Demonstrações Contábeis para Iniciantes: Exercícios práticos de leitura (Balanço e DRE completos)

Capítulo 12

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

Como usar este capítulo (modo “mão na massa”)

Você vai praticar a leitura de demonstrações completas em dois níveis: (1) um conjunto simplificado para treinar o olhar e (2) um conjunto mais detalhado com comparação de dois períodos para treinar interpretação e narrativa. Em cada exercício, siga o mesmo ritual: (a) confira se as demonstrações “fecham”, (b) identifique o que mais pesa (tamanho), (c) identifique o que mais mudou (variação), (d) conecte Balanço e DRE para explicar o “porquê”, (e) escreva um mini-relatório com pontos fortes, riscos, tendências e ações recomendadas.

Exercício 1 — Leitura de Balanço e DRE simplificados (um período)

1A) Balanço Patrimonial simplificado (em R$ mil)

AtivoValorPassivo e PLValor
Caixa e equivalentes120Fornecedores180
Contas a receber260Empréstimos (curto prazo)90
Estoques220Empréstimos (longo prazo)210
Imobilizado (líquido)400Patrimônio Líquido520
Total do Ativo1.000Total do Passivo + PL1.000

1B) DRE simplificada (em R$ mil)

ContaValor
Receita líquida1.500
(-) Custos(900)
Lucro bruto600
(-) Despesas operacionais(420)
Resultado operacional180
(-) Despesa financeira líquida(60)
Lucro antes do IR120
(-) IR/CS(30)
Lucro líquido90

Tarefas (faça antes de ver o gabarito)

  • T1 — Checagem rápida: o Balanço fecha? Identifique o total do Ativo e o total do Passivo + PL.
  • T2 — Leitura “de cima para baixo” do Balanço: quais são os 2 maiores itens do Ativo? E os 2 maiores do Passivo + PL?
  • T3 — Liquidez de curto prazo (leitura qualitativa): olhando Caixa, Contas a Receber e Estoques versus Fornecedores e Empréstimos CP, qual é o “tom” do capital de giro (confortável, apertado, ou neutro)? Justifique em 2–3 frases.
  • T4 — Leitura da DRE: identifique o “degrau” que mais consome o lucro (Custos, Despesas operacionais ou Financeiro). O que isso sugere sobre o tipo de atenção gerencial?
  • T5 — Conexão Balanço–DRE (raciocínio): com base no nível de dívida (empréstimos CP + LP) e na despesa financeira, a alavancagem parece “pesar” muito ou moderadamente? Explique sem calcular muitos índices: use proporções simples e lógica.
  • T6 — Mini-relatório (8 a 12 linhas): escreva: (a) 2 pontos fortes, (b) 2 riscos, (c) 1 tendência provável (mesmo com 1 período, inferida pela estrutura), (d) 2 ações/atenções recomendadas.

Gabarito comentado — Exercício 1

T1 (checagem): fecha. Total do Ativo = 1.000 e Total do Passivo + PL = 1.000. Essa checagem evita interpretar números que podem estar incompletos.

T2 (maiores itens): no Ativo, os maiores são Imobilizado (400) e Contas a Receber (260) (em seguida Estoques 220). No Passivo + PL, o maior é PL (520) e depois Fornecedores (180) (em seguida Empréstimos LP 210, que na verdade é maior que Fornecedores; então os dois maiores do lado direito são PL 520 e Empréstimos LP 210). O raciocínio é: “o que domina a estrutura?” Isso direciona perguntas: empresa é intensiva em ativos fixos? Depende de crédito a clientes? Depende de dívida de longo prazo?

T3 (capital de giro): Ativos de curto prazo somam 120 + 260 + 220 = 600. Passivos de curto prazo (Fornecedores 180 + Empréstimos CP 90) = 270. Em leitura qualitativa, parece confortável no curto prazo, pois há folga entre recursos de curto prazo e obrigações de curto prazo. Mas a qualidade importa: grande parte está em Contas a Receber e Estoques (não é caixa imediato), então a folga depende de receber clientes e girar estoque.

T4 (DRE — maior consumo): Custos (900) consomem a maior parte da Receita (1.500). Isso sugere atenção forte em margem bruta: preço, mix, eficiência produtiva/serviço, perdas, compras e produtividade. Despesas operacionais (420) também são relevantes, mas o “primeiro gargalo” é o custo.

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T5 (dívida x financeiro): Empréstimos totais = 90 + 210 = 300. Despesa financeira líquida = 60. Comparando com o resultado operacional (180), o financeiro consome 60/180 = 1/3 do operacional, o que é moderado a relevante. Não “engole” o lucro, mas reduz bastante a conversão de resultado operacional em lucro líquido. Perguntas naturais: taxa média? prazos? há espaço para renegociar? a empresa precisa dessa dívida para financiar capital de giro ou investimento?

T6 (mini-relatório — exemplo de resposta): Pontos fortes: (1) estrutura com PL maior que dívidas, indicando base de capital própria relevante; (2) resultado operacional positivo e lucro líquido (90). Riscos: (1) dependência de recebimento e giro de estoque para sustentar a folga de curto prazo; (2) custo elevado consumindo grande parte da receita, deixando a margem sensível a aumento de insumos ou desconto comercial. Tendência provável: se custos subirem ou preço cair, o lucro pode reduzir rapidamente porque a “almofada” de margem não é enorme. Ações: (1) revisar custos e eficiência (compras, perdas, produtividade) e política de preços/mix; (2) reforçar gestão de crédito e cobrança e metas de giro de estoque para proteger caixa.

Exercício 2 — Demonstrações mais detalhadas com comparativo (dois períodos)

2A) Balanço Patrimonial comparativo (em R$ mil)

AtivoAno 1Ano 2Passivo e PLAno 1Ano 2
Ativo CirculantePassivo Circulante
Caixa e equivalentes15080Fornecedores220310
Contas a receber300420Empréstimos CP80140
Estoques250360Obrigações fiscais e trabalhistas6090
Outros ativos circulantes5070Total Passivo Circulante360540
Total Ativo Circulante750930Passivo Não Circulante
Ativo Não CirculanteEmpréstimos LP240260
Imobilizado (líquido)550620Provisões4050
Intangível3040Total Passivo Não Circulante280310
Total Ativo Não Circulante580660Patrimônio Líquido
Total do Ativo1.3301.590Capital + Reservas + Lucros acumulados690740
Total Passivo + PL1.3301.590

2B) DRE comparativa (em R$ mil)

ContaAno 1Ano 2
Receita líquida2.4002.900
(-) Custos(1.500)(1.900)
Lucro bruto9001.000
(-) Despesas com vendas(360)(430)
(-) Despesas administrativas(280)(330)
(-) Depreciação e amortização(110)(130)
Resultado operacional (EBIT)150110
(-) Despesa financeira líquida(70)(95)
Lucro antes do IR8015
(-) IR/CS(20)(5)
Lucro líquido6010

Tarefas (faça antes de ver o gabarito)

  • T1 — Checagem: o Balanço fecha em ambos os anos? Quais são os totais?
  • T2 — Leitura do crescimento: o Ativo total cresceu quanto (em valor e “sensação”)? Quais contas explicam a maior parte do crescimento?
  • T3 — Qualidade do crescimento (capital de giro): o crescimento veio mais de Caixa ou de Contas a Receber/Estoques? O que isso sugere sobre conversão de vendas em caixa?
  • T4 — Pressão de curto prazo: compare Ativo Circulante vs Passivo Circulante nos dois anos. A folga aumentou ou diminuiu? O que pode acontecer com a necessidade de financiamento?
  • T5 — DRE: crescimento com rentabilidade: a Receita cresceu, mas o Lucro líquido caiu. Aponte 2 linhas da DRE que ajudam a explicar essa “contradição”.
  • T6 — Conecte Balanço e DRE: use as mudanças em Empréstimos e em Caixa para propor uma história plausível (2–4 frases) do que aconteceu no Ano 2.
  • T7 — Mini-relatório (12 a 18 linhas): escreva: (a) 3 pontos fortes, (b) 3 riscos, (c) 2 tendências, (d) 3 ações/atenções recomendadas.

Gabarito comentado — Exercício 2

T1 (checagem): fecha nos dois anos. Ano 1: Ativo 1.330 = Passivo + PL 1.330. Ano 2: Ativo 1.590 = Passivo + PL 1.590. Checar isso antes evita “caçar” problemas que são apenas erro de soma.

T2 (crescimento do Ativo): Ativo total cresceu 1.590 − 1.330 = 260. As maiores altas estão em Contas a Receber (+120), Estoques (+110) e Imobilizado (+70). Ou seja, o crescimento foi puxado por capital de giro (clientes e estoque) e também por investimento em ativos fixos.

T3 (qualidade do crescimento): Caixa caiu de 150 para 80 (−70), enquanto Contas a Receber e Estoques subiram bastante. Isso sugere que parte do crescimento de vendas pode não ter virado caixa no mesmo ritmo: mais vendas “a prazo” e mais recursos parados em estoque. Mesmo com aumento de Receita, a empresa pode estar “financiando” clientes e carregando mais inventário.

T4 (pressão de curto prazo): Ano 1: Ativo Circulante 750 vs Passivo Circulante 360 (folga 390). Ano 2: Ativo Circulante 930 vs Passivo Circulante 540 (folga 390). A folga absoluta ficou igual, mas a estrutura piorou em qualidade: menos caixa e mais contas a receber/estoque. Além disso, o Passivo Circulante cresceu muito (+180), elevando compromissos de curto prazo. Isso pode aumentar a necessidade de financiamento e a sensibilidade a atrasos de clientes.

T5 (Receita sobe e lucro cai): duas pistas fortes: (1) o EBIT caiu de 150 para 110, apesar do lucro bruto subir (900 para 1.000). Isso indica que as despesas operacionais (vendas, administrativas e depreciação) cresceram mais do que o ganho de lucro bruto. (2) a despesa financeira aumentou (70 para 95), consumindo ainda mais o resultado. Resultado: lucro antes do IR despenca (80 para 15) e o lucro líquido cai para 10.

T6 (história plausível conectando Balanço e DRE): no Ano 2, a empresa cresceu vendas, mas precisou sustentar esse crescimento com mais capital de giro (subiram contas a receber e estoques). Como o caixa caiu, ela provavelmente recorreu a mais financiamento de curto prazo (Empréstimos CP subiram 60) e alongou pagamentos a fornecedores (Fornecedores subiram 90). Isso ajuda a explicar a despesa financeira maior e a pressão no lucro líquido.

T7 (mini-relatório — exemplo de resposta): Pontos fortes: (1) Receita e lucro bruto cresceram, mostrando demanda e capacidade de gerar margem bruta; (2) PL aumentou (690 para 740), indicando retenção de resultado e base de capital; (3) investimento em imobilizado sugere expansão/modernização. Riscos: (1) queda forte do lucro líquido (60 para 10) e do EBIT (150 para 110), sinal de perda de eficiência operacional; (2) aumento de contas a receber e estoques com queda de caixa, sugerindo piora na conversão de vendas em caixa; (3) maior dependência de passivos de curto prazo (fornecedores e empréstimos CP), elevando risco de liquidez e custo financeiro. Tendências: (1) se despesas operacionais continuarem crescendo acima da receita, a margem operacional pode seguir comprimida; (2) se o capital de giro continuar “esticando”, a empresa pode precisar de mais dívida e pagar mais juros. Ações/atenções: (1) revisar política de crédito, cobrança e limites por cliente; (2) atacar giro de estoque (curva ABC, níveis mínimos/máximos, itens obsoletos) para liberar caixa; (3) plano de eficiência de despesas (vendas e administrativas) com metas por % da receita e acompanhamento mensal, além de renegociação/reestruturação de dívidas para reduzir custo e alongar prazos.

Modelo de mini-relatório (para você preencher em qualquer empresa)

Use este roteiro como “template” e preencha com números e evidências das demonstrações:

  • 1) Visão geral (2–3 linhas): tamanho (Ativo/Receita), crescimento (se houver comparativo) e resultado (lucro/prejuízo).
  • 2) Pontos fortes (2–4 bullets): cite itens observáveis (ex.: PL robusto, margem bruta estável, caixa confortável, baixa dívida CP, etc.).
  • 3) Riscos e sinais de atenção (2–5 bullets): cite o que pode “quebrar” o plano (ex.: caixa caindo, contas a receber subindo, despesas crescendo, juros consumindo resultado, concentração em fornecedores).
  • 4) Tendências (2 bullets): o que parece estar melhorando/piorando e por quê (com base em variações e estrutura).
  • 5) Recomendações (2–3 ações objetivas): ações ligadas aos achados (ex.: reduzir prazo médio de recebimento, renegociar dívida, ajustar preços/mix, cortar despesas, reduzir estoque).

Checklist de raciocínio (para não travar nos exercícios)

  • Comece pelo que é grande: itens mais relevantes em valor normalmente explicam a história.
  • Depois vá para o que mudou: no comparativo, as maiores variações costumam indicar decisões (crescimento, investimento, financiamento) ou problemas (ineficiência, pressão de caixa).
  • Procure coerência entre Balanço e DRE: se a Receita cresce e o Caixa cai, pergunte “para onde foi o dinheiro?” (clientes, estoque, investimento, dívida).
  • Transforme números em frases causais: “Aumentou X, então precisou de Y, o que elevou Z”.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

No comparativo do Exercício 2, qual narrativa é mais coerente para explicar por que a Receita líquida aumentou no Ano 2, mas o Lucro líquido caiu fortemente?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A Receita e o lucro bruto subiram, mas o EBIT caiu porque as despesas operacionais cresceram mais. A despesa financeira também aumentou. No Balanço, Caixa caiu e Contas a Receber/Estoques subiram, sugerindo mais capital de giro e maior pressão por financiamento.

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