui”. Ela deve ser objetiva, organizada e conectada ao objetivo da tarefa.

  • Comece pelo todo: “É um gráfico de barras com 3 categorias (A, B, C) e valores de 10, 20 e 15.”
  • Depois vá ao relevante: “A maior barra é B (20). A menor é A (10).”
  • Use referências consistentes: “Da esquerda para a direita…”, “No topo/na base…”, “Na coluna 2…”
  • Evite excesso de adjetivos: prefira dados e relações (“aumenta”, “diminui”, “é o dobro”).
  • Nomeie ações visuais: em vez de “como vocês podem ver”, use “observem/considerem” e descreva o que deve ser considerado.

Exemplo (em sala): ao escrever no quadro, verbalize o que escreve: “Vou registrar a fórmula: velocidade = distância dividido pelo tempo. Agora vou substituir: distância 100 metros, tempo 20 segundos, então velocidade = 100/20 = 5 m/s.”

2) Organização tátil: quando e como usar

Organização tátil é transformar informações espaciais/visuais em referências manipuláveis (relevo, texturas, formas, objetos). Ela é útil para mapas, geometria, gráficos simples, esquemas e organização de etapas.

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Passo a passo prático (modelo rápido):

  1. Defina o que é essencial: quais relações precisam ser percebidas (ordem, comparação, partes do todo, direção).
  2. Escolha um suporte simples: cartolina grossa, EVA, barbante, cola relevo, etiquetas em alto-relevo, objetos do cotidiano.
  3. Padronize texturas: uma textura por categoria (ex.: liso = A, áspero = B, pontilhado = C).
  4. Inclua legenda tátil: pequena área com as texturas e seus significados.
  5. Oriente a exploração: “Comece pela legenda, depois percorra da esquerda para a direita.”
  6. Confirme a leitura: peça que a pessoa descreva o que entendeu (“Qual categoria é maior? Como você percebeu?”).

Exemplo: gráfico de barras em relevo usando tiras de EVA com alturas diferentes, coladas em uma base, com legenda tátil ao lado.

3) Leitura guiada: apoiar sem “dar a resposta”

Leitura guiada é conduzir a compreensão de um texto (impresso ou digital) com instruções claras de navegação e foco, reduzindo a carga de “achar onde está” para aumentar a carga de “entender o que significa”.

Passo a passo prático:

  1. Antecipe a estrutura: “O texto tem 3 parágrafos: definição, exemplo, exercício.”
  2. Defina uma pergunta-guia: “Qual é a ideia central do parágrafo 2?”
  3. Oriente a navegação: “Procure a frase que começa com ‘Portanto’.”
  4. Faça pausas de checagem: “Resuma em uma frase o que mudou do parágrafo 1 para o 2.”
  5. Registre palavras-chave: em lista curta (em áudio ou em texto acessível).

Exemplo: durante a leitura de um problema, o docente diz: “Vou reler o enunciado e separar dados e pergunta. Dados: … Pergunta: … Agora vamos identificar a operação necessária.”

4) Uso de áudio: clareza, sinalização e controle

Áudio acessível não é apenas “ler em voz alta”. É sinalizar mudanças, nomear elementos e manter ritmo que permita processamento.

  • Sinalize transições: “Agora vou para o exemplo”, “Agora vou comparar dois casos”.
  • Evite falar de costas (mesmo para deficiência visual, isso pode reduzir a qualidade do som e a compreensão).
  • Ofereça controle: quando possível, disponibilize gravação/trecho para revisão (ou repita instruções-chave).
  • Descreva ações: “Estou circulando a palavra ‘variável’ no quadro.”

5) Contraste e legibilidade: ajustes simples que mudam o acesso

Para estudantes com baixa visão, contraste e organização visual impactam diretamente a leitura.

  • Alto contraste: texto escuro em fundo claro; evite cinza claro e fundos estampados.
  • Fonte legível: prefira fontes sem muitos ornamentos; tamanho adequado ao estudante.
  • Espaçamento: linhas e margens mais amplas ajudam a localizar informações.
  • Evite excesso de informação por página: quebre em blocos com títulos curtos.
  • Quadro: escreva com boa espessura, organize por colunas, leia o que escreve.

Deficiência auditiva: estratégias para acesso à comunicação e ao conteúdo

1) Apoio visual: tornar a fala “visível”

Quando a informação chega principalmente pela fala, o apoio visual reduz perdas e aumenta autonomia.

  • Roteiro no quadro/slide: tópicos do que será dito (não precisa ser texto longo).
  • Palavras-chave e exemplos escritos: termos técnicos, datas, fórmulas, nomes.
  • Organizadores visuais: tabelas, fluxos, mapas simples (com legenda clara).
  • Demonstração passo a passo: mostrar o procedimento enquanto executa (e não apenas narrar).

2) Legendas e transcrição: quando usar e como preparar

Legendas beneficiam estudantes surdos, com perda auditiva e também quem aprende melhor lendo. Em vídeos, priorize legenda sincronizada; em áudios, ofereça transcrição.

Passo a passo prático (vídeo curto):

  1. Revise o áudio: garanta fala nítida e sem ruído.
  2. Crie legenda fiel: inclua termos técnicos corretamente.
  3. Inclua identificação de falantes quando houver diálogo (“Professor: … / Estudante: …”).
  4. Descreva sons relevantes quando forem parte do conteúdo (“[aplausos]”, “[alarme]”, “[música]” apenas se tiver função didática).
  5. Teste com alguém: verifique se dá para acompanhar sem som.

3) Posicionamento e visibilidade: condições para leitura labial e Libras

  • Fale de frente: evite explicar virado para o quadro.
  • Iluminação no rosto: não fique contra a luz (janela atrás).
  • Distância adequada: nem longe demais, nem com obstáculos.
  • Um falante por vez: especialmente em debates.
  • Se houver intérprete: combine sinais de turno, tempo de espera e onde o intérprete ficará visível.

4) Fala clara e ritmo: reduzir perda de informação

Falar claro não é falar “alto”; é articular, pausar e organizar.

  • Ritmo moderado com pausas após ideias-chave.
  • Evite cobrir a boca (mãos, microfone mal posicionado).
  • Evite falar enquanto anda pela sala sem necessidade; isso muda a direção do som e a visibilidade.
  • Reformule quando perceber confusão: “Vou dizer de outro jeito…”

5) Checagem de entendimento: confirmar sem expor

Checar entendimento é essencial porque “balançar a cabeça” nem sempre significa compreensão.

  • Perguntas específicas: “Qual é o primeiro passo do procedimento?” em vez de “Entendeu?”
  • Mini-tarefas: “Marque no texto onde está a hipótese”, “Escolha a alternativa que resume a ideia”.
  • Paráfrase: peça que alguém resuma em uma frase (oral, escrita ou sinalizada).
  • Canal alternativo: permitir resposta por escrito quando necessário.

Planejamento de aulas que não dependem de um único canal (som ou visão)

Mapa rápido de canais por tipo de atividade

AtividadeRisco de depender de um canalAlternativas equivalentes
Explicação oral com slideSom (fala) + visão (slide)Roteiro escrito + descrição verbal do slide + exemplos manipuláveis
VídeoSom (narração) e/ou visão (imagem)Legendas + audiodescrição/descrição do conteúdo + transcrição
Gráfico no quadroVisãoDescrição estruturada + versão tátil ou tabela com dados
Discussão em grupoSom (várias falas) + leitura labial difícilTurnos + registro escrito das ideias + síntese visual + mediação de fala

Passo a passo prático para planejar uma sequência multicanal

  1. Defina a evidência de aprendizagem: o que o estudante precisa demonstrar (ex.: comparar dados, explicar um conceito, resolver um problema).
  2. Liste os “pontos cegos” do conteúdo: onde normalmente você usa só visão (gráficos, gestos, quadro) ou só som (explicação, debate, áudio).
  3. Crie um par equivalente para cada ponto: se é visual, crie versão verbal/tátil; se é auditivo, crie versão visual/textual.
  4. Planeje a mediação: como você vai organizar turnos, repetir perguntas, registrar sínteses e checar entendimento.
  5. Prepare materiais em camadas: (a) versão principal, (b) versão acessível (tátil/legenda/transcrição/alto contraste), (c) versão de apoio (lista de termos, roteiro, exemplos resolvidos).
  6. Teste a aula “sem som” e “sem visão”: pergunte-se: “Se eu desligar o som, ainda dá para acompanhar? Se eu fechar os olhos, ainda dá para acompanhar?” Ajuste o que falhar.

Organização de atividades em grupo para garantir acesso à comunicação

Regras de interação que funcionam (e como aplicar)

  • Turnos explícitos: uma pessoa fala por vez; o mediador chama pelo nome antes de falar (“Agora, Ana…”).
  • Registro compartilhado: um relator escreve as ideias em linguagem simples e visível (ou em arquivo compartilhado acessível).
  • Sínteses periódicas: a cada 3–5 minutos, alguém resume o que foi decidido.
  • Papel de “ponte”: um integrante fica responsável por garantir que perguntas e respostas circulem (especialmente útil quando há intérprete ou quando há estudante com baixa visão).
  • Materiais acessíveis no centro: coloque objetos, modelos táteis ou folhas em posição alcançável; descreva o que está sendo manuseado.

Passo a passo prático (atividade de grupo com discussão)

  1. Antes de começar: escreva no quadro o objetivo, o tempo e os critérios do produto final (ex.: “Entregar 3 argumentos + 1 exemplo”).
  2. Distribua papéis: mediador de turnos, relator, controlador de tempo, responsável por checagem de entendimento.
  3. Defina o protocolo de fala: “Falar de frente, dizer o nome antes, repetir perguntas do grupo.”
  4. Durante: o relator registra; o mediador faz pausas para síntese; o professor circula checando se todos têm acesso ao que está sendo dito/mostrado.
  5. Compartilhamento: na apresentação, o grupo lê o registro (para acessibilidade auditiva/visual) e descreve qualquer elemento visual usado.

Exemplos de adaptação de materiais e situações comuns

1) Adaptando gráficos (barras, linhas, pizza)

Objetivo: permitir que o estudante compare valores e identifique tendências sem depender apenas da imagem.

  • Versão em tabela: forneça os dados do gráfico em uma tabela simples (categoria x valor).
  • Descrição verbal estruturada: tipo de gráfico, eixos/categorias, valores principais, comparações relevantes.
  • Versão tátil (quando necessário): barras em relevo; linhas com barbante; pontos marcados com cola relevo; legenda tátil.
  • Para deficiência auditiva: mantenha o gráfico limpo, com rótulos legíveis; destaque visualmente a tendência (cor/espessura) e escreva a interpretação (“cresce até…, depois estabiliza”).

Exemplo (roteiro de descrição):

Tipo: gráfico de linhas com 4 pontos (2019–2022). Valores: 10, 15, 15, 20. Tendência: aumento de 2019 para 2020, estabilidade em 2021, novo aumento em 2022. Comparação-chave: 2022 é o dobro de 2019.

2) Adaptando vídeos (experimentos, documentários, tutoriais)

  • Se o vídeo é visual (sem fala suficiente): inclua audiodescrição ou faça pausas para descrever o que acontece (“Agora o líquido muda de cor para azul…”).
  • Se o vídeo é falado (com pouca informação visual): inclua legendas e/ou transcrição; destaque termos técnicos na tela.
  • Estratégia de pausa didática: pare em pontos-chave e peça uma resposta curta (por escrito ou oral/sinalizada): “Qual foi a variável alterada?”
  • Evite depender de música/efeitos para transmitir informação; se forem relevantes, descreva-os em legenda.

3) Adaptando discussões em sala (debate, seminário, perguntas e respostas)

Discussões são um ponto crítico porque a informação circula rápido, com interrupções, piadas, falas simultâneas e referências visuais (“como ele mostrou ali”).

  • Para deficiência auditiva: estabeleça “um fala por vez”, repita perguntas antes de responder, use quadro para registrar argumentos, mantenha o rosto visível.
  • Para deficiência visual: identifique quem fala (“A Júlia disse…”), verbalize reações relevantes (“alguns concordaram”), leia o que for escrito no quadro.
  • Para ambos: faça sínteses frequentes e valide entendimento com perguntas específicas.
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Exemplo de mediação do professor: “Vou organizar: argumento 1 foi X (dito por…). Argumento 2 foi Y. Agora, antes de responder, vou repetir a pergunta central: ‘…’. Quem quer complementar? Digam o nome antes de falar.”

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao planejar uma aula inclusiva para estudantes com deficiência visual e auditiva, qual prática melhor garante que o conteúdo não dependa de um único canal de acesso?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A didática inclusiva propõe reduzir a dependência de um único canal, combinando pelo menos dois caminhos funcionais de acesso e uma mediação ativa (turnos, explicitação do implícito e checagem), além de adaptar materiais para que todos alcancem o mesmo objetivo.

Próximo capitúlo

Didática Inclusiva para deficiência intelectual: mediação, progressão e apoio à compreensão

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