Cuidados Paliativos para Enfermagem: Apoio à família, cuidadores e rede de suporte

Capítulo 10

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

+ Exercício

Papel da enfermagem no apoio à família, cuidadores e rede de suporte

Em cuidados paliativos, a família (incluindo pessoas significativas) e os cuidadores fazem parte da unidade de cuidado. O apoio de enfermagem envolve: identificar necessidades práticas e emocionais, reduzir riscos (sobrecarga, erros no cuidado, luto complicado), fortalecer a rede de suporte e organizar encaminhamentos. O foco é aumentar segurança, conforto e previsibilidade, sem promessas e com comunicação clara sobre o que pode acontecer na evolução e no fim de vida.

Avaliação das necessidades da família e do cuidador

1) Mapeamento rápido de quem cuida e como cuida

Antes de orientar, a enfermagem precisa entender “quem faz o quê” e “com quais recursos”. Perguntas úteis:

  • Quem é o cuidador principal? Há cuidador secundário?
  • Quantas horas por dia alguém fica com o paciente?
  • Quais tarefas já estão sendo feitas (banho, troca, alimentação, medicação, curativos)?
  • Onde o cuidado acontece (casa, instituição, hospital) e quais limitações do ambiente?
  • Quem decide e quem precisa ser informado (família ampliada, tutor legal, etc.)?

2) Sobrecarga do cuidador (física, emocional e financeira)

Sinais frequentes: exaustão, irritabilidade, choro fácil, insônia, dores musculares, faltas ao trabalho, isolamento, uso aumentado de álcool/ansiolíticos, sentimento de culpa (“não faço o suficiente”).

Triagem prática (perguntas diretas):

  • “De 0 a 10, quão cansado(a) você está hoje?”
  • “Você tem conseguido dormir ao menos algumas horas seguidas?”
  • “Quando foi a última vez que você saiu para resolver algo seu?”
  • “Você tem alguém para revezar com você?”

Alerta: sobrecarga intensa aumenta risco de erros com medicação, quedas, negligência não intencional e adoecimento do cuidador.

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3) Alfabetização em saúde e capacidade de executar o cuidado

Alfabetização em saúde é a capacidade de compreender orientações e aplicá-las. Avalie:

  • Compreensão de termos básicos (dose, horário, “se necessário”, sinais de alerta).
  • Capacidade de leitura/visão/audição.
  • Ansiedade que impede aprendizado.
  • Barreiras culturais/linguísticas.

Estratégia-chave: usar linguagem simples, demonstrar e pedir retorno demonstrado (teach-back), com materiais curtos e objetivos.

4) Recursos sociais e rede de suporte

Identifique recursos disponíveis e lacunas:

  • Renda, transporte, acesso a farmácia/insumos.
  • Benefícios sociais e direitos (quando aplicável, via serviço social).
  • Rede informal: vizinhos, amigos, comunidade, grupos religiosos.
  • Possibilidade de cuidador remunerado, revezamento familiar, voluntariado.

5) Crenças, valores e práticas espirituais/culturais

Crenças influenciam decisões, rituais, alimentação, aceitação de sedação, doação de órgãos, e preferências no fim de vida. Avalie com respeito:

  • “Há alguma prática espiritual ou cultural que devemos considerar?”
  • “Há algo que você não gostaria que fosse feito por motivos de fé ou valores?”

Quando o paciente desejar, ofereça encaminhamento para capelania/assistência espiritual ou liderança comunitária de sua preferência.

6) Risco de luto complicado

O luto complicado é mais provável quando há sofrimento intenso e persistente, dificuldade de funcionar, culpa extrema ou trauma. Fatores de risco frequentes:

  • Histórico de depressão, ansiedade, uso de substâncias ou tentativas de suicídio.
  • Relação ambivalente/conflituosa com o paciente.
  • Morte súbita, sintomas difíceis, sensação de “abandono” ou falta de informação.
  • Cuidador único, isolamento social, perdas múltiplas recentes.
  • Dependência financeira/emocional intensa do paciente.

Sinais de alerta imediatos: ideação suicida, desorganização importante, agressividade, incapacidade de cuidar do paciente com segurança. Nesses casos, acionar psicologia/psiquiatria conforme fluxo institucional e garantir segurança.

Intervenções de enfermagem: educação e suporte para o cuidado básico

Princípios para ensinar com segurança

  • Ensine em blocos curtos (1 a 3 tópicos por vez).
  • Demonstre e depois peça para o cuidador fazer na sua frente.
  • Use checklists e rotinas visuais (tabela de horários, lista de sinais de alerta).
  • Valide emoções (“é muita coisa mesmo”) e reduza culpa.
  • Registre o que foi ensinado e a resposta do cuidador (compreensão e dificuldades).

Passo a passo: higiene, conforto e prevenção de lesões

Objetivo: manter conforto, integridade da pele e dignidade.

  1. Preparar o ambiente: privacidade, água morna, toalhas, creme barreira, luvas se necessário.
  2. Explicar ao paciente o que será feito, mesmo com rebaixamento de consciência (tom calmo, toque respeitoso).
  3. Higiene por partes: rosto, tronco, membros, região íntima por último; secar bem dobras.
  4. Hidratar e proteger a pele: aplicar hidratante e barreira em áreas de risco (sacro, trocânteres, calcanhares) conforme protocolo.
  5. Reposicionamento: orientar mudança de decúbito conforme tolerância e plano (ex.: a cada 2–4 horas), usando travesseiros para aliviar pressão.
  6. Conforto: ajustar roupa de cama sem dobras, controlar temperatura, reduzir ruído/luz à noite.
  7. Checagem final: observar vermelhidão persistente, feridas, dor ao toque, umidade por incontinência.

Exemplo prático: cuidador relata “a pele está sempre vermelha no bumbum”. A enfermagem avalia risco, orienta higiene suave, secagem, barreira, troca frequente de fraldas, reposicionamento e quando acionar a equipe se houver ferida aberta, calor local, secreção ou piora.

Passo a passo: medicação conforme prescrição (segurança e adesão)

Objetivo: reduzir erros e garantir efeito esperado, sem ajustar doses por conta própria.

  1. Conferir a prescrição atual (nome, dose, via, horários, “se necessário”).
  2. Montar um quadro simples com: horário, medicamento, dose, via, finalidade (ex.: “para dor”, “para náusea”).
  3. Separar medicações por turnos (manhã/tarde/noite), evitando misturar frascos semelhantes.
  4. Ensinar técnica conforme via (oral, sublingual, tópica, inalatória, enteral), incluindo higiene das mãos.
  5. Orientar o que fazer se esquecer uma dose (seguir orientação da equipe; não dobrar dose).
  6. Monitorar efeitos e efeitos adversos mais prováveis e quando avisar a equipe.
  7. Teach-back: pedir ao cuidador para explicar o esquema com suas palavras e simular um horário.

Pontos críticos para reforçar:

  • Não interromper ou “economizar” medicamento por medo sem falar com a equipe.
  • Não usar sobras de prescrições antigas ou medicações de terceiros.
  • Manter lista atualizada para consultas e urgências.

Sinais de alerta: quando procurar ajuda

Adapte ao plano do serviço e ao contexto (domicílio/hospital). Em geral, orientar a buscar contato imediato/urgência se houver:

  • Queda com dor intensa, sangramento, confusão súbita ou incapacidade de movimentar.
  • Sonolência excessiva nova, difícil de despertar, ou agitação intensa fora do padrão.
  • Febre persistente, calafrios, sinais de infecção em feridas/sondas (vermelhidão, secreção, mau cheiro).
  • Vômitos persistentes, incapacidade de ingerir líquidos, sinais de desidratação.
  • Sangramento importante (vômito com sangue, fezes negras, sangramento ativo).
  • Dor intensa não controlada apesar do plano prescrito.

Dica operacional: entregar ao cuidador um “cartão de contatos” (telefone do serviço, horário, pronto atendimento de referência) e combinar qual canal usar em cada situação.

Organização do cuidado em casa (quando aplicável)

Checklist de preparação do domicílio

  • Ambiente: cama acessível, iluminação noturna, caminho livre para evitar quedas, cadeira confortável para o cuidador.
  • Materiais: luvas, fraldas/absorventes, lenços, creme barreira, termômetro, recipiente para descarte, itens de higiene.
  • Rotina: horários de medicação, higiene, alimentação, repouso, visitas (evitar excesso).
  • Plano de crise: o que fazer em piora, quem chamar, para onde ir.

Passo a passo: montar um “plano diário” simples

  1. Listar tarefas fixas (medicações regulares, higiene, trocas, refeições).
  2. Inserir pausas do cuidador (mínimo 2 pausas curtas/dia + 1 período maior semanal quando possível).
  3. Definir revezamento (quem cobre cada turno; mesmo que seja 2 horas para o cuidador principal dormir).
  4. Planejar logística (compras, farmácia, transporte, consultas).
  5. Revisar semanalmente com a equipe: o que funcionou, o que está pesado, o que precisa de ajuste.

Exemplo prático: família com 3 pessoas: uma cobre manhã, outra tarde, outra noite; o cuidador principal fica responsável por decisões e comunicação com a equipe, mas não por “tudo”.

Estratégias para reduzir exaustão do cuidador

Intervenções diretas da enfermagem

  • Normalizar o pedido de ajuda: “cuidar sozinho adoece; revezar é parte do cuidado”.
  • Revezamento estruturado: criar escala simples por turnos (mesmo que curtos).
  • Pausas programadas: orientar micro-pausas (10–15 min) e pausas maiores com substituto.
  • Treino de habilidades para reduzir esforço físico (técnicas de mobilização, uso de lençol de arraste quando disponível, ajuste de altura da cama).
  • Suporte psicossocial: escuta, validação, identificação de culpa e autocobrança, incentivo a rede de apoio.
  • Encaminhamento precoce quando há sofrimento intenso, conflito familiar ou risco de adoecimento.

Plano rápido de autocuidado do cuidador (prático)

Propor metas pequenas e monitoráveis:

  • Sono: combinar ao menos um bloco de 4–6 horas em 24h com revezamento.
  • Alimentação: 3 refeições simples; deixar lanches prontos.
  • Corpo: alongamento curto 2x/dia; hidratação.
  • Saída de casa: 1 saída curta/semana (mesmo 20–30 min) com alguém cobrindo.
  • Contato social: uma ligação/mensagem por dia para alguém de confiança.

Quando o cuidador diz “não posso parar”: negociar “pausas mínimas” e mostrar que a pausa reduz risco de erro e melhora a qualidade do cuidado.

Conversas sobre o que esperar na evolução e no fim de vida (clareza sem promessas)

Objetivos dessas conversas

  • Reduzir surpresa e pânico diante de mudanças.
  • Ajudar a família a reconhecer sinais esperados vs. sinais de alerta.
  • Preparar decisões práticas (quem chamar, onde estar, o que priorizar).
  • Diminuir culpa e conflitos (“fizemos o melhor possível dentro do plano”).

Como conduzir: roteiro prático em 6 passos

  1. Checar entendimento atual: “O que vocês perceberam de mudança nos últimos dias?”
  2. Pedir permissão: “Posso explicar o que pode acontecer a seguir e como vocês podem se preparar?”
  3. Explicar em linguagem simples e em pequenas partes (pausas para perguntas).
  4. Nomear incertezas sem prometer: “Não dá para prever o dia, mas podemos reconhecer sinais de piora e agir para conforto.”
  5. Orientar o que fazer em cenários comuns (quem ligar, quais medidas de conforto, quando buscar urgência).
  6. Confirmar compreensão (teach-back): “Só para eu ter certeza de que expliquei bem: o que vocês fariam se…”

Frases úteis (e o que evitar)

ObjetivoFrase útilEvitar
Clareza com empatia“Eu queria ser bem claro(a) e, ao mesmo tempo, cuidar de vocês.”“Vai ficar tudo bem” (quando não é possível garantir)
Incerteza honesta“A evolução pode variar; o que podemos fazer é controlar sintomas e orientar vocês.”“Tenho certeza que até amanhã melhora”
Preparação“Algumas pessoas ficam mais sonolentas e comem menos; isso pode ser esperado.”“Ele(a) está desistindo”
Alinhamento de ações“Se houver X, vocês ligam para Y; se houver Z, procuram urgência.”Orientações vagas sem plano

O que a família costuma observar no fim de vida (educação prática)

Sem detalhar prognósticos, a enfermagem pode preparar para mudanças comuns, sempre contextualizando ao caso:

  • Redução de apetite e ingestão: orientar foco em conforto, pequenas quantidades, boca umedecida, sem forçar.
  • Mais sono e menos interação: orientar presença tranquila, toque, falar com o paciente.
  • Fraqueza e maior dependência: reforçar prevenção de quedas, ajuda nas transferências.
  • Possíveis períodos de confusão: orientar ambiente calmo, iluminação suave, evitar muitas pessoas ao mesmo tempo, avisar a equipe se houver risco.

Nota de segurança: sempre vincular orientações ao plano assistencial e aos fluxos do serviço, e registrar as orientações fornecidas.

Encaminhamentos e trabalho com a rede de suporte

Quando acionar serviço social

  • Dificuldade de acesso a insumos, transporte, alimentação, medicações.
  • Conflitos familiares sobre quem cuida, ausência de cuidador, risco de abandono.
  • Necessidade de orientação sobre benefícios, licenças, recursos comunitários.

Quando acionar psicologia/saúde mental

  • Sofrimento intenso do cuidador ou familiar (ansiedade incapacitante, depressão, pânico).
  • Risco de luto complicado (fatores de risco relevantes e sinais de desorganização).
  • Conflitos persistentes que prejudicam o cuidado.
  • Ideação suicida, violência, abuso de substâncias (encaminhamento urgente conforme protocolo).

Quando oferecer capelania/assistência espiritual (conforme preferência do paciente)

  • Pedido do paciente/família por apoio espiritual, rituais, oração, aconselhamento.
  • Sofrimento existencial, necessidade de sentido, reconciliações.
  • Conflitos por crenças (ex.: decisões de cuidado) que exigem mediação respeitosa.

Boa prática: perguntar preferências e registrar: “Deseja visita de assistência espiritual? De qual tradição? Há alguém da comunidade que gostariam de chamar?”

Ferramentas rápidas para a prática de enfermagem

Mini-checklist de consulta com cuidador (5 minutos)

  • Quem está cuidando hoje e por quanto tempo?
  • Qual foi a maior dificuldade nas últimas 24–48h?
  • Medicações: houve alguma dose perdida, dúvida ou efeito adverso?
  • Higiene/pele: alguma área vermelha, ferida, dor ao toque?
  • Cuidador: nota de cansaço (0–10) e plano de pausa/revezamento.
  • Rede: alguém pode ajudar esta semana? Precisa de serviço social/psicologia/espiritualidade?

Modelo de quadro de medicação (para entregar impresso ou copiar)

Horário | Medicamento | Dose | Via | Para quê | Observações (ex.: antes de comer, se dor > 6/10) 

Registro sugerido em prontuário (exemplo)

Orientado cuidador principal sobre higiene por partes, reposicionamento e barreira cutânea. Realizado teach-back com retorno adequado. Elaborado quadro de medicações conforme prescrição vigente; cuidador demonstrou compreensão de horários e sinais de alerta. Identificada sobrecarga (cansaço 9/10, sono fragmentado); pactuado revezamento com familiar 2h/noite e encaminhamento ao serviço social e psicologia. Ofertada assistência espiritual conforme preferência do paciente.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao orientar familiares em cuidados paliativos no domicílio, qual conduta da enfermagem mais contribui para reduzir erros e aumentar a segurança no uso de medicações?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A conduta mais segura é basear-se na prescrição vigente, organizar rotinas claras (quadro de medicação) e confirmar entendimento com teach-back. Isso reduz risco de esquecimento, confusão e ajustes indevidos de dose.

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Cuidados Paliativos para Enfermagem: Conforto, dignidade e cuidados de enfermagem no fim de vida

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