Cuidados Paliativos para Enfermagem: Comunicação terapêutica e alinhamento de expectativas com paciente e família

Capítulo 7

Tempo estimado de leitura: 13 minutos

+ Exercício

Conceito: comunicação terapêutica e alinhamento de expectativas

Na enfermagem em cuidados paliativos, comunicação terapêutica é o uso intencional da fala, escuta, postura e presença para reduzir sofrimento, apoiar decisões e fortalecer a confiança. Alinhamento de expectativas é o processo de verificar o que paciente e família entendem, esperam e temem, e então ajustar informações e planos de cuidado de forma coerente com valores, preferências e possibilidades clínicas.

Na prática, isso significa: explicar com clareza o que está acontecendo, o que pode mudar, o que a equipe fará a seguir e como a pessoa deseja ser cuidada — evitando promessas irreais e evitando também comunicação fria ou excessivamente técnica.

Habilidades práticas de comunicação centrada na pessoa

1) Escuta ativa (o que fazer e como fazer)

Objetivo: compreender a experiência do paciente/família (sintomas, medos, prioridades) antes de orientar ou propor condutas.

Passo a passo:

  • Prepare o ambiente: reduza ruído, sente-se no nível dos olhos, evite falar de pé na porta.
  • Comece com convite: “Quero entender como você está vivendo isso. Pode me contar?”
  • Use sinais de acompanhamento: “Entendo…”, “Certo…”, acenos, pausas.
  • Reflita e resuma: “Então, o que mais preocupa é…”
  • Confirme: “É isso mesmo ou faltou algo importante?”

Exemplo prático: familiar diz “Ele piorou muito hoje”. Resposta com escuta ativa: “Eu estou percebendo a sua preocupação. Me conte o que você notou de diferente desde ontem.”

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2) Validação emocional (sem concordar com informações incorretas)

Objetivo: reconhecer emoções como legítimas, reduzindo tensão e abrindo espaço para diálogo.

Frases úteis:

  • “Faz sentido você se sentir assim diante dessa mudança.”
  • “Isso parece muito difícil.”
  • “Obrigada por me contar; vamos olhar isso juntos.”

Cuidado: validar emoção não é confirmar uma crença errada. Em vez de “Você tem razão, ninguém fez nada”, prefira: “Entendo sua frustração. Vamos revisar o que foi feito e o que podemos ajustar agora.”

3) Perguntas abertas (para ampliar compreensão e preferências)

Objetivo: evitar conversas “sim/não” e acessar valores, prioridades e entendimento.

Modelos:

  • “O que você já entendeu sobre o que está acontecendo?”
  • “O que é mais importante para você hoje?”
  • “O que você teme que aconteça?”
  • “Como você prefere receber informações: tudo de uma vez ou aos poucos?”
  • “Quem você gostaria que estivesse presente nessas conversas?”

4) Checagem de compreensão (método teach-back)

Objetivo: reduzir mal-entendidos e aumentar segurança, especialmente ao explicar procedimentos e mudanças de plano.

Passo a passo:

  • Explique em linguagem simples (1–3 pontos por vez).
  • Peça retorno sem tom de prova: “Quero ter certeza de que expliquei bem…”
  • Solicite que a pessoa repita com as próprias palavras: “Você pode me dizer como entendeu o que vamos fazer agora?”
  • Corrija com gentileza e repita o essencial.

Exemplo: “Para aliviar a falta de ar, vamos ajustar a posição, usar o oxigênio conforme prescrito e observar a respiração. Só para eu confirmar: como você entendeu o que faremos se ele voltar a ficar ofegante?”

5) Linguagem simples e comunicação objetiva

Princípios: frases curtas, sem jargões, um assunto por vez, números concretos quando possível, e evitar eufemismos confusos.

  • Evite: “instabilidade hemodinâmica”, “piora do prognóstico”.
  • Prefira: “A pressão está caindo e o corpo está mais fraco. Isso pode piorar rapidamente.”

Dica prática: após explicar, pergunte: “Quer que eu repita de outra forma?”

6) Manejo do silêncio (presença terapêutica)

Objetivo: permitir processamento emocional e evitar preencher com informações em excesso.

Como fazer:

  • Após dar uma notícia difícil, faça uma pausa de 5–10 segundos.
  • Mantenha postura aberta, respiração calma, contato visual respeitoso.
  • Se o silêncio se prolongar, ofereça suporte: “Estou aqui com vocês. Querem que eu espere um pouco ou preferem que eu explique novamente?”

Preparando conversas difíceis no cotidiano da enfermagem

Conversas difíceis não acontecem apenas em “grandes reuniões”. Elas surgem ao explicar um procedimento, ao comunicar uma mudança de conduta, ao reconhecer piora clínica ou ao orientar limites de visita e segurança.

Checklist rápido antes de conversar (30–90 segundos)

  • O que preciso comunicar? (1–3 mensagens principais)
  • Qual é o objetivo? (informar, orientar, reduzir medo, alinhar próximos passos)
  • Quem deve estar presente? (paciente, familiar-chave, intérprete, outro profissional)
  • O que já foi dito? (evitar contradições)
  • Qual é o estado emocional agora? (chorando, irritado, confuso, exausto)
  • Qual é o plano se houver crise emocional? (pausa, chamar apoio, remarcar)

Estrutura prática para conversas difíceis (modelo em 6 passos)

  1. Conectar: apresente-se, sente-se, pergunte se é um bom momento. “Posso conversar com você agora por alguns minutos?”
  2. Explorar entendimento: “O que você já percebeu desde hoje cedo?”
  3. Informar em blocos: dê a informação principal, pare, observe reação. “Hoje notamos que a respiração ficou mais difícil.”
  4. Validar emoção: “Imagino como isso assusta.”
  5. Alinhar expectativas e próximos passos: “O que podemos fazer agora é… O que não conseguimos garantir é…”
  6. Checar compreensão e registrar: teach-back + combinar quando haverá nova atualização.

Exemplo 1: explicando um procedimento (com foco em conforto e segurança)

Cenário: necessidade de aspiração de vias aéreas, troca de curativo complexo, punção venosa difícil, ou mudança de via de medicação.

Roteiro:

  • O que: “Vou realizar X para ajudar com Y.”
  • Como será: “Vai durar cerca de Z minutos. Você pode sentir…”
  • O que a pessoa pode fazer: “Se doer ou incomodar, me avise levantando a mão.”
  • O que faremos para conforto: “Vou pausar se necessário e ajustar a posição.”
  • Checagem: “Pode me dizer como entendeu o que vamos fazer?”

Exemplo 2: comunicando mudança de plano (sem gerar contradição com a equipe)

Cenário: suspensão de um exame, mudança de horário de medicação, troca de estratégia de cuidado, necessidade de observação mais intensiva.

Roteiro:

  • “Houve uma mudança no plano de hoje: (dizer a mudança).”
  • “O motivo é: (explicação simples).”
  • “O que isso significa agora: (impacto prático).”
  • “O que vamos observar: (sinais/tempo).”
  • “Se você notar (sinais de alerta), chame a equipe imediatamente.”

Frase de coerência: “Vou registrar e alinhar com a equipe para que todos passem a mesma informação.”

Exemplo 3: reconhecendo piora clínica (sem previsões rígidas)

Objetivo: ser honesto, evitar falsas garantias e manter foco no cuidado.

Roteiro:

  • Nomeie a mudança: “Hoje ele está mais sonolento e com respiração mais trabalhosa.”
  • Explique o significado provável: “Isso pode indicar que o corpo está ficando mais fraco.”
  • Evite prazos exatos: “Não dá para afirmar um tempo exato, mas precisamos acompanhar de perto.”
  • Foque no que será feito: “Vamos intensificar medidas de conforto e monitorar sinais de desconforto.”
  • Pergunte prioridades: “O que é mais importante para vocês agora: conforto, presença da família, evitar procedimentos?”

Apoiando reuniões familiares com a equipe (coerência de informações)

A enfermagem frequentemente é o elo entre paciente/família e equipe. Apoiar reuniões familiares inclui preparar, organizar informações observadas no cuidado diário e reforçar mensagens consistentes, sem extrapolar atribuições.

Antes da reunião: preparação prática

  • Defina objetivo da reunião: atualizar quadro, alinhar metas, planejar alta/transferência, discutir sinais de piora.
  • Mapeie participantes: quem decide, quem cuida, quem conflita, quem precisa de suporte.
  • Reúna dados de enfermagem relevantes: sintomas observados, resposta a intervenções, padrões de sono/alimentação, capacidade funcional, episódios de agitação, necessidades do cuidador.
  • Identifique mensagens-chave para coerência: o que a equipe já comunicou e o que não deve ser contradito.
  • Combine papéis: quem conduz, quem explica condutas, quem registra, quem acolhe emoções.

Durante a reunião: como a enfermagem pode atuar

  • Facilitar linguagem simples: pedir para traduzir termos técnicos. “Podemos explicar de um jeito mais simples?”
  • Garantir espaço para perguntas: “Que dúvidas ficaram?”
  • Checar entendimento: “Só para confirmar, como vocês entenderam o plano para hoje?”
  • Validar emoções e reduzir escalada: “Entendo a angústia; vamos por partes.”
  • Reforçar próximos passos: horários de reavaliação, sinais de alerta, quem procurar.

Após a reunião: alinhamento e continuidade

  • Registre pontos essenciais (ver modelos abaixo).
  • Reforce com a equipe o que foi acordado.
  • Na beira leito, repita mensagens consistentes e verifique dúvidas remanescentes.

Lidando com negação, raiva, culpa e conflitos (com limites e empatia)

Negação

Como aparece: “Isso não é nada”, “Ele vai sair andando amanhã”, recusa de informações.

Conduta prática:

  • Não confronte de forma brusca: evite “Você precisa aceitar”.
  • Explore o que a pessoa consegue ouvir: “O que você já percebeu de diferente?”
  • Ofereça informação em pequenas doses: “Posso compartilhar o que observamos hoje?”
  • Conecte ao cuidado imediato: “Mesmo sem falar do futuro, hoje ele está com desconforto X; vamos cuidar disso.”

Raiva

Como aparece: tom elevado, acusações, exigências imediatas, hostilidade.

Passo a passo para desescalar:

  1. Segurança primeiro: mantenha distância adequada, saída livre, chame apoio se necessário.
  2. Baixe o tom e reduza estímulos: fale devagar, convide para local mais reservado se seguro.
  3. Valide sem ceder a agressões: “Eu vejo que você está muito irritado. Quero ajudar, mas preciso que a gente converse sem gritos.”
  4. Pergunte o pedido central: “O que você precisa que aconteça agora?”
  5. Ofereça opções reais: “Posso chamar o médico / posso revisar o horário / posso explicar o que foi feito.”
  6. Estabeleça limite claro: “Se houver ameaça ou agressão, vou encerrar a conversa e chamar a segurança.”

Culpa

Como aparece: “Eu devia ter percebido antes”, “Foi minha culpa”, “Não fiz o suficiente”.

Conduta prática:

  • Reconheça a intenção de cuidado: “Você está aqui e isso mostra o quanto se importa.”
  • Normalize: “Muitos cuidadores se sentem assim.”
  • Traga para o presente: “Agora, o que mais ajuda é… (medidas de conforto, presença, descanso do cuidador).”
  • Encaminhe quando necessário: acionar psicologia/serviço social/espiritualidade conforme disponibilidade.

Conflitos entre familiares ou entre família e equipe

Princípios: foco no paciente, regras de respeito, uma pessoa fala por vez, decisões baseadas em valores e possibilidades clínicas.

Ferramenta prática (3 perguntas para reorganizar a conversa):

  • “O que todos aqui concordam que é prioridade para ele(a)?”
  • “O que cada um está mais preocupado que aconteça?”
  • “Qual é o próximo passo possível hoje, que respeite segurança e conforto?”

Quando a enfermagem deve chamar apoio: escalada de agressividade, impasse persistente, suspeita de violência, divergência grave sobre decisões, ou quando a conversa ultrapassa o escopo da enfermagem e exige liderança médica/coordenação.

Modelos de registro de comunicação (prontos para adaptar)

Registros consistentes reduzem ruído entre turnos e protegem paciente, família e equipe. Devem ser objetivos, sem julgamentos, e incluir entendimento, preferências e próximos passos.

Modelo 1: evolução de enfermagem – conversa com paciente

Data/hora: __/__/__  __:__  Local: __  Profissional: __ (COREN __)  Presenças: paciente + __ (se houver)  Estado do paciente: alerta/sonolento/confuso (descrever)  Conteúdo discutido: (ex.: explicação de procedimento X / atualização de mudança Y / orientação sobre sinais de alerta)  Reação/emoções observadas: (ex.: ansioso, choroso, tranquilo)  Compreensão (teach-back): paciente referiu que entendeu que __; dúvidas: __  Preferências expressas: (ex.: deseja presença de __; prefere informações em __; prioridades: conforto/visitas)  Plano/Próximos passos: (ex.: reavaliar em __; comunicar equipe médica; orientar família; manter medidas de conforto)  Encaminhamentos: (ex.: psicologia/serviço social/segurança)  Assinatura/carimbo

Modelo 2: evolução de enfermagem – conversa com família/cuidador

Data/hora: __/__/__  __:__  Familiar/cuidador: __ (grau de parentesco)  Presenças: __  Motivo: (ex.: piora clínica percebida / conflito / dúvidas sobre plano)  Informações fornecidas (linguagem simples): 1) __ 2) __ 3) __  Emoções/conduta do familiar: (ex.: preocupado, irritado, choroso)  Intervenções de comunicação: (ex.: validação emocional, esclarecimentos, limites estabelecidos)  Compreensão verificada: familiar explicou com suas palavras que __  Preferências/decisões relatadas: (ex.: deseja ser avisado em caso de __; pessoa de referência: __)  Acordos: (ex.: atualização em __; reunião familiar agendada; regras de visita)  Alertas/risco: (ex.: ameaça verbal / exaustão do cuidador / suspeita de violência)  Ações tomadas: (ex.: notificado enfermeiro responsável/médico/segurança/serviço social)  Assinatura/carimbo

Modelo 3: nota de passagem de plantão – pontos de comunicação

Comunicação (últimas 24h): - O que foi comunicado ao paciente/família: __ - Entendimento atual: __ - Preferências expressas: __ - Pessoa de referência/contato: __ - Pendências: (ex.: reunião familiar / retorno médico / dúvidas) __ - Sinais de risco/comportamento: __ - Estratégias que funcionaram: (ex.: falar com __, em local reservado, linguagem simples) __

Condutas para situações de risco: ameaças, violência e exaustão do cuidador

Ameaças e violência (verbal ou física)

Objetivo: proteger equipe, paciente e demais pessoas, mantendo postura profissional.

Passo a passo:

  1. Reconheça sinais precoces: voz elevada, invasão de espaço, punhos cerrados, ameaça explícita, histórico de agressão.
  2. Mantenha segurança: não fique encurralado, mantenha rota de saída, evite tocar a pessoa, não discuta sozinho em local isolado.
  3. Use frases de limite: “Quero ajudar, mas não posso continuar se houver ameaças. Vou chamar o responsável para conversarmos com segurança.”
  4. Acione apoio institucional: enfermeiro líder, coordenação, segurança, conforme protocolo local.
  5. Documente objetivamente: descreva falas e ações observáveis (sem rótulos), medidas tomadas e pessoas acionadas.
  6. Reavalie plano de comunicação: definir porta-voz familiar, horários de atualização, local de conversa, presença de mais profissionais.

Exaustão do cuidador (sobrecarga)

Sinais comuns: choro frequente, irritabilidade, insônia, queixas somáticas, dificuldade de compreender orientações, negligência involuntária do autocuidado, falas de desesperança.

Conduta prática (em 5 passos):

  1. Nomeie e valide: “Percebo que você está muito exausto. Isso é comum e sério.”
  2. Avalie risco imediato: “Você está conseguindo dormir? Está se alimentando? Já pensou em se machucar ou machucar alguém?” (se houver sinais, acione protocolo e equipe multiprofissional).
  3. Ofereça medidas concretas: pausas programadas, revezamento com outro familiar, orientações escritas, simplificação de tarefas.
  4. Encaminhe: serviço social (rede de apoio), psicologia, equipe de referência, conforme disponibilidade.
  5. Combine próximo contato: “Vou retornar em __ para ver como você está e revisar as orientações.”

Frases úteis (biblioteca rápida) para o dia a dia

SituaçãoFrase possívelIntenção
Iniciar conversa“Quero entender como está sendo para você. Pode me contar?”Abrir espaço e reduzir defensividade
Validar emoção“Isso é muito difícil. Obrigada por compartilhar.”Acolher e fortalecer vínculo
Informar com limites“O que podemos fazer agora é __. O que não conseguimos garantir é __.”Honestidade + plano
Checar entendimento“Só para eu ter certeza de que expliquei bem: como você entendeu?”Reduzir ruído e erros
Conflito/raiva“Eu quero ajudar. Para isso, preciso que a gente converse com respeito.”Limites + parceria
Silêncio/chorar“Eu posso ficar aqui com vocês. Querem um tempo?”Presença terapêutica

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao comunicar uma piora clínica em cuidados paliativos, qual conduta de enfermagem melhor promove comunicação terapêutica e alinhamento de expectativas?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A conduta terapêutica combina honestidade sem promessas irreais, linguagem simples, foco em medidas de conforto e checagem de compreensão (teach-back), além de explorar prioridades para alinhar expectativas com valores e possibilidades clínicas.

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