Conceito e objetivos do controle de dor em cuidados paliativos
O controle de dor em cuidados paliativos busca reduzir sofrimento e melhorar funcionalidade e conforto, combinando intervenções farmacológicas e não farmacológicas. Na enfermagem, o foco é: avaliar de forma sistemática, implementar medidas seguras e baseadas em evidência, monitorar resposta e efeitos adversos, educar paciente/família e acionar a equipe médica quando houver dor refratária, sinais de toxicidade ou necessidade de escalonamento terapêutico.
Avaliação sistemática da dor: o que investigar e como registrar
1) Localização e irradiação
Pergunte e registre onde dói e se a dor “caminha” para outro local. Use mapa corporal quando disponível. Exemplo: “dor em hemitórax direito irradiando para dorso”.
2) Qualidade (descritores)
Ajuda a sugerir o tipo de dor e orientar intervenções. Exemplos: “latejante”, “em pressão”, “queimação”, “choque”, “pontada”, “formigamento”.
3) Intensidade
Utilize escala apropriada: numérica (0–10), verbal (leve/moderada/intensa) ou observacional (para pessoas com dificuldade de comunicação). Registre sempre a escala usada e o valor. Exemplo: “EN 8/10”.
4) Temporalidade e padrão
Investigue início, duração, frequência, se é contínua ou em crises, e se há piora em determinados horários (ex.: final do dia, durante cuidados de higiene, ao deambular).
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5) Fatores de piora e de alívio
Identifique gatilhos (movimento, tosse, alimentação, curativo, ansiedade) e o que melhora (repouso, posição, calor/frio, medicação, distração). Isso direciona ações de enfermagem e planejamento de analgesia antes de procedimentos.
6) Impacto funcional e no conforto
Registre como a dor interfere em: mobilidade, sono, apetite, respiração, autocuidado, interação social e humor. Exemplo: “dor impede sentar no leito e reduz ingesta”.
7) “Dor total” (dimensões além do físico)
Considere que sofrimento pode amplificar a dor. Investigue componentes: emocional (medo, tristeza), social (conflitos, sobrecarga familiar), espiritual/existencial (sentido, angústia) e ambiental (ruído, iluminação, interrupções). A enfermagem pode intervir ajustando ambiente, comunicação e suporte, além de acionar equipe multiprofissional quando necessário.
Passo a passo prático: avaliação rápida e completa
- Passo 1: Pergunte “Você está com dor agora?” e aplique escala de intensidade.
- Passo 2: Localização/irradiação + qualidade + padrão temporal.
- Passo 3: Piora/alívio + impacto funcional (sono, mobilidade, apetite).
- Passo 4: Investigue sinais associados (náusea, dispneia, ansiedade) e componentes de dor total.
- Passo 5: Registre no prontuário com horário, escala, intervenção realizada e reavaliação programada (ex.: 30–60 min após medicação de resgate, conforme via e protocolo).
Diferenciação de tipos de dor: nociceptiva, neuropática e mista
Dor nociceptiva
Relacionada a lesão/inflamação de tecidos. Pode ser:
- Somática: bem localizada, em “pontada” ou “pressão” (ex.: dor óssea, muscular).
- Visceral: difusa, em cólica/pressão, pode acompanhar náusea/sudorese (ex.: distensão abdominal).
Pistas: piora com movimento/pressão local; costuma responder bem a analgésicos comuns e opioides, além de medidas físicas (posicionamento, calor/frio quando indicado).
Dor neuropática
Decorre de lesão/disfunção do sistema nervoso. Descritores típicos: “queimação”, “choque”, “formigamento”, “agulhadas”, hipersensibilidade ao toque (alodinia).
Pistas: pode responder parcialmente a opioides e frequentemente exige adjuvantes prescritos (ex.: anticonvulsivantes/antidepressivos), além de estratégias não farmacológicas (proteção de área sensível, técnicas de relaxamento).
Dor mista
Combina componentes nociceptivos e neuropáticos (comum em câncer avançado, compressões, infiltrações). Exige abordagem combinada e reavaliações frequentes.
Medidas não farmacológicas aplicáveis pela enfermagem
As intervenções não farmacológicas não “substituem” analgesia quando há dor moderada/intensa, mas reduzem sofrimento, melhoram conforto e podem diminuir necessidade de resgates. Devem ser registradas e reavaliadas quanto ao efeito.
1) Posicionamento terapêutico e mobilização segura
- Use travesseiros/coxins para alinhar coluna, reduzir pressão e tração em articulações.
- Evite posições que aumentem dor (ex.: rotação de quadril em dor óssea).
- Planeje mudanças de decúbito com analgesia prévia quando necessário.
- Em dor ao movimento, organize cuidados em bloco (banho, curativo, troca de roupa) para reduzir manipulações repetidas.
2) Calor/frio quando indicado (conforme protocolo e avaliação)
- Calor: pode ajudar em espasmo muscular/rigidez (ex.: compressa morna).
- Frio: pode ajudar em inflamação local/edema pós-procedimento (ex.: compressa fria).
- Segurança: proteger pele com barreira, limitar tempo, checar sensibilidade, evitar em áreas com perfusão comprometida, neuropatia importante, lesão cutânea ou contraindicações institucionais.
3) Massagem terapêutica (conforme protocolo)
Pode reduzir tensão e ansiedade e melhorar percepção de conforto. Deve respeitar protocolos e condições clínicas.
- Evitar sobre áreas com lesão de pele, trombose suspeita, fraturas instáveis, tumores dolorosos à palpação ou contraindicações específicas.
- Preferir manobras leves, com comunicação contínua (“me avise se piorar”).
4) Técnicas de respiração e relaxamento
- Respiração diafragmática: inspirar pelo nariz contando 3–4, expirar lentamente pela boca contando 4–6.
- Relaxamento progressivo: contrair e relaxar grupos musculares (quando tolerado).
- Foco atencional/distração: música, leitura, conversa, imagens guiadas.
Útil especialmente quando há ansiedade associada, dor neuropática e durante procedimentos (punções, curativos).
5) Ambiente terapêutico
- Reduzir ruído e interrupções, ajustar luz e temperatura.
- Privacidade e comunicação clara antes de tocar/manipular.
- Organizar materiais antes do procedimento para reduzir tempo de exposição à dor.
6) Higiene do sono
- Consolidar cuidados noturnos para evitar despertares frequentes.
- Evitar estímulos (luz forte, telas) próximo ao horário de dormir.
- Avaliar dor noturna e necessidade de analgesia em horário fixo (quando prescrita) para prevenir despertares por dor.
Passo a passo prático: pacote não farmacológico em crise de dor
- Passo 1: Avalie intensidade e tipo provável (nociceptiva/neuropática/mista) e identifique gatilho imediato.
- Passo 2: Ajuste posição e reduza estímulos ambientais (ruído/luz).
- Passo 3: Aplique técnica breve de respiração guiada por 2–3 minutos.
- Passo 4: Se indicado e permitido por protocolo, aplicar calor/frio com checagens de pele e tempo.
- Passo 5: Reavalie e documente resposta; se dor moderada/intensa persistir, alinhar com analgesia prescrita e acionar equipe conforme fluxo.
Fundamentos da analgesia farmacológica com foco em segurança
Princípios práticos
- Individualização: considerar idade, função renal/hepática, fragilidade, via de administração disponível, risco de quedas e histórico de efeitos adversos.
- Reavaliação programada: toda analgesia exige checar eficácia e eventos adversos em tempo compatível com a via (oral, subcutânea, endovenosa, transdérmica) e protocolo institucional.
- Prevenção: preferir esquema em horário fixo quando a dor é contínua, com medicação de resgate para picos.
Classes de medicamentos (visão geral para enfermagem)
- Analgésicos não opioides: úteis em dor leve a moderada e como adjuvantes em dor moderada/intensa. Atenção a limites de dose e comorbidades.
- Opioides: base para dor moderada a intensa. Exigem titulação, monitorização e prevenção de efeitos adversos.
- Adjuvantes: prescritos conforme tipo de dor (ex.: neuropática) e sintomas associados. A enfermagem monitora benefício, sedação, tontura, interações e adesão.
Titulação: como a enfermagem participa com segurança
Titulação é ajuste progressivo até atingir alívio com efeitos adversos toleráveis. A enfermagem contribui com dados objetivos para decisões médicas.
- Registrar intensidade antes e após dose, tempo para início de efeito percebido, duração do alívio e necessidade de resgates.
- Observar padrão: muitas doses SOS sugerem necessidade de ajustar dose de base (horário fixo).
- Monitorar sedação, frequência respiratória, pressão arterial, nível de consciência e risco de quedas, conforme protocolo.
Horário fixo vs SOS (se necessário)
- Horário fixo: indicado quando há dor persistente. Mantém nível analgésico estável e previne crises.
- SOS: útil para dor incidental (ex.: ao movimentar) ou picos. Não deve ser a única estratégia em dor contínua.
Medicação de resgate
Resgate é dose adicional para exacerbação da dor apesar do esquema de base. A enfermagem deve:
- Confirmar indicação, dose, intervalo mínimo e via conforme prescrição.
- Administrar e reavaliar em tempo adequado, registrando resposta.
- Se resgates forem frequentes (ex.: repetidos ao longo do dia), sinalizar à equipe médica para readequação do esquema.
Manejo de efeitos adversos: o que prevenir, identificar e comunicar
Constipação (muito comum com opioides)
- Prevenção: estimular hidratação e mobilidade conforme tolerância, orientar dieta quando possível e seguir prescrição de laxativos profiláticos quando indicada.
- Monitorização: registrar padrão evacuatório, distensão abdominal, desconforto, esforço evacuatório.
- Alerta: ausência de evacuação com sintomas importantes, vômitos, dor abdominal progressiva ou sinais de impactação exigem avaliação médica.
Náuseas e vômitos
- Avaliar relação temporal com medicações, alimentação, movimento e constipação.
- Medidas de enfermagem: fracionar dieta se permitido, reduzir odores, posicionar adequadamente, higiene oral, oferecer líquidos em pequenos volumes quando indicado.
- Monitorar resposta a antieméticos prescritos e sinais de desidratação.
Sedação e sonolência
- É comum no início ou após aumento de dose. Avaliar nível de sedação e impacto funcional.
- Prevenir quedas: campainha ao alcance, auxílio para deambular, ambiente seguro.
- Se sedação excessiva, confusão aguda ou piora progressiva, comunicar equipe médica para ajuste.
Depressão respiratória e sinais de toxicidade por opioides (atenção máxima)
Monitorar conforme protocolo institucional, especialmente após início/aumento de dose, associação com sedativos ou em pessoas frágeis.
- Sinais de alerta: sonolência difícil de despertar, fala arrastada importante, respiração lenta/superficial, queda de saturação, pupilas puntiformes, cianose.
- Ação de enfermagem: interromper administração em curso se aplicável, estimular paciente, garantir via aérea e oxigenação conforme protocolo, acionar equipe médica imediatamente e seguir diretrizes institucionais para reversão quando indicada.
Cuidados específicos com opioides: administração, checagens e educação
Administração segura e checagens essenciais
- Conferir os “certos” da medicação (paciente, medicamento, dose, via, horário, registro, indicação), além de alergias e interações relevantes.
- Verificar prescrição: dose de base, dose de resgate, intervalo mínimo e limites diários.
- Checar via: capacidade de deglutição para via oral; integridade de pele para adesivos; condições para via subcutânea/endovenosa conforme protocolo.
- Antes de administrar: avaliar dor (escala), nível de sedação e parâmetros vitais conforme rotina do serviço.
- Após administrar: reavaliar dor e sedação em tempo apropriado e registrar.
Prevenção de erros comuns
- Confusão entre formulações: liberação imediata vs prolongada (não intercambiar sem orientação).
- Dupla administração: evitar sobreposição de doses por falha de registro/turno; checar última dose e horário.
- Via inadequada: não partir/mascarar formas de liberação modificada quando contraindicado; seguir orientação farmacêutica e protocolo.
- Adesivos transdérmicos: checar data/hora de aplicação, local, integridade e remoção do adesivo anterior; evitar fontes de calor sobre o adesivo (risco de aumento de absorção).
Educação ao paciente e família (mensagens-chave)
- Objetivo: aliviar dor para permitir descanso e atividades possíveis, não “apagar” a pessoa.
- Uso correto: manter horários fixos quando prescritos e usar resgate conforme orientação.
- Efeitos esperados e o que fazer: constipação é frequente e deve ser prevenida; náusea e sonolência podem ocorrer no início.
- Sinais de alerta: sonolência excessiva, respiração lenta, confusão intensa, quedas, vômitos persistentes: procurar equipe.
- Segurança domiciliar: guardar medicações em local seguro, não compartilhar, seguir dose prescrita, evitar álcool e sedativos sem orientação.
Fluxos de enfermagem para dor refratária e escalonamento
Quando suspeitar de dor refratária ou controle inadequado
- Dor moderada/intensa persistente apesar de esquema prescrito e resgates adequados.
- Necessidade de resgates muito frequentes ou alívio de curta duração.
- Efeitos adversos limitantes impedindo aumento de dose.
- Mudança súbita do padrão de dor (nova dor, piora abrupta, dor ao toque leve), sugerindo nova causa.
Passo a passo prático: o que fazer antes de acionar a equipe médica
- Passo 1: Reavaliar dor completa (intensidade, localização, qualidade, gatilhos, impacto, dor total) e registrar.
- Passo 2: Verificar adesão e horários: houve atraso/omissão de dose? resgate foi administrado corretamente (dose/intervalo/via)?
- Passo 3: Identificar fator reversível: constipação, retenção urinária, ferida/curativo doloroso, ansiedade intensa, posicionamento inadequado.
- Passo 4: Implementar medidas não farmacológicas imediatas (posicionamento, ambiente, respiração/relaxamento) e analgesia prescrita conforme indicação.
- Passo 5: Reavaliar resposta no tempo adequado e documentar.
Quando acionar a equipe médica com prioridade
- Suspeita de toxicidade por opioides ou depressão respiratória.
- Dor intensa sem resposta a resgate conforme prescrição.
- Necessidade de múltiplos resgates em curto período ou piora progressiva.
- Nova dor com sinais de gravidade (ex.: déficit neurológico, sangramento, distensão importante, febre, confusão aguda).
- Efeitos adversos graves: vômitos incoercíveis, constipação com sinais de obstrução/impactação, sedação incapacitante.
Informações objetivas para comunicar (modelo SBAR adaptado)
S (Situação): dor 9/10 há 3 horas, piora ao movimento, sem alívio com resgate. B (Background): em uso de opioide de base + resgate; última dose às 14:00. A (Avaliação): dor em queimação e choque (sugere neuropática), sedação leve, FR 16, SpO2 95%, constipação há 3 dias. R (Recomendação): reavaliar esquema, considerar ajuste/titulação, adjuvante para neuropática e manejo de constipação; orientar conduta imediata.Monitorização e documentação: garantindo continuidade do cuidado
O registro de enfermagem deve permitir que qualquer profissional entenda o quadro e a resposta ao tratamento. Elementos mínimos:
- Escala e intensidade da dor + localização/qualidade.
- Intervenções realizadas (farmacológicas e não farmacológicas), dose/via/horário quando aplicável.
- Reavaliação com tempo e resultado (quanto reduziu, por quanto tempo).
- Efeitos adversos observados e medidas tomadas.
- Educação fornecida ao paciente/família e compreensão demonstrada.