Gestão econômica orientada a decisão
Na agricultura comercial, produtividade alta não garante lucro. A rentabilidade depende de medir custos de forma consistente, transformar esses dados em indicadores (por hectare e por unidade produzida) e conectar o resultado ao fluxo de caixa. O objetivo deste capítulo é padronizar a linguagem financeira da fazenda e oferecer um método prático para: (1) apurar custo por talhão/cultura, (2) calcular margem e ponto de equilíbrio, (3) estimar retorno (ROI) e risco via sensibilidade, e (4) decidir investimentos com critérios objetivos.
Classificação de custos: o que entra e como organizar
1) Fixos x variáveis
Custos fixos não mudam (ou mudam pouco) com a área plantada ou com a produção no curto prazo. Exemplos: salários administrativos, seguro patrimonial, arrendamento (quando é valor fixo), depreciação, juros de financiamentos de longo prazo, licenças e sistemas.
Custos variáveis variam com a área, intensidade de manejo ou volume produzido. Exemplos: sementes, fertilizantes, defensivos, combustível, fretes por tonelada, secagem por saca, comissões de venda, mão de obra temporária.
2) Diretos x indiretos
Diretos são atribuíveis a um talhão/cultura sem rateio complexo (ex.: semente aplicada no talhão 12, adubo da cultura X, colheita terceirizada por hectare naquele talhão).
Indiretos precisam de critério de rateio (ex.: salário do gerente, manutenção da oficina, energia do escritório, depreciação de máquinas compartilhadas, seguro da frota).
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3) Centro de custo e unidade de apuração
Para evitar “custo médio que esconde problema”, use centros de custo por cultura e, quando possível, por talhão. A unidade mínima recomendada é R$/ha e R$/saca (ou R$/t). Isso permite comparar talhões, safras e tecnologias.
Depreciação: como calcular e por que importa
Depreciação é o consumo econômico do bem ao longo do tempo/uso. Mesmo que não haja saída de caixa imediata, ela representa custo real de manter a operação sustentável (reposição futura).
Método prático (linear)
Use quando o objetivo é gestão e orçamento:
Depreciação anual = (Valor de compra - Valor residual) / Vida útil (anos)Exemplo: pulverizador comprado por R$ 600.000, residual estimado R$ 180.000, vida útil 8 anos:
Depreciação anual = (600.000 - 180.000) / 8 = R$ 52.500/anoComo alocar a depreciação para culturas/talhões
Escolha um direcionador coerente com o uso do ativo:
- Horas de máquina (tratores, colhedoras): ratear pela participação de horas em cada cultura.
- Hectares atendidos (pulverização, plantio): ratear por hectares operados.
- Toneladas movimentadas (carretas, armazenagem): ratear por volume.
Regra prática: o direcionador deve ser fácil de medir e difícil de manipular.
COE e COT: custo operacional efetivo e total
COE (Custo Operacional Efetivo)
É o custo que gera desembolso no ciclo produtivo. Inclui insumos, serviços, combustível, manutenção corrente, mão de obra operacional, fretes, secagem, taxas diretamente pagas.
COT (Custo Operacional Total)
É o COE + custos não desembolsáveis e/ou estruturais associados à operação, principalmente depreciação e, conforme a metodologia adotada, remuneração do capital e/ou custos fixos rateados.
Para gestão interna, uma prática comum é:
- COT = COE + Depreciação + Rateio de fixos (administração, seguros, TI, etc.).
O importante é manter a regra constante para comparar safras.
Custo por hectare e por saca/tonelada
1) Custo por hectare
Custo (R$/ha) = Custo total da cultura ou talhão (R$) / Área (ha)2) Custo por unidade produzida
Custo (R$/saca) = Custo total (R$) / Produção (sacas)Exemplo: talhão com 120 ha, custo total R$ 1.800.000 e produção 8.400 sacas:
- Custo por ha = 1.800.000 / 120 = R$ 15.000/ha
- Custo por saca = 1.800.000 / 8.400 = R$ 214,29/saca
Esse indicador é o mais sensível a produtividade: se a produtividade cai, o custo por saca sobe mesmo com custo por hectare constante.
Montagem de orçamento agrícola por talhão/cultura (passo a passo)
Um orçamento agrícola é uma previsão estruturada de custos, receitas e margens por unidade de gestão (talhão/cultura). Ele serve para decidir tecnologia, travar preço, dimensionar capital de giro e controlar desvios.
Passo 1 — Definir escopo e premissas
- Unidade: talhão (ex.: T12) e cultura (ex.: soja).
- Área (ha) e expectativa de produtividade (sc/ha ou t/ha).
- Calendário de operações (plantio, tratos, colheita) e nível tecnológico.
- Preço esperado (cenários: conservador/base/otimista).
Passo 2 — Listar operações e insumos com quantidades
Monte uma planilha por operação. Exemplo de estrutura:
| Item | Unidade | Qtd/ha | Preço unit. | Custo/ha |
|---|---|---|---|---|
| Semente | kg | 60 | R$ 8,50 | R$ 510 |
| Fertilizante | kg | 350 | R$ 3,20 | R$ 1.120 |
| Defensivos | R$/ha | 1 | R$ 780 | R$ 780 |
| Operações mecanizadas | R$/ha | 1 | R$ 650 | R$ 650 |
| Colheita/Transporte | R$/ha | 1 | R$ 520 | R$ 520 |
Inclua também itens “por produção” quando aplicável (secagem, armazenagem, royalties, comissões), pois afetam o custo por saca.
Passo 3 — Separar COE e itens de COT
- COE: tudo que será pago no ciclo.
- COT: COE + depreciação alocada + rateio de fixos (critério definido).
Passo 4 — Calcular receita e margens
Receita bruta (R$/ha) = Produtividade (sc/ha) × Preço (R$/sc)Margem bruta (R$/ha) = Receita bruta - COEMargem operacional (R$/ha) = Receita bruta - COTExemplo (por ha): produtividade 70 sc/ha, preço R$ 130/sc, COE R$ 4.200/ha, COT R$ 5.100/ha:
- Receita = 70 × 130 = R$ 9.100/ha
- Margem bruta = 9.100 − 4.200 = R$ 4.900/ha
- Margem operacional = 9.100 − 5.100 = R$ 4.000/ha
Passo 5 — Validar coerência e comparar
- Compare custo/ha com safras anteriores e com talhões similares.
- Cheque itens “esquecidos”: manutenção, fretes, secagem, taxas, seguro, juros de custeio.
- Revise premissas de produtividade: use histórico do talhão e risco climático.
Ponto de equilíbrio: quando a conta fecha
Ponto de equilíbrio é a condição mínima para não ter prejuízo, podendo ser calculado em produtividade mínima ou preço mínimo.
1) Produtividade de equilíbrio (sc/ha)
Produtividade de equilíbrio = Custo (R$/ha) / Preço (R$/sc)Exemplo: COT R$ 5.100/ha e preço R$ 130/sc:
PE (sc/ha) = 5.100 / 130 = 39,23 sc/ha2) Preço de equilíbrio (R$/sc)
Preço de equilíbrio = Custo (R$/ha) / Produtividade (sc/ha)Exemplo: COT R$ 5.100/ha e produtividade 70 sc/ha:
PE (R$/sc) = 5.100 / 70 = R$ 72,86/scUse COE para “não quebrar no caixa” e COT para “sustentar a operação no longo prazo”.
ROI e retorno por real investido
ROI (Return on Investment) mede retorno sobre o capital investido. Na fazenda, é útil separar:
- ROI do projeto/tecnologia (ex.: irrigação, armazenagem).
- ROI da safra (capital de custeio e recursos próprios).
ROI simples (para comparar alternativas)
ROI = (Ganho incremental - Custo incremental) / InvestimentoExemplo: adotar uma tecnologia que aumenta receita em R$ 650/ha e aumenta custo em R$ 220/ha. Investimento adicional (equipamento/implemento) rateado dá R$ 120/ha/ano:
- Ganho incremental líquido = 650 − 220 = R$ 430/ha
- ROI = (430 − 120) / 120 = 2,58 (258% ao ano sobre o investimento rateado)
Quando o investimento é grande e o retorno ocorre por vários anos, use critérios de investimento (VPL/TIR), tratados mais adiante.
Análise de sensibilidade: preço x produtividade x custo
Sensibilidade mostra quais variáveis mais afetam o resultado e ajuda a definir travas de preço, nível tecnológico e limites de custo.
Método prático em 3 passos
Passo 1 — Definir cenário base
- Preço base (R$/sc)
- Produtividade base (sc/ha)
- Custo base (COE e COT em R$/ha)
Passo 2 — Variar uma variável por vez (±10% e ±20%)
Calcule a margem operacional em cada variação:
Margem = (Preço × Produtividade) - COTPasso 3 — Montar uma matriz (preço x produtividade)
Exemplo de matriz de margem (R$/ha) com COT fixo de R$ 5.100/ha:
| Produtividade \ Preço | R$ 110/sc | R$ 130/sc | R$ 150/sc |
|---|---|---|---|
| 55 sc/ha | (110×55)-5100 = R$ 950 | (130×55)-5100 = R$ 2.050 | (150×55)-5100 = R$ 3.150 |
| 70 sc/ha | R$ 2.600 | R$ 4.000 | R$ 5.400 |
| 85 sc/ha | R$ 4.250 | R$ 5.950 | R$ 7.650 |
Interpretação prática: se o negócio fica “apertado” em 55 sc/ha e R$ 110/sc, isso indica necessidade de reduzir COT, proteger preço (hedge/contrato) ou ajustar área/tecnologia para reduzir risco.
Fluxo de caixa: transformar margem em dinheiro
Resultado econômico e caixa não são iguais. A safra pode ter margem positiva e ainda assim faltar dinheiro por causa de prazos de pagamento, estoques e parcelas de dívida.
Estrutura mínima do fluxo de caixa agrícola
- Entradas: vendas (à vista e a prazo), adiantamentos, barter (registrar como entrada e saída para refletir custo), devoluções de impostos quando aplicável.
- Saídas: insumos (por data), folha, terceirizações, combustível, manutenção, arrendamentos, impostos, juros, amortizações, investimentos (CAPEX).
- Saldo inicial e saldo final por mês/semana.
Passo a passo para montar (mensal)
Passo 1 — Calendário financeiro
Transforme o orçamento por talhão em datas de pagamento (ex.: 30/60/90 dias, parcelas, vencimentos de custeio).
Passo 2 — Separar OPEX e CAPEX
- OPEX: despesas operacionais do ciclo (COE + fixos).
- CAPEX: compra de máquinas, obras, irrigação, armazenagem.
Passo 3 — Projetar vendas por janela e condição
Distribua volume e preço por mês conforme estratégia de comercialização e capacidade de armazenagem. Se parte será estocada, o caixa entra depois, mas custos de armazenagem/juros entram antes.
Passo 4 — Identificar “vale do caixa”
O ponto de menor saldo indica a necessidade de capital de giro (próprio ou financiado). Esse é um dos números mais importantes para evitar decisões que “dão lucro no papel” e quebram no curto prazo.
Capital de giro: quanto a fazenda precisa para rodar
Capital de giro é o recurso necessário para financiar o ciclo entre pagar insumos/operações e receber das vendas. Na prática, depende de prazo de compra, prazo de venda, estoque e nível de endividamento.
Indicadores úteis
- Necessidade de capital de giro (NCG): diferença entre ativos operacionais (estoques, contas a receber) e passivos operacionais (contas a pagar).
- Ciclo de caixa: dias para transformar desembolso em recebimento.
Regra prática: quanto maior o ciclo (ex.: compra à vista e venda a prazo), maior a NCG e maior o custo financeiro embutido na safra.
Checklist de ações para reduzir NCG
- Negociar prazos de pagamento alinhados ao calendário de colheita/venda.
- Evitar compras antecipadas sem ganho real de preço (considerar custo de capital).
- Planejar estoque de insumos e peças com mínimo necessário (sem ruptura).
- Sincronizar frete, armazenagem e venda para reduzir tempo de produto parado.
Decisão de investimentos (máquinas, irrigação, armazenagem): critérios objetivos
Investimento (CAPEX) deve ser avaliado pelo impacto em: (1) margem (receita/custo), (2) risco (estabilidade de produtividade/qualidade), e (3) caixa (prazo de retorno e capacidade de pagamento).
1) Payback (tempo de retorno)
Payback (anos) = Investimento / Geração de caixa anual incrementalUse como filtro inicial. Não mede valor do dinheiro no tempo, mas ajuda a comparar alternativas.
2) VPL (Valor Presente Líquido)
VPL traz os fluxos futuros a valor presente por uma taxa mínima de atratividade (TMA).
VPL = Σ [Fluxo de caixa no ano t / (1 + TMA)^t] - InvestimentoCritério: VPL > 0 indica que o projeto cria valor acima da TMA.
3) TIR (Taxa Interna de Retorno)
TIR é a taxa que zera o VPL. Critério: TIR > TMA.
4) DSCR (capacidade de pagar a dívida)
Quando há financiamento, avalie se o caixa do projeto paga as parcelas com folga:
DSCR = Caixa disponível para serviço da dívida / Serviço da dívida (juros + amortização)Regra prática conservadora: DSCR acima de 1,2–1,3.
Exemplo aplicado: armazenagem própria
Premissas simplificadas:
- Investimento: R$ 4.000.000
- Ganho anual: melhora de preço médio + redução de descontos/fretes = R$ 900.000/ano
- Custo anual adicional: energia, manutenção, mão de obra = R$ 220.000/ano
- Caixa incremental: 900.000 − 220.000 = R$ 680.000/ano
Payback:
Payback = 4.000.000 / 680.000 = 5,88 anosNa sequência, calcule VPL/TIR com vida útil (ex.: 15–20 anos) e TMA coerente com o custo de capital e risco. Inclua também o efeito no fluxo de caixa (venda mais tardia exige capital de giro maior, mas pode elevar receita).
Exemplo aplicado: irrigação
Além do ganho médio de produtividade, a irrigação costuma reduzir variância (risco). No orçamento, trate como:
- Receita incremental: aumento de sc/ha × preço.
- Custo incremental: energia, manutenção, outorga/taxas, mão de obra, depreciação do sistema.
- Risco: simule cenários de anos secos e anos normais para ver a proteção de margem.
Exemplo aplicado: compra de máquina vs terceirização
Compare o custo total por hectare:
- Comprar: depreciação + juros/custo de capital + manutenção + combustível + operador + seguro + ociosidade.
- Terceirizar: preço por ha + risco de janela/atraso + qualidade operacional.
Uma forma prática é calcular o custo por hora ou custo por ha do equipamento e comparar com o valor do serviço, adicionando um “custo de risco” se a terceirização comprometer janela.
Modelo de planilha (estrutura recomendada)
Abas essenciais
- Premissas: preço, produtividade, câmbio (se relevante), TMA, vida útil, residual.
- Orçamento por talhão: itens, quantidades, preços, COE/COT.
- Rateios: critérios e bases (ha, horas, toneladas).
- Indicadores: R$/ha, R$/sc, margem, PE, ROI.
- Sensibilidade: matriz preço x produtividade e variação de custos.
- Fluxo de caixa: entradas/saídas por mês e saldo.
- Investimentos: payback, VPL, TIR, DSCR.
Padrões para evitar erros
- Separar claramente quantidade de preço (facilita simulações).
- Registrar unidade (kg/ha, L/ha, h/ha, R$/t).
- Tratar impostos, fretes e secagem como itens explícitos (não “embutir”).
- Manter histórico por safra e por talhão para auditoria e melhoria contínua.