Cultura e antibiograma para iniciantes: o que são e como usar no nível conceitual

Capítulo 5

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

O que é cultura microbiológica (cultura) e por que ela importa

Cultura microbiológica é um exame em que uma amostra clínica (por exemplo, urina, sangue ou secreção) é colocada em meios apropriados para permitir o crescimento de microrganismos. O objetivo é identificar qual microrganismo está presente (ou se não há crescimento) e, quando indicado, permitir testes adicionais como o antibiograma.

No nível conceitual, a cultura ajuda a responder perguntas práticas: há um patógeno provável? qual é ele? o resultado é compatível com infecção ou pode ser contaminação/colonização? e há como orientar a escolha do antibiótico com mais segurança?

O que a cultura pode (e não pode) dizer

  • Pode identificar microrganismos cultiváveis e sugerir relevância clínica quando interpretada junto com sintomas, sinais e exames.
  • Não pode sozinha distinguir com certeza colonização de infecção; isso depende do contexto clínico, do tipo de amostra e da qualidade da coleta.
  • Pode falhar se a amostra for inadequada, se houver antibiótico prévio, se o microrganismo for de difícil cultivo ou se o volume for insuficiente (especialmente em hemoculturas).

Tipos comuns de amostras e pontos-chave de coleta

Urina (urocultura)

Usada quando há suspeita de infecção do trato urinário. O resultado costuma vir com contagem bacteriana e identificação do microrganismo.

  • Coleta típica: jato médio após higiene local, em frasco estéril.
  • Armadilha comum: contaminação por flora periuretral/pele, especialmente se a higiene e a técnica forem inadequadas.
  • Dica conceitual: presença de bactéria na urina não é sinônimo de infecção em todos os casos (por exemplo, bacteriúria assintomática em alguns grupos).

Sangue (hemocultura)

Usada quando há suspeita de bacteremia/fungemia, sepse ou infecções profundas com disseminação hematogênica. É uma das amostras mais sensíveis a erro de técnica.

  • Coleta típica: múltiplos conjuntos (a prática varia por serviço), com antissepsia rigorosa da pele e coleta antes do antibiótico quando possível.
  • Armadilha comum: contaminação por microrganismos da pele (pode gerar “falso positivo” e levar a antibiótico desnecessário).
  • Dica conceitual: o volume coletado influencia diretamente a chance de detectar o patógeno.

Secreções e amostras de sítio específico

Incluem secreção respiratória, secreção de ferida, aspirados, líquido pleural, líquor, secreção genital, entre outros. A utilidade depende muito de representatividade do sítio.

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  • Preferir amostras de sítio estéril ou obtidas por técnica que reduza contaminação (por exemplo, aspirado de abscesso em vez de swab superficial quando possível).
  • Armadilha comum: swab superficial de ferida pode refletir colonização da pele e não o agente da infecção profunda.
  • Dica conceitual: quanto mais “próxima” a amostra estiver do foco real (e menos misturada com flora local), mais interpretável tende a ser o resultado.

Por que coletar antes do antibiótico (quando possível)

Antibióticos podem reduzir a carga bacteriana e “esterilizar” parcialmente a amostra, aumentando a chance de cultura negativa ou dificultando a interpretação (por exemplo, crescimento fraco, atraso no crescimento, seleção de subpopulações).

Passo a passo prático: como decidir o momento da coleta

  1. Suspeitou de infecção que pode exigir antibiótico? Avalie se há indicação de cultura (ex.: suspeita de bacteremia, pielonefrite, pneumonia grave, infecção hospitalar, falha terapêutica, imunossupressão, foco profundo).
  2. Se o paciente estiver estável: priorize coletar culturas antes da primeira dose.
  3. Se o paciente estiver grave/instável: não atrasar antibiótico de forma significativa; idealmente, coletar rapidamente (minutos) e iniciar tratamento.
  4. Registrar: horário da coleta e horário da primeira dose ajudam a interpretar resultados.

O que é antibiograma e como ele é gerado (conceito)

Antibiograma é o teste que avalia, em laboratório, a suscetibilidade do microrganismo isolado na cultura a diferentes antibióticos. Ele não mede “cura”, mas sim a probabilidade de o antibiótico inibir o crescimento do microrganismo em condições padronizadas, comparando o resultado com pontos de corte (breakpoints) definidos por normas.

Como o laboratório testa (visão geral)

  • Difusão em disco (ex.: método de Kirby-Bauer): mede o halo de inibição ao redor de discos com antibiótico.
  • MIC/CIM (Concentração Inibitória Mínima): menor concentração do antibiótico que inibe crescimento visível; pode ser obtida por diluição, tiras gradientes etc.

O laudo costuma trazer a interpretação categórica (S/I/R) e, às vezes, MIC.

Entendendo “Sensível”, “Intermediário” e “Resistente” (S/I/R)

Essas categorias são uma forma de traduzir o teste laboratorial para uma decisão clínica, mas sempre dependem de dose, sítio de infecção e farmacocinética/farmacodinâmica do antibiótico.

  • Sensível (S): o microrganismo tende a ser inibido por concentrações alcançáveis do antibiótico com esquemas usuais (ou esquemas recomendados) no sítio de infecção.
  • Intermediário (I): há incerteza maior; pode funcionar em algumas situações (por exemplo, com dose maior, maior exposição do antibiótico, ou em sítios onde o fármaco concentra bem). Em alguns sistemas, “I” pode significar “susceptível com aumento de exposição”.
  • Resistente (R): é improvável que o antibiótico funcione com exposições alcançáveis de forma segura; usar tende a aumentar risco de falha terapêutica.

Passo a passo prático: como ler um antibiograma sem se perder

  1. Confirme o microrganismo identificado e se ele faz sentido para o sítio (ex.: flora de pele em hemocultura pode ser contaminação).
  2. Olhe primeiro para antibióticos “S” e considere quais são adequados ao foco (ex.: antibiótico que penetra bem no SNC para meningite).
  3. Use “I” com cautela: pense em dose/exposição e no sítio (ex.: alguns antibióticos atingem concentrações altas na urina, o que pode mudar a utilidade clínica).
  4. Evite “R” salvo situações muito específicas orientadas por especialistas.
  5. Checar duplicidade: se dois antibióticos cobrem o mesmo alvo sem benefício claro, considere simplificar.

Limitações e armadilhas comuns na interpretação

1) Contaminação

Contaminação ocorre quando o microrganismo cresce na cultura por ter sido introduzido durante a coleta/manuseio, e não por estar causando doença. Isso é especialmente relevante em hemoculturas e em amostras coletadas com técnica inadequada.

  • Impacto: pode levar a antibiótico desnecessário, internação prolongada, eventos adversos e exames adicionais.
  • Pista conceitual: microrganismos típicos de pele, crescimento em apenas um frasco/conjunto e ausência de correlação clínica aumentam suspeita (a interpretação exata depende do cenário).

2) Colonização versus infecção

Colonização é presença de microrganismos sem causar doença; infecção envolve invasão e resposta inflamatória com sinais/sintomas. Culturas de secreções (respiratórias, feridas) frequentemente detectam colonizadores.

  • Exemplo conceitual: cultura de escarro pode crescer bactérias que colonizam vias aéreas, especialmente em pacientes com doença pulmonar crônica, sem serem a causa do quadro atual.
  • Como reduzir erro: valorizar amostras de melhor qualidade (ex.: aspirado, lavado, amostras de sítio estéril) e correlacionar com clínica e exames.

3) Tempo de processamento

Culturas e antibiogramas levam tempo: coleta, incubação, identificação e teste de suscetibilidade. Em muitos cenários, o resultado final pode demorar dias.

  • Impacto: decisões iniciais podem precisar ser tomadas antes do resultado; quando o laudo chega, ele serve para ajustar e simplificar com mais segurança.
  • Armadilha: ignorar o resultado por “melhora clínica” pode manter antibiótico desnecessariamente amplo, aumentando risco de eventos adversos.

4) Resultado “negativo” não exclui infecção

Cultura negativa pode ocorrer por antibiótico prévio, baixa carga bacteriana, coleta inadequada, microrganismo não cultivável ou foco localizado sem bacteremia.

  • Uso prático: um resultado negativo pode apoiar descalonamento/suspensão em alguns cenários, mas deve ser interpretado com o quadro clínico.

Como cultura e antibiograma orientam ajustes e aumentam segurança

Exemplo 1: Troca para antibiótico mais direcionado (reduzindo eventos adversos)

Cenário: paciente com suspeita de pielonefrite coleta urocultura antes do antibiótico. Inicia-se tratamento com um esquema de amplo espectro por gravidade e risco. Após 48–72h, a cultura cresce Escherichia coli e o antibiograma mostra sensibilidade a um antibiótico mais específico e com menor perfil de toxicidade.

Como o resultado ajuda: permite trocar de um antibiótico mais amplo para um mais estreito e adequado ao foco urinário, reduzindo risco de diarreia associada a antibióticos, seleção de resistência e outras reações adversas.

Exemplo 2: Evitar duplicidade de cobertura

Cenário: paciente em uso de dois antibióticos com sobreposição importante contra Gram-negativos. A hemocultura identifica um único patógeno e o antibiograma mostra sensibilidade clara a um deles.

Como o resultado ajuda: permite remover o antibiótico redundante, diminuindo risco de nefrotoxicidade, interações e complicações como colite associada a antibióticos, sem perder eficácia.

Exemplo 3: Identificar resistência e corrigir falha terapêutica

Cenário: paciente não melhora como esperado. A cultura cresce um microrganismo com resistência ao antibiótico em uso (categoria R no laudo).

Como o resultado ajuda: orienta troca para uma opção ativa (categoria S), reduzindo tempo de doença e risco de complicações por tratamento ineficaz.

Exemplo 4: Suspeita de contaminação evitando antibiótico desnecessário

Cenário: hemocultura positiva para um microrganismo típico de pele, em apenas um frasco, em paciente sem sinais sistêmicos e com outro foco provável não bacterêmico.

Como o resultado ajuda: ao reconhecer a possibilidade de contaminação, evita-se iniciar ou manter antibiótico intravenoso desnecessário, reduzindo eventos adversos e procedimentos.

Checklist prático para solicitar e usar cultura/antibiograma

Antes de coletar

  • Definir qual sítio está provavelmente infectado e qual amostra melhor o representa.
  • Planejar coleta antes do antibiótico quando possível e seguro.
  • Garantir técnica para reduzir contaminação (material estéril, antissepsia, volume adequado quando aplicável).

Quando o resultado chega

  • Checar se o microrganismo é compatível com o quadro e o sítio (infecção vs colonização/contaminação).
  • Usar S/I/R para ajustar: trocar para opção ativa, simplificar, remover duplicidades.
  • Considerar tempo: resultado tardio ainda pode ser útil para reduzir exposição e eventos adversos.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao interpretar um antibiograma, qual afirmação descreve melhor o significado clínico das categorias S/I/R?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

S/I/R refletem a probabilidade de o antibiótico inibir o microrganismo em condições padronizadas, mas a decisão clínica depende de fatores como dose/exposição, local da infecção e PK/PD. O antibiograma não confirma sozinho causalidade (infecção vs colonização/contaminação).

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Classes de antibióticos I: beta-lactâmicos (penicilinas, cefalosporinas, carbapenêmicos e monobactâmicos)

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