Conceito de folga e alinhamento na instalação
Folga é o espaço controlado entre o portão/grade e as partes fixas (muro, coluna, piso, batente, guia), necessário para permitir funcionamento suave, absorver pequenas variações do vão e evitar atritos após pintura, dilatação e movimentações do conjunto. Alinhamento é a relação geométrica do portão/grade com as referências fixas (faces do muro/coluna, piso, batentes e guias), garantindo estética e funcionamento: sem “pegar”, sem abrir sozinho, sem forçar dobradiças/roldanas e sem desalinhamento visual.
Na prática, folga e alinhamento são definidos juntos: você escolhe onde o portão vai “sentar” visualmente (faceamento e paralelismo) e, a partir disso, distribui folgas laterais, superior e inferior para acomodar pintura, dilatação, irregularidades e o curso do movimento.
O que influencia as folgas (o que você precisa considerar)
- Pintura/revestimento: aumenta dimensões e “fecha” frestas. Pintura líquida costuma somar menos que pintura a pó, mas ambas exigem margem.
- Dilatação térmica: portões metálicos variam de tamanho com temperatura. Em vãos longos e expostos ao sol, a variação pode ser perceptível.
- Desalinhamento do vão: colunas fora de prumo, piso com queda, batente torto e paredes “barrigadas” exigem folgas maiores ou correção de referência.
- Movimentação do portão: portão de abrir descreve arco (precisa folga para não raspar em piso/muro); portão de correr precisa folga para roldanas, guia e variações do trilho.
- Folga de trabalho de ferragens: dobradiças, fechaduras, linguetas e roletes têm tolerâncias e precisam de espaço para operar sem encostar.
Como calcular folgas laterais, superior e inferior (método prático)
Passo a passo (portão de abrir e grades de abrir)
- Defina a referência de alinhamento visual: escolha se o portão ficará faceado com a face externa do muro/coluna, com a face interna, ou centralizado na espessura. Essa decisão muda o risco de “pegar” em quinas e muda a leitura estética.
- Determine a folga mínima funcional (base): é a folga que garante que, mesmo com pequenas variações, não haverá atrito. Use como ponto de partida as tabelas deste capítulo.
- Some a margem de pintura: considere a espessura do sistema de pintura. Em regiões de contato (bordas próximas), trate como “fechamento de fresta”.
- Some a margem por desalinhamento do vão: se o vão não é perfeitamente prumado/nivelado, aumente folgas onde o risco de encostar é maior (normalmente no lado oposto às dobradiças e na parte inferior).
- Some a margem por movimentação: para portão de abrir, considere o arco e possíveis “quedas” com o tempo (assentamento de dobradiças). Para portão de correr, considere variações do trilho e oscilação lateral.
- Distribua as folgas: laterais (lado dobradiça e lado fechamento), superior e inferior. Evite “compensar tudo” em um único lado, a menos que haja motivo estético/funcional (ex.: batente com borracha).
Fórmula de trabalho (para organizar o raciocínio)
Use a soma por componentes para cada folga:
Folga final = Folga funcional base + Margem de pintura + Margem de desalinhamento + Margem de movimentaçãoVocê pode aplicar a fórmula para cada lado (esquerda/direita), topo e base, porque as condições podem ser diferentes em cada região.
Folgas de trabalho para ferragens (dobradiças, fechaduras e linguetas)
Dobradiças (portão de abrir)
- Folga no lado das dobradiças: precisa permitir giro sem “raspar” na coluna/muro e sem travar quando houver leve desalinhamento. Se houver quina viva no pilar, aumente a folga ou chanfre a borda do portão.
- Folga no lado do fechamento: costuma ser maior que no lado das dobradiças, pois é onde aparecem variações de prumo e onde o portão tende a “cair” com o tempo.
- Folga inferior: além de evitar atrito com o piso, deve considerar sujeira, pequenas pedras e variações de nível.
Fechaduras
- Folga para lingueta/trinco: o trinco precisa entrar no contra-testa/batente sem bater. Se o portão trabalha (dilata/entorta), uma folga muito justa causa travamento.
- Alinhamento do eixo da fechadura: a testa deve ficar paralela ao batente; se o portão estiver “torcido”, a lingueta pode raspar no furo.
- Recomendação prática: prever ajuste no contra-testa (furo oblongo ou chapa de encosto com margem) para compensar pequenas variações sem retrabalho de solda.
Linguetas (superior e inferior)
- Lingueta inferior (chão): exige folga para sujeira/água e para pequenas variações de piso. Se o piso é irregular, considere bucha/guia no furo do chão e folga maior.
- Lingueta superior (travamento em verga): precisa de folga para não forçar o topo do portão quando houver dilatação ou leve empeno.
Folgas específicas para portão de correr
1) Vão de rolamento (roldanas/trilho)
O “vão de rolamento” é a folga necessária para o conjunto roldana/trilho trabalhar sem bater e sem levantar o portão em pontos altos do trilho. Considere:
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- Irregularidade do trilho (soldas, emendas, sujeira).
- Oscilação do portão durante o movimento (principalmente em folhas altas).
- Altura do conjunto (roldana + suporte) e o quanto ele “come” da folga inferior.
2) Afastamento da guia (guia superior ou guia lateral)
A guia controla o balanço. Se ficar justa demais, o portão “canta” e trava; se ficar folgada demais, o portão balança e desalinha no fechamento.
- Folga lateral na guia: deixe uma folga controlada para permitir passagem com pintura e pequenas ondulações.
- Folga vertical na guia superior: evita que o portão bata na guia quando o trilho tem variação de nível.
3) Recuo de batente (fechamento)
O recuo de batente é a distância necessária para o portão encostar/alinhar no batente sem “rebater” ou ficar pressionando a estrutura. Em portão de correr, o fechamento costuma exigir:
- Margem para borracha/escova (se houver vedação).
- Margem para alinhamento do trinco/fechadura (evitar que a lingueta bata na chapa).
- Margem para dilatação (principalmente em folhas longas expostas ao sol).
Critérios de alinhamento (como decidir e como conferir)
1) Faceamento com muro/coluna
Faceamento é alinhar a face do portão/grade com uma face de referência do vão (externa ou interna). Critérios:
- Estética: faceado com a face externa costuma “sumir” melhor na fachada; faceado com a face interna pode proteger ferragens e reduzir exposição.
- Funcionamento: se a coluna tem quina irregular, facear pode aumentar risco de atrito; nesse caso, recuar alguns milímetros e compensar com acabamento (ex.: tapa-fresta).
2) Distância uniforme ao piso
O objetivo é manter uma linha visual constante na parte inferior. Quando o piso tem queda, você escolhe entre:
- Seguir o piso (folga inferior constante em relação ao piso): melhora estética no chão, mas pode exigir portão “em cunha” ou ajustes no quadro.
- Seguir o nível (portão nivelado): melhora funcionamento e esquadro do conjunto, mas a folga inferior varia ao longo do vão. Nesses casos, use saia/escova ou ajuste de acabamento para “enganar” a variação.
3) Paralelismo com referências fixas
Paralelismo é manter o portão paralelo a uma referência (batente, trilho, linha do muro). Regras práticas:
- Portão de abrir: paralelo ao batente no fechamento e com folgas laterais consistentes ao longo da altura.
- Portão de correr: paralelo ao trilho e à linha do muro; a guia deve manter o portão sem “abrir barriga” para fora.
Tabelas de referência (folgas por tipo, pintura e condições do local)
As tabelas abaixo são referências práticas para iniciar o dimensionamento. Ajuste conforme peso da folha, altura, exposição ao sol e qualidade do vão.
Tabela 1 — Folgas típicas (portão de abrir / grade de abrir)
| Condição | Folga lateral lado dobradiça | Folga lateral lado fechamento | Folga superior | Folga inferior |
|---|---|---|---|---|
| Vão bem alinhado, portão leve/médio | 3–5 mm | 5–8 mm | 3–5 mm | 10–15 mm |
| Vão com pequenas irregularidades (prumo/nível não perfeito) | 4–6 mm | 8–12 mm | 4–6 mm | 15–25 mm |
| Portão grande/pesado ou muito exposto ao sol | 5–8 mm | 10–15 mm | 5–8 mm | 20–30 mm |
Tabela 2 — Ajuste por espessura de pintura/revestimento (incremento sugerido)
| Sistema de pintura | Incremento por lado em regiões críticas (bordas próximas) | Observação prática |
|---|---|---|
| Pintura líquida (primer + acabamento) | +0,5 a +1,0 mm | Considere maior valor se houver repintura futura. |
| Pintura a pó (eletrostática) | +1,0 a +2,0 mm | Em cantos e dobras pode “carregar” mais material. |
| Galvanização + pintura | +1,5 a +2,5 mm | Some as camadas; atenção a encaixes de fechadura e guias. |
Tabela 3 — Folgas típicas (portão de correr)
| Item | Referência de folga | Quando aumentar |
|---|---|---|
| Afastamento lateral na guia (cada lado) | 2–4 mm | Folha alta, vento, trilho com variação, pintura a pó. |
| Folga vertical na guia superior | 3–6 mm | Trilho irregular, roldanas pequenas, emendas no trilho. |
| Folga inferior (entre folha e piso, se aplicável) | 15–30 mm | Piso irregular, sujeira frequente, necessidade de drenagem. |
| Recuo/folga no batente de fechamento | 3–8 mm | Uso de borracha/escova, dilatação forte, fechadura sensível. |
Exemplos práticos de cálculo
Exemplo 1 — Portão de abrir em vão com pequenas irregularidades e pintura a pó
Cenário: portão de abrir, folha média, vão com leve desalinhamento, pintura a pó. Objetivo: evitar atrito no fechamento e manter estética.
- Folga lateral lado dobradiça: base 4 mm + pintura 1,5 mm + desalinhamento 0,5 mm = 6 mm
- Folga lateral lado fechamento: base 10 mm + pintura 1,5 mm + movimentação 1 mm = 12,5 mm (arredonde para 13 mm)
- Folga superior: base 5 mm + pintura 1,5 mm = 6,5 mm (arredonde para 7 mm)
- Folga inferior: base 20 mm + piso irregular 5 mm = 25 mm
Checagem de alinhamento: com o portão encostado no batente, confirme paralelismo do quadro com a referência do batente e verifique se a folga no lado do fechamento se mantém ao longo da altura (sem “afunilar” em cima ou embaixo).
Exemplo 2 — Portão de correr com guia superior e batente com escova
Cenário: portão de correr, folha alta, guia superior, batente com escova de vedação, pintura líquida.
- Afastamento na guia (cada lado): base 3 mm + pintura 1 mm = 4 mm
- Folga vertical na guia superior: base 4 mm + trilho com emenda 2 mm = 6 mm
- Recuo no batente: base 4 mm + escova 3 mm + dilatação 1 mm = 8 mm
Checagem de alinhamento: com a folha fechada, verifique se a face do portão está paralela ao muro e se a escova encosta de forma uniforme (sem pontos de pressão que freiem o movimento).
Checklist rápido de verificação durante a instalação
- As folgas laterais se mantêm consistentes ao longo da altura (sem “encostar” em cima e abrir embaixo, ou vice-versa)?
- A folga inferior considera sujeira/irregularidade do piso e não compromete segurança (ex.: vão excessivo)?
- Após pintura prevista, ainda existe folga suficiente nas regiões críticas (guia, batente, contra-testa de fechadura)?
- Fechadura e linguetas entram e saem sem esforço, sem necessidade de “levantar” ou “puxar” o portão?
- No portão de correr, a guia controla o balanço sem travar e o batente fecha sem pressão excessiva?