Antes de calcular: a empresa fictícia (mesmos números para todos os indicadores)
Para manter coerência entre os indicadores e permitir uma leitura qualitativa consistente, usaremos uma única empresa fictícia (Empresa Alfa) com um Balanço e uma DRE simplificados do mesmo período.
Balanço Patrimonial (fim do período) — valores em R$
| Conta | Valor |
|---|---|
| Ativo Circulante (AC) | 300.000 |
| Ativo Não Circulante | 700.000 |
| Ativo Total | 1.000.000 |
| Passivo Circulante (PC) | 200.000 |
| Passivo Não Circulante (PNC) | 350.000 |
| Passivo Total | 550.000 |
| Patrimônio Líquido (PL) | 450.000 |
| Passivo + PL | 1.000.000 |
DRE (no período) — valores em R$
| Conta | Valor |
|---|---|
| Receita Líquida | 1.200.000 |
| (-) Custo dos Produtos/Serviços (CPV/CSV) | 780.000 |
| Lucro Bruto | 420.000 |
| (-) Despesas Operacionais | 250.000 |
| Lucro Operacional | 170.000 |
| (-) Resultado Financeiro (juros líquidos) | 60.000 |
| Lucro Antes do IR | 110.000 |
| (-) IR/CS | 30.000 |
| Lucro Líquido | 80.000 |
Com esses números, vamos calcular um conjunto enxuto e prático de indicadores: liquidez corrente, endividamento, margem bruta, margem líquida e giro (conceito).
1) Liquidez Corrente
O que mede
Mede a capacidade de a empresa pagar obrigações de curto prazo usando recursos de curto prazo. É um indicador de “folga” financeira no curto prazo.
Como calcular a partir das demonstrações
Você precisa apenas do Balanço: Ativo Circulante (AC) e Passivo Circulante (PC).
Liquidez Corrente = Ativo Circulante (AC) / Passivo Circulante (PC)Passo a passo prático (Empresa Alfa)
- Identifique no Balanço o AC: R$ 300.000
- Identifique no Balanço o PC: R$ 200.000
- Calcule: 300.000 / 200.000 = 1,50
Liquidez Corrente = 1,50
- Ouça o áudio com a tela desligada
- Ganhe Certificado após a conclusão
- + de 5000 cursos para você explorar!
Baixar o aplicativo
Qual direção tende a ser melhor
Em geral, maior que 1 tende a ser melhor, pois indica que o AC cobre o PC. Porém, “quanto maior melhor” não é regra absoluta.
Cuidados de interpretação
- Qualidade do Ativo Circulante: AC pode incluir estoques difíceis de vender ou contas a receber com risco de inadimplência. Liquidez “no papel” pode não virar caixa.
- Setor e modelo de negócio: varejo com giro rápido pode operar bem com liquidez menor; empresas com recebimento lento podem precisar de liquidez maior.
- Data específica: o Balanço é uma fotografia do fim do período; pode haver “efeito data” (ex.: pagamento grande logo após o fechamento).
2) Endividamento (Dívida/Ativo e Dívida/PL)
O que mede
Mostra o quanto a empresa depende de capital de terceiros (dívidas e obrigações) para financiar seus ativos e operações. Ajuda a avaliar risco financeiro e sensibilidade a juros.
Como calcular a partir das demonstrações
Você usa o Balanço. Há duas formas simples e comuns para iniciantes:
- Endividamento sobre Ativo: Passivo Total / Ativo Total
- Endividamento sobre PL (alavancagem): Passivo Total / Patrimônio Líquido
Endividamento (Passivo/Ativo) = Passivo Total / Ativo TotalEndividamento (Passivo/PL) = Passivo Total / PLPasso a passo prático (Empresa Alfa)
- Passivo Total = PC + PNC = 200.000 + 350.000 = 550.000
- Ativo Total = 1.000.000
- PL = 450.000
Passivo/Ativo = 550.000 / 1.000.000 = 0,55 (55%)
Passivo/PL = 550.000 / 450.000 = 1,22
Qual direção tende a ser melhor
- Menor endividamento tende a significar menor risco financeiro.
- Mas alguma dívida pode ser saudável se a empresa gera retorno e caixa suficientes para pagar juros e principal.
Cuidados de interpretação
- Comparar com pares: setores intensivos em ativos (indústria, infraestrutura) costumam ter mais dívida que negócios leves (serviços digitais).
- Prazo da dívida importa: duas empresas com o mesmo Passivo Total podem ter riscos diferentes se uma concentra dívidas no curto prazo (PC alto) e outra no longo prazo (PNC alto).
- Custo da dívida e juros: endividamento deve ser lido junto do resultado financeiro na DRE. Se juros “comem” o lucro, a alavancagem pode estar excessiva.
3) Margem Bruta
O que mede
Mede quanto sobra da receita após pagar os custos diretamente ligados ao produto/serviço (CPV/CSV). É um indicador de poder de precificação, eficiência produtiva e mix de produtos.
Como calcular a partir das demonstrações
Você usa a DRE: Receita Líquida e Lucro Bruto (ou Receita Líquida e CPV/CSV).
Margem Bruta = Lucro Bruto / Receita LíquidaComo alternativa equivalente:
Margem Bruta = (Receita Líquida - CPV/CSV) / Receita LíquidaPasso a passo prático (Empresa Alfa)
- Receita Líquida = 1.200.000
- Lucro Bruto = 420.000
- Calcule: 420.000 / 1.200.000 = 0,35
Margem Bruta = 35%
Qual direção tende a ser melhor
Maior margem bruta tende a ser melhor, pois indica mais “espaço” para pagar despesas, juros e impostos e ainda gerar lucro.
Cuidados de interpretação
- Comparabilidade: margens variam muito por setor. Comparar com concorrentes diretos é mais útil do que comparar com qualquer empresa.
- Classificação contábil: se certos gastos forem classificados como custo em uma empresa e como despesa em outra, a margem bruta pode parecer melhor/pior sem mudança real no negócio.
- Promoções e mix: aumento de receita com descontos pode reduzir margem bruta; isso pode ser estratégia (ganhar volume) ou sinal de pressão competitiva.
4) Margem Líquida
O que mede
Mede quanto do que a empresa vende vira lucro final, após custos, despesas, resultado financeiro e impostos. É um indicador de eficiência global e capacidade de converter receita em resultado.
Como calcular a partir das demonstrações
Você usa a DRE: Lucro Líquido e Receita Líquida.
Margem Líquida = Lucro Líquido / Receita LíquidaPasso a passo prático (Empresa Alfa)
- Lucro Líquido = 80.000
- Receita Líquida = 1.200.000
- Calcule: 80.000 / 1.200.000 = 0,0667
Margem Líquida ≈ 6,7%
Qual direção tende a ser melhor
Maior margem líquida tende a ser melhor, pois indica mais lucro por real vendido. Porém, margens muito altas podem atrair concorrência; margens baixas podem ser normais em negócios de alto volume.
Cuidados de interpretação
- Efeito do endividamento: juros altos reduzem a margem líquida mesmo que a operação seja boa. Por isso, leia junto com o endividamento e o resultado financeiro.
- Eventos não recorrentes: ganhos/perdas pontuais podem inflar ou derrubar o lucro líquido em um período.
- Impostos e regime: mudanças de alíquota, benefícios fiscais ou diferenças de estrutura tributária afetam a margem líquida sem alterar a eficiência operacional.
5) Giro (conceito) — Giro do Ativo
O que mede
“Giro” é a ideia de velocidade de geração de receita a partir de uma base (ativos, estoques, contas a receber). Para um conjunto básico e fácil de ligar ao Balanço e à DRE, o mais comum é o Giro do Ativo: quanto a empresa vende para cada R$ 1 investido em ativos.
Como calcular a partir das demonstrações
Você usa Receita Líquida (DRE) e Ativo Total (Balanço). Em análises mais cuidadosas, usa-se o ativo médio do período; aqui, para simplificar, usaremos o ativo do fim do período.
Giro do Ativo = Receita Líquida / Ativo TotalPasso a passo prático (Empresa Alfa)
- Receita Líquida = 1.200.000
- Ativo Total = 1.000.000
- Calcule: 1.200.000 / 1.000.000 = 1,20
Giro do Ativo = 1,20 (a empresa gerou R$ 1,20 de receita para cada R$ 1,00 em ativos)
Qual direção tende a ser melhor
Maior giro tende a ser melhor, pois indica uso mais eficiente dos ativos para gerar vendas. Mas isso depende do tipo de negócio: empresas com muitos ativos (máquinas, lojas) tendem a ter giro menor do que empresas “leves”.
Cuidados de interpretação
- Giro alto com margem baixa: pode ser um modelo saudável (alto volume) ou um sinal de preços pressionados. Por isso, combine giro com margens.
- Ativos subavaliados/antigos: ativos contábeis podem estar depreciados; o giro pode parecer artificialmente alto.
- Crescimento: investimentos recentes aumentam o ativo antes de a receita crescer, reduzindo o giro temporariamente.
Como os indicadores “conversam” entre si (leitura qualitativa com os mesmos números)
1) Liquidez e endividamento juntos: risco de curto prazo x estrutura de capital
- A Empresa Alfa tem liquidez corrente 1,50, sugerindo capacidade razoável de pagar obrigações de curto prazo com ativos de curto prazo.
- Ao mesmo tempo, tem Passivo/Ativo de 55% e Passivo/PL de 1,22, indicando dependência relevante de capital de terceiros.
- Leitura combinada: a estrutura é alavancada, mas não parece “estrangulada” no curto prazo (pelo menos pela fotografia do Balanço).
2) Margem bruta x margem líquida: onde o resultado está sendo consumido
- Margem bruta de 35% indica que o produto/serviço tem uma boa sobra após custos diretos.
- Mas a margem líquida cai para ~6,7%. Isso mostra que despesas operacionais, juros e impostos consomem grande parte do que foi gerado no bruto.
Com os números da DRE, dá para enxergar o “caminho” da margem:
- Do bruto (R$ 420.000), as despesas operacionais consomem R$ 250.000.
- Depois, o resultado financeiro consome mais R$ 60.000, o que conversa com o endividamento (dívida costuma gerar juros).
- Impostos de R$ 30.000 levam ao lucro líquido de R$ 80.000.
3) Giro do ativo e margens: dois jeitos de gerar resultado
- O giro do ativo de 1,20 sugere que os ativos estão gerando um volume razoável de receita.
- Como a margem líquida é relativamente baixa (~6,7%), a empresa depende mais de volume e eficiência do que de lucro alto por venda.
Uma checagem rápida de coerência: Receita de R$ 1.200.000 com lucro líquido de R$ 80.000 implica que, para cada R$ 100 vendidos, sobram cerca de R$ 6,70. Se o giro cair (menos receita para o mesmo ativo), a margem líquida por si só pode não sustentar o lucro total.
Resumo operacional (fórmulas em um bloco para consulta rápida)
Liquidez Corrente = Ativo Circulante / Passivo Circulante
Endividamento (Passivo/Ativo) = Passivo Total / Ativo Total
Endividamento (Passivo/PL) = Passivo Total / Patrimônio Líquido
Margem Bruta = Lucro Bruto / Receita Líquida
Margem Líquida = Lucro Líquido / Receita Líquida
Giro do Ativo = Receita Líquida / Ativo Total