Identificação e triagem de sintomas psicológicos e neurocognitivos
Em cuidados paliativos, ansiedade, depressão, delirium e sofrimento emocional podem coexistir e variar ao longo do dia. A enfermagem tem papel central em reconhecer precocemente sinais, investigar fatores precipitantes reversíveis e implementar intervenções imediatas, além de comunicar achados à equipe e à família.
Conceitos essenciais (para diferenciar na prática)
- Ansiedade: estado de apreensão/medo com sintomas físicos (taquicardia, tremor, sudorese, falta de ar subjetiva), pensamentos catastróficos, inquietação. Pode ser reativa (notícias, procedimentos) ou relacionada a sintomas (dor, dispneia, insônia).
- Depressão: humor deprimido e/ou perda de interesse, com alterações de sono/apetite, fadiga, culpa, desesperança. Em paliativos, pode se confundir com efeitos da doença; por isso, valorize sinais como anedonia persistente, desesperança e ideação suicida.
- Delirium: síndrome neurocognitiva aguda com início súbito e curso flutuante, com desatenção e alteração do nível de consciência; pode ser hiperativo (agitação), hipoativo (sonolência, retraimento) ou misto. É frequentemente precipitado por causas clínicas tratáveis.
- Sofrimento emocional: experiência ampla de angústia relacionada a perdas, medo, conflitos familiares, espiritualidade, finitude e incerteza. Pode existir sem critérios formais de transtorno psiquiátrico, mas demanda cuidado ativo.
Sinais de alerta no leito (observáveis pela enfermagem)
- Alteração aguda do comportamento: agitação, irritabilidade, apatia, choro fácil, recusa de cuidados.
- Desatenção: não consegue manter foco, se perde na conversa, não segue comandos simples.
- Alteração do ciclo sono-vigília: inversão do sono, despertares frequentes, sonolência diurna.
- Percepções alteradas: alucinações visuais, ilusões, paranoia.
- Queixas somáticas sem explicação imediata: “aperto no peito”, “nó na garganta”, “não consigo respirar” com sinais vitais estáveis.
Fatores precipitantes e causas potencialmente reversíveis (checklist rápido)
Ao identificar piora emocional ou cognitiva, investigue e registre fatores precipitantes comuns, pois a correção deles frequentemente reduz o quadro:
- Dor mal controlada (inclusive dor incidental em mobilização, curativos, higiene).
- Privação de sono (ruído noturno, interrupções frequentes, luz intensa, ansiedade).
- Infecções (urinária, respiratória, feridas; febre pode estar ausente em idosos).
- Hipoxemia (queda de saturação, esforço respiratório, sonolência).
- Polifarmácia e efeitos adversos (sedativos, anticolinérgicos, opioides em ajuste recente, corticoides, interações).
- Desidratação, retenção urinária, constipação, hipoglicemia, distúrbios eletrolíticos.
- Ambiente desorganizado: excesso de estímulos, ausência de referências temporais, mudança de quarto/equipe.
Passo a passo de triagem à beira-leito
1) Estabilize e observe (primeiros 2–5 minutos)
- Verifique sinais vitais, dor referida e saturação; observe padrão respiratório.
- Observe nível de consciência, contato visual, capacidade de manter atenção.
- Identifique risco imediato: tentativa de levantar sem apoio, arrancar dispositivos, agressividade, fuga.
2) Perguntas curtas e direcionadas
- Ansiedade: “O que está te preocupando agora?”, “De 0 a 10, quão ansioso você está?”, “O que ajuda quando isso acontece?”
- Humor/Depressão: “Nos últimos dias, tem se sentido sem esperança?”, “Tem perdido o interesse nas coisas?”, “Já pensou que não vale a pena continuar?”
- Delirium: “Que dia é hoje?”, “Onde estamos?”, peça para repetir 3 palavras após 1 minuto; avalie se acompanha comandos simples.
3) Busque gatilhos e causas precipitantes
Use um roteiro para não esquecer itens frequentes:
- Dor: local, intensidade, piora com cuidado, necessidade de resgate.
- Sono: quantas horas dormiu, interrupções, pesadelos.
- Infecção: disúria, tosse, secreção, feridas, calafrios.
- Oxigenação: saturação, uso de O2, sonolência incomum.
- Medicações: início/aumento recente, PRN frequente, sedação excessiva, anticolinérgicos.
- Eliminações: constipação, retenção urinária, desconforto abdominal.
4) Classifique a urgência e acione a equipe
- Urgência imediata: risco de autoagressão, agressão a terceiros, queda iminente, rebaixamento súbito de consciência, hipoxemia importante, alucinações com comportamento perigoso.
- Prioridade alta: delirium provável, ansiedade intensa refratária a medidas iniciais, ideação suicida sem plano, recusa persistente de cuidados essenciais.
- Monitoramento próximo: ansiedade leve/moderada, tristeza reativa, insônia, sofrimento emocional sem risco imediato.
Intervenções de enfermagem para ansiedade
O objetivo é reduzir ativação fisiológica, aumentar sensação de segurança e controle, e diminuir estímulos que perpetuam o ciclo de ansiedade.
Escuta qualificada (estrutura prática)
- Presença: sente-se ao nível dos olhos, postura aberta, tom de voz calmo.
- Validação: nomeie a emoção: “Percebo que isso está te deixando muito assustado.”
- Exploração breve: “O que piora?” “O que ajuda?” “O que você teme que aconteça?”
- Foco no agora: traga para necessidades imediatas: conforto, dor, sede, posição, privacidade.
- Combinação com ação: após ouvir, proponha uma medida concreta (respiração, ajuste do ambiente, chamar familiar, revisar dor com equipe).
Técnicas breves de grounding (2–3 minutos)
Úteis quando há sensação de “perder o controle”, pânico, ruminação intensa.
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- 5-4-3-2-1: peça para identificar 5 coisas que vê, 4 que sente (toque), 3 que ouve, 2 cheiros, 1 gosto. Ajuste conforme limitações sensoriais.
- Orientação corporal: “Sinta seus pés no chão/na cama; pressione levemente o calcanhar por 5 segundos e relaxe.”
- Âncora verbal: frase curta repetida: “Estou seguro agora; isso vai passar.”
Respiração guiada (passo a passo)
Evite hiperventilação; conduza de forma lenta e simples.
- Peça para colocar uma mão no abdome (se confortável).
- Inspirar pelo nariz por 3–4 segundos (sem esforço).
- Soltar o ar pela boca por 5–6 segundos, como “assoprando vela”.
- Repetir por 6 a 10 ciclos, observando tontura; se ocorrer, reduza o tempo e faça pausas.
Previsibilidade do cuidado (reduz ansiedade antecipatória)
- Explique antes de tocar: “Vou medir sua pressão e depois ajustar seu travesseiro.”
- Ofereça escolhas simples: horário do banho, posição na cama, presença de familiar durante procedimento.
- Antecipe sensações: “Pode ser desconfortável por alguns segundos; me avise se passar de 4/10.”
- Combine sinais: palavra-chave para pausar (“pare”) durante curativos/mobilização.
Redução de estímulos e conforto ambiental
- Diminuir ruído, limitar conversas paralelas, reduzir número de pessoas no quarto.
- Ajustar iluminação (evitar luz forte à noite), manter temperatura agradável.
- Organizar o espaço: campainha acessível, objetos pessoais visíveis, relógio/calendário quando possível.
- Privacidade: fechar cortina/porta durante cuidados íntimos.
Quando a ansiedade pode sinalizar causa clínica
Se ansiedade surge com início abrupto, confusão, sonolência ou sinais físicos importantes, trate como possível delirium/causa orgânica até prova em contrário. Registre e comunique: dor, saturação, febre, nova medicação, retenção urinária, constipação, desidratação.
Depressão e sofrimento emocional: o que a enfermagem pode fazer no cotidiano
Reconhecendo sinais que merecem avaliação especializada
- Humor deprimido na maior parte do dia por vários dias, com anedonia.
- Desesperança persistente, culpa intensa, sensação de ser “peso”.
- Isolamento marcado, recusa de alimentação/higiene por desânimo (não por sintoma físico).
- Falas de morte: “Queria dormir e não acordar”, “Não aguento mais”.
Intervenções de enfermagem (não farmacológicas)
- Rotina com metas pequenas: combinar 1–2 objetivos do turno (ex.: sentar na poltrona 10 min; higiene oral; ouvir música).
- Reforço de autonomia: oferecer escolhas e respeitar ritmo, evitando infantilização.
- Conexão com valores: “O que é importante para você hoje?” (visita, ligação, ritual, objeto significativo).
- Facilitar suporte: estimular presença de pessoa de confiança; articular com psicologia/serviço social/assistência espiritual conforme preferência do paciente.
- Comunicação cuidadosa: evitar frases que minimizam (“seja forte”); usar validação e disponibilidade.
Delirium: reconhecimento e manejo de enfermagem
Como suspeitar de delirium (padrão típico)
- Início agudo (horas a dias) e flutuação ao longo do dia.
- Desatenção (não acompanha conversa, se distrai facilmente).
- Pensamento desorganizado (fala desconexa) ou alteração do nível de consciência (hiperalerta ou sonolento).
- Hipoativo é comum e passa despercebido: paciente “quieto”, mais sonolento, comendo menos, respondendo pouco.
Intervenções imediatas (primeira hora)
- Segurança: cama baixa, grades conforme protocolo institucional, campainha acessível, retirar obstáculos, calçado antiderrapante, supervisão em mobilização.
- Reorientação: dizer nome, local, turno; frases curtas e repetidas; apresentar-se sempre.
- Ambiente terapêutico: reduzir ruído, evitar trocas frequentes de cuidador, manter iluminação adequada (dia claro; noite com luz suave para evitar sombras).
- Recursos sensoriais: garantir uso de óculos e aparelhos auditivos; checar pilhas/ajuste; isso reduz interpretações erradas e agitação.
- Necessidades básicas: avaliar dor, sede, fome, necessidade de urinar/evacuar, posição desconfortável.
- Checar oxigenação: saturação e sinais respiratórios; comunicar alterações.
Revisão de medicações com a equipe (papel da enfermagem)
A enfermagem não prescreve, mas identifica padrões e comunica com clareza. Sinais que sugerem contribuição medicamentosa:
- Delirium após início/aumento de sedativos, anticolinérgicos, corticoides, opioides em ajuste recente.
- Uso frequente de medicação PRN para agitação/insônia com piora da confusão.
- Sonolência excessiva alternando com agitação.
Ao comunicar, leve dados objetivos: horário de início, medicações administradas nas últimas 24–48h, relação temporal com piora, sinais vitais, dor, diurese/evacuação.
Cuidados contínuos (ao longo do turno)
- Rotina estruturada: horários previsíveis para higiene, alimentação, repouso.
- Mobilização segura: com assistência; evitar deambulação sem supervisão em delirium.
- Hidratação e nutrição: oferecer pequenas quantidades frequentes, conforme prescrição e tolerância.
- Evitar contenção sempre que possível: priorizar presença de acompanhante, vigilância, ajuste ambiental e manejo de causas.
Medidas de segurança: queda, agitação e contenção como última alternativa
Risco de queda (ações práticas)
- Identificar risco: delirium, sedação, fraqueza, hipotensão, urgência urinária, dispositivos (soro, O2).
- Plano: campainha ao alcance, orientar a pedir ajuda, rounds frequentes, iluminação noturna suave, retirar tapetes/obstáculos, cadeira com apoio, acompanhante quando indicado.
- Durante agitação: não confrontar; manter distância segura; chamar apoio da equipe; reduzir estímulos.
Contenção: princípios e cuidados (conforme normas institucionais e legislação)
Contenção física/química é última alternativa, indicada apenas quando há risco iminente e falha de medidas menos restritivas. Deve seguir protocolo institucional, prescrição/ordem conforme exigência local, tempo mínimo necessário e monitorização rigorosa.
- Antes: documentar tentativas prévias (reorientação, ambiente, acompanhante, ajuste de dor, revisão de gatilhos).
- Durante: checar perfusão, integridade da pele, conforto, necessidade de eliminação, hidratação; reavaliar frequentemente.
- Após: retirar assim que seguro; revisar causa do delirium/agitação com equipe para prevenir recorrência.
Comunicação com família e equipe
Com a família (reduz medo e melhora cooperação)
- Explicar em linguagem simples: “Delirium é uma confusão aguda que pode variar durante o dia e costuma ter causas clínicas.”
- Orientar como ajudar: falar devagar, frases curtas, lembrar onde está, trazer óculos/aparelho auditivo, manter objetos familiares, evitar discutir sobre delírios/alucinações (redirecionar com calma).
- Alinhar expectativas: flutuação é comum; alguns dias serão melhores que outros.
- Combinar sinais de alerta para chamar a equipe: tentativa de levantar sozinho, arrancar dispositivos, fala de autoagressão.
Com a equipe multiprofissional (handover objetivo)
Use um formato estruturado para reduzir ruído de comunicação:
Comportamento observado: (ex.: agitação às 18h, tentou sair da cama 3x, arrancou o acesso 1x) Gatilhos prováveis: (ex.: dor ao mobilizar, quarto barulhento, privação de sono) Avaliação rápida: (SV, SpO2, dor 0-10, orientação, atenção) Intervenções realizadas: (reorientação, respiração guiada, redução de estímulos, presença familiar) Resposta: (melhora parcial em 10 min; voltou a agitar após troca de turno) Pendências/solicitações: (revisão de medicações, avaliar infecção, ajustar analgesia, avaliação psicologia/psiquiatria)Registros objetivos: o que documentar
Registros consistentes ajudam a equipe a identificar padrões e avaliar efetividade das intervenções.
- Descrição observável: “levantou-se sem auxílio”, “gritou”, “chorou”, “recusou medicação”, “falas desconexas”, “sonolento e difícil de despertar”.
- Tempo e flutuação: início, duração, horários de piora (ex.: entardecer/noite).
- Gatilhos: após curativo, após visita, após medicação, após mudança de quarto, ruído noturno.
- Medidas realizadas: reorientação, ambiente, técnicas de respiração/grounding, presença familiar, segurança.
- Resposta: intensidade antes/depois (ex.: ansiedade 8/10 para 4/10), tempo para melhora, efeitos adversos.
- Risco: queda, autoagressão, agressividade, capacidade de seguir orientações.
Reconhecer risco de autoagressão e acionar suporte especializado
Sinais de risco (atenção máxima)
- Falas diretas: “Vou me matar”, “Quero acabar com isso”.
- Falas indiretas: “Não faz sentido viver”, “Vocês estariam melhor sem mim”.
- Plano e meios: menciona método, acesso a objetos cortantes/medicações, tentativa prévia.
- Agitação intensa com impulsividade, delirium com comportamento perigoso.
- Desesperança marcada, isolamento, recusa total de cuidados por desejo de morrer.
Abordagem imediata (passo a passo)
- Pergunte de forma clara e calma (não aumenta risco): “Você está pensando em se machucar?” “Você pensou em como faria?” “Você tem algo aí que poderia usar?”
- Não deixar sozinho se houver risco atual; garantir supervisão contínua conforme protocolo.
- Reduzir acesso a meios: retirar objetos perfurocortantes, ajustar ambiente com segurança, revisar pertences conforme política institucional e com respeito.
- Acionar suporte especializado: comunicar imediatamente médico responsável e solicitar avaliação de saúde mental (psiquiatria/psicologia) conforme fluxo local; envolver serviço social quando pertinente.
- Comunicar família com cuidado, alinhando necessidade de segurança e apoio, respeitando confidencialidade e diretrizes institucionais.
- Registrar falas exatas do paciente entre aspas, avaliação de risco, medidas tomadas, profissionais acionados e resposta.
Quando o risco se mistura com delirium
Em delirium, falas de morte podem ocorrer por confusão e medo. Ainda assim, trate como risco até avaliação especializada. Priorize investigação de causas precipitantes (dor, infecção, hipoxemia, privação de sono, polifarmácia) e medidas de segurança.