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Qualidade de Software com Métricas: Do Bug ao Indicador de Processo

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Diagnóstico de causas e priorização de iniciativas de melhoria

Capítulo 17

Tempo estimado de leitura: 0 minutos

+ Exercício

O que é diagnóstico de causas e por que ele vem antes da priorização

Diagnóstico de causas é o processo de transformar um sintoma medido (por exemplo, aumento de incidentes, queda de satisfação, crescimento de backlog de bugs, variação de tempo de entrega) em hipóteses verificáveis sobre o que está gerando o problema. A priorização de iniciativas de melhoria é a etapa seguinte: escolher, entre várias ações possíveis, quais devem ser executadas primeiro para maximizar impacto e reduzir risco, considerando custo, capacidade e dependências.

Na prática, times falham quando pulam do indicador para a solução (“vamos treinar mais”, “vamos contratar”, “vamos trocar a ferramenta”) sem evidência de causalidade. O resultado costuma ser: ações caras, pouco efeito, e frustração com o uso de métricas. Um bom diagnóstico cria um encadeamento lógico: sintoma → área provável → hipótese → evidência → causa raiz (ou conjunto de causas) → iniciativa. A priorização, por sua vez, evita que o time ataque tudo ao mesmo tempo, diluindo energia e gerando melhorias superficiais.

Separando sintomas, mecanismos e causas

Um mesmo sintoma pode ter mecanismos diferentes por trás. Por exemplo, “cresceu o número de bugs em produção” pode ocorrer por: mudanças mais arriscadas, testes inadequados para um tipo específico de falha, pressa em releases, falta de revisão em módulos críticos, ou até por melhoria na detecção/observabilidade (mais bugs identificados, não necessariamente mais bugs criados). Por isso, é útil separar:

  • Sintoma: o que foi observado e medido (ex.: aumento de falhas após deploy).
  • Mecanismo: como o problema se manifesta no sistema/processo (ex.: falhas concentradas em integrações externas).
  • Causa: por que o mecanismo ocorre (ex.: contrato de API instável e ausência de testes de contrato).

O diagnóstico busca reduzir ambiguidade. Em vez de “qualidade piorou”, chegar a algo como: “falhas pós-deploy aumentaram principalmente em endpoints X e Y, associados a mudanças em validação de dados; a maior parte dos incidentes envolve payloads fora do padrão; faltam testes de contrato e validação defensiva”. Esse nível de especificidade é o que permite priorizar iniciativas com alta chance de impacto.

Pré-requisitos: delimitar o problema com precisão

Antes de investigar causas, delimite o problema de forma operacional, para evitar diagnósticos genéricos. Use perguntas objetivas:

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  • O que exatamente piorou? (qual indicador, qual direção, qual magnitude).
  • Quando começou? (data aproximada, releases, mudanças de equipe, alterações de arquitetura).
  • Onde ocorre? (serviço, módulo, tipo de mudança, canal, região, plataforma).
  • Quem é afetado? (segmento de usuários, clientes específicos, times).
  • Qual é a unidade de análise? (por deploy, por PR, por sprint, por incidente).

Exemplo de delimitação bem feita: “Nas últimas 4 semanas, incidentes P1 aumentaram de 1 para 4 por semana, concentrados no serviço de pagamentos, principalmente após deploys de sexta-feira, com falhas de timeout em integrações com o provedor X. O impacto é maior em clientes do plano enterprise.”

Passo a passo prático para diagnóstico de causas

1) Formule uma pergunta de diagnóstico e um critério de evidência

Transforme o problema em uma pergunta que possa ser respondida com dados e inspeção técnica. Em seguida, defina o que contará como evidência.

  • Pergunta: “O aumento de incidentes está associado a um tipo específico de mudança?”
  • Evidência esperada: “Incidentes correlacionam com deploys que alteram o módulo A; logs mostram exceções do tipo B; PRs têm padrões comuns (ex.: ausência de testes).”

Sem critério de evidência, o diagnóstico vira debate de opiniões.

2) Faça estratificação: quebre o indicador por dimensões relevantes

Estratificar é dividir o problema em fatias para encontrar concentração. Dimensões comuns:

  • Por componente: serviço, módulo, biblioteca, endpoint.
  • Por tipo de mudança: feature, refactor, config, dependência, infra.
  • Por origem: time, squad, fornecedor, integração.
  • Por janela temporal: dia da semana, horário, pós-release.
  • Por severidade: P0/P1/P2, impacto financeiro, volume de usuários.

Exemplo: ao estratificar bugs em produção por componente, você descobre que 60% estão em um único serviço. Ao estratificar por tipo de mudança, percebe que 70% vêm de alterações de configuração e flags. Isso muda completamente as hipóteses e as iniciativas candidatas.

3) Construa uma linha do tempo (timeline) do problema

Monte uma timeline com eventos relevantes: releases, mudanças de arquitetura, troca de provedor, alterações de política de deploy, entrada/saída de pessoas-chave, picos de demanda. O objetivo é identificar “pontos de inflexão”.

Exemplo: “Incidentes começaram a subir após migração do provedor de mensagens; a partir daí, aumentaram timeouts e reprocessamentos”. A timeline ajuda a evitar explicações vagas e direciona a investigação.

4) Gere hipóteses (poucas e boas) e classifique por plausibilidade

Liste hipóteses que expliquem o padrão observado. Evite dezenas de hipóteses; prefira 5 a 8, com clareza e testabilidade. Uma boa hipótese tem forma: Se X, então Y, porque Z.

  • “Se deploys de sexta aumentam incidentes, então a janela de monitoramento e resposta é insuficiente, porque há menos cobertura de plantão e menos tempo para estabilização.”
  • “Se falhas se concentram no endpoint de checkout, então há regressões em validação de payload, porque mudanças recentes alteraram regras sem testes de contrato.”

Depois, classifique por plausibilidade (alta/média/baixa) e por facilidade de verificação (rápida/média/difícil). Comece pelas hipóteses de alta plausibilidade e verificação rápida.

5) Colete evidências com “triangulação”

Triangulação é usar múltiplas fontes para reduzir vieses. Combine:

  • Evidência quantitativa: distribuição por componente, frequência por tipo de mudança, concentração por time.
  • Evidência qualitativa: postmortems, relatos de suporte, revisões de PR, entrevistas rápidas com quem executa o trabalho.
  • Evidência técnica: logs, traces, diffs de configuração, análise de commits, testes que falharam, padrões de exceção.

Exemplo: a hipótese “faltam testes de contrato” pode ser sustentada por: incidentes com payload inesperado (técnico), PRs sem testes (qualitativo), e aumento de falhas em endpoints integrados (quantitativo).

6) Aplique técnicas de causa raiz com foco em ação

Use técnicas simples, mas com disciplina. Duas abordagens úteis:

  • 5 Porquês: bom para chegar a causas sistêmicas, desde que você valide cada “porquê” com evidência.
  • Ishikawa (espinha de peixe): bom para mapear categorias (pessoas, processo, tecnologia, ambiente, requisitos), evitando que o time culpe um único fator.

Exemplo (5 Porquês resumido):

Problema: incidentes de timeout aumentaram no serviço de pagamentos. 1) Por quê? Porque chamadas ao provedor X excedem o tempo limite. 2) Por quê? Porque houve aumento de latência e retries em cascata. 3) Por quê? Porque o circuito de proteção está mal configurado e não há fallback. 4) Por quê? Porque a configuração foi alterada em um deploy recente sem validação em ambiente semelhante ao de produção. 5) Por quê? Porque mudanças de configuração não passam por revisão técnica e não há checklist de risco para alterações operacionais.

Note que a causa acionável não é “o provedor é lento”, mas “mudanças operacionais sem revisão e sem validação adequada”, além de “proteções resilientes mal configuradas”. Isso gera iniciativas concretas.

7) Identifique causas contribuintes e não apenas uma causa única

Em software, problemas relevantes raramente têm uma única causa. Normalmente há um conjunto: uma fragilidade técnica + uma lacuna de processo + um gatilho de contexto (ex.: pressão de prazo). Registre:

  • Causa primária: a que, se removida, reduz grande parte do problema.
  • Causas contribuintes: amplificadores (ex.: falta de revisão, ausência de testes, pouca observabilidade).
  • Gatilhos: eventos que ativam o problema (ex.: pico de tráfego, release em horário crítico).

Essa separação ajuda a desenhar iniciativas em camadas: correção imediata (mitigar gatilho), robustez (reduzir fragilidade), e prevenção (fechar lacuna de processo).

8) Converta causas em iniciativas com “teoria de mudança”

Para cada causa, descreva uma iniciativa no formato:

  • Ação: o que será feito.
  • Mecanismo esperado: como isso reduz o problema.
  • Evidência de sucesso: qual sinal confirmará que funcionou.
  • Risco/efeitos colaterais: o que pode piorar.

Exemplo: “Implementar testes de contrato para endpoints A e B” → mecanismo: detectar incompatibilidades antes do deploy → evidência: queda de incidentes relacionados a payload e redução de rollbacks → risco: aumento de tempo de pipeline; mitigação: paralelizar testes e focar nos contratos críticos.

Erros comuns no diagnóstico (e como evitar)

  • Confundir correlação com causa: um pico após um release não prova que o release causou; busque evidência técnica (diffs, logs, padrões de falha).
  • Diagnóstico “genérico”: “falta qualidade” não é causa; detalhe componente, tipo de falha e condição de ocorrência.
  • Culpar pessoas: “o dev errou” não é causa raiz; investigue por que o sistema permitiu o erro chegar à produção (lacunas de revisão, testes, validação, feedback).
  • Tratar todo problema como ferramenta: trocar ferramenta pode ser válido, mas geralmente é iniciativa cara; priorize mudanças de prática e controles antes.
  • Ignorar o custo de oportunidade: investigar demais sem agir pode ser tão ruim quanto agir sem investigar; use ciclos curtos de hipótese-evidência.

Priorização de iniciativas de melhoria: como escolher o que fazer primeiro

Após o diagnóstico, você terá uma lista de iniciativas candidatas. A priorização precisa equilibrar impacto, esforço, risco e dependências. O objetivo não é “a lista perfeita”, mas uma ordem de execução defensável e revisável.

1) Defina o objetivo de priorização e o horizonte

Priorizar para reduzir incidentes no próximo mês é diferente de priorizar para reduzir custo de manutenção no próximo trimestre. Declare:

  • Objetivo: reduzir falhas críticas, reduzir retrabalho, aumentar previsibilidade, reduzir risco operacional etc.
  • Horizonte: 2 semanas, 1 mês, 1 trimestre.
  • Restrições: capacidade do time, janelas de mudança, compliance.

Sem isso, iniciativas estruturais competem injustamente com “quick wins” e o time alterna entre extremos.

2) Monte um backlog de melhorias com descrição padronizada

Padronize cada item para facilitar comparação:

  • Problema/causeamento endereçado
  • Iniciativa (ação)
  • Escopo (onde aplica)
  • Esforço estimado (faixas: P/M/G)
  • Risco de implementação (baixo/médio/alto)
  • Dependências
  • Como medir sucesso (sinal esperado)

Isso evita que itens “bem escritos” ganhem prioridade por retórica.

3) Use uma matriz simples: Impacto × Esforço × Confiança

Uma forma prática é pontuar cada iniciativa em três eixos:

  • Impacto: quanto reduz o problema (1 a 5).
  • Esforço: custo em tempo/capacidade (1 a 5, onde 5 é mais caro).
  • Confiança: quão forte é a evidência de que funcionará (1 a 5).

Uma pontuação útil é: Prioridade = (Impacto × Confiança) / Esforço. Não é matemática exata; é um mecanismo de conversa estruturada.

Exemplo de tabela:

Iniciativa                               Impacto  Confiança  Esforço  Score (I*C/E) Testes de contrato (A e B)              4        4         3        5,33 Checklist e revisão p/ mudanças de config 3        5         2        7,50 Circuit breaker + fallback no provedor X  5        3         4        3,75 Treinamento geral de testes                2        2         3        1,33

Nesse exemplo, “checklist e revisão para config” aparece como prioridade alta por ser barato e com alta confiança (evidência forte de que mudanças de config estão envolvidas).

4) Adicione um filtro de risco: urgência e severidade

Algumas iniciativas devem subir na fila mesmo com esforço alto, quando o risco é inaceitável. Crie um filtro:

  • Risco atual: probabilidade × impacto (financeiro, reputacional, segurança, compliance).
  • Exposição: quantos usuários/receita são afetados.
  • Reversibilidade: se der errado, é fácil voltar?

Se a causa envolve falha que pode gerar perda financeira imediata, iniciativas de mitigação (ex.: limites, proteções, validações) podem ser priorizadas como “trabalho de contenção”, mesmo antes de melhorias estruturais.

5) Considere dependências e “sequenciamento inteligente”

Nem sempre a melhor iniciativa é a primeira. Às vezes, existe uma iniciativa habilitadora que destrava outras. Exemplos de sequenciamento:

  • Habilitador → melhoria: padronizar revisão de config antes de ajustar circuit breaker em vários serviços.
  • Mitigação → correção estrutural: reduzir blast radius (ex.: limitar rollout) antes de refatorar um módulo crítico.
  • Aprendizado → investimento: executar um experimento pequeno (piloto) antes de uma mudança ampla.

Registre dependências explicitamente para evitar que o backlog vire uma lista impossível.

6) Planeje iniciativas como experimentos com critérios de parada

Para evitar projetos longos sem retorno, trate iniciativas como experimentos:

  • Hipótese: “Se implementarmos X, então Y reduzirá em Z”.
  • Janela de avaliação: quando reavaliar (ex.: 2 semanas após deploy).
  • Critério de parada: se não houver sinal, ajustar ou abandonar.

Exemplo: “Aplicar testes de contrato apenas nos 2 endpoints com maior concentração de incidentes; avaliar após 3 releases; se incidentes relacionados não caírem, revisar hipótese (talvez o problema seja timeout e não payload).”

Exemplo completo: do sintoma à lista priorizada

Cenário

Um time observa aumento de incidentes após deploy e crescimento de reclamações de “lentidão” em uma jornada crítica.

Diagnóstico resumido

  • Delimitação: incidentes P1 aumentaram e se concentram no serviço de checkout; maior incidência após mudanças em regras de promoção; logs mostram aumento de chamadas a um serviço de precificação.
  • Estratificação: 65% dos incidentes envolvem o endpoint /checkout/price; 70% ocorrem em releases com alteração de promoções; maior impacto em horários de pico.
  • Hipóteses: (a) regressões em regras de promoção sem testes; (b) aumento de latência por chamadas adicionais; (c) cache inválido; (d) rollout amplo sem proteção.
  • Evidências: PRs de promoções sem testes automatizados; traces mostram N+1 chamadas ao precificador; cache com baixa taxa de acerto; rollout 100% imediato.
  • Causas: ausência de testes focados em regras críticas + design que gera chamadas redundantes + falta de proteção de rollout.

Iniciativas candidatas

  • Adicionar testes automatizados para regras de promoção críticas (escopo: top 10 regras).
  • Otimizar chamadas ao precificador (eliminar N+1, agregar chamadas).
  • Ajustar estratégia de rollout (canary/percentual) para mudanças em checkout.
  • Melhorar cache (chaves, invalidação, TTL) para precificação.
  • Criar checklist de risco para mudanças em promoções (revisão obrigatória + validação).

Priorização (exemplo)

Iniciativa                              Impacto Confiança Esforço Score Rollout com canary p/ checkout            4       4        2      8,0 Checklist + revisão p/ promoções          3       5        2      7,5 Testes p/ top 10 regras de promoção      4       4        3      5,33 Otimizar N+1 no precificador               5       3        4      3,75 Melhorar cache de precificação             3       3        4      2,25

Sequenciamento sugerido: primeiro canary + checklist (reduz risco rapidamente), depois testes (prevenção), em paralelo iniciar análise técnica do N+1 (investimento maior), e por último cache (se a evidência indicar que é relevante).

Como manter o ciclo diagnóstico → priorização vivo no dia a dia

Para que o processo não vire um evento pontual, mantenha um fluxo leve:

  • Registro contínuo de hipóteses: quando surgir um sinal, registrar hipótese e evidência mínima necessária.
  • Backlog de melhorias com dono: cada iniciativa tem responsável por refinar escopo e medir resultado.
  • Repriorização periódica: a cada ciclo curto, reavaliar com base em novos sinais e no que foi entregue.
  • Separação entre mitigação e prevenção: garantir que ações de contenção não consumam todo o espaço, deixando prevenção sempre sem capacidade.

O ponto central é disciplina: diagnosticar com evidência suficiente para agir, e priorizar com critérios explícitos para aprender rápido e reduzir risco de investir em melhorias que não atacam as causas reais.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Qual encadeamento lógico representa corretamente um bom diagnóstico de causas, ligando um indicador observado até a definição de uma iniciativa de melhoria?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O diagnóstico parte do sintoma e avança por hipóteses verificáveis, sustentadas por evidências, até chegar a causas acionáveis. Só então se definem iniciativas, reduzindo o risco de atacar soluções caras sem causalidade.

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Comunicação de indicadores para diferentes públicos

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