O que é um diagnóstico financeiro (e por que ele define metas realistas)
Diagnóstico financeiro é um retrato objetivo do seu dinheiro: quanto entra, para onde vai e quanto sobra de forma consistente. Ele serve para transformar vontade em plano, porque revela sua capacidade de aporte mensal (quanto você consegue direcionar para metas) e sua margem de segurança (quanto você consegue absorver de imprevistos sem quebrar o plano).
Um diagnóstico simples e acionável não depende de planilhas complexas. Ele depende de três coisas: (1) dados recentes, (2) categorias padronizadas e (3) contas fáceis de repetir todo mês.
Roteiro de levantamento de dados (últimos 3 meses)
Use os últimos 3 meses para reduzir distorções (um mês pode ter férias, IPVA, bônus, etc.). Se você tiver renda muito variável, considere 6 meses, mas comece com 3 para não travar.
Passo 1 — Reunir as fontes
- Extratos bancários (conta corrente e poupança)
- Faturas de cartão de crédito (todas)
- Comprovantes de renda (holerite, recibos, extrato de pagamentos)
- Contratos/boletos de parcelas (financiamentos, consórcios, empréstimos)
- Lista de assinaturas e serviços recorrentes (streaming, apps, academias, nuvem, etc.)
Passo 2 — Criar uma lista única de transações
Para cada mês, anote todas as entradas e saídas. Se você usa cartão, registre a compra no mês em que ela aconteceu (e não no mês em que pagou a fatura), para enxergar o padrão real de consumo.
Campos mínimos por transação:
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- Data
- Descrição
- Valor
- Tipo: Entrada ou Saída
- Categoria (ver estrutura abaixo)
- Forma de pagamento: débito, crédito, pix, dinheiro
- Observação (opcional): “sazonal”, “parcela 3/10”, “assinatura”
Passo 3 — Marcar itens que distorcem o mês
Identifique e marque:
- Despesas sazonais: IPVA, IPTU, material escolar, seguro anual, manutenção do carro, presentes, viagens, consultas e exames recorrentes, etc.
- Compromissos financeiros: dívidas, parcelas, assinaturas e contratos.
- Entradas não recorrentes: bônus, restituição, venda de item, reembolso.
Estrutura de categorias (padrão para acompanhar todo mês)
Padronizar categorias evita que cada mês vire uma planilha diferente. Abaixo está uma estrutura prática, com poucas categorias e subcategorias suficientes para decisões.
1) Renda
- Salário/Pró-labore (líquido)
- Renda variável (comissões, horas extras)
- Freelas/serviços
- Renda de investimentos (juros, dividendos)
- Outras entradas (reembolsos, vendas pontuais) — marcar como não recorrente
2) Despesas fixas essenciais
- Moradia: aluguel/condomínio/IPTU (se mensalizado)
- Contas básicas: energia, água, gás, internet, celular
- Alimentação essencial: mercado (itens do dia a dia)
- Transporte essencial: combustível básico, transporte público
- Saúde essencial: plano, medicamentos recorrentes
3) Despesas variáveis (estilo de vida)
- Alimentação fora
- Lazer
- Compras (roupas, eletrônicos, casa)
- Beleza e cuidados
- Delivery
4) Compromissos financeiros (obrigatórios por contrato)
- Dívidas: empréstimos, cartão parcelado, cheque especial
- Financiamentos/consórcios
- Parcelamentos (lojas, cursos, etc.)
- Assinaturas e recorrências (streaming, apps, academia, clubes)
5) Despesas sazonais (provisão)
- Impostos anuais (IPVA, IPTU, etc.)
- Seguro (carro, residencial, vida) se anual
- Manutenção (carro, casa, equipamentos)
- Saúde não mensal (dentista, exames)
- Datas e eventos (aniversários, viagens)
6) Metas e investimentos (aportes)
- Reserva (segurança)
- Meta 1, Meta 2 (aportes direcionados)
- Previdência/longuíssimo prazo (se houver)
7) Ajustes e taxas
- Tarifas bancárias
- Juros e multas
- IOF/encargos
Dica de padronização: se uma compra “mistura” categorias (ex.: mercado + farmácia), divida em duas linhas quando fizer diferença. Se for raro e pequeno, categorize pelo item principal para não perder tempo.
Mapeando renda: quanto entra de verdade
O diagnóstico começa pela renda líquida (o que cai na conta). Some por mês e depois calcule uma referência realista.
Como calcular renda mensal de referência
- Renda fixa: use o valor líquido médio dos 3 meses.
- Renda variável: use o menor dos 3 meses ou uma média conservadora (ex.: média − 20%).
- Entradas não recorrentes: não entram como base para compromissos mensais; trate como “extra” para acelerar metas ou reforçar segurança.
Renda de referência = (renda fixa média) + (renda variável conservadora)Exemplo: últimos 3 meses: R$ 4.500, R$ 5.200, R$ 4.800. Se parte é variável, você pode usar R$ 4.500 como referência conservadora (ou média R$ 4.833 menos uma margem).
Mapeando despesas: fixas, variáveis, sazonais e compromissos
1) Despesas fixas
São as que tendem a se repetir com pouca variação e são difíceis de cortar rapidamente (moradia, contas básicas). Some por mês e observe a estabilidade.
2) Despesas variáveis
Oscilam com escolhas e rotina (lazer, alimentação fora, compras). Aqui geralmente aparece o espaço para ajuste sem quebrar a vida.
3) Despesas sazonais (transformar em mensal)
Despesas sazonais não são “imprevistos”; elas são previsíveis, só não são mensais. O diagnóstico acionável transforma isso em provisão mensal.
Como mensalizar uma despesa anual:
Provisão mensal = valor anual / 12Exemplo: IPVA de R$ 2.400 → provisão de R$ 200/mês. Se você não provisiona, seu mês do IPVA “explode” e parece que o orçamento falhou.
4) Compromissos financeiros (dívidas, parcelas, assinaturas)
Liste tudo o que tem data e valor definidos (ou quase definidos). Para cada item, registre:
- Valor mensal
- Dia de vencimento
- Quantas parcelas faltam (se aplicável)
- Taxa/juros (se for dívida)
- Se é cancelável (assinaturas) ou não
| Tipo | Item | Valor/mês | Vencimento | Status |
|---|---|---|---|---|
| Parcela | Notebook (5/10) | R$ 180 | 10 | Termina em 5 meses |
| Assinatura | Streaming | R$ 39 | Todo dia 3 | Cancelável |
| Dívida | Empréstimo | R$ 420 | 20 | Contrato |
Calculando capacidade de aporte mensal
Capacidade de aporte é o quanto você consegue direcionar para metas sem depender de “mês perfeito”. Para isso, use a renda de referência e despesas médias (com provisões sazonais incluídas).
Passo a passo
- 1) Calcule a renda de referência.
- 2) Calcule a média mensal das despesas fixas essenciais (3 meses).
- 3) Calcule a média mensal das despesas variáveis (3 meses).
- 4) Some compromissos financeiros mensais (dívidas, parcelas, assinaturas).
- 5) Some a provisão mensal das sazonais.
- 6) A diferença é sua capacidade de aporte (antes da margem de segurança).
Capacidade de aporte (bruta) = Renda de referência − (Fixas + Variáveis + Compromissos + Provisões sazonais)Exemplo numérico:
- Renda de referência: R$ 4.500
- Fixas essenciais: R$ 2.050
- Variáveis: R$ 900
- Compromissos financeiros: R$ 650
- Provisões sazonais: R$ 250
Aporte bruto = 4.500 − (2.050 + 900 + 650 + 250) = 650Nesse exemplo, R$ 650/mês é o teto teórico para metas. Ainda falta aplicar a margem de segurança.
Margem de segurança: protegendo o plano contra meses ruins
Margem de segurança é uma folga mensal para absorver variações (conta mais alta, remédio, manutenção pequena, oscilação de renda) sem interromper aportes ou recorrer a crédito.
Como definir uma margem simples
- Se sua renda é estável: comece com 5% a 10% da renda de referência.
- Se sua renda é variável: comece com 10% a 20% da renda de referência.
- Se você está ajustado no limite: use um valor fixo (ex.: R$ 150 a R$ 300) e revise após 2-3 meses.
Aporte líquido (realista) = Aporte bruto − Margem de segurançaExemplo: renda R$ 4.500, margem 10% = R$ 450. Se o aporte bruto era R$ 650:
Aporte líquido = 650 − 450 = 200Isso não significa “sobrou pouco”; significa que seu plano ficou robusto. Se o mês vier melhor, você pode aportar o excedente como extra.
Checklist de diagnóstico em 30–60 minutos (versão enxuta)
1) Renda
- Anote renda líquida de cada um dos últimos 3 meses
- Defina renda de referência (conservadora)
2) Despesas
- Some fixas essenciais por mês
- Some variáveis por mês
- Liste compromissos financeiros (dívidas, parcelas, assinaturas)
- Liste sazonais e transforme em provisão mensal
3) Resultado
- Calcule aporte bruto
- Defina margem de segurança
- Calcule aporte líquido realista
Modelo de tabela para padronizar o acompanhamento mensal
Use sempre as mesmas linhas. Isso permite comparar meses e ajustar rápido.
| Grupo | Categoria | Mês 1 | Mês 2 | Mês 3 | Média |
|---|---|---|---|---|---|
| Renda | Renda total (líquida) | ||||
| Fixas essenciais | Moradia | ||||
| Fixas essenciais | Contas básicas | ||||
| Fixas essenciais | Alimentação essencial | ||||
| Variáveis | Alimentação fora | ||||
| Variáveis | Lazer | ||||
| Compromissos | Dívidas/parcelas | ||||
| Compromissos | Assinaturas | ||||
| Sazonais | Provisões (mensalizadas) | ||||
| Resultado | Aporte bruto | ||||
| Resultado | Margem de segurança | ||||
| Resultado | Aporte líquido realista |
Erros comuns que distorcem o diagnóstico (e como corrigir)
Ignorar sazonais e chamar de “imprevisto”
Correção: liste e mensalize. Se não souber o valor anual, use uma estimativa conservadora e ajuste quando tiver o dado real.
Contar renda extra como se fosse fixa
Correção: renda não recorrente entra como “aceleração”, não como base de orçamento.
Olhar só o extrato e esquecer o cartão
Correção: some as compras do cartão por categoria. O pagamento da fatura não é “despesa nova”; é quitação do que já foi consumido.
Não separar assinaturas e parcelas
Correção: mantenha uma lista de recorrências. Isso facilita cortes rápidos e evita “vazamentos” mensais pequenos que viram grandes.