Cuidados com acesso venoso, infusões e segurança na administração de medicamentos no pós-operatório

Capítulo 14

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

Objetivos dos cuidados com acesso venoso e infusões no pós-operatório

No pós-operatório, o acesso venoso é uma via crítica para administrar analgesia, antieméticos, antibióticos e reposições eletrolíticas, além de manter hidratação e permitir intervenções rápidas. Os cuidados de enfermagem devem garantir: permeabilidade do cateter, integridade do sítio de punção, prevenção de complicações (flebite, infiltração, extravasamento, infecção, oclusão) e segurança na administração de medicamentos (dose, via, compatibilidade, diluição e velocidade).

Inspeção do sítio de punção e identificação precoce de complicações

O que avaliar em toda checagem do acesso venoso

  • Local: presença de dor, sensibilidade, calor, rubor, edema, endurecimento, trajeto venoso palpável, secreção, sangramento.
  • Fixação e curativo: íntegro, limpo, seco, bordas aderidas, sem tensão no cateter, sem dobras no equipo.
  • Funcionamento: gotejamento adequado (se em gravidade), alarmes/pressão (se em bomba), retorno venoso quando aplicável, facilidade para flush.
  • Condições do membro: perfusão distal, edema, mobilidade; comparar com o membro contralateral quando necessário.

Sinais de flebite (mecânica, química ou infecciosa)

Flebite é inflamação da veia associada ao cateter/infusão. Suspeite quando houver: dor ao longo da veia, rubor, calor, endurecimento e/ou cordão venoso palpável. Pode ocorrer por cateter inadequado, fixação com atrito, soluções irritantes, velocidade elevada, ou contaminação.

Condutas iniciais (ajustar às normas locais e prescrição): interromper infusão, avaliar gravidade, retirar o cateter se indicado, elevar o membro, aplicar compressa conforme protocolo (morna pode ser usada em flebite não infecciosa em alguns serviços), registrar achados e comunicar equipe médica quando houver sinais importantes, febre, secreção ou piora progressiva.

Sinais de infiltração

Infiltração é a passagem de solução não vesicante para o tecido subcutâneo. Sinais comuns: edema, pele fria, palidez, desconforto, redução/cessação do gotejamento, alarme de oclusão na bomba.

Condutas iniciais: parar a infusão, avaliar extensão, elevar o membro, considerar compressa conforme protocolo, reavaliar necessidade de novo acesso em outro local, documentar volume estimado e medidas tomadas.

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Sinais de extravasamento (maior risco)

Extravasamento é a passagem de solução vesicante/irritante para o tecido, com risco de necrose. Sinais: dor intensa, queimação, edema rapidamente progressivo, pele tensa, alteração de cor, bolhas, piora com a infusão.

Conduta imediata recomendada (seguir protocolo institucional e orientação do medicamento): interromper a infusão imediatamente; não retirar o cateter de imediato se houver protocolo para aspiração/antídoto; aspirar o máximo possível pelo cateter (sem flush); manter o membro elevado; aplicar compressa fria ou morna conforme o agente; acionar médico/farmácia/enfermagem responsável por extravasamento; fotografar se permitido e registrar medidas e evolução; monitorar perfusão distal e dor.

Manutenção de permeabilidade e boas práticas com cateter e equipos

Princípios para manter o acesso venoso funcional

  • Escolha do calibre e local compatíveis com a terapia (evitar veias pequenas para soluções irritantes; preferir locais com menor mobilidade quando possível).
  • Fixação sem tração: reduzir micromovimentos que favorecem flebite e deslocamento.
  • Curativo conforme protocolo: manter limpo e seco; trocar se sujo, úmido, descolado ou com sangue; observar integridade da pele.
  • Flush e técnica asséptica: realizar higienização das mãos e desinfecção do conector antes de acessos; fazer flush conforme rotina local (volume, solução e técnica) para prevenir oclusão e mistura incompatível no lúmen.
  • Evitar “forçar” o flush: resistência pode indicar oclusão, dobra, ponta contra parede do vaso ou trombo; forçar aumenta risco de infiltração/extravasamento.

Troca de equipos e extensões (conforme normas locais)

As rotinas de troca variam por instituição e tipo de infusão. A prática segura é seguir política local e recomendações vigentes, considerando:

  • Tipo de solução (cristaloides, nutrição parenteral, hemoderivados, emulsões lipídicas).
  • Uso intermitente vs. contínuo e frequência de manipulação.
  • Integridade do sistema: trocar imediatamente se houver contaminação visível, desconexão acidental, vazamento, presença de ar, sujidade, ou falha do dispositivo.

Checklist prático na troca de equipo:

  • Confirmar prescrição e solução correta.
  • Reunir material e identificar o paciente.
  • Higienizar mãos e usar técnica asséptica.
  • Pinçar linhas quando aplicável para evitar refluxo/entrada de ar.
  • Preencher (primar) o equipo retirando bolhas de ar.
  • Desinfetar conectores antes de conectar.
  • Programar bomba/regular gotejamento e checar permeabilidade.
  • Rotular conforme rotina (data/hora/assinatura) se o serviço adota.

Checagens de segurança na administração de medicamentos por via venosa

Direitos da administração e checagens adicionais

Aplicar os “direitos” da administração de medicamentos conforme política institucional (ex.: paciente certo, medicamento certo, dose certa, via certa, horário certo, registro certo), somando checagens essenciais no pós-operatório:

  • Alergias e reações prévias (principalmente a antibióticos, opioides, antieméticos).
  • Indicação e parâmetros: por exemplo, analgesia conforme escala e prescrição; antiemético conforme sintomas; eletrólitos conforme exames e ECG quando indicado.
  • Compatibilidade: medicamento com solução diluente e com outras drogas no mesmo acesso (Y-site) ou mesmo lúmen.
  • Diluição correta e estabilidade (tempo após preparo, proteção da luz quando aplicável).
  • Velocidade de infusão: respeitar tempo mínimo/máximo para reduzir eventos adversos (hipotensão, arritmias, síndrome relacionada à infusão).
  • Via e dispositivo: periférico vs. central; alguns fármacos irritantes exigem maior calibre/veia adequada ou via central conforme protocolo.

Passo a passo prático: administração IV segura (intermitente ou em bomba)

  1. Antes de preparar: conferir prescrição atualizada, alergias, função renal/hepática quando relevante, exames (ex.: K+, Mg2+), e restrições de volume.
  2. Preparar: calcular dose, escolher diluente correto, reconstituir/diluir com técnica asséptica, rotular seringa/bolsa conforme rotina.
  3. Checar compatibilidade: verificar se há infusão em curso no mesmo acesso; se incompatível, planejar pausa, lavagem (flush) ou uso de outra via.
  4. Avaliar o acesso: inspecionar sítio, testar permeabilidade conforme protocolo e observar dor/resistência.
  5. Administrar: programar bomba ou controlar tempo; monitorar o paciente nos primeiros minutos quando houver risco de reação (antibióticos, opioides, eletrólitos).
  6. Após: realizar flush conforme protocolo para limpar o lúmen e reduzir incompatibilidades; reavaliar sítio e sintomas; registrar administração e resposta.

Pontos de atenção por classe: analgesia, antieméticos, antibióticos e eletrólitos

Analgesia IV (ex.: opioides e adjuvantes)

  • Risco principal: sedação excessiva, depressão respiratória, hipotensão, náuseas, prurido.
  • Segurança na infusão: administrar lentamente quando indicado; evitar bolus rápido sem orientação; checar compatibilidade com soluções em curso.
  • Monitorização focada: nível de sedação, ventilação, pressão arterial e queixas do paciente durante e após a dose.
  • Se houver dor no sítio durante administração: pausar e reavaliar acesso (pode ser flebite/infiltração).

Antieméticos IV

  • Risco principal: hipotensão (em alguns agentes), sonolência, prolongamento de QT (em alguns casos), reações extrapiramidais (alguns fármacos).
  • Boas práticas: respeitar diluição e tempo de infusão; observar tontura, palpitações, agitação ou rigidez.
  • Compatibilidade: atenção ao uso concomitante com outros fármacos no mesmo acesso.

Antibióticos IV no pós-operatório

  • Risco principal: reação alérgica/anafilaxia, flebite química, síndrome relacionada à infusão (dependendo do antibiótico), diarreia.
  • Antes de iniciar: confirmar alergias (incluindo reações a beta-lactâmicos), checar horário e intervalo corretos, coletar culturas se prescrito antes da primeira dose.
  • Durante: iniciar conforme tempo recomendado; observar prurido, urticária, dispneia, chiado, edema de face/lábios, hipotensão, febre/calafrios.
  • Compatibilidade: muitos antibióticos têm incompatibilidades em Y-site; quando dúvida, usar via exclusiva ou pausar e lavar conforme protocolo.

Reposições eletrolíticas (K+, Mg2+, Ca2+, fosfato)

  • Risco principal: arritmias, hipotensão, extravasamento/irritação venosa (especialmente soluções concentradas), alterações neuromusculares.
  • Checagens essenciais: resultado laboratorial recente, função renal, débito urinário quando aplicável, necessidade de monitorização cardíaca conforme protocolo.
  • Administração: preferir bomba de infusão; nunca acelerar fora do prescrito; atenção redobrada à concentração e à via (periférica vs. central) conforme normas locais.
  • Sinais de alerta: dor/queimação no trajeto venoso, parestesias, fraqueza, palpitações; pausar e reavaliar imediatamente.

Compatibilidades, diluições e velocidade: como evitar erros comuns

Erros frequentes e como prevenir

  • Mistura de incompatíveis no mesmo acesso: prevenir com checagem em guia institucional/farmácia, uso de lúmen dedicado, e flush entre medicamentos.
  • Diluição inadequada: aumenta flebite e reações; sempre preparar conforme protocolo e usar diluente correto.
  • Velocidade acima do recomendado: pode causar hipotensão, rubor, arritmias, sedação; usar bomba quando indicado e dupla checagem em drogas de alto risco.
  • Confusão de unidades (mg vs. mEq; mL/h vs. gotas/min): padronizar cálculos e realizar dupla checagem.

Mini-roteiro de checagem rápida antes de conectar no acesso

ChecagemPergunta prática
Paciente/medicamento/doseÉ este paciente? É o fármaco e dose prescritos para agora?
AlergiaHá alergia registrada ou reação prévia semelhante?
Via e acessoEste acesso suporta este medicamento (periférico/central)? Está pérvio e sem sinais locais?
DiluiçãoUsei o diluente correto e volume correto?
CompatibilidadePosso administrar junto com a infusão atual? Preciso pausar e lavar?
VelocidadeQual o tempo/velocidade prescritos? Está programado na bomba?
MonitorizaçãoO que devo observar nos primeiros minutos (PA, sedação, rash, dor local)?

Condutas diante de reações adversas e eventos relacionados à infusão

Reação alérgica leve a moderada

Sinais: prurido, urticária localizada, rubor, náusea, congestão nasal sem instabilidade. Condutas: interromper a infusão, manter acesso com SF 0,9% em KVO se prescrito/protocolo, avaliar sinais vitais, comunicar equipe médica, administrar medicações conforme prescrição (ex.: anti-histamínico/corticoide), monitorar progressão.

Anafilaxia (emergência)

Sinais: dispneia, broncoespasmo, estridor, edema de glote, hipotensão, síncope, urticária generalizada, vômitos intensos. Condutas: interromper imediatamente o agente, acionar resposta rápida/equipe médica, manter via pérvia para medicações de emergência, posicionar conforme condição clínica, administrar terapêutica conforme protocolo institucional (ex.: adrenalina), monitorização contínua e preparo para suporte ventilatório.

Reação relacionada à velocidade de infusão

Sinais: rubor, cefaleia, hipotensão, calafrios, desconforto torácico durante infusão. Condutas: reduzir velocidade ou interromper conforme gravidade, avaliar sinais vitais, comunicar prescriber, reiniciar apenas se autorizado e em velocidade menor, registrar.

Suspeita de extravasamento durante medicamento irritante/vesicante

Além das medidas imediatas descritas, não realizar flush e não massagear a área. Seguir protocolo de antídotos quando existir e monitorar evolução do tecido nas horas/dias seguintes.

Documentação e notificação: como registrar com qualidade e segurança

O que documentar rotineiramente

  • Condição do acesso: local, aspecto do sítio, presença/ausência de dor, rubor, edema, integridade do curativo.
  • Infusões em curso: solução, volume, velocidade, via (bomba/gravidade), horário de início/término.
  • Administração de medicamentos: nome, dose, diluição, via, horário, velocidade/tempo de infusão, compatibilidades verificadas quando relevante.
  • Resposta do paciente: melhora de sintoma, efeitos adversos, queixas durante infusão.

Como documentar um evento (flebite, infiltração, extravasamento, reação adversa)

Registrar de forma objetiva e cronológica:

  • Data/hora de início da suspeita e da intervenção.
  • Sinais e sintomas observados (ex.: grau de dor referido, extensão do edema, presença de rubor/calor, alterações de sinais vitais).
  • Medicação/solução em infusão no momento, concentração, velocidade e volume estimado administrado.
  • Condutas realizadas (interromper, aspirar, retirar cateter, compressa, elevação, novo acesso, medicações administradas).
  • Comunicações: quem foi acionado e orientações recebidas.
  • Evolução: reavaliações subsequentes, medidas adicionais, resposta do paciente.

Notificação de segurança

Quando houver erro de medicação, quase erro, extravasamento significativo, reação grave ou falha de dispositivo, preencher a notificação interna conforme política do serviço (sem caráter punitivo), anexando dados essenciais (lote quando disponível, bomba utilizada, fotos se permitido, e medidas adotadas). Isso apoia melhorias de processo e prevenção de recorrências.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Durante a infusão de um medicamento vesicante no pós-operatório, o paciente refere dor intensa e queimação no local com edema rapidamente progressivo. Qual conduta inicial é a mais adequada para reduzir o risco de lesão tecidual?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Os sinais sugerem extravasamento de solução vesicante/irritante. A conduta inicial é parar a infusão imediatamente, não fazer flush e, se houver protocolo, manter o cateter para aspiração/antídoto, elevar o membro e seguir as medidas institucionais.

Próximo capitúlo

Comunicação, registros de enfermagem e indicadores essenciais no acompanhamento pós-operatório

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