Demonstrações Contábeis para Iniciantes: Ativo na prática (Circulante e Não Circulante)

Capítulo 2

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

+ Exercício

O que é Ativo (na prática)

Ativo é tudo o que a empresa controla e que tende a gerar benefícios econômicos futuros. Na leitura do balanço, o Ativo mostra onde o dinheiro está aplicado (em caixa, vendas a receber, estoques, máquinas, softwares etc.).

Na prática, interpretar o Ativo é responder perguntas como: quanto está em dinheiro agora? quanto depende de clientes pagarem? quanto está parado em estoque? quanto está preso em investimentos de longo prazo?

Critério de classificação: Circulante vs. Não Circulante

A divisão mais útil para iniciantes é por prazo de realização (quando o ativo deve virar dinheiro ou ser consumido).

  • Ativo Circulante (AC): itens que devem se transformar em caixa, ser vendidos ou consumidos até 12 meses (ou dentro do ciclo operacional, se for maior, dependendo do negócio).
  • Ativo Não Circulante (ANC): itens com realização/uso após 12 meses. Inclui ativos de longo prazo e ativos usados para operar (máquinas, marcas, softwares etc.).

Passo a passo para classificar por prazo

  1. Liste as contas do Ativo do balanço (linha a linha).
  2. Pergunte “vira caixa (ou é consumido) em até 12 meses?” Se sim, tende a ser Circulante.
  3. Se não, pergunte “é usado na operação por vários anos?” Se sim, tende a ser Não Circulante (ex.: imobilizado, intangível).
  4. Verifique notas explicativas quando houver dúvidas (ex.: prazos de recebimento, política de estoques, vida útil do imobilizado).

Contas mais comuns do Ativo Circulante

1) Caixa e equivalentes de caixa

O que é: dinheiro disponível e aplicações de altíssima liquidez e baixo risco, com vencimento curto (ex.: aplicações que podem ser resgatadas rapidamente sem perda relevante).

Quando aumenta: recebimento de vendas, aportes de sócios, empréstimos, venda de ativos, geração de caixa operacional.

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Quando diminui: pagamento de fornecedores, salários, impostos, investimentos, amortização de dívidas, distribuição de lucros.

Sinais de risco:

  • Caixa baixo junto com contas a receber e estoques altos pode indicar aperto de liquidez (muito dinheiro “preso” no giro).
  • Caixa alto por causa de empréstimos pode mascarar operação fraca (olhar também endividamento e despesas financeiras).

2) Contas a Receber (Clientes / Duplicatas a Receber)

O que é: vendas já realizadas, mas ainda não recebidas. É um “direito” da empresa contra os clientes.

Quando aumenta: mais vendas a prazo, prazos maiores concedidos, atraso de clientes (inadimplência), crescimento do faturamento sem recebimento proporcional.

Quando diminui: recebimentos, maior venda à vista, antecipação de recebíveis, melhora na cobrança.

Sinais de risco:

  • Crescimento mais rápido que as vendas pode indicar piora na qualidade do crédito ou alongamento de prazo.
  • Concentração em poucos clientes aumenta risco de calote.
  • Provisão para perdas (PDD/PECLD) baixa demais pode indicar otimismo contábil; alta demais pode indicar deterioração da carteira.

3) Estoques

O que é: mercadorias para revenda, matérias-primas, produtos em processo e produtos acabados.

Quando aumenta: compras acima das vendas, produção maior que a demanda, preparação para sazonalidade, problemas de venda, erros de previsão.

Quando diminui: vendas fortes, redução de compras, ajuste de produção, perdas/obsolescência (baixas).

Sinais de risco:

  • Estoque crescendo sem crescimento de vendas pode indicar encalhe, obsolescência ou queda de demanda.
  • Estoque muito baixo pode indicar ruptura (perda de vendas) ou dificuldade de comprar (falta de caixa/crédito).
  • Margem caindo pode estar ligada a queima de estoque (descontos para desovar).

4) Despesas antecipadas

O que é: pagamentos feitos antecipadamente que serão “consumidos” ao longo do tempo (ex.: seguros, aluguéis pagos adiantados, licenças anuais).

Quando aumenta: pagamento antecipado de contratos.

Quando diminui: reconhecimento mensal como despesa (à medida que o benefício é consumido).

Sinais de risco:

  • Valores muito altos podem indicar adiantamentos incomuns (negociação desfavorável) ou tentativa de “empurrar” despesas para frente (depende da política contábil e notas).

Contas mais comuns do Ativo Não Circulante

1) Imobilizado

O que é: bens físicos usados na operação por vários anos: máquinas, equipamentos, veículos, móveis, instalações, imóveis (quando usados na atividade).

Quando aumenta: compra de máquinas, construção, expansão, capitalização de projetos (conforme regras contábeis), reavaliações não são comuns em certos padrões (ver política adotada).

Quando diminui: depreciação (reduz valor contábil ao longo do tempo), venda/baixa de bens, perdas por impairment (redução ao valor recuperável).

Sinais de risco:

  • Imobilizado muito antigo (alta depreciação acumulada) pode indicar necessidade de investimento e risco de paradas.
  • Capex baixo por muito tempo em negócio intensivo em ativos pode sinalizar sucateamento.
  • Impairment recorrente pode indicar investimentos mal dimensionados ou queda estrutural do negócio.

2) Intangível

O que é: ativos não físicos que geram benefícios: softwares, licenças, direitos, marcas adquiridas, patentes, ágio por expectativa de rentabilidade futura (goodwill) em combinações de negócios (dependendo da contabilidade aplicada).

Quando aumenta: aquisição de software/licenças, compra de empresa (gerando goodwill), desenvolvimento capitalizado (quando permitido e atendidos critérios).

Quando diminui: amortização (para intangíveis com vida útil definida), impairment, baixas por descontinuidade.

Sinais de risco:

  • Intangível muito grande em relação ao total de ativos pode exigir atenção: parte pode depender de premissas (ex.: goodwill).
  • Impairment pode indicar que projeções de lucro/caixa não se confirmaram.
  • Capitalização agressiva de desenvolvimento pode inflar ativos e reduzir despesas no curto prazo (checar notas e consistência com geração de caixa).

Leitura prática: o que o Ativo “conta” sobre a empresa

Mapa rápido de interpretação

ContaO que pode ser bomO que pode ser alerta
CaixaLiquidez para operar e investirCaixa baixo com giro travado; caixa alto por dívida
Contas a ReceberVendas crescendo com recebimento saudávelPrazo alongando; inadimplência; provisão insuficiente
EstoquesPreparação para sazonalidade; giro eficienteEncalhe; obsolescência; queima de margem
Despesas antecipadasPagamentos planejados (ex.: seguro anual)Adiantamentos incomuns; postergação de despesas
ImobilizadoCapacidade produtiva adequadaSucateamento; impairment; capex inconsistente
IntangívelAtivos estratégicos (software, marca adquirida)Goodwill elevado; impairment; capitalização agressiva

Estudo de caso curto: contas a receber e estoques crescendo

Cenário: A Empresa Alfa (varejo) apresentou no balanço:

  • Contas a Receber: subiu de R$ 8 milhões para R$ 14 milhões (+75%).
  • Estoques: subiu de R$ 10 milhões para R$ 16 milhões (+60%).
  • Caixa: caiu de R$ 5 milhões para R$ 2 milhões (-60%).
  • Receita: cresceu de R$ 50 milhões para R$ 55 milhões (+10%).

Interpretação inicial (o que isso sugere)

  • O crescimento de Contas a Receber (+75%) muito acima da Receita (+10%) pode indicar que a empresa vendeu mais a prazo, alongou prazos ou está recebendo pior.
  • O crescimento de Estoques (+60%) acima da Receita pode indicar compras/produção acima do necessário, desaceleração de vendas ou preparação para uma sazonalidade (precisa confirmar).
  • A queda de Caixa sugere que o capital ficou “preso” no giro (clientes e estoque), elevando risco de liquidez.

Perguntas que o leitor deve fazer (checklist prático)

  • Contas a Receber
    • O prazo médio de recebimento aumentou? (ex.: de 30 para 60 dias)
    • Houve mudança na política de crédito (mais parcelamento, aprovação mais frouxa)?
    • Qual a taxa de inadimplência e como evoluiu a provisão para perdas?
    • Há concentração em poucos clientes? Algum cliente relevante atrasando?
    • Parte do saldo foi renegociada/rolada (parcelamentos longos)?
  • Estoques
    • O giro de estoque piorou? (mais dias de estoque parado)
    • O mix mudou (mais itens de baixa saída)?
    • Existe risco de obsolescência, vencimento ou moda/sazonalidade?
    • Houve aumento de compras para obter desconto (e isso pressionou o caixa)?
    • Há necessidade de provisão para perdas/ajuste ao valor realizável?
  • Caixa e liquidez
    • A empresa está financiando o giro com fornecedores (aumentou prazo com fornecedores) ou com dívida?
    • Há linhas de crédito disponíveis? Qual o custo (juros) e covenants?
    • O caixa operacional (na DFC, se disponível) está negativo apesar do lucro?

Mini passo a passo para “fechar o diagnóstico”

  1. Compare crescimento de Receita vs. Contas a Receber vs. Estoques (desvios grandes pedem explicação).
  2. Procure evidências de piora: aumento de provisões, descontos, devoluções, baixas de estoque.
  3. Conecte com a operação: sazonalidade, mudança de mix, expansão de lojas, novos canais, política de crédito.
  4. Traduza em risco: se o giro travar, a empresa pode precisar de dívida para pagar fornecedores e folha.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao analisar o Ativo, qual interpretação inicial é mais consistente quando Contas a Receber e Estoques crescem muito acima da Receita, enquanto o Caixa cai?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Quando recebíveis e estoques crescem bem mais que a receita e o caixa cai, isso sugere dinheiro travado no giro. O cenário pode indicar alongamento de prazos, piora de recebimento e/ou excesso de estoque, aumentando risco de liquidez.

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