Como usar este capítulo (modo “mão na massa”)
Você vai praticar a leitura de demonstrações completas em dois níveis: (1) um conjunto simplificado para treinar o olhar e (2) um conjunto mais detalhado com comparação de dois períodos para treinar interpretação e narrativa. Em cada exercício, siga o mesmo ritual: (a) confira se as demonstrações “fecham”, (b) identifique o que mais pesa (tamanho), (c) identifique o que mais mudou (variação), (d) conecte Balanço e DRE para explicar o “porquê”, (e) escreva um mini-relatório com pontos fortes, riscos, tendências e ações recomendadas.
Exercício 1 — Leitura de Balanço e DRE simplificados (um período)
1A) Balanço Patrimonial simplificado (em R$ mil)
| Ativo | Valor | Passivo e PL | Valor |
|---|---|---|---|
| Caixa e equivalentes | 120 | Fornecedores | 180 |
| Contas a receber | 260 | Empréstimos (curto prazo) | 90 |
| Estoques | 220 | Empréstimos (longo prazo) | 210 |
| Imobilizado (líquido) | 400 | Patrimônio Líquido | 520 |
| Total do Ativo | 1.000 | Total do Passivo + PL | 1.000 |
1B) DRE simplificada (em R$ mil)
| Conta | Valor |
|---|---|
| Receita líquida | 1.500 |
| (-) Custos | (900) |
| Lucro bruto | 600 |
| (-) Despesas operacionais | (420) |
| Resultado operacional | 180 |
| (-) Despesa financeira líquida | (60) |
| Lucro antes do IR | 120 |
| (-) IR/CS | (30) |
| Lucro líquido | 90 |
Tarefas (faça antes de ver o gabarito)
- T1 — Checagem rápida: o Balanço fecha? Identifique o total do Ativo e o total do Passivo + PL.
- T2 — Leitura “de cima para baixo” do Balanço: quais são os 2 maiores itens do Ativo? E os 2 maiores do Passivo + PL?
- T3 — Liquidez de curto prazo (leitura qualitativa): olhando Caixa, Contas a Receber e Estoques versus Fornecedores e Empréstimos CP, qual é o “tom” do capital de giro (confortável, apertado, ou neutro)? Justifique em 2–3 frases.
- T4 — Leitura da DRE: identifique o “degrau” que mais consome o lucro (Custos, Despesas operacionais ou Financeiro). O que isso sugere sobre o tipo de atenção gerencial?
- T5 — Conexão Balanço–DRE (raciocínio): com base no nível de dívida (empréstimos CP + LP) e na despesa financeira, a alavancagem parece “pesar” muito ou moderadamente? Explique sem calcular muitos índices: use proporções simples e lógica.
- T6 — Mini-relatório (8 a 12 linhas): escreva: (a) 2 pontos fortes, (b) 2 riscos, (c) 1 tendência provável (mesmo com 1 período, inferida pela estrutura), (d) 2 ações/atenções recomendadas.
Gabarito comentado — Exercício 1
T1 (checagem): fecha. Total do Ativo = 1.000 e Total do Passivo + PL = 1.000. Essa checagem evita interpretar números que podem estar incompletos.
T2 (maiores itens): no Ativo, os maiores são Imobilizado (400) e Contas a Receber (260) (em seguida Estoques 220). No Passivo + PL, o maior é PL (520) e depois Fornecedores (180) (em seguida Empréstimos LP 210, que na verdade é maior que Fornecedores; então os dois maiores do lado direito são PL 520 e Empréstimos LP 210). O raciocínio é: “o que domina a estrutura?” Isso direciona perguntas: empresa é intensiva em ativos fixos? Depende de crédito a clientes? Depende de dívida de longo prazo?
T3 (capital de giro): Ativos de curto prazo somam 120 + 260 + 220 = 600. Passivos de curto prazo (Fornecedores 180 + Empréstimos CP 90) = 270. Em leitura qualitativa, parece confortável no curto prazo, pois há folga entre recursos de curto prazo e obrigações de curto prazo. Mas a qualidade importa: grande parte está em Contas a Receber e Estoques (não é caixa imediato), então a folga depende de receber clientes e girar estoque.
T4 (DRE — maior consumo): Custos (900) consomem a maior parte da Receita (1.500). Isso sugere atenção forte em margem bruta: preço, mix, eficiência produtiva/serviço, perdas, compras e produtividade. Despesas operacionais (420) também são relevantes, mas o “primeiro gargalo” é o custo.
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T5 (dívida x financeiro): Empréstimos totais = 90 + 210 = 300. Despesa financeira líquida = 60. Comparando com o resultado operacional (180), o financeiro consome 60/180 = 1/3 do operacional, o que é moderado a relevante. Não “engole” o lucro, mas reduz bastante a conversão de resultado operacional em lucro líquido. Perguntas naturais: taxa média? prazos? há espaço para renegociar? a empresa precisa dessa dívida para financiar capital de giro ou investimento?
T6 (mini-relatório — exemplo de resposta): Pontos fortes: (1) estrutura com PL maior que dívidas, indicando base de capital própria relevante; (2) resultado operacional positivo e lucro líquido (90). Riscos: (1) dependência de recebimento e giro de estoque para sustentar a folga de curto prazo; (2) custo elevado consumindo grande parte da receita, deixando a margem sensível a aumento de insumos ou desconto comercial. Tendência provável: se custos subirem ou preço cair, o lucro pode reduzir rapidamente porque a “almofada” de margem não é enorme. Ações: (1) revisar custos e eficiência (compras, perdas, produtividade) e política de preços/mix; (2) reforçar gestão de crédito e cobrança e metas de giro de estoque para proteger caixa.
Exercício 2 — Demonstrações mais detalhadas com comparativo (dois períodos)
2A) Balanço Patrimonial comparativo (em R$ mil)
| Ativo | Ano 1 | Ano 2 | Passivo e PL | Ano 1 | Ano 2 |
|---|---|---|---|---|---|
| Ativo Circulante | Passivo Circulante | ||||
| Caixa e equivalentes | 150 | 80 | Fornecedores | 220 | 310 |
| Contas a receber | 300 | 420 | Empréstimos CP | 80 | 140 |
| Estoques | 250 | 360 | Obrigações fiscais e trabalhistas | 60 | 90 |
| Outros ativos circulantes | 50 | 70 | Total Passivo Circulante | 360 | 540 |
| Total Ativo Circulante | 750 | 930 | Passivo Não Circulante | ||
| Ativo Não Circulante | Empréstimos LP | 240 | 260 | ||
| Imobilizado (líquido) | 550 | 620 | Provisões | 40 | 50 |
| Intangível | 30 | 40 | Total Passivo Não Circulante | 280 | 310 |
| Total Ativo Não Circulante | 580 | 660 | Patrimônio Líquido | ||
| Total do Ativo | 1.330 | 1.590 | Capital + Reservas + Lucros acumulados | 690 | 740 |
| Total Passivo + PL | 1.330 | 1.590 |
2B) DRE comparativa (em R$ mil)
| Conta | Ano 1 | Ano 2 |
|---|---|---|
| Receita líquida | 2.400 | 2.900 |
| (-) Custos | (1.500) | (1.900) |
| Lucro bruto | 900 | 1.000 |
| (-) Despesas com vendas | (360) | (430) |
| (-) Despesas administrativas | (280) | (330) |
| (-) Depreciação e amortização | (110) | (130) |
| Resultado operacional (EBIT) | 150 | 110 |
| (-) Despesa financeira líquida | (70) | (95) |
| Lucro antes do IR | 80 | 15 |
| (-) IR/CS | (20) | (5) |
| Lucro líquido | 60 | 10 |
Tarefas (faça antes de ver o gabarito)
- T1 — Checagem: o Balanço fecha em ambos os anos? Quais são os totais?
- T2 — Leitura do crescimento: o Ativo total cresceu quanto (em valor e “sensação”)? Quais contas explicam a maior parte do crescimento?
- T3 — Qualidade do crescimento (capital de giro): o crescimento veio mais de Caixa ou de Contas a Receber/Estoques? O que isso sugere sobre conversão de vendas em caixa?
- T4 — Pressão de curto prazo: compare Ativo Circulante vs Passivo Circulante nos dois anos. A folga aumentou ou diminuiu? O que pode acontecer com a necessidade de financiamento?
- T5 — DRE: crescimento com rentabilidade: a Receita cresceu, mas o Lucro líquido caiu. Aponte 2 linhas da DRE que ajudam a explicar essa “contradição”.
- T6 — Conecte Balanço e DRE: use as mudanças em Empréstimos e em Caixa para propor uma história plausível (2–4 frases) do que aconteceu no Ano 2.
- T7 — Mini-relatório (12 a 18 linhas): escreva: (a) 3 pontos fortes, (b) 3 riscos, (c) 2 tendências, (d) 3 ações/atenções recomendadas.
Gabarito comentado — Exercício 2
T1 (checagem): fecha nos dois anos. Ano 1: Ativo 1.330 = Passivo + PL 1.330. Ano 2: Ativo 1.590 = Passivo + PL 1.590. Checar isso antes evita “caçar” problemas que são apenas erro de soma.
T2 (crescimento do Ativo): Ativo total cresceu 1.590 − 1.330 = 260. As maiores altas estão em Contas a Receber (+120), Estoques (+110) e Imobilizado (+70). Ou seja, o crescimento foi puxado por capital de giro (clientes e estoque) e também por investimento em ativos fixos.
T3 (qualidade do crescimento): Caixa caiu de 150 para 80 (−70), enquanto Contas a Receber e Estoques subiram bastante. Isso sugere que parte do crescimento de vendas pode não ter virado caixa no mesmo ritmo: mais vendas “a prazo” e mais recursos parados em estoque. Mesmo com aumento de Receita, a empresa pode estar “financiando” clientes e carregando mais inventário.
T4 (pressão de curto prazo): Ano 1: Ativo Circulante 750 vs Passivo Circulante 360 (folga 390). Ano 2: Ativo Circulante 930 vs Passivo Circulante 540 (folga 390). A folga absoluta ficou igual, mas a estrutura piorou em qualidade: menos caixa e mais contas a receber/estoque. Além disso, o Passivo Circulante cresceu muito (+180), elevando compromissos de curto prazo. Isso pode aumentar a necessidade de financiamento e a sensibilidade a atrasos de clientes.
T5 (Receita sobe e lucro cai): duas pistas fortes: (1) o EBIT caiu de 150 para 110, apesar do lucro bruto subir (900 para 1.000). Isso indica que as despesas operacionais (vendas, administrativas e depreciação) cresceram mais do que o ganho de lucro bruto. (2) a despesa financeira aumentou (70 para 95), consumindo ainda mais o resultado. Resultado: lucro antes do IR despenca (80 para 15) e o lucro líquido cai para 10.
T6 (história plausível conectando Balanço e DRE): no Ano 2, a empresa cresceu vendas, mas precisou sustentar esse crescimento com mais capital de giro (subiram contas a receber e estoques). Como o caixa caiu, ela provavelmente recorreu a mais financiamento de curto prazo (Empréstimos CP subiram 60) e alongou pagamentos a fornecedores (Fornecedores subiram 90). Isso ajuda a explicar a despesa financeira maior e a pressão no lucro líquido.
T7 (mini-relatório — exemplo de resposta): Pontos fortes: (1) Receita e lucro bruto cresceram, mostrando demanda e capacidade de gerar margem bruta; (2) PL aumentou (690 para 740), indicando retenção de resultado e base de capital; (3) investimento em imobilizado sugere expansão/modernização. Riscos: (1) queda forte do lucro líquido (60 para 10) e do EBIT (150 para 110), sinal de perda de eficiência operacional; (2) aumento de contas a receber e estoques com queda de caixa, sugerindo piora na conversão de vendas em caixa; (3) maior dependência de passivos de curto prazo (fornecedores e empréstimos CP), elevando risco de liquidez e custo financeiro. Tendências: (1) se despesas operacionais continuarem crescendo acima da receita, a margem operacional pode seguir comprimida; (2) se o capital de giro continuar “esticando”, a empresa pode precisar de mais dívida e pagar mais juros. Ações/atenções: (1) revisar política de crédito, cobrança e limites por cliente; (2) atacar giro de estoque (curva ABC, níveis mínimos/máximos, itens obsoletos) para liberar caixa; (3) plano de eficiência de despesas (vendas e administrativas) com metas por % da receita e acompanhamento mensal, além de renegociação/reestruturação de dívidas para reduzir custo e alongar prazos.
Modelo de mini-relatório (para você preencher em qualquer empresa)
Use este roteiro como “template” e preencha com números e evidências das demonstrações:
- 1) Visão geral (2–3 linhas): tamanho (Ativo/Receita), crescimento (se houver comparativo) e resultado (lucro/prejuízo).
- 2) Pontos fortes (2–4 bullets): cite itens observáveis (ex.: PL robusto, margem bruta estável, caixa confortável, baixa dívida CP, etc.).
- 3) Riscos e sinais de atenção (2–5 bullets): cite o que pode “quebrar” o plano (ex.: caixa caindo, contas a receber subindo, despesas crescendo, juros consumindo resultado, concentração em fornecedores).
- 4) Tendências (2 bullets): o que parece estar melhorando/piorando e por quê (com base em variações e estrutura).
- 5) Recomendações (2–3 ações objetivas): ações ligadas aos achados (ex.: reduzir prazo médio de recebimento, renegociar dívida, ajustar preços/mix, cortar despesas, reduzir estoque).
Checklist de raciocínio (para não travar nos exercícios)
- Comece pelo que é grande: itens mais relevantes em valor normalmente explicam a história.
- Depois vá para o que mudou: no comparativo, as maiores variações costumam indicar decisões (crescimento, investimento, financiamento) ou problemas (ineficiência, pressão de caixa).
- Procure coerência entre Balanço e DRE: se a Receita cresce e o Caixa cai, pergunte “para onde foi o dinheiro?” (clientes, estoque, investimento, dívida).
- Transforme números em frases causais: “Aumentou X, então precisou de Y, o que elevou Z”.