Desenho do Plano de Rondas: Escopo, Frequência, Recursos e Responsabilidades

Capítulo 3

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

O que é o desenho do plano de rondas

Desenhar um plano de rondas é transformar a necessidade de vigilância preventiva em um conjunto de decisões operacionais claras e verificáveis: onde a ronda acontece (escopo), com que periodicidade (frequência), em quanto tempo (duração-alvo), com quais meios (recursos) e com quais responsabilidades (papéis). Um bom desenho evita dois extremos comuns: rondas “genéricas” (sem foco e sem comprovação) e rondas “inviáveis” (exigem mais tempo e recursos do que a operação permite).

Componentes essenciais do plano

1) Escopo: áreas e subáreas cobertas

O escopo define exatamente quais áreas entram na ronda e como elas são organizadas para execução. Em vez de listar apenas “toda a planta”, estruture por camadas:

  • Área macro: galpão, prédio administrativo, pátio, docas, estacionamento, perímetro.
  • Subáreas operacionais: por exemplo, “Docas 1–6”, “Corredor A”, “Casa de bombas”, “Central de utilidades”, “Portaria de serviço”.
  • Pontos de verificação: locais onde deve haver checagem objetiva (ex.: acesso, porta corta-fogo, painel, hidrante, portão, sala técnica).

Critério prático: cada subárea deve permitir que um vigilante descreva o que foi verificado sem ambiguidade. Se a subárea for grande demais, divida; se for pequena demais, agrupe para reduzir microparadas improdutivas.

2) Frequência: periodicidade por tipo de área

A frequência é a regra de “quando” a ronda deve ocorrer. Em um plano bem desenhado, a periodicidade varia conforme criticidade e janela operacional (horários em que faz sentido e é possível rondar).

  • Frequência fixa: ex.: a cada 60 minutos no perímetro.
  • Frequência por janela: ex.: “uma ronda completa entre 22:00 e 23:30” (útil quando há picos de operação).
  • Frequência mínima + gatilhos: ex.: “mínimo 2 rondas por turno + ronda adicional após evento (alarme, abertura de portão fora de rotina, queda de energia)”.

Evite definir frequência sem checar viabilidade de tempo. Uma periodicidade agressiva que não cabe no turno vira descumprimento crônico e enfraquece o controle.

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3) Duração-alvo: tempo esperado por rota

Duração-alvo é o tempo de execução esperado para cada rota (ou conjunto de subáreas). Ela serve para: (1) dimensionar equipe, (2) detectar anomalias (ronda curta demais pode indicar “passagem sem verificação”), e (3) organizar o turno.

Defina duração-alvo com base em:

  • Tempo de deslocamento entre pontos (a pé/veículo).
  • Tempo de verificação em cada ponto (observação, teste simples, registro).
  • Margem operacional (ex.: 10–20%) para pequenas interferências.

4) Recursos: equipe e meios

Liste recursos por rota/turno, não apenas “recursos do posto”. Isso evita que o plano dependa de itens indisponíveis no momento da execução.

  • Equipe: quantidade por turno, perfil (vigilante fixo, volante), necessidade de dupla em áreas específicas.
  • Comunicação: rádio HT, canal padrão, canal de contingência, bateria reserva, protocolo de check-in.
  • Iluminação: lanterna principal e reserva, carregadores, inspeção de funcionamento no início do turno.
  • EPI: conforme ambiente (colete refletivo, capacete, óculos, luvas, protetor auricular, calçado). Defina o EPI mínimo por rota.
  • Veículo: quando aplicável (pátio/perímetro), com regras de uso, velocidade, pontos de parada e checklist básico.

Inclua também recursos de registro (formulário físico, aplicativo, leitor de pontos, prancheta), mas sem detalhar aqui métodos já tratados em capítulos anteriores.

5) Papéis e responsabilidades: quem faz o quê

O plano precisa explicitar responsabilidades para reduzir falhas por “zona cinzenta”. Estruture em três níveis típicos:

  • Vigilante: executa a ronda, realiza verificações previstas, comunica anomalias, registra evidências conforme padrão.
  • Líder de posto: organiza a escala e a distribuição de rotas, valida registros (completude e coerência), orienta correções imediatas, consolida ocorrências do turno.
  • Supervisor: audita amostras de registros e execução, verifica aderência ao plano, aprova ajustes de frequência/escopo, trata desvios recorrentes com plano de ação.

Critérios de dimensionamento (como decidir se o plano “cabe” na operação)

Variáveis que mais impactam o dimensionamento

  • Tamanho da área: distância total percorrida e dispersão dos pontos.
  • Número de pontos críticos: cada ponto adiciona tempo de verificação e registro.
  • Tempo de deslocamento: a pé vs. veículo, obstáculos, controle de acesso, elevadores, escadas.
  • Janelas operacionais: horários com restrição (produção, carga/descarga, silêncio, áreas bloqueadas).
  • Interrupções esperadas: atendimento de portaria, acionamentos, rondas extraordinárias.

Método prático de cálculo de esforço (estimativa inicial)

Use uma estimativa simples para validar viabilidade antes de “fechar” a frequência:

Tempo total da ronda (min) = (Distância total / Velocidade média) + (Nº de pontos x Tempo por ponto) + Margem

Parâmetros iniciais (ajuste após medições reais):

  • Velocidade média a pé: 60–80 m/min (considerando paradas e atenção).
  • Tempo por ponto: 30–90 s (observação + registro simples), podendo ser maior em salas técnicas.
  • Margem: 10–20%.

Exemplo: rota com 1.200 m, 18 pontos, velocidade 70 m/min, 45 s por ponto, margem 15%.

Deslocamento = 1200/70 ≈ 17,1 min  Verificações = 18 x 0,75 = 13,5 min  Subtotal = 30,6 min  Margem 15% = 4,6 min  Total ≈ 35 min

Se a frequência desejada for “a cada 30 min”, esse desenho não fecha: ou reduz escopo/pontos, ou aumenta recursos, ou muda a janela/frequência.

Checagem de capacidade por turno

Depois de estimar o tempo por rota, valide a capacidade do turno:

  • Tempo disponível do vigilante = tempo do turno − atividades fixas (portaria, controles, pausas, passagens de serviço).
  • Carga de rondas = soma dos tempos das rondas planejadas + rondas por gatilho (estimativa).

Regra prática: mantenha folga operacional (ex.: 15–25%) para eventos não planejados. Um plano “no limite” tende a gerar registros incompletos e atrasos.

Passo a passo para estruturar o plano de rondas

Passo 1 — Liste rotas candidatas e agrupe por lógica operacional

Crie rotas que façam sentido por proximidade e por tipo de ambiente. Exemplo de agrupamento:

  • Rota A (interna): administrativo + salas técnicas próximas.
  • Rota B (operacional): docas + corredores de acesso.
  • Rota C (externa): pátio + perímetro (a pé ou veículo).

Passo 2 — Defina frequência por rota e por turno

Para cada rota, defina: (1) periodicidade, (2) janela, (3) gatilhos. Exemplo:

  • Rota C (perímetro): a cada 60 min entre 18:00–06:00; ronda extra após chuva forte (verificação de pontos de alagamento e iluminação).
  • Rota B (docas): 1 ronda por janela 20:00–22:00 e 1 ronda por janela 02:00–04:00; ronda extra após término de carregamento.

Passo 3 — Estime duração-alvo e ajuste até ficar viável

Calcule o tempo de cada rota (estimativa) e compare com a frequência desejada e com a capacidade do turno. Ajustes típicos:

  • Reduzir pontos (sem perder cobertura essencial) ou redistribuir pontos entre rotas.
  • Alterar janela para horários com menor interferência.
  • Trocar modo de deslocamento (a pé vs. veículo) quando aplicável e permitido.
  • Adicionar recurso humano (vigilante volante) em turnos críticos.

Passo 4 — Defina recursos mínimos por rota

Monte uma tabela simples de recursos por rota:

RotaEquipeComunicaçãoIluminaçãoEPIVeículo
Rota A1 vigilanteRádio HT + bateria reservaLanternaEPI básico do siteNão
Rota B1 vigilante (ou dupla em janela crítica)Rádio HT (canal operacional)Lanterna + reservaRefletivo + calçado adequadoOpcional
Rota C1 vigilanteRádio HT + check-in por horárioLanterna de maior alcanceRefletivo + capa de chuva (se aplicável)Sim (se perímetro extenso)

Inclua no plano um checklist rápido de início de turno para itens críticos (rádio, lanterna, EPI, veículo), com responsável e ação em caso de falha (ex.: substituir equipamento antes da primeira ronda).

Passo 5 — Atribua papéis e crie regras de escalonamento

Defina claramente:

  • Quem autoriza mudanças no plano (ex.: supervisor aprova; líder propõe).
  • Quando o vigilante deve escalar (ex.: porta violada, iluminação apagada em área crítica, presença suspeita, falha de comunicação).
  • Tempo de resposta esperado do líder/supervisor para eventos de ronda (ex.: retorno em até X minutos).

Passo 6 — Formalize em um documento operacional de 1–2 páginas por posto

Para facilitar uso no dia a dia, consolide o plano em formato enxuto:

  • Mapa/descrição das rotas (nomes padronizados).
  • Frequência e janelas por turno.
  • Duração-alvo por rota (com tolerância).
  • Recursos mínimos por rota.
  • Responsabilidades e escalonamento.
  • Regras de exceção (ex.: área interditada, obra, evento).

Matriz RACI simples para execução, validação e auditoria

A matriz RACI ajuda a eliminar dúvidas sobre quem executa, quem responde, quem é consultado e quem deve ser informado. Use-a para deixar explícito quem executa, quem valida e quem audita os registros de ronda.

Definições rápidas

  • R (Responsible): executa a atividade.
  • A (Accountable): responsável final pela entrega/decisão (um por linha).
  • C (Consulted): consultado para orientar/decidir em conjunto.
  • I (Informed): informado do resultado.

Modelo de RACI (exemplo adaptável)

AtividadeVigilanteLíder de postoSupervisor
Executar ronda conforme rota e janelaRAI
Registrar verificações e ocorrênciasRAI
Validar registros do turno (completude/coerência)CR/AI
Auditar amostras de registros e aderência ao planoICR/A
Ajustar frequência/escopo por mudança operacionalCRA
Tratar desvios recorrentes (plano de ação e treinamento)IRA

Dica prática: mantenha a matriz RACI junto do plano do posto e revise quando houver mudança de layout, turnos, equipe, ou quando auditorias apontarem falhas repetidas (ex.: atrasos sistemáticos, lacunas de registro, rotas longas demais).

Checklist de qualidade do desenho do plano (para revisão rápida)

  • As áreas e subáreas estão nomeadas de forma padronizada e sem ambiguidade?
  • Cada rota tem frequência, janela e duração-alvo definidas?
  • O plano “cabe” no turno considerando deslocamento, verificações e folga operacional?
  • Os recursos mínimos por rota estão disponíveis e com responsável por checagem?
  • Está claro quem executa, quem valida e quem audita (RACI)?
  • Existem regras de escalonamento e de exceção para situações fora do padrão?

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao definir a frequência das rondas, qual abordagem ajuda a evitar descumprimento crônico do plano?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A frequência deve considerar criticidade e, principalmente, a capacidade real do turno. Estimar a duração da rota (deslocamento, pontos e margem) ajuda a ajustar escopo, janelas ou recursos e evita uma periodicidade que “não cabe” e vira descumprimento.

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