Conceito e foco do cuidado gastrointestinal em Cuidados Paliativos
No contexto paliativo, náuseas, vômitos e constipação são sintomas frequentes e altamente impactantes. O objetivo da enfermagem é reduzir sofrimento e riscos (desidratação, aspiração, lesão de mucosa, delirium por retenção fecal), alinhando intervenções ao objetivo de cuidado (conforto, manutenção de ingestão, prevenção de complicações, ou apenas alívio sintomático).
Uma abordagem prática é organizar o atendimento por problema clínico, com: avaliação direcionada (gatilhos, padrão alimentar, medicamentos, sinais de obstrução, ansiedade, efeitos adversos) e plano de cuidado (medidas não farmacológicas, monitorização, critérios de escalonamento e documentação).
Problema 1: Náuseas (com ou sem vômitos)
Avaliação direcionada (checklist)
- Início e padrão: quando começou, frequência, duração, relação com refeições, movimento, odores, dor, ansiedade.
- Gatilhos: alimentos gordurosos, grandes volumes, constipação, tosse, mudança de posição, procedimentos, odores (comida, antissépticos, secreções), calor, ambientes fechados.
- Características associadas: plenitude pós-prandial, refluxo, distensão abdominal, dor cólica, cefaleia, vertigem, constipação, soluços.
- Ingestão e hidratação: o que consegue ingerir, volume aproximado, diurese, sinais de desidratação (mucosas secas, hipotensão postural, confusão, oligúria).
- Medicamentos e efeitos adversos: opioides, antibióticos, ferro, AINEs, quimioterápicos, laxativos, suplementos; mudanças recentes de dose/horário.
- Sinais de alerta para obstrução: vômitos biliosos/fecaloides, distensão progressiva, ausência de eliminação de gases/fezes, dor em cólica intensa, ruídos hidroaéreos alterados, piora rápida.
- Ansiedade e sofrimento: medo de vomitar/engasgar, antecipação de náusea, experiências prévias traumáticas.
- Risco de aspiração: rebaixamento de consciência, fraqueza, disfagia, tosse durante alimentação, secreções abundantes, vômitos recorrentes.
Plano de cuidado: medidas de enfermagem (passo a passo)
1) Fracionamento alimentar e ajustes práticos
- Oferecer pequenas porções (ex.: 5–6 vezes ao dia), evitando grandes volumes de uma vez.
- Preferir alimentos frios ou em temperatura ambiente quando odores desencadeiam náusea (reduzem volatilização de cheiros).
- Evitar alimentos gordurosos, muito condimentados ou muito doces se houver piora clara após consumo.
- Separar líquidos de sólidos quando o volume piora a náusea (ex.: pequenos goles entre refeições).
- Respeitar preferências e “janelas” de melhor tolerância (ex.: manhã vs. noite).
2) Ambiente e controle de odores
- Ventilar o quarto antes e durante refeições; manter recipientes de resíduos tampados.
- Evitar perfumes fortes, produtos de limpeza com odor intenso e preparo de alimentos no quarto.
- Reduzir estímulos visuais/sonoros durante a alimentação quando ansiedade agrava sintomas.
3) Higiene oral e conforto
- Higiene oral regular (antes e após refeições e após vômitos) com escova macia ou gaze, conforme tolerância.
- Enxágue suave (água, soro fisiológico) para reduzir gosto residual e irritação; evitar soluções muito alcoólicas se houver ardor.
- Cuidados com mucosa: observar fissuras, candidíase, halitose, sangramento; comunicar achados relevantes.
4) Posicionamento e prevenção de aspiração
- Manter cabeceira elevada (idealmente 30–45°) durante e após alimentação por pelo menos 30–60 minutos, conforme tolerância.
- Se náusea intensa: posicionar em decúbito lateral (preferencialmente esquerdo) se houver risco de vômito e rebaixamento de consciência, para reduzir aspiração.
- Disponibilizar recipiente para vômito e materiais de higiene próximos, reduzindo esforço e ansiedade.
- Monitorar sinais de aspiração: tosse súbita, alteração de voz (voz “molhada”), dessaturação, taquipneia, cianose, febre tardia, crepitações.
- Se ocorrer vômito com rebaixamento de consciência: interromper oferta oral, lateralizar, aspirar vias aéreas se protocolo/competência permitir, acionar equipe conforme gravidade.
5) Hidratação conforme objetivo de cuidado
- Oferecer pequenos goles e líquidos claros conforme tolerância, se o objetivo incluir manutenção de ingestão.
- Se objetivo for conforto e ingestão piora náusea: priorizar umidificação oral, gelo picado/umedecimento de mucosa (quando permitido), e registrar decisão compartilhada.
- Monitorar balanço hídrico quando indicado: diurese, sinais clínicos de desidratação/sobrecarga, edema, dispneia.
Monitorização e parâmetros para escalonamento (quando acionar equipe médica/serviço)
- Vômitos persistentes (ex.: múltiplos episódios no dia) com incapacidade de manter líquidos.
- Sinais de desidratação (oligúria, hipotensão, confusão, taquicardia persistente).
- Suspeita de obstrução intestinal (distensão progressiva, dor em cólica, ausência de fezes/gases, vômito bilioso/fecaloide).
- Hematemese ou vômito em “borra de café”.
- Risco/episódio de aspiração ou alteração respiratória após vômito.
- Náusea refratária apesar de medidas ambientais e alimentares, ou após início/ajuste de medicamento potencialmente causador.
Documentação de evolução (modelo prático)
- Sintoma: intensidade referida (0–10), frequência, gatilhos identificados, relação com alimentação/medicação.
- Ingesta: aceitação alimentar/hídrica (qualitativa e, se possível, estimativa).
- Intervenções: fracionamento, controle de odores, higiene oral, posicionamento, orientações à família.
- Resposta: melhora/piora, ocorrência de vômitos, sinais de aspiração, tolerância a líquidos.
- Plano: manter/ajustar medidas, necessidade de avaliação médica, suspeita clínica (ex.: constipação associada).
Problema 2: Vômitos (episódios ativos ou recorrentes)
Avaliação direcionada (o que observar e registrar)
- Volume e aspecto: alimentar, bilioso, fecaloide, com sangue vivo, “borra de café”.
- Momento: pós-prandial imediato, noturno, associado a mudança de posição.
- Sintomas associados: dor abdominal, distensão, ausência de fezes/gases, febre, cefaleia, tontura.
- Risco de aspiração: nível de consciência, tosse, disfagia, fraqueza, uso de sedativos.
- Impacto: medo, recusa alimentar, exaustão, lesões de pele/periorais.
Plano de cuidado: medidas imediatas (passo a passo)
- Segurança e posicionamento: elevar cabeceira; se sonolento, lateralizar e proteger vias aéreas.
- Interromper oferta oral temporariamente até estabilizar e reavaliar tolerância.
- Higiene oral e conforto: limpar cavidade oral, hidratar lábios, trocar roupas/lençóis se necessário para reduzir odor e desconforto.
- Controle ambiental: ventilação, descarte adequado, reduzir estímulos.
- Monitorar sinais vitais e sinais respiratórios após episódio (tosse, dessaturação, alteração auscultatória).
- Registrar episódio (hora, volume estimado, aspecto, fatores desencadeantes, medidas adotadas, resposta).
Parâmetros para escalonamento terapêutico
- Vômitos repetidos com incapacidade de manter hidratação.
- Suspeita de obstrução ou fecaloma (especialmente se constipação importante coexistir).
- Sangramento no vômito.
- Comprometimento respiratório ou aspiração.
- Alteração neurológica associada (sonolência acentuada, confusão súbita), que pode aumentar risco de aspiração e demandar revisão de medicações.
Problema 3: Constipação
Conceito prático
Constipação em cuidados paliativos é frequentemente multifatorial: redução de mobilidade, baixa ingestão, desidratação, alterações metabólicas e, muito frequentemente, uso de opioides. O foco da enfermagem é prevenir, identificar precocemente e manejar para evitar fecaloma, náuseas secundárias, dor e delirium.
Avaliação direcionada (rotina estruturada)
- Hábito intestinal basal: frequência habitual, consistência, esforço evacuatório, sensação de evacuação incompleta.
- Última evacuação e padrão nos últimos dias.
- Escala de fezes (Bristol): registrar tipo 1–7 para padronizar comunicação.
- Sintomas associados: distensão, dor, náusea, redução de apetite, escape fecal (pode sugerir fecaloma), desconforto retal.
- Medicamentos: opioides (início/ajuste), antieméticos constipantes, anticolinérgicos, ferro, cálcio; laxativos em uso e adesão.
- Ingestão hídrica e alimentar: tolerância a fibras; metas de cuidado (nem sempre aumentar fibra é apropriado).
- Mobilidade possível: capacidade de deambular, sentar, realizar exercícios no leito.
- Sinais de alerta para fecaloma/obstrução: ausência prolongada de evacuação, dor intensa, distensão progressiva, vômitos, ausência de gases, fezes líquidas em pequena quantidade (overflow), sangramento retal, febre.
Prevenção e manejo: plano de cuidado (passo a passo)
1) Rotina intestinal e privacidade
- Estabelecer horário para tentativa de evacuação (ex.: após refeição), respeitando rotina do paciente.
- Garantir privacidade e tempo suficiente; reduzir constrangimento melhora adesão.
- Posicionamento: se possível, usar vaso sanitário/cadeira higiênica; no leito, elevar cabeceira e apoiar pés (simular posição de cócoras com suporte) para facilitar evacuação.
2) Mobilidade e estímulos possíveis
- Incentivar mobilidade compatível com segurança: pequenas caminhadas, sentar fora do leito, exercícios ativos/passivos.
- Massagem abdominal suave pode ser considerada conforme tolerância e ausência de suspeita de obstrução (evitar se dor intensa, distensão importante, suspeita de abdome agudo).
3) Hidratação e fibras conforme tolerância e metas de cuidado
- Hidratação: oferecer líquidos em pequenos volumes ao longo do dia se o objetivo incluir manutenção de ingestão e não houver restrição.
- Fibras: só aumentar se houver ingestão hídrica adequada e boa tolerância; em pacientes com baixa ingesta, distensão ou suspeita de obstrução, fibras podem piorar desconforto.
- Alimentos práticos (quando apropriado): frutas macias, preparações simples; ajustar à preferência e ao que não piora náusea.
4) Avaliar e antecipar constipação induzida por opioides
- Vigilância desde o início do opioide: registrar evacuações diariamente e sinais precoces (esforço, fezes endurecidas).
- Checar adesão a medidas preventivas prescritas e barreiras (náusea, recusa, dificuldade de deglutição).
- Comunicar precocemente quando houver piora após ajuste de dose.
5) Monitorar sinais de fecaloma e necessidade de avaliação retal
- Suspeitar de fecaloma quando: vários dias sem evacuar + distensão/dor + náuseas/vômitos, ou escape fecal líquido.
- Observar região perianal (lesões, fissuras, hemorroidas) e dor ao evacuar.
- Escalonar para avaliação médica para conduta (ex.: toque retal, enemas, desimpactação) conforme protocolo institucional e condição clínica.
Parâmetros para escalonamento terapêutico (quando acionar equipe médica/serviço)
- > 72 horas sem evacuação com desconforto relevante, especialmente em uso de opioide (ajustar ao padrão basal do paciente).
- Sinais de obstrução: dor em cólica intensa, distensão progressiva, vômitos, ausência de gases.
- Suspeita de fecaloma: escape fecal, dor retal importante, massa palpável, retenção persistente.
- Sangramento retal, febre, dor abdominal intensa ou piora rápida.
- Falha de medidas iniciais (não farmacológicas e rotina) com piora de náusea/vômitos associados.
Documentação de evolução (modelo prático)
- Eliminações: data/hora, quantidade (estimada), consistência (Bristol), presença de dor/tenesmo.
- Sinais associados: distensão, náuseas, dor abdominal, escape fecal, ruídos hidroaéreos (se avaliado).
- Intervenções: mobilidade, ajustes de hidratação/fibras conforme meta, posicionamento, orientações, medidas de conforto.
- Resposta: evacuação após medidas, alívio de sintomas, tolerância.
- Comunicações/escalonamento: quando e por quê a equipe foi acionada; condutas acordadas.
Integração de sintomas: quando pensar em causa gastrointestinal comum
Náuseas/vômitos associados à constipação
Constipação pode ser um gatilho importante de náuseas e vômitos. Na prática, se há náusea persistente com distensão e redução de evacuações, incluir constipação/fecaloma entre as primeiras hipóteses de enfermagem, reforçando avaliação do hábito intestinal e sinais de alerta.
Suspeita de obstrução: pontos de atenção para enfermagem
- Não insistir em fibras e grandes volumes por via oral se houver suspeita.
- Priorizar segurança: risco de aspiração, controle de vômitos, conforto, monitorização.
- Registrar evolução de distensão, dor, eliminação de gases/fezes e aspecto dos vômitos para apoiar decisão clínica.
Ferramentas rápidas para prática (quadros)
| Problema | Avaliação-chave | Medidas de enfermagem | Escalonar quando |
|---|---|---|---|
| Náuseas | Gatilhos, relação com refeições/medicações, ansiedade, hidratação | Fracionar dieta, controle de odores, higiene oral, posicionamento, hidratação conforme meta | Refratária, desidratação, suspeita de obstrução, risco de aspiração |
| Vômitos | Aspecto/volume, sinais respiratórios, dor/distensão, sangue | Segurança/posição, interromper VO temporariamente, higiene oral, monitorização | Persistente, sangue, obstrução, aspiração/alteração respiratória |
| Constipação | Última evacuação, Bristol, opioides, mobilidade, ingesta, sinais de fecaloma | Rotina/privacidade, posição, mobilidade, hidratação/fibras conforme tolerância e metas | >72h sem evacuar com sintomas, fecaloma/obstrução, sangramento, piora rápida |
Exemplo de anotação de enfermagem (formato SOAP simplificado)
S: Refere náusea 7/10 após refeições, piora com cheiro de comida; sem febre. Última evacuação há 4 dias, fezes tipo 1 (Bristol). Em uso de opioide com aumento de dose há 5 dias. Nega eliminação de gases desde ontem. O: Abdome distendido, desconforto à palpação leve; mucosas secas; episódios de vômito bilioso 2x hoje. Cabeceira mantida elevada; sem tosse no momento. A: Náusea/vômitos possivelmente associados a constipação importante; risco de desidratação e necessidade de avaliar obstrução/fecaloma. P: Implementadas medidas ambientais e higiene oral; suspensa oferta de grandes volumes VO, oferecidos pequenos goles conforme tolerância; monitorização de sinais respiratórios e balanço hídrico; comunicado médico por suspeita de obstrução/fecaloma; manter registro de episódios e aspecto do vômito.